A teoria celular se situa entre as mais importantes da biologia (cf. Barbieri, 2001, p. 13). Essa teoria pode ser apresentada em duas versões. Uma seria a versão fraca, que diz tão somente que “todo organismo conhecido é composto de células”. Essa versão, no entanto, tem a desvantagem de não ter nenhum poder preditivo e nenhuma conseqüência falseável, já que ela diz somente que os organismos conhecidos possuem células. Já a versão forte é apresentada em uma proposição quantitativamente universal, tendo maior poder preditivo e conteúdo passível de falseamento. Segundo essa versão, “todo organismo vivo possível é feito de células” (Barbieri, 2001, p. 21).
Proposta dessa maneira, a segunda versão declara que a célula é o componente fundamental de toda forma de vida que poderia existir, incluindo possíveis seres vivos extraterrestres e criaturas vivas que poderiam ser produzidas pelo programa de pesquisa em vida artificial. Nessa versão da teoria, a célula é a unidade lógica do mundo vivo, tanto quanto os átomos são as unidades lógicas do mundo físico. Em outras palavras, o que se declara aqui é que não existe vida sem células, podendo-se propor, assim, uma definição de vida: “vida é o estado de atividade da célula e dos sistemas celulares”. A grande questão da biologia, “o que é vida?”, se torna, dessa forma, equivalente à seguinte pergunta: “o que é a célula?” (Para todo o parágrafo, cf. Barbieri, 2001, p. 22).
Baseando-se na idéia de que a célula é a unidade fundamental da vida, Varela, Maturana e Uribe fizeram uma importante contribuição para as discussões sobre as definições de vida (Varela et col., 1974). Nesse artigo de 1974, hoje clássico, os autores introduziram a palavra “autopoiese” para caracterizar o ser vivo. Para tanto, utilizaram-se da história de um marciano que viria à Terra para pesquisar os tipos de vida que existem em nosso planeta. Esse marciano faria uma lista dos objetos terráqueos, mas ficaria indeciso sobre quais realmente seriam vivos; assim, pediria
ajuda a um fazendeiro, o qual rapidamente dividiria os objetos em duas colunas, vivos à esquerda e não-vivos à direita:
Vivo Não-Vivo Homem Rádio
Árvore Motor de carro
Cogumelo Computador Mula Robô Galinha Lua
Coral Maré
O marciano perguntaria, então, ao fazendeiro qual o aspecto que ele utilizou para identificar os seres vivos tão rapidamente. O fazendeiro pegaria dois objetos ao acaso – galinha e mula – e diria que eles são vivos por serem capazes de “movimento”. O marciano não se convenceria e explicaria ao fazendeiro que corais e árvores não são capazes de movimento. O fazendeiro então sugeriria “irritabilidade”, ou a habilidade para reagir a estímulos, como critério para a distinção dos seres vivos. Novamente sua resposta falharia. O marciano argumentaria que homem e galinha, por exemplo, reagem a uma alfinetada, mas árvores e corais permanecem indiferentes. O fazendeiro então arriscaria a característica “reprodução”. Rapidamente, no entanto, teria de mudar de idéia, visto que mulas não reproduzem. Embora suas colunas estejam corretas, o fazendeiro admite não saber por que ele dividiu os objetos nas classes de seres vivos e não-vivos dessa maneira. Então, pediria ao marciano um prazo para pensar e que esse voltasse no dia seguinte.
O fazendeiro começaria a pensar. Ele sabe que, quando entra em regime, seu corpo se torna leve e mais fino. No entanto, quando volta a comer, seu corpo retorna ao peso normal. A partir deste raciocínio, ele encontraria a resposta ao problema do marciano: Os objetos da coluna direita não são capazes de reparar a si mesmos, enquanto aqueles da esquerda são vivos precisamente por terem essa propriedade.
Agora, o marciano ficaria satisfeito, concordando com o fazendeiro. A segunda lei da termodinâmica também teria sido descoberta em Marte e o marciano sabia que os organismos devem estar em perpétuo estado de atividade, a fim de poderem continuar vivendo. Um organismo deve estar constantemente reparando-se, ou seja, ele deve ser capaz de permanente auto-produção ou autopoiese. Os seres vivos se definem por produzirem continuamente a si mesmos.
O que caracteriza então um ser vivo é sua organização autopoiética. Dessa forma, foge-se aqui da tradicional lista de propriedades e constrói-se um modelo da célula que procura capturar o ser vivo como um sistema e o qualifica como um tipo particular de sistema. Esse sistema especial seria uma rede de componentes nos quais os componentes produzem a própria rede que, por sua vez, produz os componentes. A intenção de Maturana e Varela fica clara na seguinte passagem:
Queremos propor uma resposta a essa pergunta [Como saber quando um ser é vivo?] de modo radicalmente distinto da tradicional enumeração de propriedades, e que simplifique o problema tremendamente (Maturana e Varela, 1995, p. 82).
Segundo eles, só o fato de perguntarmos como se reconhece um ser vivo indica que já temos uma noção de sua organização. A organização, para eles, é um conjunto de relações que precisam existir ou ocorrer para que algo exista. Por exemplo, para que possamos classificar um objeto como uma ‘cadeira’, precisamos reconhecer certa relação e ordenação entre as partes que nomeamos por ‘pernas’, ‘encosto’ e ‘assento’, de tal forma que tornem o ato de sentar-se possível. O material do qual o objeto é feito é irrelevante para sua qualificação como cadeira (Maturana e Varela, 1995, p. 83).
A célula, a unidade mínima de vida, de acordo com a teoria celular, é um sistema que se define por sua organização autopoiética. Mas podemos perguntar, especificamente, o que é essa organização autopoiética celular, esse construir-se a si mesmo?
Em primeiro lugar, dizem os autores, os componentes moleculares devem estar dinamicamente relacionados em uma rede de interações. Essa rede de interações é o que se chama de metabolismo celular e tem a peculiaridade de produzir componentes que integram a própria rede que os produzem. Em segundo lugar, alguns desses componentes constituem uma membrana, uma fronteira para essa rede de transformações. Essa membrana torna possível uma clivagem no espaço. É bom que se diga, no entanto, que essa fronteira não só limita a extensão da rede que produziu seus componentes integrantes, como também participa da rede.
Temos, portanto, uma situação muito especial no que diz respeito às relações de transformações químicas: por um lado, podemos ver uma rede de transformações dinâmicas que produz seus próprios componentes e que é a condição de possibilidade da fronteira, por outro, vemos uma fronteira que é a condição de possibilidade para a operação da rede de transformações que a produziu como unidade (Maturana e Varela, 1995, p. 85).
Assim, a característica marcante de um ser vivo é que ele é cria a si próprio e se constitui como distinto do meio circundante mediante uma dinâmica própria.
Com a teoria autopoiética, encontramos uma definição explícita de vida, que se esforça para romper com as definições baseadas em listar propriedades, tais como reprodução, crescimento, metabolismo etc. Nessa concepção, tais propriedades são fenômenos relacionados à própria dinâmica autopoiética, não havendo, inclusive, nenhum elemento hierarquicamente superior que especifique o ser vivo. De posse de sua definição de vida, Maturana e Varela estão em condições de criticar a noção de que os genes, por exemplo, constituem a “informação” que determina de modo preciso os atributos do ser vivo. Segundo eles, essa noção está errada por dois motivos: 1) confunde hereditariedade com o mecanismo de replicação do DNA e 2), ao colocar o DNA em uma posição hierarquicamente superior, termina por retirá-lo de sua inter- relação com os demais componentes da rede (Maturana e Varela, 1995, p. 107).
Como vimos fazendo, devemos agora derivar uma categoria para a definição de vida posta pela teoria autopoiética. Essa tarefa fica facilitada pelas próprias conseqüências da interpretação de Maturana e Varela. Reconhecer que aquilo que
caracteriza os seres vivos é sua organização autopoiética equivale a interpretá-los de um ponto de vista que enfatiza o fato de serem unidades autônomas – de que são sistemas capazes de especificar suas próprias leis31 (Maturana e Varela, 1995, p. 88). É a partir dessa autonomia que os seres vivos simultaneamente se realizam e se especificam. “O ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis, e esse constitui seu modo específico de organização” (Maturana e Varela, 1995, p. 89).
Disso resulta que o ser vivo é um sistema fechado. Tal postura já havia sido levantada e defendida por Monod, ao definir o ser vivo como um tipo de máquina que se constrói a si mesma, não devendo quase nada ao exterior (Monod, 1976, p. 22). Dentro da categorização por nós estabelecida, podemos situar a concepção autopoiética da vida como uma espécie de internalismo32. A vida é um operar que impõe uma fratura espacial, cuja própria clausura faz parte do operar. Embora não haja nada que possa ser apontado, internamente ao sistema, como hierarquicamente determinante das propriedades do ser vivo, a vida é, de acordo com a teoria da autopoiese, um determinado tipo de fechamento operacional 33.