A definição da agenda compreende um momento decisivo na formulação das políticas públicas, delimitando um objeto de intervenção estatal. Partindo dessa premissa, Mascarenhas
et al. (2012, p. 17), asseguram que as políticas públicas de esporte e lazer têm sido influenciadas pelo objetivo de projetar internacionalmente o país tanto no esporte, como na área política e econômica. ―Por conseguinte, os megaeventos esportivos passaram a constituir o princípio organizador da agenda de esporte e lazer do país‖.
Almeida e Bracht (2013) também asseveram o poder normativo dos megaeventos esportivos ao reconhecer seu poder simbólico e econômico – aspectos que estão relacionados a uma série de características do esporte de alto rendimento que lhes conferem grande apelo popular e adesão apaixonada.
Nesse escopo, o caso brasileiro é exemplar e ilustrativo. Mascarenhas et al. (2012), por exemplo, em estudo sobre a construção da agenda em torno da candidatura do Rio de Janeiro à cidade sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, identificam a participação do Estado brasileiro, das organizações esportivas (COI e COB) e do mercado. O estudo conclui, portanto, que o sucesso da candidatura resulta de uma coalizão de força que abriga um esforço pessoal do presidente Lula articulado ao projeto de governo, ao modelo de desenvolvimento e à política de reposicionamento do país na geopolítica mundial. Ancorado, também, numa política conservadora de aproximação e subordinação do Estado brasileiro às entidades proprietárias dos Jogos (COI e COB) e, ainda, a um projeto empreendedor orientado para o mercado, segundo os interesses de frações de classe da burguesia.
16 Coutinho (2006) identifica no processo de construção do Estado nacional brasileiro processos de transição que
se dão ‗pelo alto‘, numa referências ao conjunto de acordos e decisões tomadas pelas frações de classes dominantes, cujo objetivo é a exclusão da participação das massas populares. Trata-se, portanto, de acordos ou manobras pelo alto entre segmentos ‗modernos‘ e ‗arcaicos‘.
É nessa lógica que os países que sediam os megaeventos cumprem o papel de afiançar as condições para o seu desenvolvimento, implicando em ações que vão desde a construção da infraestrutura necessária ao espetáculo esportivo (Estado investidor), bem como na atividade de concessão de créditos a empresas responsáveis pela ampliação da rede hoteleira e serviços na área do turismo, além da construção de arenas esportivas, incremento em tecnologia e informação e outros (Estado financiador) (MASCARENHAS et al. 2012).
Nessa perspectiva, os megaeventos são incorporados à agenda política nacional, por meio do planejamento estratégico do governo – do qual o Plano Plurianual (PPA) 2012-2015 (denominado de ‗Plano mais Brasil‘) é uma expressão – bem como do conjunto de ações desenvolvidas no âmbito das políticas esportivas. Nesse plano, por exemplo, o esporte está relacionado aos megaeventos, de maneira que seu objetivo de número 0676 é elucidativo:
Elevar o Brasil à condição de potência esportiva mundialmente reconhecida, com apoio à preparação de atletas, equipes e profissionais, da base à excelência esportiva, com estímulo à pesquisa e inovação tecnológica, qualificação da gestão, melhoria e articulação das estruturas, com segurança e confortos nos espetáculos, fomentando a dimensão econômica‘.
Tal direcionamento pode, empiricamente, ser atestado e ilustrado pelo financiamento público do esporte que – embora não seja o único aspecto a ser observado no estudo de políticas públicas – constituí indicador relevante para advertir sobre as prioridades da intervenção estatal.
Tabela 01: Principais destinos do orçamento do ME de 2014 (até 15 de Out.). Copa do Mundo e Jogos Rio 2016 R$ 568.415.564,00 Infraestrutura do Esporte Educacional R$ 152.853.044,00 Bolsa Atleta R$ 150.658.555,00 Administração da Sede ME R$ 59.939.000,00 Publicidade Utilidade Pública R$ 36.255.682,00 Pagamento de Pessoal R$ 22.184.503,00 Total Parcial R$ 990.306.348,00 Fonte: Cruz (2014) (Elaboração própria).
Com base nesses dados17, o jornalista esportivo José Cruz, em seu blog18, destaca que dos R$ 1,2 bilhão (36%) do orçamento do esporte gastos até 15 de outubro de 2014, quase
17 Dados apresentados e levantados pelo jornalista esportivo José Cruz – por meio do portal ‗Contas Abertas‘ – e
50% foram destinados para a preparação e gestão dos megaeventos (Copa do Mundo e Jogos Rio 2016). O jornalista tem, ainda, o cuidado de fazer a ressalva de que nos R$ 152,8 milhões – destinados à infraestrutura do esporte educacional – estão incluídas as emendas parlamentares para quadras e pequenos ginásios. Fatos que ratificam o argumento da prioridade dos megaeventos esportivos na agenda pública brasileira.
É importante destacar [ainda] que, nesse cenário, tais eventos foram tomados como objetos de discussão e estudo [conformando a agenda acadêmico-científica]. Em função disso, ocorreu, segundo Grunennvaldt e Kunz (2013), um conjunto de ações que denunciam a pauta da ‗nova‘ agenda esportiva brasileira, das quais são exemplos: o Seminário de Gestão de Legados de Megaeventos Esportivos; o 1º, 2º e 3º Fórum de Desenvolvimento do Esporte Olímpico no Brasil; além da 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que debateu, no evento organizado pelo Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), a temática dos megaeventos esportivos.
Além disso, a revista Motrivivência (v. 21, n. 32/33, 2009) organizou um dossiê sobre os grandes eventos na ―década do esporte no Brasil‖ (2007-2016). Abordando de forma ―multidisciplinar‖ e ―crítica‖ a problemática dos megaeventos esportivos, bem como suas implicações políticas, econômicas, sociais e culturais. No âmbito do XVII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, realizado em Porto Alegre, em 2011, a discussão foi desenvolvida na Mesa ―Megaeventos esportivos: papel das Ciências do Esporte‖ (GRUNENNVALDT; KUNZ, 2013).
O conjunto dessas iniciativas, acrescida de outras tantas espalhadas pelo país, elucida a preocupação das Ciências do Esporte/Educação Física no processo de apreensão do fenômeno em questão, o que denota um entendimento – da área – da necessidade e urgência de compreendê-lo em suas múltiplas dimensões, sobretudo, pela sua grandiosidade e poder normativo e simbólico. Nessa direção, Castellani Filho (2014, p. 100) situa os megaeventos esportivos como artífices de uma lógica de desenvolvimento urbano, aos quais a política esportiva se subordinou:
―[...] de forma consentida – tanto por vê-la conciliada aos interesses do setor conservador (e hegemônico) do campo esportivo brasileiro, quanto pela necessidade de legitimação junto ao campo esportivo [...] – por parte dos responsáveis pela política governamental na referida área‖.
Disponível em: http://josecruz.blogosfera.uol.com.br/2014/10/maiores-gastos-do-ministerio-do-esporte-sao-com- copa-e-jogos-rio-2016/. Acesso em: 01 Nov. 2014.
Mas, afinal, o que pode ser compreendido como megaeventos esportivos?
A ênfase dedicada a tal problemática não tem a intenção de reconhecer e/ou identificar todas as possibilidades de conceitos e interpretações dadas à questão. Longe disso, a pretensão aqui é apresentar uma definição clara e pertinente à sua discussão e compreensão.
Desse modo, toma-se emprestado de Proni (2014) um entendimento que sugere a identificação dos megaeventos esportivos a partir de três elementos característicos: o primeiro é o tamanho, ou seja, utilizar como critério o número e diversidade de atletas ou equipes participantes e a extensão e composição do público (em especial, telespectadores) que assiste ou acompanha a cobertura desse megaevento. Em geral, são competições ‗mundiais‘ que ocorrem em período de curta duração (embora exija longa preparação) e, pelo seu tamanho, monopolizam a atenção da mídia internacional, sendo transmitidos ―ao vivo‖ para os cinco continentes.
O segundo critério se refere à complexidade do planejamento e da organização, incluindo aí os mecanismos de financiamento. Existe a necessidade de construção de infraestrutura específica para as competições ou hospedagem de atletas e treinadores. Para Proni (2014), tal complexidade se manifesta, também, na gestão empresarial das federações esportivas e na criação de comitês organizadores.
E, por fim, o terceiro critério que é a existência de um legado potencial. O autor argumenta que essa ideia foi ganhando força ao longo do tempo, de maneira que hoje é impensável falar em megaeventos sem associá-lo a um conjunto de legados desejados ou prometidos. Os elevados investimentos destinados a estes eventos carecem de legitimidade, justificando a necessidade de uma herança importante de natureza econômica, social, cultural e ambiental.
A conceituação desenvolvida por Proni, apresentada aqui, reflete uma construção histórica do objeto. De maneira que o autor reconhece um processo crescente de transformação destes em ―superproduções midiáticas‖, distinguindo de outros eventos do passado. Um verdadeiro fenômeno emblemático da era globalizada, que vem se afirmando desde os anos 1980.
De posse destes referenciais é, ainda, fundamental ter claro que os megaeventos esportivos cumprem a função política de procurar espaços geográficos, países e regiões onde o esporte possa gerar formas de reprodução ampliada do capital no tempo e no espaço (OURIQUES, 2014).
Por isso, há uma nova geografia de realização dos megaeventos esportivos pelo mundo. A qual pressupõe abertura de novos mercados para as empresas associadas a entidades do ramo esportivo, sobretudo os fabricantes de materiais esportivos.
Essa estratégia tem vínculo com a organização e desenvolvimento capitalista na atualidade que, por isso, inclui os países em desenvolvimento – a fim de carrear novos mercados consumidores como se verifica na tabela a seguir:
Tabela 02: Distribuição geográfica dos megaeventos esportivos no mundo.
Ano Evento Sede
2000 Jogos Olímpicos Austrália
2002 Copa do Mundo de Futebol Coréia do Sul/Japão
2004 Jogos Olímpicos Grécia
2006 Copa do Mundo de Futebol Alemanha
2008 Jogos Olímpicos China
2010 Copa do Mundo de Futebol África do Sul
2012 Jogos Olímpicos Inglaterra
2014 Copa do Mundo de Futebol Brasil
2016 Jogos Olímpicos Brasil
2018 Copa do Mundo de Futebol Rússia
2020 Jogos Olímpicos Japão
Fonte: Ouriques (2014) (Adaptação).
Há, portanto, um circuito internacional de megaeventos do qual tomam parte as cidades, buscando apresentar-se ao mundo como uma cidade global – uma cidade favorável e amigável aos negócios, um lugar seguro para morar e visitar, para divertir e consumir. O urbanismo olímpico surge com esse propósito – combinando ação estatal e interesses privados, baseando-se na monumentalidade arquitetônica, na invenção de lugares e regeneração de espaços de desvalia (MASCARENHAS, 2012).
Nesse sentido, tais eventos contam com a participação política de agentes como: os Estados nacionais que sediam, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) ou o Comitê Olímpico Internacional (COI) como órgãos gestores, a mídia local e internacional e suas inter- relações, as empresas privadas nacionais e internacionais, as associações esportivas, os cidadãos e os turistas que dele participam.
2.5 O tempo e o lugar da Escola, da Educação Física e do Esporte Educacional na