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DEFINE A RELEVANT FREE-SPANNING SCENARIO

De maneira geral, é possível encontrar na imprensa brasileira matérias e reportagens sobre moradores de rua, apresentadas com informes, estatísticas, análises e entrevistas com especialistas, embora com pouca ou nenhuma presença dos sem-teto, o que caracteriza a invisibilidade do sujeito. O Estado de São Paulo (suplemento Aliás - 6/3/10), na reportagem “Jogados ao deus-dará” (já citada no item 2), tem o subtítulo como indicativo do seu conteúdo: “Moradores de rua são uma modalidade extrema e dramática de desempregado, com pouca chance de ressurreição”. Com destaque apresenta o artigo assinado por José de Souza Martins6 com a tipificação do quadro atual relativo à capital paulista, mas que serve de parâmetro sobre a amplitude do problema, balizando a sua extensão, uma vez que em muitos aspectos tais dados aproximam-se daqueles referentes a outros centros urbanos brasileiros. Martins alia o rigor científico à sensibilidade na análise da situação dos moradores de rua, cuja maneira de viver, segundo ele, “constitui uma forma de morte social”:

Os sumários dados preliminares do novo censo decenal dos moradores de rua da cidade de São Paulo, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, confirmam que o problema se agrava. Se no ano de 2000 havia 8.706 moradores de rua, agora eles são 13 mil, 49,3% mais. Seu número cresceu dez vezes mais do que o número de habitantes da cidade.

O morador de rua é uma modalidade extrema e dramática de desempregado. O censo entre eles realizado, em 2000, mostrou que apenas 31,9% não trabalham, 54,1% são ambulantes, 24,9% vivem de esmolas e apenas 1,2% não têm renda alguma. Muitos trabalham na coleta para reciclagem dos abundantes resíduos urbanos do centro da cidade, a mais forte razão para ficarem naquela área. São trabalhadores, mal pagos até pela cidade que de seu trabalho de limpeza se beneficia. Antes de se tornarem moradores de rua, apenas 3,3% não trabalhavam, 36,6% tinham ocupações de baixa classe 6 Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. É autor de A Sociabilidade do Homem Simples

média (uns poucos tinham curso superior), 19,9% vinham da construção civil e apenas 4,3% vinham de ocupações agrícolas. Portanto, uma população cultural e ocupacionalmente urbana.

A onda atinge seletivamente suas vítimas. Uma grande parte desses moradores, 39,5%, tinha 41 ou mais anos de idade, a idade crítica nas relações de emprego, o que se confirma pelo fato de que 83,6% deles eram do sexo masculino, justamente os mais atingidos pela idade no desemprego precoce. Um estudo de Maria Antonieta da Costa Vieira mostrou que os moradores de rua são majoritariamente homens que vivem sem família, com idade média de 44 anos, sendo grande o contingente de idosos. Nasceram em outros Estados 65% deles, mas vivem há muitos anos na cidade de São Paulo. Um número significativo é doente.

Bursztyn (2003, p.36) avalia que a pobreza e a segregação sempre existiram na história da humanidade, mas que “sempre houve um certo elo orgânico entre os mundos da riqueza e da pobreza: o trabalho e a inevitável interdependência entre os dois lados”. Com o passar do tempo surge uma nova realidade que consiste na separação entre “o mundo do trabalho, entre os mundos da riqueza e da pobreza que se vai tornando excluída”. A exclusão, por sua vez, é integrada pelos que ficam à margem, constituindo a categoria dos miseráveis, submetidos a todo tipo de violência e situados abaixo da linha da pobreza.

No caso específico da pobreza brasileira há dados confiáveis que apontam a sua diminuição, embora o mesmo não aconteça com a base piramidal da população, a exemplo da ausência de informações sobre a migração de moradores de rua para a categoria dos pobres. A mídia noticia casos isolados quando alguém entre tantos, consegue o feito de individualmente promover a sua ascensão econômica e social, a exemplo do ex-morador das ruas do Recife que, sem frequentar cursinho preparatório, estudando em bibliotecas, em praças e debaixo de marquises, foi aprovado em concurso público e, em junho de 2008, e finalmente tornou-se funcionário do Banco do Brasil. Por isto, então, foi personagem de notícias em rádios, emissoras de televisão e jornais impressos e on line de todo o país. E sempre com a aposição exclamativa: “por mérito próprio”.

Se fatos como o do pernambucano tornassem-se acontecimentos rotineiros e massificados, não teriam valor-notícia e não chamariam a atenção da imprensa, nem da opinião pública. Caso os miseráveis ascendessem com facilidade e naturalidade, seria mais animador ler o Comunicado nº 59 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado para a imprensa e postado no seu site em 22/7/10, com o título

fatores de risco para o equilíbrio das contas públicas do país, as políticas previdenciária e de assistência social, de acordo com o IPEA, cumprem um papel de destaque no sistema brasileiro de proteção social.

Depoimentos de especialistas e acadêmicos como os citados, de maneira geral, são mais encontrados em reportagens, enquanto as matérias informativas não aprofundam o exame dos problemas sociais, apresentando-os muitas vezes com a conotação dada pelo senso comum, apesar de transmitir conhecimentos pragmáticos fundamentais: “Por outro lado, reproduz os esquemas do poder dominante, que só podem se perpetuar enquanto tal se as causas da dominação e da desigualdade injusta nunca puderem ser reveladas”. (SOUZA, 2009, p.48).

Junta-se ao valor-notícia, então, a recomendação de Pinto (2009, p.69) sobre a divulgação: “A boa reportagem é a que trata da maneira mais abrangente um assunto bem delimitado, e não a que trata de forma limitada um assunto abrangente”. Se o conselho da profissional é seguido, o resultado é a história que poderia começar por um “era uma vez” um sem-teto, que, em tempos idos, chegou ao ensino universitário e foi empregado com carteira de trabalho assinada. Sem emprego, vagando pelas ruas, certo dia ele encontrou um Fiat abandonado que converteu em sua casa. Essa moradia e estilo de vida chamaram a atenção de pessoas de boa vontade que ajudaram a transformá-lo e deram outro sentido à sua maneira de estar no mundo. O assunto foi relatado por vários veículos de comunicação brasileiros:

Sem-teto que mora em carro vira contínuo

Seu Raimundo deixou o Fiat 147

Raimundo Geraldo de Pinheiro, de 58 anos, que morou por sete meses num Fiat 147, está de casa nova. Foi contratado por uma empresa de segurança, ganhou roupas, fez a barba e hoje dorme na sala de treinamentos da empresa, na Tijuca, zona norte do Rio. Mas só até conseguir alugar um quarto perto do trabalho. "Mudou tudo. Saí do estado de miséria para essa tentativa de progresso", diz seu Raimundo, enquanto mostra orgulhoso a carteira de trabalho, que há 15 anos não recebia anotação. Seu Raimundo foi parar no Fiat 147 depois de uma série de reveses - perdeu a mulher e a filha no nascimento da criança, abandonou a faculdade de História, se demitiu do emprego, brigou com o primo que lhe dera abrigo, e foi trabalhar como vigia de uma loja, em Cascadura. Ali ficou por dez anos e quatro meses.

Posto na rua após a venda do imóvel, pediu autorização para morar no carro, que dividia com o vira- latas Barbudinho. Até que os vizinhos não gostaram mais do veículo sem motor e sem rodas na porta do prédio e decidiram despejá-lo, como o Estado mostrou no dia 19. A sorte de Raimundo mudou quando seu caso ganhou a atenção da imprensa. Ao ver uma reportagem na televisão, o policial civil Alcides Iantorno Filho propôs à mulher, Vanessa Iantorno, dona da Anzen Segurança Patrimonial, que o contratasse.

Iantorno Filho checou os antecedentes criminais do morador do Fiat 147. Fez uma pequena investigação entre os vizinhos. E uma equipe da Anzen foi até Cascadura, na zona norte, para buscá- lo. Seu Raimundo reagiu com desconfiança. "Um morador, meu amigo, chegou a dizer que iam me matar." A equipe teve de distribuir cartões de visita. À noite, uma moradora ligou para se certificar

Foi contratado como contínuo, mas acabou na manutenção predial. Em uma semana, resolveu um problema de infiltração no vestiário que pedreiros contratados nos últimos cinco anos não deram conta. Agora, anda uniformizado e com crachá. Na primeira vez que foi visitar os antigos amigos, se perdeu. A equipe da Anzen foi procurá-lo e o encontrou perto do antigo endereço - o Fiat 147.

(Jornal O Estado de São Paulo - 26/9/09).

Esse final feliz, como o das histórias de fadas, teve como varinha mágica a notícia que saiu anteriormente, publicada uma semana atrás e que provocou a comoção do policial e outros habitantes do local. Tal desenrolar coaduna-se com a visão de Thompson (2009b, p.45) sobre o efeito das mensagens midiáticas relativas à tradição hermenêutica do processo de recepção, interpretação e reinterpretação: “Ao interpretar as formas simbólicas, os indivíduos as incorporam na própria compreensão que têm de si mesmos e dos outros. Eles as usam como veículos para reflexão e auto-reflexão”. O autor chama esse processo de “apropriação”, pois é através dele que o indivíduo pode atingir o conhecimento e o autoconhecimento: “Apropriar-se de uma mensagem é apoderar-se de um conteúdo significativo e torná-lo próprio”. Talvez, por isto, o jornalista produtor da notícia faça questão de alardear nessa suíte da matéria anterior: “A sorte de Raimundo mudou quando seu caso ganhou a atenção da imprensa”.

Nas poucas oportunidades de serem ouvidos sobre a sua experiência como moradores de rua, muitas vezes eles relatam fatos e apresentam análises que surpreendem pela profundidade e nível de discernimento, como no caso de Tião Nicomedes, um dos fundadores do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR). Em entrevista ao O Estado de São Paulo (6/6/10) Tião questiona os números da última pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre pessoas em situação de rua em São Paulo, divulgada naquela semana: “O estudo foi feito entre novembro e dezembro, durante o verão, portanto quando moradores de rua descem para o litoral fugindo especialmente do abafo dos albergues”.

Nicomedes também duvida do número de pessoas levantado pelo estudo: 13.666. “São mais de 18 mil, a pesquisa se concentrou no centro de São Paulo e não considerou os desabrigados de outros bairros, como São Miguel, Santo Amaro, Penha, onde a população de rua cresceu muito”. Concorda com a pesquisa da Fipe quando ela diz que muito morador teve carteira assinada. “O problema é que vários desses nem sabem mais

socióloga belga Marie-Ghislaine Stofells (1977). O estudo foi realizado durante a sua pós-graduação na Universidade de São Paulo, quando morou nas ruas para vivenciar o objeto da sua pesquisa participativa, atitude considerada suspeita pelas autoridades militares, e que, por isto, resultou na sua prisão por comportamento subversivo, adjetivação condenatória e extremamente temida durante a ditadura implantada em 1964.

A prisão e a perseguição não a impediram de registrar dados importantes e aspectos sociológicos que continuam atuais no que se refere à vida fragilizada dos sem- tetos. Não mudam as três fases pelas quais passam as pessoas nessa situação, onde a etapa inicial consiste na defesa, seguida da revolta e, finalmente, da resignação. Nesta última, acontece a auto-convicção de que o cidadão transformou-se realmente em morador de rua, o que acarreta uma consequência igualmente cruel que é o processo da gradativa da dessocialização, com a destruição de suas referências sociais e seu conformismo com a vida perdida e o desamparo sem fim.