5.5 Future Work
5.5.3 Deep LSTM-layered hybrid networks
No cerne mesmo do materialismo histórico encontra-se uma noção tornada desde há muito clássica: a de superestrutura. Encontramos a formulação modelar desse conceito no Prefácio a Para a Crítica da Economia Política, texto em que MARX afirma:
“Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.” (1982a, p. 25)
Uma elaboração alternativa da mesma ideia é encontrada n’A ideologia alemã. No clássico texto, em que MARX E ENGELS elaboram pela primeira vez sua concepção materialista da história, lê-se que
“A produção das ideias, representações, da consciência está a princípio diretamente entrelaçada com a atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como efluxo direto do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc., de um povo. Os homens são os produtores das suas representações, ideias
etc., mas os homens reais, os homens que realizam [die wirklichen, wirkenden Menschen], tal como se encontram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do intercâmbio que a estas corresponde até as suas formações mais avançadas. A consciência [das Bewusstsein] nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente [das
bewusste Sein], e o ser dos homens é o seu processo real de vida. Se em toda a ideologia os
homens e as suas relações aparecem de cabeça para baixo como numa câmera obscura, é porque este fenômeno deriva do seu processo histórico de vida da mesma maneira que a inversão dos objetos na retina deriva do seu processo diretamente físico de vida.” (1982, pp. 13-14)
Como podemos deduzir dos trechos acima, a história da superestrutura encontra-se inextricavelmente relacionada à da base material da sociedade. Transformações históricas nos diversos campos da superestrutura (religião, direito, comunicação, artes) não podem ser interpretadas apenas como fenômenos puramente imanentes, cujas causas seriam sempre internas a esses mesmos campos. Para citar um exemplo, mudanças na literatura, ao contrário do que postula certo pós-estruturalismo influente, não devem ser vistas apenas
na perspectiva do “esgotamento” de padrões estéticos. Tal “esgotamento” é
frequentemente muito mais um efeito do que uma causa. É necessário buscar as verdadeiras causas nas relações entre literatura e demais esferas de um modo de vida global.
Naturalmente, isso não significa negar a autonomia de cada uma das esferas da vida social, como a literatura, o direito, as artes etc. Essa autonomia, embora relativa, é por demais real, já que se encontra fundada objetivamente na divisão social do trabalho.
“A divisão do trabalho só se torna realmente divisão a partir do momento em que surge uma divisão do trabalho material e espiritual”, diziam MARX E ENGELS (1982, p. 23). Uma vez dada essa condição, a consciência “emancipa-se” da vida real e assume um aspecto de teoria “pura” nas mais diversas formas: teológica, filosófica, ética, jurídica,
artística etc., todas contando com intrincadas leis próprias e conexões internas.
Dissertando sobre equívocos cometidos, nesse ponto, por visões materialistas vulgares, LUKÁCS esclarece que Marx e Engels jamais negaram a relativa autonomia de desenvolvimento dos diversos campos particulares da atividade humana:
“Jamais ignoraram, por exemplo, o fato de que o pensamento filosófico, singularmente considerado, se liga a outro pensamento filosófico que o precedeu e do qual ele é um desenvolvimento, uma correção, uma refutação, etc. Marx e Engels negam apenas que seja possível compreender o desenvolvimento da ciência ou da arte com base exclusivamente, ou precipuamente, nas suas conexões imanentes. Tais conexões imanentes existem, sem dúvida, na realidade objetiva, mas só como momentos da tessitura histórica, como momentos do conjunto do desenvolvimento histórico, no interior do qual, através do intrincado complexo das interações, o fato econômico (...) assume o papel principal.” (1968, p. 15)
Ainda assim, e infelizmente, a concepção de uma superestrutura subordinada à base socioeconômica da sociedade conduziu a equívocos, como esclarece o mesmo autor:
“Do ponto de vista da sua conexão com o processo evolutivo do conjunto, as ideologias — e, entre elas, a literatura e a arte — aparecem unicamente como superestruturas, que só o determinam por via secundária. Dessa constatação fundamental, o materialismo vulgar parte para a conclusão, mecânica e errônea, distorsiva e aberrante, de que entre base e superestrutura só existe um mero nexo causal, no qual o primeiro termo figura apenas como causa e o segundo aparece unicamente como efeito. Aos olhos do marxismo vulgar, a superestrutura é uma consequência mecânica, causal, do desenvolvimento das forças produtivas. (...) A dialética nega que possam existir em qualquer parte do mundo relações de causa e efeito puramente unívocas.” (LUKÁCS, 1968, p. 16)
Como fica claro, tais equívocos não podem ser debitados a erros de origem, relacionados aos escritos seminais de Marx e Engels. Ambos sempre fizeram questão de destacar o papel tanto da política quanto das ideias, combatendo concepções equivocadas sobre as condições econômicas como fator exclusivo de causação das dinâmicas sociais. Em carta de 1893 a Mehring afirma Engels:
“Com o que acabei de dizer relaciona-se ainda esta ideia estúpida dos ideólogos: como recusamos às várias esferas ideológicas, que representam um papel na história, um desenvolvimento histórico independente, recusamos-lhes também toda e qualquer eficiência histórica. Chama-se a isso partir de uma concepção banal, não dialética, partir da causa e do efeito como polos opostos um ao outro de maneira rígida, ignorando completamente a sua ação recíproca. Esses senhores esquecem propositadamente que um fator histórico, na medida em que é engendrado por outros fenômenos, em última análise, por fenômenos econômicos, reage também por seu turno e pode exercer uma ação sobre o seu meio e mesmo sobre as próprias causas” (MARX E ENGELS, 1986, p. 23)
Em 1894, Engels, desta vez em carta a Heinz Starkenburg, insistia na mesma ideia:
“O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literário, artístico, etc, assenta- se sobre o desenvolvimento econômico, mas reagindo uns sobre os outros e sobre a base econômica. Isso não se passa devido à situação econômica ser a causa, a única causa ativa e todo o resto exercer apenas uma função passiva. Pelo contrário, trata-se de uma ação recíproca com base na necessidade econômica, que em última instância vence sempre. (...) Não se trata, pois, como alguém quer imaginá-lo, em um caso e noutro por comodidade, de um efeito econômico automático. Pelo contrário” (MARX E ENGELS, 1986, p. 19). Também MARX, talvez antevendo dificuldades relacionadas à compreensão desse ponto, talvez buscando exercitar sua própria compreensão, aborda, na Introdução de seu
Para a Crítica da Economia Política, a questão do florescimento artístico em conexão com
“Em relação à arte, sabe-se que certas épocas do florescimento artístico não estão de modo algum em conformidade com o desenvolvimento geral da sociedade, nem, por conseguinte, com o da base material que é, de certo modo, a ossatura da sua organização. Por exemplo, os gregos comparados com os modernos ou ainda Shakespeare. Em relação a certas formas de arte, a epopeia, por exemplo, até mesmo se admite que não poderiam ter sido produzidas na forma clássica em que fizeram época, quando a produção artística se manifesta como tal; que, portanto, no próprio domínio da própria arte, certas de suas figuras importantes só são possíveis num estágio inferior do desenvolvimento artístico. Se esse é o caso em relação aos diferentes gêneros artísticos no interior do domínio da própria arte, é já menos surpreendente que seja igualmente o caso em relação a todo o domínio artístico no desenvolvimento geral da sociedade. A dificuldade reside apenas na maneira geral de apreender essas contradições. Uma vez especificadas, só por isso estão explicadas.
Tomemos, por exemplo, a relação com o nosso tempo, primeiro, da arte grega, depois, da arte de Shakespeare. Sabe-se que a mitologia grega não foi somente arsenal da arte grega, mas também a terra [em que se desenvolveu]. A intuição da natureza e as relações sociais que a imaginação grega inspira e constitui por isso mesmo o fundamento da [mitologia] grega, serão compatíveis com as selfactors [máquinas automáticas de fiar], as estradas de ferro, as locomotivas e o telégrafo elétrico? Quem é Vulcano ao lado de Roberts & Cia., Júpiter em comparação com o para-raios e Hermes face ao Crédit Mobilier? Toda mitologia supera, governa e modela as forças da natureza na imaginação e pela imaginação, portanto, desaparece quando essas forças são dominadas efetivamente. (...) Portanto, (...) [numa] sociedade num estágio que exclua qualquer relação mitológica com a natureza, qualquer relação geradora de mitos, exige-se do artista uma fantasia independente da mitologia.” (1982a, pp. 20-21)
A interpretação de Marx é inventiva, mas revela dificuldades à vista. As mesmas com as quais se bate Engels em seu Contribuição para a história do cristianismo
primitivo. O livro enfrenta as dificuldades colocadas pela continuidade desse poderoso
sistema cultural e ideológico, que atravessou épocas e civilizações separadas por profundas mudanças econômico-produtivas. Engels enfrenta bem o desafio, ao mostrar que o cristianismo primitivo nada tem a ver com a religião desenhada no Concílio de Niceia, e que, portanto, não se deve perder de vista as profundas transformações internas mascaradas pela aparência de continuidade de certos sistemas de crença.
Mas as dificuldades não se resumiriam ao fenômeno do cristianismo. Elas continuariam a surgir, assumindo muitas vezes a forma de desafios metodológicos cujo enfrentamento se tornaria a própria “razão de Estado” de uma abordagem como o materialismo cultural.