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Decomposing return spreads

O Império que se instalou no trópico, tendo como soberano um menino de pouco menos de 15 anos, tinha características originais, que diversos estudiosos já explicitaram. A principal delas era um projeto de Estado visando constituir uma nacionalidade emergente a partir do estado monárquico, portador e impulsionador do projeto civilizatório, e a natureza, como base territorial e material deste Estado.

D. Pedro II foi um menino taciturno, perdeu a mãe com pouco mais de 12 meses, e o pai partiu quando ele tinha 9 anos. José Bonifácio, que foi seu primeiro tutor, educou-o como um ser que pertencia inteiramente ao Estado; o Menino Imperial era a representação da própria nação. Auguste de Saint-Hilaire (apud SCHWARCZ, 1998, p. 79) enxergou esta circunstância, dizendo: “Este menino é o único entre os brasileiros que liga o presente ao passado e, pertencendo

inteiramente à sua Pátria, poderá, contudo formar um laço feliz entre ela e o velho

Mundo”.

Em dezembro de 1834, quando o menino tinha 12 anos, José Bonifácio foi destituído de seus direitos de tutor. Começava o reinado do novo tutor, o Visconde de Itanhaén. Em torno deste, mestres e professores como Padre Renato Pedro Boiret (Abbé Boiret) foi o professor das primeiras letras que o alfabetizou em francês. O Dr. Roque Schuch, futuro Barão de Capanema, ensinou-lhe alemão, italiano e história universal, e Nataliel Lucas foi seu professor de inglês. Aos 11 anos, o menino já falava corretamente francês; o Marquês de Sapucaí (professor de latim, literatura e ciências positivas), o Barão de Taunay (professor de geometria, história, grego e botânica)., conhecia mapas, estudava inglês e história com afinco. Aos 12 anos começa a estudar latim.

O resultado desta solidão com horas e horas de estudo foi um garoto recatado, tímido, que o Conde Suzanet (apud SCHWARCZ, 1998, p. 72) definiu assim: ”[...] parecia de saúde pouco robusta [...] uma verdadeira planta de biblioteca, um autêntico roedor de livros”. Tudo empurrava o futuro Imperador para o chamado “temperamento linfático”, como caracterizou a imprensa da época.

Foi o astuto Senador José Martiniano de Alencar quem criou, em 1840, o chamado “Clube da Maioridade”. A ideia era antecipar a ascensão ao trono de D.

Pedro II prevista pela Constituição para 1843. Depois de uma tentativa frustrada, o Menino se torna Imperador pouco antes de completar 15 anos.

Num primeiro período, que vai de 1841 a 1864 – ano do início da Guerra do Paraguai – o Império enfrentou, com a ajuda do então Barão de Caxias, as rebeliões regenciais da Bahia, Pará e Maranhão. Ainda restava a Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul, mas a fase mais conturbada da consolidação do Império parecia ter ficado para trás.

A partir de 1850, quando ocorreu a efetiva proibição do tráfico negreiro, até a Guerra do Paraguai (1865 a 1868), a disponibilidade de grandes capitais até então empregados na importação dos escravos marca, além da alta do café nos mercados externos, com investimentos volumosos nas áreas financeira e industrial e a construção de estradas de ferro. O maior impacto destas mudanças se dava sobre o Rio de Janeiro. A cidade passa por uma grande transformação tendo como modelo a Paris neoclássica. O calçamento com paralelepípedo (1853), a iluminação a gás (1854), a implementação de rede de esgoto (1862), o abastecimento domiciliar de água (1874) e os bondes puxados a burro (1859) davam novas feições à corte.

As livrarias Garnier e Irmãos Laemmert vendiam tudo importado de Paris, inclusive livros de autores brasileiros impressos por lá. A rua do Ouvidor dava forma a esta sociabilidade urbana que se realizava nos cafés (Alcazar, Belle Helène, Café de La Paix) e nas confeitarias (a mais famosa era a Carceler).

Horácio, um dos personagens masculinos de José de Alencar em A Pata da

Gazela, era o típico rei dos salões desses dias: “Um dos príncipes da moda, um dos

leões da Rua do Ouvidor [...] o Átila dos Cassinos, o Genserico da Rua do Ouvidor.” (ALENCAR, 1959). Para se mostrar pertencendo à elite do Império era fundamental participar desse novo jogo de encenação. E embora Alencar, na ficção, veja-o com certo ressentimento, achando-o frívolo e fútil, como cronista mundano de Ao correr

da pena iria se divertir com as novidades.

Nessa nova capital remoçada pelo dinheiro e pelas novidades importadas, a corte passa a ser “[...] um pólo centralizador e difusor de hábitos, costumes e até linguagem para todo o país, além de se transformar no cenário principal em que se desenrolava a dramatização da vida social da boa sociedade.” (SCHWARCZ, 1998, p. 110).

A elite dos grandes fazendeiros de café ergueu no campo e na cidade residências suntuosas. Além disso, se cria uma febre de bailes, concertos, reuniões e festas. Mas os presidentes de província, senadores, deputados gerais pertencentes aos “Saquaremas” (conservadores), e “Luzias” (liberaias) também rodopiavam nos salões de maneira a se mostrarem aptos e preparados nos melhores hábitos da civilização. “Não se faz política sem bolinhos” dizia Cotegipe (SCHWARCZ, 1998), o futuro desafeto de Alencar. Não se pode dizer que D. Pedro II participava destes eventos. Recatado, jantava cedo (às cinco), passeava nos jardins, tomava chá, e tudo se acabava às nove e meia da noite.

A elite política se revezava no poder. “Saquaremas” e “Luzias”, depois de uma troca incessante de comando, iniciada em 1836, , inauguram a “conciliação”, a partir de 1853, misturando representantes dos dois partidos. Esta união durou cinco anos e foi a partir dela que D. Pedro II assumiu definitivamente as rédeas do processo político:

É nesta época que, pela primeira vez percebe-se a atuação mais direta do monarca. Nas anotações do livro de Gonçalves Magalhães, A Confederação

dos Tamoios, datado de 1856, e especialmente dedicado a D. Pedro II,

lemos a homenagem do autor e a resposta do homenageado:

“Senhor! Não é simples motivo de participar por especiais favores devidos a V.M.I. e sim um sentimento patriótico profundo e de elevado reconhecimento pela prosperidade de nosso país, devido à soberania, amor e justiça que tão altamente brilham no Trono de Vossa Augusta Pessoa [...] Vossa Majestade que bem deseja ser amado por suas virtudes públicas e

privadas que tanto edificam o Brasil como todo [...]. A instrução pública, a

completa liberdade de imprensa, a tolerância dos cultos [...] tudo faz do Brasil uma nação e dá ao mundo um Príncipe perfeito [...] (grifos da autora) (SCHWARCZ, 1998. p. 123).

Como explica José Murilo de Carvalho:

[...] na ausência de uma classe burguesa poderosa capaz ela própria de regular as relações sociais por meio de mecanismo de mercado, caberia ao Estado [...] tomar a iniciativa de medidas de unificação dos mercados, de destruição de privilégios feudais, de consolidação de um comando nacional de protecionismo econômico (CARVALHO, 1980. p. 210).

Dom Pedro II anota, na página 11 do livro, as duas obras que lhe faltavam: “organizar moralmente a nacionalidade [e] formar uma elite.” (SCHWARCZ, 1998, p. 124). O monarca iria tratar dos dois projetos por meio de um modelo de ação em dois campos que ele aprendera a gostar e que passaria a dominar com todo ardor: a ciência e a cultura. Para tanto, começa a agir no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e de lá estenderá seu poder a toda ação científica e cultural do país. Em 1839, oferece uma das salas do Paço Imperial da cidade para reuniões do instituto. Em 1840, por ocasião do seu aniversário, manda cunhar uma medalha que continha na sua parte superior os dizeres “Auspice Pedro Secundo Pacifica

Scientiae Occupation”. Em 1842, torna-se membro do Instituto Francês, e entre 1842

e 1844 institui prêmios destinados aos melhores trabalhos apresentados no IHGB. Depois de instituir uma participação de 75% do estado nas verbas do IHGB, de dezembro de 1849 até novembro de 1889 ele participa pessoalmente de um total de 506 sessões, só se ausentando em caso de viagem. Os comentaristas e jornais da época comparavam sua assiduidade às sessões do instituto com a participação do monarca na Assembléia, onde só aparecia duas vezes por ano.

Neste contexto é que o projeto de D. Pedro II de criar uma história, uma ciência e uma cultura nacionais começa a se imbricar com a construção de um projeto romântico. O Imperador gostava muito da revista Niterói que um grupo de literatos brasileiros, residentes em Paris, publicara em 1832 e 1838. Considerada um marco no Romantismo brasileiro, apesar de seus dois únicos números, ela tinha como lema “Tudo pelo Brasil e para o Brasil”. E seu ideólogo Domingos José Gonçalves Magalhães ali sugeria a fonte de inspiração para este projeto: a cultura indígena.

Em torno desses ideais, formou-se um grupo do qual participava, além de Gonçalves Magalhães, Manuel Araújo Porto Alegre, Joaquim de Sousa Silva, Joaquim Manuel Macedo, Gonçalves Dias e Adolfo Varnhagen – o fundador da historiografia brasileira. Este passou a ser o grupo mais ligado ao Imperador, ao frequentar o instituto e criar a revista deste órgão. O projeto de mecenato oficial para a ciência, história e cultura brasileira passa a ter um leito para onde corre e que controla seus desvios. Schwarcz enfatiza:

O caráter oficial e respeitável do estabelecimento [o IBGE] auxiliou na aceitação do grupo e do projeto de renovação literária, sobretudo em razão da presença constante do Imperador. Este, por sua vez, embora tenha contribuído decisivamente para o fortalecimento do grupo, patrocinando as diferentes atividades, gerou um certo conformismo palaciano, tolhendo as iniciativas rebeldes ou mais alternativas. Com efeito, tomando a dianteira nesse movimento, o monarca selecionou um grupo e de forma direta afastou outros. Na verdade, é com a entrada de D. Pedro II no IHGB e seu mecenato que o romantismo brasileiro se transforma em projeto oficial, em verdadeiro nacionalismo, e como tal passa a inventariar o que deveriam ser as “originalidades locais” (SCHWARCZ, 1998, p. 135).

Foi com este trem pesado e silencioso que estava sendo colocado em movimento que José de Alencar trombou aos 26 anos. O grupo de filiação romântica, sob o discreto comando do Imperador, havia fundado a revista

Guanabara e formatava as bases de uma literatura brasileira que desse autonomia

ao nosso padrão literário. Para tanto, era fundamental a publicação de A

Confederação dos Tamoios (1856), poema épico cuja publicação fora diretamente

financiado por D. Pedro II. Seria o maior épico nacional, o mito fundante da nação brasileira: poema em dez autos, escrito em versos decassílabos, com personagens que são as figuras históricas de Braz Cubas, João Ramalho, Tibuirila, entre outros.

Na verdade, desde 30 de janeiro de 1855, numa primícia literária, como se dizia então, Gonçalves Magalhães visita o monarca e lê, durante sete horas a sua obra. D. Pedro não esconde o seu entusiasmo e resolve imediatamente mandar imprimir o poema, em edição imperial, na tipográfica de Paula Brito, recomendando- lhe “[...] a mais rica e luxuosa encadernação possível.” (MAGALHÃES JÚNIOR, 1977, p. 63).

Alencar, um nome então praticamente desconhecido na literatura, investe contra o poema numa crítica implacável. Sob o pseudônimo de Ig. (tirado das primeiras letras do nome Iguassu, a heroína do poema) escreve oito cartas publicadas em sua coluna no Diário do Rio.

O ataque de Alencar causa grande pasmo no meio palaciano, conforme Raimundo Magalhães Júnior (1977). D. Pedro organiza então a defesa. Manuel José de Araújo Porto-Alegre, sob o pseudônimo de O Amigo do Poeta, inicia o elogio à

obra de Magalhães. A entrada em cena de Porto-Alegre faz Alencar voltar à carga com duas cartas. Entra em cena um terceiro personagem, o próprio Imperador entra na defesa do protegido sob o disfarce de Outro Amigo do Poeta. Os artigos do Imperador são em número de quatro e fazem parte de um plano: em carta ao Visconde Sapucaí, referindo-se às belezas do livro, informa: “[...] o plano de defesa do poema deve ser outro conforme verá da minha pequena resposta, que espero será publicada amanhã” (apud MAGALHÃES JÚNIOR, 1977, p. 106).

A polêmica se arrasta por seis artigos, de um lado e do outro. D. Pedro II monta então a estratégia de introduzir no debate um elemento de indiscutível poder simbólico: escreve a Alexandre Herculano uma carta pedindo sua opinião, e aguarda resposta, na expectativa de que seja favorável ao poema. Mas é surpreendido pela carta de Herculano, que classifica de inoportuno o gênero escolhido pelo poeta considerando superada a epopéia. D. Pedro volta à carga, desta vez pedindo a opinião de Gonçalves Dias, amigo comum, então em Portugal. O parecer de Gonçalves Dias é também desfavorável, e pior, o poeta maranhense narra um episódio acontecido entre ele e Herculano:

Havendo Herculano folheado, ao acaso, o volume de “Confederação dos Tamoios”, numa roda de confrades, na presença de Gonçalves Dias, se volta, logo em seguida, com vivacidade, e lhe pede: “Mate-me este homem. Matem-me.” Esta franqueza rude e brusca, destruiu toda a ressalva com que Herculano procurará atenuar a opinião desfavorável na missiva do Imperador (apud Magalhães Júnior,1977, p. 108).

O desespero do Monarca e a gravidade da ferida aberta mostram como Alencar, mais do que afrontar o mecenato do Imperador, atingiu a própria concepção do projeto Imperial, fazendo naufragar uma peça que D. Pedro II creditava ser a base do nacionalismo literário, além de servi-lhe como de base de ação política. O mais curioso é que Alencar, como mostrariam vários documentos posteriores, só fizera se vingar daquele que se antecipará a ele neste projeto. O Guarani e depois

Iracema seriam duas obras que pretendiam cumprir a mesma tarefa, tendo como

objetivo marcar um projeto literário de nação.

A reconstrução desse episódio é mais do que a narrativa de um momento de choque entre um literato na busca inconsciente por uma autonomia; ela nos remete

à análise sociológica do mundo social no qual aconteceu. Havia uma tentativa desesperada por parte de Alencar de se constituir ele mesmo no pai fundador do projeto literário da nação. O mesmo acontecia com o Imperador, que por meio de outra pena, visava chegar ao mesmo objetivo. Mas, ao contrário do que o gênero biográfico costuma impor, somente uma análise da gênese do campo literário no qual tenta se erguer o projeto dos dois é capaz de desvendar os limites da não superação por Alencar dessa “porta na cara” que o Imperador lhe daria ao impedi-lo de conquistar um cargo vitalício. Esse mundo à parte, sujeito às suas próprias leis, que Alencar sonhou para si, jamais lhe seria concedido no seu trajeto político por aquele a quem Alencar impedira também de ter um papel fundador no campo literário: o próprio Imperador.

Foi sem dúvida este o princípio de uma terrível tensão que Alencar viveu a vida toda. Enquanto o novo princípio de legitimidade, a constituição de um sistema de consagração autônomo em relação à política, não era reconhecido publicamente; enquanto o sistema literário, ou campo literário, não se impõe sem subordinação ao campo político; o artista estará condenado a uma extraordinária incerteza.

Um literato da elite imperial e o restrito mercado de bens