As anotações de campo, realizadas logo a seguir das entrevistas, permitiram ampliar os achados assim como compreender melhor os contextos das entrevistas.
4.6.1 Anotações a respeito dos contextos habitacionais das entrevistadas.
“Entramos. É tarde e o lugar está cheio de pessoas que passaram o dia na rua e vieram à procura de abrigo. Vejo uma garagem insalubre onde estão estendidas roupas. O lugar é um galpão grande e depois quartos espaçosos repletos de beliches.”
“A casa é bonitinha e próxima, o que transmite segurança. Enquanto espero, fico no meio de uma ‘reunião familiar’. São duas tias-avós implicando com a falha na educação da neta adolescente em relação à bisneta, de um ano e meio. Enquanto ouve os severos comentários, a mãe adolescente parece passiva, não se aproxima da filha. A menininha vai andando por todos os aposentos e lambrecando tudo de banana. E as tias continuam passando sermão.”
O papel do supervisor do abrigo durante as entrevistas
A presença de um representante da instituição em boa parte das entrevistas pode ter inibido a adolescente e a instauração de um contexto facilitador para a entrevista:
“Entra uma assistente social, se senta na minha frente na mesa, ao lado da adolescente. Não pede licença, se impõe e ponto final. Começa a tossir tanto que devo interromper e pedir a ela se não poderia vir uma outra pessoa para acompanhar a entrevista. Entra uma educadora cuja presença fica mais propiciadora de um ”clima” (meio) bom para a entrevista.”
“As entrevistas foram realizadas diante de duas assistentes sociais que permaneceram o tempo todo ”grudadas”. A última entrevistada olha para o chão quase perdendo os seus chinelos. O clima ficou tenso até o final. Quando a coordenadora entra, tenho a sensação que vai proibir alguma coisa. Eu guardo rapidamente o gravador e ela se decide pelo consentimento informado”.
4.6.2 Captação do clima da entrevista.
Além disso, algumas das anotações permitiram captar o ‘clima’ que se estabelecia entre a entrevistada e a entrevistadora, permitindo formular algumas hipóteses a respeito de como a adolescente utilizava o espaço da entrevista: para pensar e refletir num clima da colaboração (comensal), à espera de que a pesquisadora desse as ‘dicas’ para poder ir à direção apontada (simbiose), ou ainda rivalizando com a entrevistadora. A observação do ‘clima’ da entrevista levou a entender a cena e seus bastidores segundo os vínculos que foram se estabelecendo: vínculo comensal, simbiótico ou parasitário (Bion,1970)
“Silêncio. Faz muitas pausas longuíssimas como se não soubesse o que dizer ou esperando que eu pergunte alguma coisa”.(caso B)
Não olha para o pesquisador, este se torna um mero espectador.
“Ela fala olhando muito para a câmara, quase não me olha. Parece que não estou ali!”.(caso C)
O meio parece de rivalidade: “quando eu me apresento, H. fica em tom inquisitório me perguntando o que eu faço lá, quem sou eu e o que farei com os dados das entrevistas. Sinto-me quase entrevistada por ela. Demoro para estabelecer um clima de colaboração.”
Ser convencido de algo: aqui a entrevistadora é o “cara” que deve comprar a sua história, parece até uma pregação: “Cara, eu posso tá na pior situação, mas vender meu corpo e passar minha filha para as drogas eu não passo! É tipo assim: você tá tendo uma responsabilidade muito forte e você está gerando uma vida dentro de si. Vida que ninguém troca, não vende. Tem que dar muito carinho, ter muita paciência. Tem de pensar no seu dia a dia, o que você vai querer dar para o seu filho,“cara”. Pensar tudo isto. Quando eu parei, fui para os abrigos fazer cursos, estudar (ela vai falando como se estivesse me ensinando, com importância). (caso D)
“Enquanto eu for de menor, tem que trabalhar, você tem que conseguir um emprego, você que é de menor, você tem que conseguir um emprego, então não tem emprego tudo. Quando você consegue, nossa! Legal pra nós”.(caso S)
Notação: o entrevistador nota algo sem sentido no discurso e pede esclarecimento, quase ‘chamando’ para a realidade.
“Quando eu usei droga até meus quatro anos. E – Como assim? Quatro anos de idade? D – Não, eu usava droga até quatro anos – dos sete aos onze anos. Com onze anos eu parei de usar drogas. (caso D)
“Interessante, porque eu estava perguntando dos filhos da tua mãe e você respondeu de você” (caso G).
Aqui o vínculo é o pensar junto, vai se estabelecendo uma colaboração, como uma construção a dois.
“Deu para entender a minha dúvida? P:- E você? H:- Ele se chama XYZ. P: -E no teu registro está o quê? Qual o nome do pai? H:”WYZ. No meu registro tá WYZ. P:- Mas o YZ é do seu pai também! H:- É dos dois. Do que sou registrada e do outro. Mais por quê? Se ele é o meu pai, eu teria que ter MYZ.”(caso H)”.
4.6.3 Dados não verbais propriamente ditos.
Além do ‘clima’ da entrevista dado pela interação com os profissionais e com a própria entrevistada, as anotações de campo contribuíram para fornecer dados não verbais sobre a adolescente.
“Chego lá, tem uma ‘moleca’ me esperando, seu corpo jogado no sofá, lenço na cabeça branco e preto com caveirinhas e uma roupa bem larga, o que esconde sua barriga e o fato de ser mulher. Parece um cantor de Rape: ”oi cara, o que há!?”
4.6.4 Interação da mãe com a criança.
Como foi permitida a filmagem em apenas oito casos, não foi possível padronizar os dados da interação mãe-bebê a partir deste instrumento. Portanto, as filmagens assim como as anotações de campo foram consideradas como dados da observação do pesquisador. Estes dados foram relevantes no sentido de afinar a observação do conteúdo das entrevistas assim como a sensibilidade do observador quanto à realidade a ser conhecida.
“O bebê explora o rosto da mãe, fica muito atento. Quando o conteúdo da entrevista vai ficando mais pesado ele se aninha no colo da mãe e dorme”.
“Esta entrevista foi o tempo todo entrecortada pela interação da mãe com o bebê. Ela fazia pausas longuíssimas para brincar e beijar o filho. Assim, se estabeleceu um ritmo na entrevista ditado por estas pausas: ela esperava que eu lhe perguntasse, respondia e se voltava para o bebê.”
“O menino-bebê coloca uma bala vermelha embrulhada na boca. Depois de alguns minutos F., abriu a embalagem e está comendo a bala do filho. Pergunto a ela se está com fome, ela responde reticente: “Não, não sei...” Tenho a sensação que ela colocou automaticamente a bala na boca, parece que não conseguir decodificar fome ou saciedade, frio de calor.