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Em o “Seminário da Carta Roubada” (2011), Jacques Lacan demonstra a simbologia do significante e sua importância para a psicanálise e encerra a conferência afirmando “que uma carta chega sempre à sua destinação” (LACAN, 2011, p. 48). Em “O jogador”, Dostoiévski não refere à carta, o significante é a palavra telegrama, mas igualmente confirma que a correspondência chega sempre ao seu destino. Para facilitar a nossa análise, transcreveremos passagens que remetem ao telegrama, numerando-as ordinariamente:
1. Comecei a interrogá-la sobre o que tinha ocorrido na minha ausência.
– Nada mais além de duas notícias que se receberam de Petersburgo: em primeiro lugar, que a vovó estava muito mal, e, dois dias depois, que ela, provavelmente, já falecera. Essa notícia procedia de Timofiéi Pietróvitch – acrescentou Polina – e ele é um homem preciso. Estamos aguardando a notícia derradeira, definitiva.
– Quer dizer que estão todos à espera, aqui? – perguntei.
– Naturalmente: todos e tudo; durante um semestre foi esta a única esperança.
2. Falou-se muito ontem, em nosso grupo, de um telegrama, enviado a Petersburgo há quatro dias, e que não teve resposta. O general está visivelmente inquieto e pensativo. Trata-se, naturalmente, da avó. Também o francês anda agitado. Ontem, por exemplo, após o jantar, passaram muito tempo numa conversa séria.
(DOSTOIÉVSKI, 2004, p. 30)
3. – Bem, paizinho, por que ficas aí na minha frente, de olhos arregalados?! – continuou a gritar comigo a avó. – Não sabes vir cumprimentar uma pessoa, será possível? Ou ficaste orgulhoso e não queres? Ou, talvez, não me reconheceste? Repara, Potápitch – disse ela dirigindo-se a um velhinho grisalho de fraque e gravata branca, dono de uma calva rósea, seu mordomo, que a acompanhara na viagem. – Repara, não reconhece! Já me enterraram! Mandavam telegrama atrás de telegrama: já morreu ou não morreu ainda? Bem que eu sei de tudo! Mas, podes ver, estou bem viva!
(DOSTOIÉVSKI, 2004, p. 88)
4. – Bem, aqui estou eu, em lugar do telegrama! – explodiu, finalmente, a avó, rompendo o silêncio. – Então, não me esperavam?
– Antonida Vassílievna... titia... mas, de que modo... – murmurou o infeliz do general. Se a avó passasse mais alguns segundos sem falar, ele teria, provavelmente, um
ataque.
(DOSTOIÉVSKI, 2004, p. 93)
5. Eu parecia inebriado, ao sair do apartamento da avó. Esforçava-me em imaginar que seria de toda a nossa gente e que rumo tomaríamos acontecimentos. Via claramente que eles (e, sobretudo, o general) ainda não tiveram tempo de voltar a si, inclusive da primeira impressão. O aparecimento da avó, em lugar do telegrama anunciando-lhe a morte (e, por conseguinte, a herança), esperado a cada momento, esfacelara a tal ponto o sistema dos projetos e decisões por eles tomados, que era com perplexidade completa e verdadeiro estupor que encaravam os ulteriores feitos da avó na roleta.
(DOSTOIÉVSKI, 2004, p. 123)
O telegrama, em “O jogador”, é um significante central a ser decifrado. O envio da resposta não houve e o conteúdo permaneceu em segredo, “portado pelo sabido” (DERRIDA, 2011, p. 62), diferente da carta roubada no conto de Edgar Allan Poe, há significante e significado no telegrama de “O jogador”. E isso fica explícito já, no exemplo 1, quando Polina honestamente refere-se à notícia derradeira que está por vir como a única esperança: a informação sobre o falecimento da avó. Não há dúvida de que morte, neste
caso, é sinônimo de herança, como também não é possível negar que o telegrama passa a ser o símbolo da esperança de toda a família ao longo de grande parte da narrativa. No exemplo 2, permanece a esperança, apesar da apreensão devido à ausência de resposta ao telegrama expedido para Petersburgo, com destinatária a avó. Nos exemplos 3 e 4, a avó passa a ser a emissora da mensagem, não mais a receptora. No espaço da resposta desejada da eventual receptora, aparece a própria avó, que textualmente diz estar em lugar do telegrama, provocando a substituição do sentimento de esperança dos familiares pelo sentimento, no mínimo, de surpresa. Neste momento, significante e significado tornam-se um só signo: a avó, que é o telegrama e que é o próprio conteúdo da resposta.
Compreendida a passagem da esperança para a desesperança – transição mediada pela avó-telegrama – é preciso constatar a perda que se processou ao general. A impossibilidade da herança retirou dele o protagonismo familiar e social, não haveria mais como liderar a família desde então. A perda sofrida pelo general é o prepúcio extirpado que, nesta circunstância, no lugar de elevá-lo à aliança com deus, o faz descer ao inferno do subsolo. Sofrida a circuncisão, o general que sonhara casar-se com Mademoiselle Blanche, agora, iniciava um longo processo que, primeiro, revelará a mediocridade da aristocracia russa, e, segundo, a mesquinhez do egoísta General que, cada vez mais, se aproxima da vítima expiatória que será colhida pelo destino. Depois de sofrer pelo abandono de Mademoiselle Blanche, ele voltou a procurá-la em Paris. As informações do narrador dão conta que, em seguida, ele “passou o mês inteiro numa espécie de inconsciente beatitude (...). Era-lhe absolutamente impossível raciocinar ou mesmo participar de qualquer conversa um pouco mais séria” (DOSTOIÉVSKI, 2004, p. 195). Embora, mais tarde, a avó, de fato, viesse a falecer, e com isso renovar o interesse de Mademoiselle Blanche no casamento diante de um telegrama-telegrama, agora de Mister Astley, ainda assim, próximo da demência, o general nunca iria recuperar a sua condição anterior.
O esperado telegrama (a esperança, a notícia da morte e a herança) não foi enviado; foi extirpado e isso se confirma pelo signo da avó.
Empregamos aqui a palavra signo no sentido saussuriano6, considerando, então, a teoria linguística da dupla face. O telegrama esperado, em todo o romance, é tão somente um desejo que não se realiza, permanecendo um significante, que não diminui em importância para a compreensão da obra; só não carrega consigo, e isso é deliberado por Dostoiévski, o significado. Logo, Derrida nos auxilia quando recordamos que esse “desejo de literatura é a circuncisão” (DERRIDA, 2011, p. 63). O telegrama, que é um significante, traz consigo o significado “morte da avó” não foi enviado; extirpado, com ele, foi o desejo do general de ter a herança da avó. Finda a esperança de recebê-la, diante da avó-telegrama, o general sente-se circuncidado e assimila como perda irremediável do desejo, inclusive, do casamento, o que pode também significar, para além da extirpação do prepúcio, a própria impossibilidade do pênis e de seu poder. O telegrama que não foi enviado não é sequer significante, tão pouco carregará em si o significado desejado.