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O entusiasmo (a palavra vem do grego e significa possuído por Deus, Theos) se contrapõe à melancolia como um antídoto espiritual. Ele era frequentemente associado à religião, manifestando-se por visões e revelação.

Resta saber se o entusiasmo não seria uma forma de doença mental, uma outra faceta ou manifestação da própria melancolia. Sobre isso, afirma Jean Riolan (SCLIAR, 2003, p. 107) “os entusiastas estavam sob o efeito de ‘vapores melancólicos’”.

Também a festa era um antídoto para a melancolia do cotidiano. As festividades ligadas ou não à Igreja se multiplicaram no final do medievo e início da modernidade. Época em que o Carnaval ganha impulso, embora inicialmente houvesse muita controvérsia.

O riso: ninguém menos que Aristóteles observara que o homem é o único animal que ri. É através do riso que certos aspectos do mundo podem ser captados, muitos acreditavam no poder medicinal do riso, capaz de neutralizar ou minimizar os efeitos negativos da bile negra.

Em 1560, o doutor Laurens Joubert, lançou o Traité du Ris onde abordava a essência do riso, suas causas e seus maravilhosos efeitos no tratamento da melancolia. Outros estudiosos também endossavam o estudo, como: Descartes e Demócrito.

O riso terapêutico: diante de uma situação risível, os pulmões subitamente se inflam; o ar neles contidos é forçado para o exterior, ao passar pela traquéia produz o som característico. Mas, para que isto ocorra, é preciso, em primeiro lugar, que o sangue vindo do baço seja impelido até o coração pela surpresa da admiração. Esta é a fórmula: do baço, sede da melancolia, o sangue tem de ir para o coração, sede da emoção, por isso o riso é terapêutico. Rir é o melhor remédio.

Quando o riso vem sob a forma de gargalhada, ele sacode a pessoa, ou seja, desloca o melancólico de sua irritante passividade e mobiliza-o à ação.

Provavelmente, o maior contra-depressor seja a utopia, que não serviria a outra coisa senão afugentar a própria melancolia. Neutralizar a melancolia era um propósito expresso nos autores utópicos, que por sua vez são obrigados a aspirar a um mundo melhor e a criá-lo em sua mesa de trabalho como fruto do intelecto.

A possibilidade de um paraíso terrestre inspirava muitos autores na construção de ilhas imaginárias, como é o caso de São Brandão, ou sociedades perfeitas descritas em obras como a Cidade do Sol, de Tomaso Campanella e A nova Atlântida, de Francis Bacon (1627). O Brasil não poderia ficar de fora. São muitas as tribos indígenas, frutas afrodisíacas e lugares

intocáveis que surpreendiam e encantavam os europeus. Sem falar no clima ensolarado, matas densas e virgens e rios caudalosos de água pura e fresca.

De acordo com a idéia de um lugar adâmico ou utópico, surgem explicações geográficas para a melancolia. A África e a América do Sul são continentes triangulares: mais largos na região do Equador e vão se afinando na direção ao Pólo Sul, do frio. Já a Europa e a América do Norte são retangulares, mesmo aproximando-se do Pólo Norte, a largura não diminui. Desta forma, mais terra é exposta ao frio do que no hemisfério sul.

Há uma bipolaridade geográfica correspondente a uma bipolaridade histórica e que conduz a uma bipolaridade emocional. O frio é sinônimo de melancolia, de culpa e de consciência de pecado, sobre isso afirma Oswald de Andrade (SCLIAR, 2003, p. 130):

Trazer de volta o Paraíso é o ideal messiânico – e, messiânico foi, sob certos aspectos, o descobrimento, “uma reviravolta radical na história cultural européia, comparável somente com a refutação da representação geocêntrica do cosmo pela astronomia renascentista”. Nesse paraíso, abolidos estariam o autocontrole dos instintos e a culpa. Sem culpa, não há melancolia, não há sofrimento.

Entretanto, na fantasia dos europeus, o Novo Mundo era ambivalente. Por um lado, havia os perigos: monstros, canibais, e, por outro, a possibilidade de riquezas infinitas: ouro, prata, pedras preciosas.

Ainda em relação aos antídotos da melancolia que aumentam a lista de prazeres temos o próprio ato de comer – os sabores exóticos. A gula e a mesa farta ocupavam lugar de destaque. As quatro refeições diárias contrastavam com as duas que eram hábito na Idade Média.

As especiarias são um caso à parte e também eram consideradas substâncias afrodisíacas, o que remete a outro uso de grande importância: o de estímulo psicológico e sexual. Elas vinham do misterioso Oriente e do Novo Mundo, supostamente paradisíaco. De acordo com esse ponto de vista, não era de se admirar que certos alimentos fossem considerados melancólicos, como a carne de coelho e certos cereais – alimentos frios e secos. Em contrapartida, as especiarias eram quentes e estremeciam o paladar representando um antídoto.

À semelhança do que acontecia com as especiarias, acreditava-se que a doçura quente e úmida do açúcar neutralizada o humor seco e frio do melancólico. Sem falar no uso do café:

estimula o triste, combate a tristeza, a melancolia, a depressão. Inicialmente o uso desta bebida supunha um ritual, um cenário apropriado, como as casas de café onde se discutia política, negócios, cultura, etc.

Outro elemento mítico contra a melancolia, diz respeito ao evento sofrido por Dom Sebastião, que desapareceu misteriosamente na batalha de Alcácer Quibir (1578), contra os mouros. Desde o início do século XV, o povo português nutre a esperança de que um dia o rei voltaria para devolver a Portugal a antiga grandeza. Essa crença ficou conhecida como um movimento messiânico: o Sebastianismo.

A esperança passou a funcionar como um elemento mítico, antimelancólico, na tradição portuguesa. Bem mais tarde, outro movimento messiânico se instaurava, mas desta vez no Brasil, tratava-se de Canudos que contava com o cearense Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como Antônio Conselheiro, líder religioso e político.

Ele pregava o retorno do messias. Esta crença moveu multidões que se instalaram e passaram a viver em Canudos.