FIGURA 3 - Igreja do Seminário de Belém da Cachoeira
FONTE: VALLADARES, 1990, vol. 4, p. 182. apud HOLLER, 2006, p. 45
Para Wrege (1993, p.158), na Companhia de Jesus e como mostra a obra de Serafim Leite, o termo seminário assumiu significados diferentes: poderia ser noviciado (a formação completa dos padres) ou uma instituição encarregada de exercer a doutrinação dos índios.
O Seminário de Belém da Cachoeira foi fundado em 1678 para o caráter formativo, não para o sacerdócio. Era para ensinar os alunos, provenientes do sertão, as primeiras letras, latim e música, para que estes fizessem parte da Companhia de Jesus. Mas, o rei de Portugal não quis ajudar financeiramente, um seminário que se destinava às pessoas pobres, deixando para os nobres baianos essa tarefa. Esses eram fazendeiros e funcionários públicos, que não aderiram à tarefa, pois para eles era melhor sustentar os próprios filhos no seminário a resolver o problema da falta de padres e professores.
Como o seminário não podia se limitar ao tipo de pagamento efetuado pelos pais dos alunos, compreendi da Obra de Serafim Leite que a alternativa de haver benfeitores foi muito bem aceita pelos padres, que assumiam a função de cuidarem das pessoas doadoras no findar de suas vidas, em quartos existentes no Seminário, pois não tinha o idoso da Colônia quaisquer cuidados da parte do rei de Portugal. Assim, sendo geralmente fazendeiros, que possuíam filhos em idade escolar, doavam algumas de suas propriedades aos jesuítas, e, como conseqüência, recebiam a respectiva assistência. Em se tratando de benfeitores, com filhos estudando no Seminário, eles garantiam o sustento dos próprios filhos. No que se referia aos pobres, o benfeitor não tendo filhos, elegia o pobre a quem conferiria o sustento completo. Serafim Leite não fornece dados acerca da trajetória escolar desses alunos pobres para sabermos até que grau educacional eles chegavam e se o fato de terem estudado lhes garantia uma vida financeira promissora. (...) Relevo que o Seminário permaneceu com o intuito inicial de ser casa de formação, de primeiras letras e Humanidades, porém, com destinação marcadamente elitista, pois quem era pobre tinha de conseguir manutenção externa, por ser Seminário interno, com moradia no local e exigindo dedicação exclusiva dos alunos (WREGE, 1993, p.163-164).
Um fato interessante era a “abertura moral” dos jesuítas sobre o casamento de tio com sobrinha; no entanto, é claro que essa abertura só existia se eles doassem propriedades ao Seminário, mediante a concessão do Pe. Geral.
Para amainar uma certa culpa desses padres e do Pe.Geral rezava-se o exagero de mil missas pelo casamento impróprio, mas não se deixava de ganhar as terras! Em termos numéricos elas representavam cinco fazendas de gado, perto do Seminário, além de nelas se produzir gêneros alimentícios. Acrescento à perspicácia dos padres em angariar verbas, a audácia de se colocarem à vista fotos dos benfeitores do Seminário para serem apreciadas e reconhecidas (WREGE, 1993, p.164).
Nesse Seminário, além dos alunos ricos e dos pobres que dependiam da ajuda financeira, ainda havia aqueles que não conseguiam estudar por causa da falta de escolas em suas ordens religiosas.
Era condição imprescindível para o aluno vir a ser jesuíta, e para ser religioso, no caso dessas outras ordens religiosas, fazer o curso elementar e o de Humanidades em seminário de tal estilo; no entanto, esta instituição não era obrigatoriamente direcionada à formação
sacerdotal; daí a freqüência de alunos desejosos de cultura geral, para se tornarem, no futuro, profissionais liberais ou políticos (WREGE, 1993, p.164).
Um regimento interno diferenciava esse Seminário dos demais. Sobre esse Regulamento versava que a admissão dos alunos seria:
[...] através de uma seleção rigorosa excluindo judeus, índios, negros, mulatos e mestiços e os que tinham mais de treze anos de idade, restando a uma parte de brancos a freqüência ao Seminário porque não poderia se formar de nascidos na Bahia, nem de moradores, salvo algumas exceções, em função de tal instituição ter existido para alunos de toda a Colônia, sobretudo, aos do sertão baiano. Critérios com o conhecimento e perseverança intelectual não aparecem no Regulamento, pois o caráter racista era exclusivo na admissão (WREGE, 1993, p.165).
E a seletividade continua através de exigências aos alunos internos e externos que não eram fáceis de serem cumpridas, principalmente, por aqueles que não iam seguir o sacerdócio. A castidade era uma dessas exigências e os jesuítas não podiam abrir uma exceção para os alunos externos, pois, com certeza, os outros alunos também não iriam respeitá-la. E quem não respeitava essa exigência era expulso. Outra exigência era quanto à vaidade, alunos deveriam usar uma roupa padronizada. “Não bastando a limitação da vaidade e a inclusão da castidade, com o objetivo de criar-se o homem total, exigia-se que os alunos em uma parte do dia exercessem, aliado aos estudos, o oficio de sacristão e porteiro além de arrumar os quartos diariamente” (WREGE, 1993, p.166).
Na Obra de Serafim Leite sobre as atividades diárias dos alunos no Seminário, Wrege (1993, p.167), detectou que os alunos não executavam trabalho manual, ou seja, os serviços práticos não apareciam na rotina dos alunos. Esta era bem determinada.
Em resumo, oito horas de sono diário eram permitidas aos alunos, não mais do que isto. Ao acordar, eles rezavam e assistiam à missa, estudavam em seus quartos e tinham aulas; depois podiam conversar,
mas, logo, iam almoçar, repousavam uma hora e, posteriormente, rezavam e estudavam em seus quartos até às três horas, com o detalhe de não poderem se comunicar. Às três horas iam para a aula, tinham daí um horário rígido e estabelecido para se comunicarem e, depois, aprendiam música. Terminada a aula de música, os alunos ficavam prontos para a recreação programada com jogos e, após recebiam o lanche da tarde. Depois do lanche, os jesuítas encaminhavam os alunos para o culto realizado através da reza da Ave Maria, sob a forma de ladainha. Aí sim iam jantar, seguindo com repouso, ouviam uma mensagem religiosa e, de acordo com esta lição encaminhavam- se para a igreja do Seminário, onde examinavam as suas consciências, ou seja, detectavam pecados pessoais e, assim, rezavam para dormir, sem rumores de conversas, fatalmente perceptíveis quando um aluno avançava em quarto alheio, sendo um ato terminantemente proibido (WREGE,1993, p.167).