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2.1 Private Equity Eierskap

2.1.2 Debatt: Slakter eller frelser?

A. F. [Aníbal Fernandes]. Através dos livros /

Macunaíma – Mário de Andrade – S. Paulo.

Diário de Pernambuco, Recife, 18 abr. 19291. [IEB-USP – MA-MP].

Macunaíma não chega a ser bem um romance. É uma história de mil e uma noites, uma fantasia e um símbolo. Nessa obra puramente subjetiva, o autor faz o que quer e entende. Os seus heróis movem-se num mundo que parece que é o nosso mas de fato é puramente imaginário. Por isso eles nascem, vivem, de- saparecem e revivem sem dar contas a ninguém. Tudo ali é do domínio da fanta- sia e do impossível. A realidade é apenas um pretexto para formar o ambiente. Como Macunaíma é o “herói da nossa gente”, fala, e com ele os demais persona- gens do livro, uma língua que o autor imagina talvez que é o brasileiro, isto é, o português transplantado para o Brasil e modificado com as reações locais e pela fusão das raças que entraram na formação do tipo nacional. Apesar da falta de um glossário que facilitaria aos leitores menos iniciados na maneira de falar de seus tipos, o livro é divertido. E acaba-se com saudades de Macunaíma quando o herói não acha mais graças nesta terra e cisma se deve ir morar no céu ou na ilha de Marajó...

“Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofrimento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver”2. E Macunaíma um dia se resolve subir “pro céu”. A ascensão de Macunaí- ma é rica de episódios imprevistos. E para dar uma impressão da maneira do au- tor, nada como transcrever literalmente toda essa página em que o sr. Mário de Andrade revela toda a sua técnica estranha e bizarra:

“Lá chegado bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e pergun- tou:

— Quê que quer, saci?

1

Identificação de periódico e data de publicação por anotação de Mário de Andrade no recorte que se encontra no álbum R. 29 – Recortes de Mário de Andrade – IEB-USP. Identificação de auto- ria por anotação de Ascenso Ferreira, que remeteu o recorte a Mário.

2

Neste Corpus, as citações de Macunaíma serão sempre corrigidas, quando for necessário, con- forme a primeira edição da rapsódia. Neste caso, de acordo com a p. 276. No jornal, lê-se: “Tu- do o que fora a existência dele apesar de tantos casos, tanta brincadeira, tanta ilusão, tanto so- frimento, tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver.”

— Abenção minha madrinha, me dá pão com farinha?

Então Capei reparou que não era saci não, era Macunaíma o herói3. Mas não quis dar pensão pra ele, se lembrando do fedor antigo do herói. Macunaíma enfezou. Deu uma porção de munhecaços na cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.

Então Macunaíma foi bater na casa de Caiuanogue, a estrela-da-manhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume da noite e a capenguice do herói, perguntou:

— Que4 é que quer, saci?

Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o herói e nem esperou resposta se lembrando que ele cheirava muito fedido.5

— Vá tomar banho! falou fechando a janelinha. Macunaíma tornou a enfezar e gritou:6

— Vem pra rua, cafajeste!

Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou tremendo espiando pelo bu- raco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão pecurrucha e tremeli- ca tanto.7

Então Macunaíma foi bater na casa de Pauí-Pódole, o Pai do Mutum. Pauí- Pódole gostava muito dele porque Macunaíma o defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro. Mas exclamou:

— Ah, herói, tarde piaste! Era uma honra grande pra8 mim receber no meu mosqueiro um descendente de jabuti, raça primeira de todas... No princípio era só o Jabuti Grande que existia na vida... Foi ele que no silêncio da noite tirou da bar- riga um indivíduo e sua cunhã. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as primei- ras gentes da vossa tribo... Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, herói! Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa. Sinto muito mas chorar não posso!

— Que pena, sinh’Helena! que o herói exclamou.

3

No jornal, lê-se “(...) não era saci, era Macunaíma”. 4

No jornal, lê-se “Quê”. 5

No jornal, este parágrafo não é destacado como tal, constituindo extensão do anterior. 6

Idem. 7

Idem. 8

Então Pauí-Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o esten- derete dele, galo galinha gaiola revólver relógio, numa constelação nova. É a constelação da Ursa Maior.9

Dizem que um professor naturalmente alemão andou falando por aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é o saci... Não é não! Saci inda10 pára neste mundo espalhando fogueira e trançando crina de bagual... A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu.”

E termina a história. Depois tudo se transforma num silêncio e numa soli- dão de deserto. A tribo Tapanhumas se acaba, e ninguém a não ser o autor ficou para contar as frases e os feitos do herói.

“Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na vio- linha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as fra- ses e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente”.

Não se pode dizer que Macunaíma não teve sorte. O sr. Mário de Andrade desempenhou-se da tarefa com um talento que não se encontra pelas esquinas, a dar com o pau. O que é verdadeiramente espantoso é que ele tenha logrado man- ter o mesmo tom do princípio até o fim. Foi um exercício, uma ginástica verbal em que o sr. Mário de Andrade está só. Mesmo porque essa história de língua brasi- leira é conversa: não há língua brasileira, por mais que o queiram os nacionalistas a todo o pano. É claro que não se fala aqui como o alfacinha e o tripeiro e Deus nos livre que isso acontecesse. Mas isso de inverter a sintaxe da língua por sim- ples corruptelas e querer fazer passar essa algaravia como um idioma à11 parte, isso é que não. Nem mesmo o sr. Mário de Andrade com todo o seu talento pes- soal e o seu Macunaíma que é uma esplêndida fantasia o conseguirá.

A. F. [ANÍBAL FERNANDES]

9 No jornal, este parágrafo não é destacado como tal, constituindo extensão do anterior. 10 No jornal, lê-se “Saci pára neste mundo (...)”.

Moquém