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Debatt om rådsorganisasjonen

Para a realização da análise a ser desenvolvida nesta pesquisa, será considerada, dentre outros fatores, a codificação dos planos figura e fundo na narrativa pelas formas imperfectivas de passado, calcada na proposta funcionalista de Hopper e Thompson (1980).

De acordo com a perspectiva funcionalista, autores como Givón defendem que o uso da língua se dá em contextos de interação não homogêneos, com vista a um propósito comunicativo. Assim é inegável que, na composição e na estruturação do pensamento humano, o processo de hierarquização das informações acontece, estabelecendo-se os graus do que se pretende como central ou periférico, isto é, a seleção feita pelos falantes, quando de uma situação comunicativa, das informações que são essenciais (figura) e daquelas que são acessórias (fundo). Pois para nos comunicar organizamos nosso discurso de forma a garantir que atinjamos perfeitamente nossos propósitos comunicativos.

Hopper e Thompson (1980) relacionaram e diferenciaram figura e fundo na fala dos indivíduos, a partir dos conceitos de figura e fundo oriundos da Gestalt, na Psicologia, que aponta o processo de formação de figura-fundo como sendo dinâmico, no qual figura depende do fundo sobre o qual se apoia, e fundo fornece a sustentação para que figura possa aparecer, determinando-a. Para tanto, observaram que os falantes tendem a organizar seus discursos, considerando, adequadamente, as informações centrais (figura), aquelas que devem

apresentar destaque na sua fala, a fim de que atinjam seus propósitos comunicativos, assim como também demarcam o que são detalhes, descrições, ou seja, informações periféricas (fundo), que darão sustentação ao seu propósito na interação verbal. Ou seja, os falantes organizam seu discurso dispondo as informações de forma que seu interlocutor perceba a finalidade das colocações.

Na narrativa, as informações centrais correspondem à parte do texto que apresenta os eventos ordenados numa sequência temporal, fazendo com que o mundo narrado avance. Trata-se, geralmente, de eventos pontuais, afirmativos, concluídos, realis, desencadeados por um agente, e que se caracterizam como a comunicação central, dada sua sequencialidade necessária (CUNHA; COSTA; CEZARIO, 2003, p. 39). Já as informações periféricas referem-se ao fundo, uma vez que se apresentam como descrições de estados, exposições do cenário e de detalhes, explicações, comentários avaliativos. O fundo corresponde à parte do texto na qual são expressas as informações de suporte às informações de figura. É o fundo que dá as características ao evento, funcionando como um cenário para que a ação ocorra, mas que não faz a história avançar (FREITAG, 2007).

Segundo Hopper e Thompson (1980), a composição de figura e fundo caracteriza, pois, o relevo discursivo, que é determinado por traços linguísticos, dentre eles a transitividade, enunciando que: orações de figura apresentam traços de alta transitividade, tais como: dois ou mais participantes; + ação; + télico; + pontual; + volitivo; afirmativo; + real; + agente; objeto + individuado e + afetado; enquanto que orações de fundo têm traços de baixa transitividade, opostos aos supracitados.

Dessa forma, ao associar o relevo discursivo ao aspecto verbal, Hopper e Thompson (1980) consideram, pois, o aspecto perfectivo como sendo de alta transitividade, ou seja, configurando-se como figura; por outro lado, o aspecto imperfectivo é apontado como sendo de baixa transitividade, codificando orações de fundo, consideração essa respaldada pelo fato de que, em narrativas tradicionais, há, predominantemente, o uso de formas verbais imperfectivas de passado como fundo (detalhes e descrições) e de formas perfectivas constituindo a ordenação dos fatos narrados, conferindo-lhes progressão.

Assim, a escolha entre os aspectos perfectivo e imperfectivo está relacionada ao relevo discursivo dado pelo falante, na medida em que busca destacar ou apenas caracterizar eventos numa narrativa. Caso o falante do Português tencione relevar uma situação passada, dispõe prototipicamente de uma forma verbal específica, o pretérito perfeito, que codifica aspecto perfectivo, então figura; mas caso busque apenas enfatizar os detalhes, o cenário no qual aconteceram os fatos, tal falante dispõe, prototipicamente, das formas verbais pretérito

imperfeito e perífrases imperfectivas de passado, que expressam aspecto imperfectivo, então fundo.

Contudo, Pontes (2012), a partir de Givón (1984) e do resultado de sua pesquisa, diz que, no discurso, alguns elementos da descrição podem ser considerados como a essência da história, o esqueleto, a linha principal do episódio/descrição/comunicação, constituindo-se, portanto, como figura do discurso. Já os elementos satélites, que ficam na margem, são os apoios do episódio/descrição/comunicação, sendo, portanto, o fundo do discurso, correspondente ao preenchimento das lacunas, às digressões. Tal codificação pode ser largamente percebida em narrativas de memórias literárias (gênero do corpus desta pesquisa), que se dão, basicamente, através de sequências descritivas de ações, costumes, etc. Nesse gênero, tanto a progressão textual como a caracterização dos elementos são expressas, geralmente, pelas formas imperfectivas de passado. Na narrativa de memórias literárias são poucas as ocorrências de formas perfectivas de passado.

No que se refere à prototipia do relevo discursivo figura e fundo, Pontes (2012) também aponta que, para Hopper, as orações prototípicas de figura caracterizam-se pelos seguintes traços: sequência cronológica bem demarcada; eventos reais e dinâmicos, codificação morfossintática de orações principais, absolutas ou coordenadas; formas verbais perfectivas. Já as orações prototípicas de fundo apresentam-se caracterizadas pelos seguintes traços: eventos simultâneos e não necessariamente completos e reais; situações estáticas, descritivas e necessárias para compreensão de atitudes (subjetividade); trocas frequentes de sujeito; formas verbais não-perfectivas; estrutura sintática subordinada, além de também poderem ser codificadas por orações coordenadas, absolutas ou principais.

Tendo em vista que os planos textual-discursivos das narrativas não são categorias discretas, de fácil distinção, muitos estudiosos buscaram a gradação existente no que se refere aos graus de “figuricidade” e de “fundidade”, tais como Silveira (1997), que, ao estudar figura e fundo em narrativas, propõe uma revisão do conceito Fundo, proposto por Hopper & Thompsom (1980).

Segundo a autora, a funções das cláusulas-fundo são muito abrangentes e poderiam ser melhor especificadas. Dessa forma, ela propõe uma hierarquia de fundidade. Essa hierarquia é estruturada em uma gradiente que vai da categoria 1, de figura (nível mais relevante) até a categoria 6, de cláusula-fundo 5, com menor grau de relevância. Na verdade, o plano narrativo fundo é que sofre essa gradação em níveis, uns mais próximos de figura, sendo mais objetivos, icônicos, e outros mais distantes, configurando-se, absolutamente,

como informações periféricas e secundárias, conforme apresentado no quadro a seguir, proposto por Silva & Silva (2011), com vistas a sintetizar os cinco de níveis de fundo.

Quadro 6 – Hierarquia de fundidade.

Categoria Grau de objetividade (do mais

para o menos icônico) Como são

Tipo de cláusulas-fundo (relação funcional entre as cláusulas)

Fundo 1 Mais próximo do real, mais concreto. Apresentam informações concretas sobre o evento. • Apresentação do evento; • Apresentação do cenário; • Apresentação dos participantes;

• Apresentação da fala dos participantes.

Fundo 2 Ainda mais próximo do real.

Através de circunstancias, especificam o âmbito em que os fatos acontecem. • Especificação do tempo; • Especificação de modo; • Especificação de finalidade. Fundo 3

Próximo da estrutura do texto (mais abstrato e elaborado linguisticamente) Especificam vocábulos da cláusula anterior. • Especificação do referente; • Especificação de processo/ação.

Fundo 4 Próximo da interpretação do falante ao assistir ao evento

Especificam relações inferidas dos fatos narrados. • Especificação de causa; • Especificação de consequência; • Especificação de adversidade.

Fundo 5 Próximo do ato de narração.

Apresentam interferências do falante no evento que está narrando. • Apresentação de opinião; • Apresentação de resumo; • Apresentação de dúvida; • Apresentação de conclusão. • Apresentação de canal. Fonte: Silva e Silva (2011, p. 121).

Chedier (2007) simplificou a proposta de Silveira (1997), agrupando as seis categorias em apenas três. Para tanto, manteve a categoria I - de figura, e reorganizou as demais categorias de fundo em apenas duas, sistematizado por Pontes (2012, p. 104) como:

Fundo 1 – apresenta cláusulas-fundo mais próximas das cláusulas-figura; apresenta ou resume o que vai ser relatado; apresenta o cenário, os participantes e a fala dos personagens. Há também cláusulas-fundo que especificam o modo, a finalidade ou o tempo (são as cláusulas adverbiais modais, finais e temporais). Fundo 2: contém cláusulas-fundo que especificam um referente ou processo (são as cláusulas adjetivas), que expressam inferências, apontando causa, consequência ou adversidade (são cláusulas adverbiais causais, consecutivas ou concessivas; também as coordenadas adversativas). Pode conter também cláusulas-fundo que expressam interferências do falante ou intervenções do locutor, opiniões, dúvidas e conclusões.

Dessa forma, apesar de termos ciência dos níveis de gradação entre fatos de figura e de fundo, e de outras pesquisas mostrarem relevância no tratamento escalar, optamos por não trabalhar com a hierarquia de fundidade proposta por Silva e Silva (2011), tendo em vista que não pretendemos com esta análise identificar quais os níveis de fundidade codificados pelas formas em estudo. Portanto, assim como o fez Pontes (2012) em seus estudos, nesta pesquisa, ao verificarmos, nas narrativas de memórias literárias, em quais contextos as formas imperfectivas atuam como informação essencial (figura) e como informação periférica (fundo), utilizamos a classificação proposta por Chedier (2007) para os graus de fundidade. A partir desse mapeamento, buscamos perceber quais planos discursivos (figura, fundo 1 e fundo 2) da narrativa de memórias literárias condicionam o uso de uma das duas formas imperfectivas de passado sob análise.