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O sociólogo Pierre Bourdieu também trabalha com a questão da ciência e das lideranças. Sua definição de capital científico entende que o mundo da ciência tem relações de força (BOURDIEU, 2003, p. 34). O embate entre o neoateísmo e correntes que entendem a conciliação entre ciência e religião é um exemplo disso. Não obstante, devemos lembrar que Bourdieu entende as tensões dessas relações de poder, dentro do campo da ciência, como sendo algo inerente a este campo, e também, controlado pelo mesmo. Bourdieu divide o que ele chama de capital científico em dois, mas primeiramente precisamos entender a definição de capital científico para o autor:

A força de um agente depende de seus diferentes trunfos, fatores diferenciais de sucesso que podem garantir-lhe uma vantagem em relação aos rivais, ou seja, mais exatamente, depende do volume e estrutura do capital de diferentes espécies que possui. O capital científico é uma espécie particular de capital simbólico, capital fundado no conhecimento e no reconhecimento. Poder que funciona como forma de crédito, pressupõe a confiança ou a crença dos que o suportam porque estão dispostos (pela sua formação e pelo próprio fato da pertença ao campo) a atribuir crédito (2008, p. 53).

Como o capital científico é algo que está fundamentado no conhecimento e no reconhecimento, estaria aí o crédito de verdade que os neoateus possuem para passar sua visão de mundo. Além de serem reconhecidos como formadores de opinião e terem uma enorme capacidade de comunicação, seu conhecimento ou sua verdade passam a ter um valor diferenciado socialmente.

As duas espécies de capital científico para Bourdieu são, em primeiro lugar, o poder institucional, que está ligado à direção de departamentos, os currículos, ocupação

de posições importantes dentro das universidades etc. A segunda espécie é a do poder de prestígio pessoal, que está mais ligado ao reconhecimento, seja este institucionalizado ou não, do que às questões mais burocráticas como o primeiro tipo de poder (BOURDIEU, 2003, p. 35). Bourdieu chama esse segundo tipo de capital científico “puro”. Para fins de analogia com a questão da liderança exercida pelos quatro autores neoateus aqui analisados, precisamos destacar que os mesmos possuem um grau elevado do primeiro tipo de capital. Isto não é de difícil observação, se pensarmos que Dawkins é professor emérito da Universidade de Oxford, na Inglaterra, sendo responsável por treze anos pela compreensão pública da ciência. Dennett também está vinculado ao meio acadêmico: é professor na Universidade de Tufts nos Estados Unidos e também é diretor de estudos cognitivos da mesma universidade. Hitchens teve uma sólida formação acadêmica na Universidade de Oxford e recebeu inúmeros prêmios ao longo de sua carreira. Harris, que foi conhecido muito tempo pejorativamente como o “bacharel” entre os quatro neoateus, perdeu esta desqualificação ad hominem ao se tornar doutor em neurociências em 2009 pela Universidade da Califórnia.

O segundo tipo de capital é o que os ressalta e os tornam famosos para além do meio acadêmico. Segundo Bourdieu, o capital científico “puro” possui uma frágil objetivação; é relativamente impreciso e tem a característica principal de ser “carismático” (BOURDIEU, 2003, p. 36). O carisma novamente volta à tona e isto indica a dificuldade do capital científico “puro” ser transmitido na prática. Há, ao que parece, também para Bourdieu, uma questão vocacional nesse tipo de capital. Além do reconhecimento científico é necessário o talento de repassar a informação.

Bourdieu nota também que os conflitos entre eruditos estão ligados não só ao embate de ideias científicas, mas também a um caráter político. Bourdieu observa que quanto mais heterônomos são os campos, mais eles tendem a ser invadidos por forças de fora, no caso, não científicas (ibid., p. 32). Entretanto, ele entende o campo científico como algo autônomo, já que ele é:

Relativamente autônomo a respeito do universo social circundante, significa que o sistema de forças constitutivas do campo (tensão) é relativamente independente das forças que se exercem sobre o campo (pressão) (ibid., p. 70).

Bourdieu faleceuem 2003, na França, sem notar a pressão externa que o campo científico sofre em outros lugares do mundo, dando margem para movimentos de repulsão total da religião, como na forma do neoateísmo. O caso do ensino do criacionismo nos Estados Unidos é o mais claro, apesar da discussão ser anterior ao período em que Bourdieu faleceu, mas a discussão ainda era mais local. Portanto, há a necessidade da utilização dos cientistas ou versados em ciência que possuam um índice elevado do capital científico “puro”, para combater as pressões exercidas sobre este campo. Os divulgadores científicos neoateus passam a entender que é necessário desencantar o religioso e dar uma nova proposta de sentido, para que o entendimento da ciência seja ainda mais claro. O carisma dos oráculos da ciência é uma fonte fundamental não só de persuasão para a ciência, mas também para uma nova proposta de sentido que hoje está diretamente vinculada, também, ao ateísmo.

A característica dos que são habilitados a falar, como os oráculos e os profetas, dentro do âmbito da ciência também é observada por Bourdieu. Há a necessidade de uma legitimação social dentro do campo da ciência para que seus oráculos possam falar: O poder simbólico de tipo científico só pode exercer sobre o homem comum (como poder de fazer ver e fazer acreditar) se for ratificado pelos outros cientistas – que controlam tacitamente o acesso ao grande público, através principalmente da divulgação (BOURDIEU, 2008, pp. 81-82).

O sociólogo francês ainda entende que as descobertas científicas muitas vezes fazem daqueles que já são famosos terem mais crédito ainda com o ganho simbólico. “O capital simbólico atrai o capital simbólico” (BOURDIEU, 2008, p. 81). A divulgação científica está muito mais atrelada ao status daqueles que a escrevem do que às descobertas feitas pelos mesmos. Através desta ótica, em nome da ciência, os divulgadores acabam ganhando crédito por algo que eles não fizeram, pelo fato de eles possuírem um crédito não só com o grande público e pela sua capacidade de comunicação, mas também dentro do campo científico que muitas vezes os legitima. Ainda nesta linha, ele entende que essa legitimação do erudito no campo da ciência acaba por torná-lo autônomo e possuidor de uma “autoridade específica” (BOURDIEU, 2003, p. 74).

No que diz respeito ao neoateísmo, é importante notarmos que dentro do campo científico Bourdieu entende que os cientistas só se sentem “universais” quando falam

para uma demanda social, defendendo uma causa “universal” (BOURDIEU, loc. cit.). Ele propõe ainda que os cientistas tentem intervir nos campos universais através da conquista de seu trabalho (BOURDIEU, 2003, p. 75). O neoateísmo parece fazer exatamente o que foi abordado por Bourdieu até aqui: a questão dos oráculos que possuem um alto crédito dentro, e principalmente fora, do campo científico para falar de ciência. A acumulação ainda maior de crédito com a utilização de descobertas de outros cientistas, através da exposição destas descobertas e/ou hipóteses. O maior exemplo disso é, sem dúvida, a teoria da evolução de Darwin. Somada às proposições mendelianas e as descobertas do neodarwinismo, Dawkins e os demais muitas vezes usam destas descobertas, sendo defensores veementes das mesmas, para aumentar o seu status e, consequentemente, seu capital científico. Há, através da utilização deste tipo de capital, a tentativa de atender, ou muitas vezes criar, uma demanda social para que as ideias científicas e também ateístas sejam disseminadas.

A utilização e a criação de uma demanda social ou atendimento a esta demanda é algo corriqueiramente utilizado pelo neoateísmo através do cientificismo. Entretanto, o cientificismo e a cosmovisão, ligados à utilização da ciência, acabam por fugir do campo da ciência. O neoateísmo, assim como a divulgação científica, não possui só objetivos científicos. A preocupação de persuadir os seus seguidores acaba por esbarrar em outro tipo de campo, também abordado por Bourdieu.

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