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Nesta parte da pesquisa, procura-se, através dos depoimentos orais de jovens da comunidade e de publicações especializadas em surfe, enveredar pelos caminhos das águas, deslizando nas histórias de adolescentes que descobriram novas formas de trabalho no mar, inventando novos modos de ganhar a vida na arrebentação. Analisa-se o surgimento de uma espécie de escola local de surfe entre os meninos da comunidade. Procura-se interrogar sobre a possível constituição de um estilo de vida, próprio, a partir da introdução do surfe no bairro, aumentando mais ainda o mosaico de misturas e a multiplicidade de influências na conformação das culturas locais. Em meio às múltiplas culturas urbanas que convergiram historicamente para o bairro, talvez entre os surfistas se perceba com maior ênfase a recente hibridez cultural operada nesse espaço.

“Eu nasci aqui em Fortaleza e a maior parte da minha vida foi na beira da praia (...) Eu tenho um interesse muito grande por esse bairro porque é um bairro que ao chegar com onze anos de idade eu me apaixonei por esse bairro”224.

Uma primeira observação é importante: dentre os entrevistados na presente pesquisa, o grupo envolvido com a prática do surfe mostrou-se especialmente preocupado em destacar a

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Letra da música “Décadas Passadas” do grupo Farol RAP, do Serviluz. Autores: Gean Carlos Serafim, Tanqredo Alves Morais, Paulo Maurício de Oliveira e Jorge Rafael.

importância do mar para a sua vida. O fato de morar perto da praia entre os surfistas, contrariando o senso comum do bairro, constituía um imenso privilégio. Os praticantes desse esporte facilmente expressavam o amor pelo lar e a satisfação de ter à porta de casa um espaço excelente para a prática do surfe.

Fala-se de uma geração que nasceu e cresceu num bairro litorâneo, mas, morando na beira da praia, não desejou seguir a tradicional profissão dos pais. Diferentemente daqueles que aderiram aos novos postos de trabalho que surgiam na região, continuaram optando pela vida no mar. Não mais se arriscavam nas temerosas pescarias, mas desenvolveram o gosto pela “adrenalina de estar dentro d’água competindo”225

.

O gosto pelo mar no surfe se configura como uma condição fundamental. Na praia do Titanzinho, no Serviluz, há entre aqueles que surfam o reconhecimento de que, ao chegar ao bairro, se estabelece um contato muito intenso com a natureza, a natureza é concebida como provedora de numerosos benefícios.

“Se o menino tá dentro d’água o que ele tá vendo dentro d’água! Tá vendo uma gaivota que tá passando, tá vendo um peixe que tá passando, uma tartaruga... ele já começa a ter assim noções de oceanografia, começa a observar mais os astros, sabe que na lua cheia e na lua nova a maré é mais cheia ou mais vazante e pode dá onda, qual a época do ano que tem a melhor onda, já começa a se preocupar com a onda assim... vai esperar o dia que o mar tá mais perfeito e tal pra surfar. Enfim, o moleque já começa a pensar mais na natureza, começa a ver o lado mais bonito do negócio se ele tiver dentro d’água”226.

Se alguns moradores destacavam as imposições da natureza e as deficiências sanitárias do bairro, nutrindo o desejo de abandoná-lo, outros, apontavam que a realidade oferecida pela natureza não constituía exatamente um problema. Ao contrário, faltava exatamente uma relação mais equilibrada com o meio ambiente, a fim de se aproveitarem os benefícios que a natureza podia proporcionar.

No surfe a fruição da natureza é uma prática contemplativa. Nesse recipiente, experimentam-se os elementos e concebe-se a vida como um espetáculo ininterrupto de metamorfoses. Se, isoladamente, cada elemento já impressiona, combinados eles produzem efeitos ainda mais surpreendentes. Entre esses elementos, as ondas, fusões das forças das águas e dos ventos, são os mais especialmente encantadores. As ondas são manifestações de energia do vento que tomam formas nas águas do mar. Mas a complexidade da ondulação, se deixa clara a onipotência da natureza, também possibilita enxergar a intromissão da mão

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Entrevista concedida por João Carlos Sobrinho ao autor em 27/02/2003.

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Entrevista com Lucinho Lima, In: Revista Hard Core, ano 15, edição, 182, outubro de 2004.

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humana nesse espetáculo. Na praia do Titanzinho, a modificação da paisagem, acarretada pela introdução da pedra, alterou também o desempenho dos jovens locais que sobre as ondas passaram a imprimir também suas marcas.

É bem verdade que, mesmo entre aqueles que não praticam o surfe, vislumbravam-se as águas marinhas como uma dádiva e o mar como uma benção, como sendo capaz de fornecer a alimentação básica e garantir a sobrevivência.

“(...) ainda existe o pescado dos três malhos (próprio para capturar sardinhas) na área do Titanzinho porque é um meio de sobrevivência, do pobre procurar uma sardinha pra comer com seus filhos”227. Antes dos surfistas, os pescadores constituíam costumeiramente o grupo de trabalhadores que dependem de modo mais direto do mar como fonte de sobrevivência. A pesca é influenciada, mais que qualquer outra atividade econômica, pelas forças da natureza. Essa é a última e única atividade humana de caça de grandes proporções e a própria mobilidade dos recursos pesqueiros no ecossistema marinho é marcada pela complexidade dos fenômenos naturais, de modo que o conjunto de processos e condições naturais influencia também nas relações entre os grupos sociais, tanto em termos de trabalho quanto de moradia. A paisagem cultural gira em torno da disponibilidade dos recursos naturais.

Vale ressaltar então que, na pesca e no surfe, as relações entre homem e natureza se apresentam de fundamental importância. A natureza nessas atividades não pode ser considerada uma entidade estática, mas como uma série de processos maiores, alheios à ação humana, sobre os quais o homem pode interferir. Natural e social se articulam.

Na região do Mucuripe, quando prevaleceram as comunidades de pescadores, eram visíveis as imbricações entre a vida social e a produção do pescado228

. Mas com a crise da atividade pesqueira, os homens já não mais conseguiam manter a contento suas numerosas proles. Como já foi dito a pesca de alto calado acarretou mudanças nas relações de trabalho e a tendência à proletarização do pescador. A mudança nas condições de vida dos pescadores e a alteração introduzida no meio ambiente diminuíram bastante a disponibilidade do peixe nas proximidades da costa, assim os trabalhadores do mar foram sendo forçados a ingressar noutros ramos de atividade.

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Entrevista concedida por Maria Zuleide de Oliveira Moura ao autor em 01/012003.

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Em sociedades que vivem diretamente da exploração natural, é mais perceptível a correlação entre reprodução social e reprodução natural.

No bairro boa parte dos jovens que surfam são filhos de pescadores. Cresceram na beira d’água, ajudando os pais na lida diária da praia, geralmente limpando as embarcações, consertando redes ou executando pequenos serviços de transporte, mas vários fatores contribuíram para a decisão dos filhos de largar a profissão do pai.

Já foi analisado como a formação de um parque industrial nos arredores, em certo momento passou a recrutar boa parte da mão-de-obra na vizinhança. Ao chegar à idade de trabalhar, os jovens tinham que optar entre os trabalhos disponíveis, praticamente todos braçais; a indústria podia oferecer uma razoável estabilidade e carteira de trabalho assinada, garantias difíceis de serem obtidas na pesca.

O fato é que a industrialização promoveu ocupações e serviços cujo ritmo de trabalho diferia muito do emprego nos ofícios tradicionais. O surfe, no entanto, apresentava ainda muitas semelhanças com o modo de vida dos antigos jangadeiros, sobretudo no que concerne à interação e ao apego do homem pelo seu espaço de trabalho.

Entre pesca e surfe, porém, afloram também distinções importantes. Uma diferença considerável está na preocupação do surfista com a manutenção dos recursos naturais. A idéia da criação de uma consciência ecológica de preservação da natureza produziu interferências práticas no local onde se realizava o esporte. Ao que parece, a idéia da preservação não foi enfaticamente posta no mundo da pesca, enquanto no surfe preservar assume formas bastante contundente. Obviamente isso não significa que o velho homem do mar não se sentiu incomodado com as mudanças físicas no meio ambiente, basta observar a escassez do pescado no litoral, mas pouco procurou remediá-las. Se os sindicatos e demais formas de associações dos pescadores não enfocaram a preservação ambiental como uma bandeira de luta propriamente dita, isso aconteceu porque essa é uma questão relativamente recente. A idéia de uma política ecológica, por sua vez, é contemporânea da explosão do surfe no planeta.

Como o bairro serviluz é muito populoso, o uso da força transformadora da natureza passou a preceder de um trabalho de limpeza da praia, de conscientização ecológica no espaço. A idéia ativa de que a praia não é uma lixeira, mas um point para o surfe, surge como pressuposto ao desenvolvimento das habilidades corporais no mar. É o que se observa no manifesto do grupo S.O.S Titanzinho:

A praia do Titanzinho, situada na esquina leste de Fortaleza, é o berço dos melhores surfistas do Brasil, o melhor e mais constante point da cidade. Tema de música e famosa no mundo do surfe pela força de suas ondas e por seus famosos surfistas. Porém, esse paraíso está sofrendo com a poluição há muitos anos, resultado da falta de educação da maioria dos moradores e da falta de leis que punam verdadeiramente os poluidores, os quais jogam lixo na praia causando

sujeira, doenças e deformação do coral. O quadro é alarmante, basta olhar a praia e mergulhar para perceber o grande estrago causado ao meio ambiente. A água é suja e transmite micose, isso não pode continuar assim, pois é crime ambiental e prejudica a todos que têm no mar sua fonte de sobrevivência e lazer229.

No surfe, se é forte a preocupação ambiental, é pouco visível a organização social. Enquanto existem fartas experiências históricas de organização e luta coletiva entre os pescadores em torno da aquisição de melhores condições materiais de trabalho, parecem não existir formas associativas que batalhem pelo surfe como uma modalidade de trabalho. Aqui, diferentemente da pesca, tende a prevalecer o desempenho individual do atleta.

“Você não pode depender só de uma profissão que é curta, né? Se você tivé no auge, no topo você ganha (...) do salário mesmo você não faz um pé de meia, geralmente dos prêmios né? Se for profissional então o surfe é bom, mas é bom que os jovens que almejam ganhar tudo na vida com o surfe pense melhor né? Que só o surfe ele não vai ter uma vida estável não”230.

Nos depoimentos, nitidamente o esporte foi transformado numa modalidade de trabalho. Apesar da possível instabilidade, o surfe se tornou uma realidade econômica palpável na comunidade. Em recente edição, a Revista Veja exibiu o auto-retrato do jovem surfista Pablo Paulino. Garoto pobre, Pablo foi criado no Titanzinho, em Fortaleza, e cedo se consagrou um fenômeno no mundo do surfe ao ganhar o campeonato mundial na categoria júnior. Aos dezessete anos de idade, desbancou australianos, havaianos e americanos, melhores do mundo no esporte, faturando um prêmio de seis mil dólares. O jovem assinou ainda um ótimo contrato com a grife Billabong, uma das maiores marcas de surfe do mundo, que lhe garantia, além de um excelente salário, uma ampla estrutura que incluía técnico, preparador físico, nutricionista e professora de inglês231

.

A necessidade do idioma inglês acontece porque nesse esporte, além das viagens pelo mundo, os praticantes precisam assimilar termos técnicos, muitos dos quais, têm origem em outros países. Nas grifes, nas manobras e na comunicação diária entre os surfistas, variadas expressões possuem uma matriz importada.

A cultura do surfe se integra ao mercado industrial de proporções globais. As marcas se multiplicam e ganham tecnologia de ponta. Vende-se indumentária, lugares e toda a parafernália que compõe um estilo de vida diferenciado. É um espaço privilegiado para o lançamento de novidades e modismos entre o público jovem. As velhas vestes dos homens do

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O grupo S.O.S Titanzinho foi criado por surfistas locais e procura despertar um censo de preservação ambiental no bairro. Documento disponível na Escolinha de Surfe do Titanzinho.

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mar ganharam tecidos sintéticos. Nas águas, a manutenção do estilo de vida, entrelaçado ao meio, ganhou nova roupagem, renovando uma tradição capaz de adaptar-se, ou recriar-se, em função dos novos tempos.

O universo do surfe constitui-se a partir de palavras como estilo, ousadia, originalidade e determinação. A própria história do surfe é narrada nas publicações especializadas, através das grandes façanhas, dos recordes e das narrativas heróicas dos grandes vultos enfrentando grandes ondas. A fama é um componente importante no “esporte dos reis”232. De fato, descer em ondas com vários metros de altura faz desse esporte uma prática bastante arriscada, há o perigo real dos corais de pedra ou mesmo o risco de acidentes com o próprio equipamento. As marcas nos corpos novamente servem de testemunho.

Nas revistas especializadas nesse esporte, a radicalidade do surfe se concretiza no forte apelo às imagens dos competidores. As páginas se compõem basicamente de fotografias, que ocupam a quase totalidade (ou mais) de uma página. Destacam-se os movimentos bruscos e velozes dos homens desafiando a natureza; o próprio espaço geográfico é uma peça fundamental na composição da imagem. No surfe, o cenário pode, inclusive, definir o desempenho dos atletas.

No Serviluz, esse esporte constituiu-se como propulsor de cultura e redes de sociabilidades; o surfe também se caracteriza pelas territorialidades que o definem. É justamente o que ocorre em certos espaços urbanos, como a praia do Titanzinho, os quais são tomados por indivíduos, pelas relações específicas entre eles estabelecidas. Sendo essas relações de disputa, conquista, poder e dominação, está criado o contexto em que o espaço se torna um território a ser criado e disputado233

.

Apesar da imagem, aparentemente equilibrada e saudável, o esporte ainda aparece carregado de pesados preconceitos.

“(...)chegaram uns cara de fora aí, uns caras ai de São Paulo e disseram: - rapaz tem que tirar a galera do Titanzinho que a equipe tá muito favela. Vamo tirar a galera todinha do Titanzinho que a marca tá muito favela. E olhe que nessa época a gente tinha os melhores daqui e a gente tava levantando a marca”234.

Mas a prática desse esporte na periferia urbana de Fortaleza emergiu como mais uma possibilidade concreta de inserção social. E, à medida que se formou uma espécie de escola

231

Cf.: Revista Veja, 23 de fevereiro de 2005. p. 89.

232

Remete a origem mitológica do esporte, na qual o surfe teria nascido entre os reis das Ilhas da Polinésia, dando ao surfe um aspecto de ritual sagrado.

233

AZEVEDO, Diego Paula Pesssoa. Fora ‘haole’: um estudo sobre cultura e terrrtorialidade no surfe. Monografia do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza: 2003. P. 25.

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local, muitos surfistas se profissionalizaram e ganharam dinheiro. No entanto, fora dessa praia de sucesso, procurei também os depoimentos dos jovens da mesma comunidade que não lograram êxito no esporte; na verdade, a maioria.

A partir do êxito de alguns competidores locais, os jovens do Titanzinho tornaram-se figurinhas carimbadas em revistas e demais publicações especializadas no esporte. Uma questão sempre recorrente nessas reportagens era o amargo reconhecimento do percurso vitorioso desses atletas; na mídia ficava sempre a interrogação: como era possível um menino chegar tão longe, vindo do lugar tão pobre e violento no qual ele nasceu? Na concorrida disputa por títulos, parecia impossível que de um lugar tão precário pudessem sair tantos talentos e estrelas.

“(...)tinha um cara que sempre fazia umas matérias e sempre colocava o Titanzinho lá em baixo. Só falando de porco, de praia suja e não sei o quê... Até camisa o cara fez pra vender com o nome do Titanzinho, ai tinha um porco e uma fese desenhada na camisa(...) ai por causa disso eu discutir com ele, bota um cara surfando, uma coisa melhor. Toda vida que você abria o jornal tava lá o cara falando mal do Titanzinho. A sociedade não vai ler isso aqui não, a sociedade vai vê se você botar uma manobra, um tubo”235.

A superação do preconceito e da desigualdade econômica exigia, porém, tanto um severo treinamento quanto uma série de mudanças no estilo de vida da juventude, mescla de velhos hábitos e novos comportamentos. Emergiu a necessidade e o desejo de elaborar novas opções de vida, de vibrar com outras sensibilidades:

No futebol, se o cara não está jogando bem eles tiram e colocam outro. No surfe não, quem for mais bonitinho está com patrocínio. O cara dá um aéreo e fica com a prancha cheia de logotipo (...) Foi de repente, já competia enquanto meus amigos jogavam futebol. Sabia surfar e jogar bola, mas tive que escolher. Hoje vejo que através do surfe conheci outros países e estados, já meus colegas do futebol ainda não saíram do Titanzinho236.

A trajetória árdua é regra geral. No Serviluz, o surfe não teve um começo tão rico e tão nobre. O surfe no início era marginalizado, hoje é uma profissão; muitos atletas sobrevivem, outros somente sonham. Esse esporte também era extremamente caro, inacessível, para as condições financeiras da população local.

Ao que tudo indica, o surfe explodiu do Havaí para o mundo no início do século XX, chegando ao Brasil nos anos 1940, quando as pranchas eram ainda fabricadas de madeira oca. Com a intensificação da sociedade de consumo e a adesão aos esportes de massa, o surfe se

235

Ibidem.

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estabelece no Ceará nos anos 1970. Na década de 80, contudo, era restrito o acesso às novas pranchas feitas de fibra.

“Aqui no Titanzinho então, meu, na década de oitenta não tinha prancha de fibra, tinham pranchas de fibra as pessoas ricas que tinham sua prancha e que de forma nenhuma emprestava, né?, não emprestava” 237

O acesso restrito e o elevado preço do equipamento constituíam um sério problema para os meninos ingressarem nos “tubos”238. Como não tinha dinheiro, o campeão mundial Pablo começou a surfar com um pedaço de prancha quebrada; somente aos oito anos de idade, ganhou uma prancha da já consagrada surfista local Tita Tavares239

. Essa foi a realidade inicial para quase todos os atletas.

“Eu aprendi a surfar em cima de um pedaço de madeira como quase todos os garotos daqui. Aos trancos e barrancos eu pegava uma tábua, serrava e fazia uma prancha (...) a gente conseguia uma carteira de cigarro e ia prum prédio desses na Praia do Futuro ou lá no Náutico ali, e trocava por um pedacinho de tábua e aí fazia a gente fazia nossa pranchinha. Quando eles não dava a pranchinha pelo cigarro aí o jeito era a gente tirar essa tábua e sair correndo, ou então serrar a porta da casa da nossa mãe”240.

A prancha de madeira foi uma solução elaborada com um material fartamente empregado no cotidiano e assim se iniciou a popularização do surfe no bairro.

“O começo com o surfe foi desde lá do Mucuripe (...) veio naquelas taubinhas que a gente chamava de

sonrisal né? Na praia, jogava a tauba na beira da praia e pulava em cima. Naquela época no Mucuripe

ninguém surfava de tauba na onda não. Na época, jogava no chão e pá... pulava em cima, saia deslizando na areia. Aí quando cheguei aqui no Titanzinho vi a galera surfando de tauba em cima da onda, aqui era mais desenvolvido, a galera do Titanzinho já surfava na onda mesmo”241.

Observa-se que deslizar sobre a madeira era inclusive o aprimoramento de uma antiga prática da pesca, das embarcações que, para atingir a terra firme, precisam cruzar a arrebentação das ondas. Nesse processo histórico, a habilidade em reutilizar os elementos do dia-a-dia, constituiu um aprendizado fundamental, capaz de produzir emergências essenciais à população.

237

Entrevista concedida por João Carlos Sobrinho ao autor em 27/02/2003.

238

Manobra em que o surfista fica dentro da onda. Cf.: Surfinário em anexo.

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Surfista local ganhadora de vários títulos nacionais e uma das poucas atletas do país a participar do circuito internacional, o Word Championship Tour (WCT). Tita Tavares e Fábio Silva, detentor de vários títulos