Na investigação qualitativa, a qualidade de um estudo é dependente da qualidade e integridade dos dados obtidos. Principalmente, nesta natureza “existem perguntas específicas que todas as boas propostas formulam” (Bodgan & Biklen, 1994, p. 106), tais como: o que, quem, onde, quando e como. A base da técnica e instrumento de recolha de dados “é usual na investigação educativa a utilização da técnica de inquérito, com ênfase na entrevista e no questionário (Pacheco, 2006, p. 22). Para Lessard-Hébert, Goyette e Boutin (1994, p.160) a técnica da entrevista “é necessária quando se trata de recolher dados válidos sobre as crenças, as opiniões e as ideias dos sujeitos observados”. Como neste estudo pretendemos a conhecer mais a profundidade as perspetivas e as práticas dos educadores de infância e dos professores do EB, sobre a avaliação das aprendizagens nos contextos das mudanças curriculares, a técnica de recolha de dados utilizada foi o inquérito de entrevista (com recurso ao guião de entrevista e gravador áudio). De acordo com Bardin (2014, p. 89) para tirar partido de “um material dito qualitativo é indispensável que um material verbal rico e complexo”. Além da entrevista, neste estudo também utilizámos documentos normativos e outros como fontes de informações, quer em versão impressa, quer em versão eletrónica.
Recorremos à análise de conteúdo e à análise documental para o tratamento dos dados. 4.4.1. Entrevistas
Em investigação qualitativa a entrevista “é utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspetos do mundo” (Bodgan & Biklen, 1994, p. 134). Através dela, podemos “participar na mente do outro ser humano, é a interação face a face, pois tem o caráter inquestionável de proximidade entre as pessoas, que proporciona as melhores possibilidades de penetrar na mente, vida e definição dos indivíduos” (Richardson, 1985, p. 160). Para compreendermos melhor as perspetivas dos educadores e professores em relação com a nossa temática e objetivos específicos, tal como tínhamos dito anteriormente, neste estudo utilizarmos a técnica de entrevista que é “uma técnica importante que permite o desenvolvimento de uma estreita relação entre as pessoas. É um modo de comunicação “no qual determinada informação é transmitida de uma pessoa a outra pessoa” (ibidem, p. 160). Para Quivy e Campenhoudt (2003, p. 191) “os métodos de entrevista distinguem-se pela aplicação dos processos fundamentais da comunicação humana”. Neste caso, entendemos que esta técnica permita a comunicação direta entre o investigador e os seus participantes (os educadores e os professores) e que através deste contacto possamos ter as
informações preciosas para este estudo. Como salientam Pardal e Correia (1995, p. 64) “a entrevista possibilita a obtenção de uma informação mais rica”. Amado (2013, p. 137) salienta que “a entrevista é um dos mais poderosos meios para chegar ao entendimento dos seres humanos e para a obtenção de informações nos mais diversos campos”. Escolhemos este método por acreditarmos que através dele podemos prosseguir “à análise do sentido que os atores dão às suas práticas e aos acontecimentos com os quais se veem confrontados: os seus sistemas de valores, as suas referências normativas, as suas interpretações de situações conflituosas, ou não, as leituras que fazem das próprias experiências (Quivy & Campenhoudt, 2003, p. 191). Neste sentido, para entender melhor o significado das respostas dadas pelos participantes, é fundamental que o investigador fique sempre atento à expressão dos participantes para que não sejam enganados na interpretação da informação obtida. Além disso, para ter uma comunicação compreensiva, “a linguagem utilizada deve ser clara e acessível, o entrevistado deve ser motivado a responder para que a informação recolhida seja o mais alargada possível” (Ghiglione & Matalon, 1993, p. 98). E para manter uma discussão atrativa, o entrevistador deve “comunicar ao sujeito o seu interesse pessoal, estando atento, acenando com a cabeça e utilizando expressões faciais apropriadas” (Bodgan & Biklen, 1994, p. 136). Em conformidade com a natureza deste estudo, escolhemos a entrevista semiestruturada, com recurso ao guião de entrevista, em que “as questões derivam de um plano prévio, um guião onde se define e regista, numa ordem lógica para o entrevistador, o essencial do que se pretende obter, embora na interação se venha a dar uma grande liberdade de resposta ao entrevistado” (Amado, 2013, p. 208). Máximo-Esteves (2006, p. 93) salienta que “nas investigações de natureza qualitativa (em sentido lato), os géneros mais comuns são a entrevista em profundidade, a entrevista de história de vida e a entrevista semiestruturada”. Consideramos que a entrevista semiestruturada é mais adequada para este estudo, pois permite fazer uma entrevista flexível, mas controlada, baseada no objetivo do estudo para “obter dados comparáveis entre os vários sujeitos” (Bodgan & Biklen, 1994, p. 135). Neste tipo de entrevista, “o sujeito desempenha um papel crucial na definição do conteúdo da entrevista e na condução do estudo” (idem, ibidem), ou seja, o entrevistador deve desempenhar uma função de estimular e orientar as perguntas-guia, “relativamente abertas, a propósito das quais é imperativo receber uma informação da parte do entrevistado” (Quivy & Campenhoudt, 2003, p.192).
4.4.2. Guião de Entrevista
Elaborámos um guião de entrevista, adaptado a cada nível de ensino (apêndices 5, 6 e 7) a partir dos objetivos do nosso estudo e das informações que pretendíamos recolher. O guião de entrevista “assume-se como um instrumento fundamental que permite orientar e conduzir a entrevista
de forma correta” (Azevedo, 2015, p. 146), ou seja, “colocar as perguntas às quais o entrevistado não chega por si próprio no momento mais apropriado e de forma tão natural quanto possível” (Quivy & Campenhoudt, 2003, p. 193).
Amado (2013, p. 214) afirma que “a entrevista deve ser estruturada em termos de blocos temáticos e de objetivos”. O nosso guião é assim estruturado: bloco 1 – legitimação da entrevista; bloco 2 – as perspetivas dos educadores e dos professores do 1.º, 2.º e 3.º ciclo do EB face às mudanças no currículo e na avaliação das aprendizagens; bloco 3 – conhecer as perspetivas dos participantes face à avaliação das aprendizagens; bloco 4 – conhecer a formação dos participantes, sobretudo em avaliação e sobre os normativos; bloco 5 - compreender as práticas de avaliação das aprendizagens de educadores de infância e dos professores do 1.º, 2.º e 3.º ciclo EB e o último Bloco – Conhecer os instrumentos de avaliação das aprendizagens que os participantes utilizam nas suas práticas.
No primeiro bloco, designadamente, a legitimação da entrevista, asseguramos algumas questões de natureza ética, principalmente, apresentar-se, agradecer a disponibilidade, explicar a natureza e os objetivos da investigação, informar sobre o uso do gravador, explicar o modo como decorrerá a entrevista e seus objetivos, assegurar o anonimato e a confidencialidade dos dados/suas respostas. É, ainda, referido ao entrevistado que, caso não entenda ou tenha dúvidas em algumas perguntas, poderá interromper e pedir esclarecimentos. Os outros blocos da entrevista eram constituídos por questões orientadas para os objetivos da investigação.
Entregámos, pessoalmente, um protocolo de investigação (Apêndice 1) às escolas, dirigido ao diretor/a da escola, no caso do EB e à coordenadora, no caso da Educação pré-Escolar, a pedir permissão para nos autorizar a realizar as entrevistas aos educadores de infância e aos professores do EB. Depois de ter autorização dos diretores e coordenadora da escola, entregámos um consentimento informado (Apêndices 2 e 3) a cada um dos participantes, para cumprimento das questões de natureza ética. Depois disso, combinámos as datas com os participantes, de acordo com as suas disponibilidades para realizar as entrevistas. Para isso, procedemos à troca de contacto telefónico, pois a maioria ainda não utiliza o e-mail, por não ter facilidade de aceder à internet, ou não possuírem computador.
Esta entrevista realizou-se nas quatro escolas públicas que já caracterizámos e decorreu nos meses de janeiro e fevereiro de 2019, em diferentes horários, de acordo com a disponibilidade dos participantes. A duração das entrevistas oscilou entre 35 a 45 minutos. Todas as entrevistas foram
realizadas numa sala da escola ou num gabinete, lugares com condições mais adequados para realizar a entrevista. Antes começar a entrevista, pediu-se autorização para gravá-la em áudio. É fundamental que antes de começar a gravação, o entrevistador solicite ao entrevistado alguns dados que lhe permitam identificá-lo e conhecer algumas características sociodemográficas (Richardson, 1985). Durante as entrevistas, deixámo-los “falar abertamente, com as palavras que desejaram e pela ordem que lhes convier” (Quivy & Campenhoudt, 2003, p.192). Neste caso, a maioria dos participantes deste estudo respondeu em língua Tétum. No final de cada entrevista, agradecemos e referimos a importância da sua contribuição para o nosso estudo, prometendo devolver-lhes a entrevista transcrita para validação.
Aos participantes foi atribuído um código: E para educador de infância; 1P para professores do 1º ciclo do EB, 2P para professores do 2.º ciclo do EB e 3P para professores do 3.º ciclo do EB, assim distribuídos: E1 a E4; 1P1 a 1P3; 2P1 a 2P2; e 3P1 a 3P4. Depois de transcritas, pedimos a cada um dos entrevistados que validasse o conteúdo. Dado que os participantes não utilizavam o e- mail por não terem facilidade, fomos diretamente à escola onde o entrevistado trabalhava. No momento da apresentação, pedimos a cada um dos participantes para ler as respostas, podendo clarificar ou retificar as suas respostas. Depois de lerem e manifestarem o seu acordo, considerámos as entrevistas validadas pelos participantes/entrevistados.
4.4.3. Fontes Documentais
Os documentos que utilizamos para recolher as informações para este estudo foram, essencialmente, normativos provenientes do nível macro (ME) e documentos provenientes do nível meso, produzidos pelas escolas:
• A política Nacional da Educação 2007-2012 (Ministério da Educação); • Lei nº 14/2008, de 29 de outubro (Aprova a Lei de Bases da Educação);
• Decreto-Lei nº3/2015, de 14 de janeiro (Aprova o Currículo Nacional de Base da educação
pré-escolar)
• Decreto-Lei nº4/2015, de 14 de janeiro (Aprova o currículo do 1.º e 2.º Ciclo do EB)
• Currículo Nacional do 1.º e 2.ºciclo do EB (Ministério da Educação, 2014)
• Currículo nacional de base da educação pré-escolar de Timor-Leste (Ministério da Educação, 2014)
• Plano curricular do 3.º ciclo do ensino básico e estratégia de implementação (Pacheco, Morgado, Flores & Castro, 2009)
• Reforma curricular do ensino básico: Princípios orientadores e plano de desenvolvimento (Ministério da Educação, 2010)
• Plano estratégico nacional da Educação 2011-2030 (Ministério da Educação, s/d) e;
• Outros documentos pertinentes para este estudo (relatórios do ME e documentos das escolas: plano de sessão, plano de lição, caderneta, ficha de observação e de avaliação, dados dos professores, alunos e crianças).