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5.2 De lege ferenda
Na realidade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças.
Henri Bergson
A proposta deste trabalho partiu de uma clara e franca perspectiva: a de não enxergar o texto literário como uma estrutura formal opaca, autônomo, completo em si mesmo, apartado do que lhe seja exterior, mas relacionado aos elementos do contexto histórico-social que o produziu.
Por ser um produto social, a literatura é reveladora das condições da sociedade em que ocorre. Contudo, reduzi-la à posição de espelho da sociedade da qual se origina é percebê-la apenas como mera ilustração de aspectos sociais e históricos. Para nós, a literatura é entendida como elemento integrante e integrador da(s) cultura(s) de uma dada sociedade, documento que nos auxilia na compreensão das ideias e costumes relativos a essa sociedade.
Nesse sentido, concordamos com Candido (1985) quando enfatiza que o contexto em que a obra foi produzida a influencia e, posteriormente, ela o influenciará ao atingir o público leitor.
Assim, partindo da produção artística, em específico o texto literário (enquanto representação, percepção e concepção acerca da realidade), podemos captar uma configuração específica da sociedade, por meio da (re)elaboração dos acontecimentos recolhidos por seus autores.
Em relação à obra de Graciliano Ramos, a riqueza integral das crônicas de
Viventes das Alagoas deve ser entrevista na medida em que verificamos a sua íntima relação com o panorama sociocultural da época em que foram elaboradas e publicadas. Assim, questões relativas às transformações econômicas, sociais e políticas da Primeira República até fins da década de 1940, passando pela Revolução de 1930, pelo Estado Novo, e pela redemocratização de 1945 são revisitadas na análise dessas crônicas, com o cuidado e o rigor necessários a uma pesquisa acadêmica.
Ao centrar esta pesquisa nas crônicas de Viventes das Alagoas, certificamo-nos que escrever, para Graciliano Ramos, foi mais do que uma atitude profissional, constituiu-se também uma forma de atuação social e política, por isso a importância de enfatizar a sua postura como intelectual atuante em um momento histórico tão complexo e ambíguo como foram os anos que compreenderam as décadas de 1930 e 1940.
No universo literário de Graciliano, as crônicas configuram-se como uma forma destacada de intervenção crítica e posicionamento intelectual em relação às condições sociais e políticas de um país que buscava, a todo custo, ajustar-se ao discurso
importado de modernização. Assim, o escritor cumpre o que seria para Edward Said o
papel do intelectual na sociedade contemporânea: apresentar narrativas alternativas e outras perspectivas sobre a história diferentes daquelas fornecidas pelos que combatem em nome da história e da memória oficial.
As crônicas de Viventes das Alagoas foram refletidas como memória de um período, nas quais memória individual, memória histórica e memória coletiva entrançam-se. Neste sentido, essas crônicas foram tomadas como elaborações estéticas que se alinham à história e à memória ao direcionarem seu foco aos conflitos políticos, às alterações dos grupos detentores do poder econômico, social e intelectual, contribuindo para que a história e a memória dos silenciados venham à baila e sejam (re)conhecidas como parte inalienável da cultura brasileira, aqui entendida como um conjunto articulado de práticas, ideias, significações e valores que se confirmam e constituem o sentido global da realidade para todos os membros de uma sociedade.
História, memória e vivências são extraídas da pena de Graciliano. O cronista se faz autor e ator de fatos construídos e dialogados histórica e dialeticamente com outros autores e atores. Valendo-se de reminiscências, Graciliano comenta fatos e situações vivenciadas por ele e por outros viventes do sertão nordestino, buscando problematizar e compreender (e nos fazer compreender) um quadro social e político historicamente estático. Por isso, esses textos também estão marcados pelo mesmo tom de denúncia característico do romancista e do memorialista.
É por meio da memória que o cronista reata laços com acontecimentos e pessoas de um espaço tão bem conhecido por ele e (re)constrói geografia, valores, hábitos,
sertão nordestino no início da década de 1920, o sertão da mocidade de Graciliano, tão bem retratado em Infância. Um cotidiano que surge em fragmentos, fruto da recomposição de histórias orais e das experiências pessoais do escritor.
O autor conseguiu fazer com que ficção e experiência pessoal caminhassem coligadas para mostrar como são traduzidas as relações humanas em um lugar impermeável, brutalizado pelo tempo, calejado pela violência decorrente do isolamento, do patriarcado, do analfabetismo, da miséria, questões ainda não superadas, principalmente no meio rural nordestino.
Por isso, entendemos que as crônicas são estratégias (estéticas e políticas) construídas na tentativa de instituir, se não um processo de mudança e transformação do momento por ele vivido, ao menos a reflexão sobre os condicionantes políticos, econômicos e culturais desse momento. Por isso, a despeito de ter colaborado para uma publicação como a Cultura Política, Graciliano soube preservar sua autonomia intelectual, política e estética. Sua escrita foi sua forma de atuação intelectual. Embora tendo que conviver com as ambiguidades do poder, ainda assim pode instaurar sua crítica. Por isso identificamos na mesma pessoa o escritor e o intelectual Graciliano.
A crônica serviu para Graciliano denunciar as mazelas sociais de um país em vias de modernização. O gênero talvez não tenha dado a ele a visibilidade merecida, mas, sem dúvida, constituiu-se como um espaço privilegiado para o estilo conciso, férreo e crítico desse grande escritor.
Por fim, a narrativa construída por Graciliano a partir de reminiscências de um tempo, um lugar e uma gente nos proporcionou (re)significar muitas das histórias contadas e recontadas na nossa infância por pai e mãe – nordestinos como Graciliano – e recompor a memória de um coletivo, não obstante o vínculo, já esquecido por nós. Ao narrar o que extraiu da experiência (sua própria e de outros) Graciliano tornou essa experiência nossa também.
Esperamos que este trabalho possa vir a ser capaz de renovar o interesse pela leitura da obra de Graciliano, principalmente as crônicas deste livro ainda tão pouco debatido no meio acadêmico.
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