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A abordagem que considera o texto em suas relações mais amplas, só foi possível com o legado de Tynianov e de Bakthin. Seguindo essa perspectiva, chega- se a novas conclusões sobre as ligações entre os textos. Kristeva12 prossegue nessa

linha e apresenta o termo intertextualidade como um dos aspectos do dialogismo que se comprova no interior do discurso. Ela considera que um texto se faz pela transformação dos elementos absorvidos em outros textos.

11 Cf. tendência estruturalista mais ortodoxa que apoiava as análises nos elementos do próprio texto sem considerar as relações entre ele e suas condições de produção.

Na verdade, o que acontece é que o texto tanto como “objeto de significação” como “objeto de comunicação” é organizado e estruturado em decorrência do contexto socioistórico. Com base nas investigações de Bakhtin, tem- se que o princípio dialógico, característica essencial a toda linguagem, traz o cruzamento de vozes quando, de alguma forma, se toca nas palavras alheias.

De acordo com Barros (2003, p. 3), “concebe-se o dialogismo como o espaço interacional entre o eu e o tu ou entre o eu e o outro, no texto.” Esse tipo de dialogismo está relacionado a um de seus desdobramentos o que se estabelece pela interação verbal entre o enunciador e o enunciatário de um texto. Mais adiante, a autora apresenta um outro desdobramento que se estabelece pelo diálogo entre “os muitos textos de uma cultura, que se instala no interior de cada texto e o define”: são os pontos de intersecção das vozes socialmente produzidas nos mais diversos segmentos e que se encontram em diálogo nos textos. Essas vozes internas em um texto caracterizam a intertextualidade.

Num texto, a polifonia pode ser identificada quando diversas vozes se mostram, estabelecendo diálogos e provocando efeitos de sentido. Assim, as idéias de relação, de retomada e de confronto existentes entre os textos provêm dos processos relacionados tanto ao dialogismo e à polifonia, quanto à intertextualidade.

Linda Hutcheon afirma que o termo intertextualidade pode ser limitado para descrever as formas coletivas de discurso que a pós-modernidade mantém (a literatura, as artes, a história entre outras formas discursivas). Prefere utilizar o termo “interdiscursividade”, por considerá-lo mais preciso e abrangente.

A pluralização discursiva tem, entre seus efeitos, a dispersão do centro discursivo que, muitas vezes, aparentemente, é percebido como único. Uma das vantagens de se aceitar essa descentralização é que a atenção atinge também os pontos periféricos do discurso “Aquilo que é ‘diferente’ é valorizado em oposição à ‘não-identidade’ elitista e alienada e também ao impulso uniformizador da cultura de massa” (1991, p. 170). Como se sabe, qualquer discurso se situa em relação aos outros discursos existentes, é perpassado por vozes que provocam identificações de toda sorte, portanto, é marcado pela heterogeneidade.

A intertextualidade, na concepção de Jenny (1979, p. 14), “designa não uma soma confusa e misteriosa de influências, mas o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando do sentido.” Destarte, o estatuto do discurso intertextual é comparável ao de uma “super-palavra”13, na medida em que se constitui não simplesmente pelas

palavras, mas por coisas ditas e organizadas em fragmentos textuais.

A intertextualidade se faz com a soma (copresença) dos textos existentes; basta uma alusão ou uma reminiscência para introduzir no texto centralizador um sentido, uma representação, uma história, um conjunto ideológico, proveniente de outros textos-origem, sem que seja preciso enunciá-los.

Tais inter-relações, próprias do âmbito literário, podem ser comparadas aos processos de hibridismo que acontecem no âmbito social, uma vez que são fenômenos dialéticos; neles há a possibilidade de se conciliar a diversidade, a contradição e a multiplicidade.

Vistos como fenômenos estéticos, influenciam os gêneros modernos, cuja tendência em fazer junções os caracterizam como formas instáveis, se comparadas à concepção tradicional que os mantinham como entidades fechadas. Conseqüentemente, eles assumem uma dimensão de maior complexidade, pelo envolvimento de sentido presente nas outras vozes que compõem tanto os outros textos e seus gêneros como a cultura.

As concepções de Bakhtin (1998, p. 88) são no sentido de que o artista edifica o “multidiscurso social em volta do objeto até a conclusão da imagem, impregnada pela plenitude das ressonâncias dialógicas, artisticamente calculadas em todas as vozes, e entonações essenciais desse plurilingüismo”. Esse pensamento atinge, sobretudo, a consciência do homem e a natureza dialógica da linguagem, sendo orientação de todo discurso, que tem como característica a heterogeneidade da linguagem, composta pelos interdiscursos, formados a partir da multiplicidade de outros textos.

Paz (1991, p. 158) também é adepto à idéia de que o texto não é uma produção desvencilhada de outras produções.

13 Cf. Jenny (1979, p. 21)

Os estilos são coletivos e passam de uma língua a outra; as obras, todas enraizadas em seu solo verbal, são únicas... Únicas mas não isoladas: cada uma delas nasce e vive em relação com outras obras, de línguas diferentes. Assim, nem a pluralidade das línguas nem a singularidade das obras significa heterogeneidade irredutível ou confusão, mas o contrário: um mundo de relações feito de contradições e correspondências, uniões e separações.

A obra passa a ser um espaço de apropriação cultural que ultrapassa as fronteiras geográficas e lingüísticas14. Pensar o literário, nessa perspectiva, é

princípio básico para os estudos comparados, principalmente quando o mundo ganha a dimensão das relações estabelecidas, assegurando transformações nas formas de conhecimento.

Por meio da interação, a literatura moderna também se articula em combinações que, de certa forma, continuam um movimento de fusão iniciado pelos escritores românticos e que aponta para uma transgressão.

Talraciocínio tem afinidade com a afirmação de Teles (1973, p. 146), pois: “Rebelando-se contra as formas do passado, o Modernismo instaurou novas formas, desrespeitando o convencionalismo dos gêneros e das espécies literárias, misturando-os num texto novo”. As novas formas, cada vez mais acentuadamente, trazem marcas comuns a mais de um gênero, o que as caracterizam como formas híbridas, reguladas por princípios que transcendem aos particularismos.

Além dessa novidade, há também mudança nos temas. Era comum alguns temas serem unicamente relacionados a determinados gêneros, como no caso do enfático direcionamento do tema da saudade ao gênero lírico.

Quintana (2000, p. 146) brinca com essa redutora possibilidade e mostra a poesia moderna como experimento do que antes era improvável:

A conquista da poesia moderna é a transfiguração, acabaram-se os temas poéticos. Antes só se podia falar em cisne, agora fala-se em pato e sapato. O quotidiano, escrevi eu no Sapato Florido, o quotidiano é que é o incógnito do mistério. Existe a lenda do rei

14 Para Hutcheon (1991, p. 169) o termo que melhor se adapta à alternância de vozes da pluralização discursiva nos diversos espaços em que são registradas é interdiscursividade.

Midas, que tudo quanto ele tocava se transformava em ouro. O verdadeiro poeta, tudo quanto ele toca se transforma em poesia.

Diante da estagnação que culmina em desgaste, Quintana busca alternativas. Ele vê o cotidiano como fonte inesgotável de poesia, pois nele, além do imprevisto, sempre haverá algo sem resposta que atrai e convida a ampliar os horizontes do conhecimento humano.

A partir do advento do modernismo, ao poético foram permitidas as mais cotidianas preocupações, a ponto de tudo poder ser tocado pelo poeta e trazido para o universo da poesia, o que em outros tempos poderia soar como uma banalização ou inadequação do tema tratado por esse gênero.

O processo de mesclagem aponta para a fragmentação das junções, o que aparentemente pode ser identificado com a falta de unidade; essas características opõem-se ao purismo dos gêneros, teor da estética clássica, defendido pela tradição literária.

Mario Quintana (2000, p. 53) tem, em sua poesia, traços aparentes da modernidade:

Ah, essas pequeninas coisas tão cotidianas, tão prosaicas às vezes, de que se compõe meticulosamente a tessitura de um poema... / Talvez a Poesia não passe de um gênero de crônica, apenas – uma espécie de crônica da Eternidade.

O poeta aproxima: crônica e poesia, incorporando elementos que antes, prioritariamente, eram empregados em textos de gêneros distintos, permitindo experimentar a possibilidade de suprimir os limites tradicionais de cada um desses gêneros.

Ao agrupar coisas que parecem ser paradoxais, atende às características de um gênero misto, fazendo sua poesia-crônica ou, como também é conhecida, sua prosa-poética, forma híbrida que contraria a natureza e as características tanto da poesia como da crônica, se vistas sob o modelo clássico dos gêneros.

Assim, a poesia pode ser “uma espécie de crônica da Eternidade”, pois na nova postura, de tênues fronteiras, a poesia e a prosa se aproximam, confrontam-se

e se fundem. A poesia assume o que é rotineiro e fugaz do dia-a-dia, habitualmente tratados no gênero crônica, e sob uma idéia híbrida eterniza-os no feitio poético.