O clima de urgência da organização era singular e podia quase sentir-se. Este era, igualmente, transmitido em reuniões, pelo próprio CD. Poucos meses antes da nossa integração, ocorrerem vários episódios que dão disso testemunha, de que destacamos dois, pela sua gravidade, mas igualmente, por serem do domínio público. O primeiro, culminou no encerramento do Banco Público de Sangue do Cordão Umbilical - o caso foi amplamente divulgado na comunicação social - e o segundo, consubstanciou-se no apelo ao boicote à dádiva de sangue - protagonizado por uma das federações e várias associações de dadores - alegadamente motivado pela eliminação da isenção das taxas moderadoras do SNS (cuidados hospitalares), aos dadores regulares. De assinalar, que no decorrer do ano de 2012, a entidade apelou à dádiva solidária da sociedade civil, nos dois períodos de tradicional quebra de colheitas (fevereiro/setembro), agravados, naquele ano, pelos episódios relatados.
A entidade trabalhava em situação de “quasi-mercado” (Hood, 1991) - as associações de dadores “forneciam o sangue no braço”, em troca de benefícios diversos aos dirigentes e aos dadores - e a instituição, os meios de colheita e a subsequente cadeia de valor dos componentes de sangue. Esta forma organizacional perpetuava uma situação de anquilosamento e de estagnação do potencial crescimento da colheita de sangue, pela via tradicionalmente consagrada. A criação de um “call-center” de âmbito nacional, procurou constituir-se numa primeira resposta, ainda que estritamente tecnológica, de contacto direto com os dadores, promovendo um maior número de potenciais dadores em cada uma das sessões de colheita programadas, beneficiando, também indiretamente as associações.
A introdução desta solução tecnológica de integração, por oposição à da diferenciação tradicional e regionalmente desconcentrada, sem colidir com esta, gerou, nos termos de Weick
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(1976; 2001) e Hollembeck e Spitzmuller (2012) um sistema organizacional em situação de semi-conexão, que fez avançar a pro-atividade da entidade, ainda que de modo insuficiente.
A urgência da situação era uma força muito presente, naquele ano e foi pela equipa da universidade e por nós percebida como proveniente de duas instituições, entretanto fusionadas na nova entidade, a que entretanto “encerrara” nos moldes em que anteriormente laborava - colheita aleatória de amostras de células estaminais do cordão, sem critério clínico definido – e, nomeadamente, da parte da sua maior constituinte e responsável pela colheita de sangue. Esta última, com a missão de responder, em tempo útil e com qualidade, às necessidades de consumos diários em componentes de sangue, a todos os hospitais portugueses com capacidade transfusional.
A eventual desagregação da nova entidade parecia assim advir do seu maior capital de solidariedade, a dádiva de sangue. O CD, percecionava uma iminência de rutura da reserva nacional de sangue, atendendo à pressão dos consumos hospitalares diários, regulares (1200 unidades/dia), face à organização interna da resposta medida em sessões de colheitas programadas pela própria entidade. Importa referir que a reserva nacional de sangue permite fazer face às necessidades regulares de consumo de componentes de sangue dos hospitais, durante sete dias mais três (diretriz AABB: 72 horas de fornecimento após o início de um evento a gerir de acordo com a regra FIFO), definida para o território nacional (Plano de Emergência e Contingência para a Dádiva de Sangue, dez. 2013).
A 17 de setembro de 2012, aquando da nossa integração na entidade, nos termos acima descritos, foi-nos comunicado diretamente pelo CD, a necessidade de desenvolvermos uma investigação-ação em resposta ao desequilíbrio reportado na área do sangue, i.e., entre a escassez da oferta solidária associada a um planeamento interno de sessões de colheitas pouco reforçado nos períodos de sazonalidade conhecidos, e a crescente pressão da procura externa por componentes sanguíneos, por parte dos hospitais e dos seus serviços de medicina transfusional.
O imperativo do “enactment” (Weick, 1979; 2001) e da estratégia emergente de ação (Mintzberg, 1989; 2004) foi-nos transmitido desde o primeiro momento. A impermanência do meio (Weick, 2009) associava-se a uma tendência de sazonalidade de dádiva em dois períodos anuais, de quebra efetiva de colheitas de sangue, conhecida e cíclica (fevereiro; setembro). O período de crise económica e social daquele ano e seguintes acentuava a plausibilidade de perceção, na sociedade portuguesa, de falta de coesão social, de caos
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institucional, e de motivar uma carência de confiança nas instituições da saúde, a nível nacional. O impacto potencial de apelos sistemáticos na organização, conjugado ao da crise socioeconómica, poderia fazer-se sentir, por esta via, numa diminuição significativa do número de dadores (potenciais, esporádicos e regulares), num futuro próximo.
O cenário de intervenção da investigação-ação era assim mais urgente do que o inicialmente previsto no protocolo original, mas, igualmente, mais claro. A autorização e o ímpeto do CD em “mergulharmos” no terreno de ação, tão depressa quanto possível, conduziram a um redesenho da intervenção, que fizemos acompanhar por, identificação das áreas de investigação-ação prioritárias; autonomia necessária à ação emergente dos investigadores; e formas de registo sistemático de ações e dinâmicas.
O processo da investigação-ação foi desenhado para ser conduzido no seio de grupos de trabalho adhocráticos com uma coordenação por ajustamento mútuo e comprometidos com objetivos definidos pelo vértice hierárquico da organização, de modo a flexibilizar a entidade com vista à adaptabilidade e eficácia duradouras, poupando-a deste modo a uma rigidificação provável.
No ponto seguinte, explicamos o processo de emergência do desenho da investigação, o qual possibilitou acomodar a investigação-ação, a observação não-participante, os focus grupos e o impacto na dinâmica da nova entidade.
O registo das ações de investigação-ação foi assegurado pela metodologia etnográfica de observação não-participante, conduzida pelo estudante de PhD e expressa no “diário de investigação” – investigação própria, mas igualmente, ponto de reflexão conjunta de toda a equipa universitária no terreno.