4.5 Laksens oppgang i Austervefsna
4.5.2 De enkelte fossene
“Jogos de Linguagem”
Inicialmente, vale destacar que Wittgenstein inspirou-se na doutrina das cores de Goethe 63 (1749-1832) para construir seu conceito de “jogos de linguagem”. Segundo
Marques (2003), no “Livro Azul (1934/35) e Livro Castanho (1934/35), assim como nos conjuntos de notas e de observações editados com o nome de Observações Filosóficas”, Wittgenstein já desenvolve uma crítica à busca da essência da linguagem defendida por ele no Tractatus. Em relação a essa mudança de postura, Marques destaca dois pontos: “1. a rejeição do tal isomorfismo entre linguagem e realidade e 2. a progressiva verificação que o significado das palavras é determinado por métodos de projeção dos sinais das coisas”. Em relação ao método de projeção 64, Marques (2003, p. 45-46) sublinha que “[...] o aprofundamento do problema do método de projecção [...]” criará condições para o desenvolvimento do conceito de “jogos de linguagem”.
A situação acima ilustra o desenvolvimento do conceito de “jogos de linguagem” feito por Wittgenstein. Mesmo com as dificuldades de compreensão que
63 Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832). A obra: GOETHE, J. W. Doutrina das cores. Tradução Marco Giannotti. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.
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Em que consiste esse método de projeção? Segundo Marques (2003), “Em vez de compreender a representação das coisas através de nomes que a forma lógica ordenava, concatenava, na proposição (sempre numa descrição completa [...], passa-se a compreender a representação linguística como uma actividade de projecção” (MARQUES, 2003, p. 45-46). Nós precisamos estabelecer regras de correspondência entre os sinais de um sistema e os objetos. “Quando alguém profere a palavra ‘cubo’ será que o sentido desse termo ocorre em nós como um flash, de um golpe, associado a uma certa imagem de um cubo? No entanto é errado pensar que apenas uma imagem é adequada a um termo, já que é sempre um método de projeção que está na base da constituição dessa imagem. Posso representar um cubo de tal modo projetactado que parece em nada se assemelhar a outra representação que use outro modo de projectar” (MARQUES, 2003, p. 47). Marques ainda salienta, “[...] que aquilo que no método de projecção é apresentado como imagem, não se deve confundir com uma espécie de padrão a que se pudesse atribuir o valor de uma imagem arquétipo” (MARQUES, 2003, p. 48). E que “Não existe uma única imagem que exemplifique o conceito, porque essa imagem teria que ser um padrão puro, o que resultaria numa mitologia dos arquétipos escondidos na alma” (MARQUES, 2003, p. 48). Não existe uma imagem no sentido platônico. Para a compreensão de um conceito não é necessário uma imagem mental correspondente. Segundo Marques: “Em muitos dos usos da nossa linguagem, o sentido das palavras e das expressões não depende do objecto que eventualmente essas palavras ou expressões designam. Nem sequer à imagem que poderia servir de substituto ao objecto. Que imagem, por exemplo, poderá corresponder à frase: ‘Espero que ela chegue em breve’? E claro que nenhum objecto lhe pode corresponder, já que se é uma expectativa o objeto não pode estar presente” (MARQUES, 2003, p. 50).
envolvem o conceito de “jogo de linguagem”, nossa proposta é apresentar elementos que permitam esclarecer esse conceito. Conforme notamos, para Wittgenstein, a linguagem é uma atividade que pode ser comparada a um jogo. É preciso compreender as palavras dentro desses jogos. Portanto, como em todo jogo, a linguagem é estabelecida a partir de regras que regem a trama de atividades. Segundo Marques (2003, p. 35), “Para Wittgenstein compreender um lance de um jogo não é muito diferente de compreender o sentido de uma palavra que é usada desta ou daquela maneira no quadro de um jogo de linguagem”. O significado de uma palavra, por sua vez, não é mais o objeto que ela substitui, como Wittgenstein entendia no Tractactus. Segundo Glock (1998, p. 225), “Aprendemos o significado das palavras aprendendo a utilizá-las, da mesma forma que aprendemos a jogar xadrez”.
Na visão do filósofo austríaco, não existe nada que permeie todos os “jogos de linguagem”. Isso equivale a dizer que os “jogos de linguagem” não têm uma essência, ou seja, algo que é comum a todos. A noção de jogo pressupõe a noção de regras. E como já vimos, a multiplicidade dos “jogos de linguagem” é própria de uma forma de vida humana. Todavia, é de se destacar que “jogos de linguagem”, para Wittgenstein, segundo Hacker (1999, p. 13) são “[...] as práticas, atividades, ações e reações em contextos característicos, dos quais seu uso regrado das palavras é parte integrante”, ou seja, são situações específicas que permitem diferentes possibilidades de uso. Descrever os “jogos de linguagem” é descrever o uso das palavras.
À luz desse exame, os termos psicológicos, por exemplo, também têm um “jogo de linguagem” próprio, pois os termos do vocabulário psicológico também fazem parte de um jogo com regras, assim como a linguagem é uma atividade guiada por regras. Por conseguinte, é preciso critério (regra) que é público, pois não existe a possibilidade de seguir regras privadamente. E a importância da regra se dá pelo fato que ela pode ser publicamente compreendida. Por isso, é uma atividade pública, o que implica especialmente na refutação do solipsismo.
Tomando a expressão “Jogos de linguagem fictícios”, como anunciamos anteriormente, vemos uma aproximação entre Lipman e Wittgenstein, isto é, os “jogos de linguagem” de Wittgenstein e as “novelas filosóficas” de Lipman.
Nossos claros e simples jogos de linguagem não são estudos preparatórios para uma futura regulamentação da linguagem, - como que primeiras aproximações, sem considerar o atrito e a resistência do ar. Os jogos de linguagem figuram mais como objetos de comparação, que, através de semelhanças e dissemelhanças, devem
lançar luz sobre as relações de nossa linguagem (WITTGENSTEIN, 1999, § 130 p. 68).
Nessa passagem Wittgenstein critica o dogmatismo de nossas afirmações filosóficas, assumindo que é possível haver um jogo de linguagem fictício - ideia apontada por Glock (1996, p.226). Trata-se de práticas linguísticas, hipotéticas ou inventadas, de uma espécie simples ou primitiva. Tais “jogos de linguagem simples e claros” servem como “objetos de comparação” (WITTGENSTEIN, 1999, § 130 p. 68)65. Têm a incumbência de lançar luz sobre nossos “jogos de linguagem” mais complicados, conferindo um relevo especial a alguns de seus aspectos característicos. Wittgenstein concebe pelo menos duas maneiras de fazer isso. Uma delas é reconstruir os discursos complexos nos quais são utilizados termos como ‘verdade’, ‘asserção’, ‘ proposição’ etc., a partir de “jogos de linguagem” mais primitivos. Essa abordagem prepondera no Livro castanho, em que se discute uma série de “jogos de linguagem” fictícios, sem que se recorra a qualquer contextualização filosófica, e sem interligá-los em qualquer linha argumentativa com a função de lançar luz sobre “jogos de linguagem” mais complexos.
“Seguir Regras”
A questão seguinte que queremos discutir é sobre o conceito de “seguir regras”, presente no pensamento de Wittgenstein. Conforme mostrado no decorrer da pesquisa, todo jogo assim como toda a linguagem, são atividades guiadas por regras. É preciso uma regra para que eles aconteçam. Seguir uma regra é um hábito (uma prática) que vem de um adestramento dentro do meio cultural em que o indivíduo se encontra. E esse adestramento é público. Nesse sentido, os “jogos de linguagem” acontecem como num jogo comum. Com efeito, é preciso compreender as palavras dentro desses jogos. Seguindo essa linha de raciocínio podemos presumir, então, que é preciso entender quais são as regras que determinam o uso dessas palavras, pois as regras desse jogo é que determinam o significado das palavras. Segundo Hintikka (1986, p. 241), “[...] apreender o significado de uma palavra consistirá na aquisição de uma regra (ou um conjunto de regras)”. A importância da regra se dá pelo fato que ela pode ser publicamente compreendida.
Wittgenstein, no início das Investigações, faz uma crítica à definição ostensiva (ato de apontar as coisas), pois ele a entende não como modelo privilegiado de explicação do significado. No entanto, ele defende que a definição ostensiva não é totalmente inválida, apesar dela não cumprir todas as funções da linguagem, ela serve como preparação. Entretanto, é correto afirmar que, para o filósofo, o que garante a possibilidade da linguagem é o conceito de seguir regras. Segundo Hintikka (1986, p. 247), Wittgenstein reconhece que as regras constituem a ponte entre a linguagem e o mundo, pois ele “[...] considera as regras o alfa e o ômega da linguagem [...]. Isso lhe permite também atribuir um lugar de honra às definições ostensivas – porque na medida em que elas comunicam ao aprendiz a regra a que deve obedecer o definiendum”.
Mas, o que significa seguir uma regra? Wittgenstein expressa isso de maneira direta. Segundo ele:
Seguir uma regra é análogo a: seguir uma ordem. Somos treinados para isto e reagimos de um determinado modo. Mas que aconteceria se uma pessoa reagisse desse modo e uma outra de outro modo a uma ordem ao treinamento? Quem tem razão?
Imagine que você fosse pesquisador em país cuja língua lhe fosse inteiramente desconhecida. Em que circunstância você diria que as pessoas ali dão ordens, compreenderam-nas, seguem-nas, se insurgem contra elas, e assim por diante? O modo de agir comum a todos os homens é o sistema de referência, por meio do qual interpretamos uma linguagem desconhecida (WITTGENSTEIN, 1999, § 206 p. 93).
Sob essa perspectiva, a linguagem das sensações66, dos estados internos é uma linguagem pública. O critério para palavras como “dor”, por exemplo, não é a própria dor, mas a regra do jogo quando eu digo “eu tenho dor”. Por isso, eu posso compreender quando alguém diz “eu tenho dor”. Vale destacar, que cada situação tem regras diferentes, e o que se tem a fazer é uma descrição dessas regras. Ainda em relação ao exemplo, quando digo “tenho dor”, ou “duvido que ele tenha dor” etc., uma análise gramatical simples mostra como “[...] tem sentido dizer que os outros duvidam que eu tenha dores; mas não tem sentido dizer isto de mim mesmo” (WITTGENSTEIN, 1999, § 246 p. 99).
66 A esse respeito, segundo Rezende (2005, p. 249), “Falar a respeito de objetos é diferente do falar de nossas sensações”. É como se jogássemos jogos de regras diferentes. Segundo ele, “As regras do futebol não são as mesmas do vôlei”.
“Formas de Vida”
E por fim, no que tange às concepções de Wittgenstein, trataremos do conceito “formas de vida” que, por sua vez, tem a ver com a cultura, pois a natureza humana é cultural, transforma seu meio, constrói instituições. Nesse sentido, para Wittgenstein, as formas de vida devem ser levadas em conta para entendermos a linguagem, visto que sendo uma atividade social e também cultural está ligada às formas de vida. De acordo com Glock (1996, p. 174), “Nos livros azul e castanho (134), imaginar uma linguagem é o mesmo que imaginar uma ‘cultura’. Por conseguinte, uma forma de vida é uma formação cultural ou social, a totalidade das atividades comunitárias em que estão imersos os nossos “jogos de linguagem”. A linguagem deixa de ter a visão lógica para ter uma visão antropológica. Segundo Wittgenstein (1999, § 23 p. 35), “O termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”. Dessa maneira, os jogos de linguagem devem ser compreendidos dentro de um contexto social. Além disso, é importante observar que, segundo Glock (1998, p. 176), “[...] uma forma de vida é uma formação cultural ou social, a totalidade das atividades comunitárias em que estão imersos os nossos jogos de linguagem”.
Wittgenstein acredita que existe uma multiplicidade de formas, baseadas nas formas de vida, que são os “jogos de linguagem”. E a partir da consciência dessa multiplicidade e do bom uso da linguagem podemos resolver o que comumente caracteriza-se como problema filosófico, a saber, as confusões conceituais que fazemos e que podem ser desfeitas por uma análise da linguagem. Portanto, uma investigação em busca do sentido que imprimimos às palavras é a solução para desfazer tais confusões. Assim, estaríamos evitando muitos equívocos gramaticais. Mas tendo em vista que a linguagem é uma característica humana, essa análise deve manter a perspectiva de nossas relações pessoais; é quando a palavra “adquire vida”. Segundo Wittgenstein “A maior parte destes problemas pode ser resolvida acentuando o fato de a escrita e a palavra serem próprias das relações com outras pessoas. É nesse contexto que os signos adquirem vida, e é por isso que a linguagem não é apenas um mecanismo” (WITTGENSTEIN, 1992, p. 23). A linguagem vai se formando ao longo da história.