5 Discussion
5.5 U-Pb dating
A tecnologia acompanha o teatro desde seu surgimento na Grécia22, o mecanismo do deus ex machina [espécie de guindaste introduzido repentinamente, fazendo, por exemplo, um deus aparecer ou Medéia fugir voando no carro do sol] e os alçapões [utilizados para entradas e saídas mágicas] eram tecnologias desenvolvidas, normalmente, para a indústria náutica e, posteriormente, aplicadas à cena. Durante a história da arquitetura teatral continuou assim, a parte interna de vários palcos italianos tem amarrações de cordas e madeiras que sustentam a luz e os cenários que lembram uma caravela, passando pela uso da luz elétrica por Adolphe Appia e Gordon Craig, chegando à tecnologia digital e ao surgimento de uma nova estética, o teatro digital.
Durante muito tempo, foi proclamado que a tevê e o cinema eram a morte do teatro, entretanto, este se refez, explorou novas estéticas. Talvez agora estejamos diante de mais uma dessas maneiras de viver o teatro; se as pessoas mantiverem grande parte de sua comunicação apoiada em aparelhos tecnológicos, esse novo espaço passa a ser ocupado também por diversas artes. O teatro, por exemplo, tema que acompanha esta pesquisa [em função das várias analogias teóricas que podemos fazer na busca da comunicação poética e do acontecimento comunicacional], avança cada vez mais em direção à tecnologia e não só em relação à Web. Novas possibilidades começam a aparecer. Em 2009, o robô humanoide Wakamaru foi o personagem principal de um espetáculo teatral no Japão. A peça foi produzida pela Mitsubishi Heavy Industry, escrita e dirigida pelo dramaturgo Oriza Hirata. O robô interpretou o personagem Momoko, dividindo o palco com a atriz Minako Inoue.
De alguma forma, muitas companhias de teatro já frequentam a web, possuem um site e participam de redes sociais, onde realizam diversas ações poéticas. Todas essas ações estão no espaço digital e apresentam relação direta com a estética de cada grupo. Identificamos dois caminhos diferentes, em relação ao teatro, que são utilizados hoje na internet, um é transmitir a imagem gravada, ao vivo23, ou não; o outro é se relacionar com o observador de modo simultâneo.
22 Considerando somente a cultura ocidental.
23
Dentro do facebook, por exemplo, o usuário pode assistir a vídeos ou transmiti-los, utilizando uma webcam e um computador conectado à internet. Isso, porque a rede social incorporou a plataforma Livestream, suporte
Vamos chamar essa segunda forma de teatro em rede digital – uma modalidade de teatro que utiliza um suporte digital como mediador para a relação com o espectador. Teatro em rede digital seria a integração simultânea de um espetáculo, entre locais diferentes, por meio da comunicação digital com computadores, celulares e a nova tevê digital, ou seja, o espetáculo ocorre como uma grande videoconferência, entre espaços reais e espaços digitais. Utilizo a palavra digital e não virtual, porque o universo virtual também existe no espaço físico do teatro tradicional e de qualquer relação imagética. O virtual não se opõe ao real.
A própria realidade (ou seja, a experiência simbólica/material das pessoas) é inteiramente captada, totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais no mundo do faz de conta, no qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora de experiências, mas se transformam na experiência. (CASTELLS, 1999, p. 395).
Nesse ponto, o teatro assume a interatividade virtual que acontece entre sujeitos e, na relação de trocas entre sujeitos e tecnologia, assim se realiza a experiência teatral no espaço digital. Uma característica dos meios de comunicação de massa são as misturas de diversos níveis de linguagem e multimeios que possibilitam novas experiências sensoriais que envolvem a percepção de intertextualidades, tanto que diversos artistas têm incorporado, de forma crescente, a tecnologia, tanto como meio para a produção, como para a transmissão. Nessa relação natural, os artistas expandem os campos das artes, criando interfaces como o teatro digital. A “presença” da performance digital não anula a sensação do espectador de estar vivendo uma realidade artística, uma experiência criativa em vários níveis.
Alguns exemplos servem para comprovar a possibilidade da performance poética por meio das redes sociais e da internet. Destaco agora algumas atitudes performáticas de criação artística que envolvem a tecnologia e a web como elemento principal, o grupo “La fura dels baús”, de Barcelona, é um desses exemplos; famoso por performances antológicas que envolviam totalmente o
gratuito (como a Ustream e outros) para a transmissão em vídeo digital ao vivo: desse modo, pode-se transmitir um programa na internet diretamente para sua rede de amigos e interessados que participam da rede social. O aplicativo utiliza um software próprio que, ao mesmo tempo, captura as imagens de uma câmera e vigia tudo que ocorre no computador; assim, além da imagem captada, é possível exibir todos os aplicativos abertos na tela, como os comentários de quem assiste. Com essa plataforma, é possível transmitir diretamente do telefone celular, usando 3G ou wi-fi.
espectador, elaborou o manifesto binário24, um dos primeiros grupos a usar o termo teatro digital.
La Fura dels Baus foi criado em 1979 em Barcelona, capital da Catalunya, autonomia histórica de España. O grupo nasce entre o desbunde da transição democrática após a morte do ditador Franco em 1975 e a ressaca do desencanto com a lentidão e ausência de transformações, fazendo parte do posterior vigor da movida madrileña e do investimento massivo em arte e cultura como vitrine para a ambicionada entrada na Comunidade Europeia, e do incremento de mudanças estruturais no país com a eleição de Felipe González, do Partido Social Obrero Español (PSOE). (VILLAR, 2001, p. 833).
Constituindo-se dentro desse solo histórico, La Fura participa do resgate da identidade catalã, inclusive em relação ao processo de reafirmação linguística. O grupo ficou mundialmente conhecido com a realização do espetáculo “Accions:
Alteraciò Física d’un Espai” que mesclava em uma performance art elementos
estéticos de concertos de rock, festas populares catalãs e espanholas, com um espetáculo interdisciplinar realizado fora de teatros convencionais, onde atuantes, espectadores, palco e plateia se misturavam espacialmente vivendo a performance.
“Suz/O/Suz” foi a primeira ação do La Fura a que assisti (a primeira a vir ao Brasil) foi apresentado na Bienal Internacional de São Paulo de 1991. A ação cênica era apresentada entre o público e sobre palcos fixos e móveis com elementos de concerto de rock, misturados a sons de máquinas situadas ao redor do espaço de ação, atores aparecendo do tempo, descendo do teto até o nível do público, manipulando carrinhos de supermercados, motores ligados, tonéis, botijões de gás etc. Torres e banheiras móveis se deslocavam enquanto carnes, líquidos, pigmentos, farinha eram arremessados; o público situado nesse momento, no meio de um combate com bombas de farinha e de “sangue”. No fim, um espetáculo visual, a linda reprodução de um nascimento com atores submergidos em aquários transparentes cheios de água que ganha diversas cores, como um ritual; público e atores dividem o mesmo espaço realizando, assim, a mesma ação. Como levar toda essa experiência para a web? Parece impossível vivenciar tamanha experiência dentro do espaço digital. O “Manifesto Binário” do grupo La Fura é, possivelmente, um dos primeiros textos que aborda o “teatro digital”.
Teatro digital se refere a uma linguagem binária conectando o orgânico com o inorgânico, o material com o virtual, o ator de carne e osso com o avatar, a audiência presente com os usuários da internet, o palco físico com o ciberespaço. O teatro digital da La Fura dels Baus permite interações em
palcos dentro e fora da rede, inventando novas interfaces hipermidiáticas. O hipertexto e seus protocolos criam um novo tipo de narrativa, mais próxima dos pensamentos ou sonhos, gerando um teatro interior em que sonhos se tornam realidade (virtual). A internet é a realização de um pensamento coletivo, orgânico e caótico, que foi desenvolvido sem hierarquia definida. O teatro digital se multiplica em milhares de representações, em que os espectadores podem colocar imagens de suas próprias subjetividades, por meio de mundos virtuais compartilhados.25
A tecnologia digital torna possível transcender a limitação da presença do corpo físico, assim a performance art, ou a performance social, habita um novo espaço que traz a materialidade da performance imediata sem a “limitação” da presença física, mas com todas as sutilezas possibilitadas na comunicação corporal, além da icônica. Na performance digital, abre-se novamente a mágica proporcionada pela unicidade da obra, nesse caso, ligada ao momento único, ou seja, a possibilidade do retorno da “aura” [como exposta por Walter Benjamim]. Essa presença única, formatada pelas ações de corpos no espaço, é a própria base do conceito de performance e o que fundamenta o conceito das artes cênicas, como meio de comunicação de massa com acesso amplo, sem as limitações econômicas que gerou uma indústria cultural de pouco para muitos, a indústria de conteúdos possibilitados pelo amplo acesso26 ao universo digital.
Saltando de uma tecnologia de reprodução estática e congelada [fotografia e cinema] o espaço digital tem sua produção imediata. Enquanto no passado analógico o instante era congelado [eternizado] e compartilhado, a imagem digital pode atuar, também, em tempo presente, unindo o tempo real ao ato performático. O próprio manifesto binário fala da dificuldade de se “categorizar em um mundo híbrido como o de hoje”, o que tornaria possível até um teatro digital, uma nova forma dentro de um velho meio. Atualmente, temos diversas experiências dentro da rede, onde a tecnologia e o teatro interagem. Atores interagem a partir de tempos e lugares diversos, o público acompanha tudo de casa [em alguns casos com espaço para interação], ou em um teatro com atores reais e digitais, ações de poética social engajada com debates e atividades interativas e interculturais etc. A aproximação das artes cênicas com a ideia dos jogos eletrônicos/digitais, com certeza, é uma “novidade” que pode se esperar para os próximos anos, como já existe em relação
25 Disponível em: <http://www.teatroparaalguem.com.br/2011/01/manifesto-binario/>. Acesso em: 20 set. 2012.
26 Em relação aos meios de produção da tecnologia analógica, a afirmação não ignora as necessidades de
aos jogos de RPG, que podem ser performáticos. A tecnologia invade a arte. Ligue o celular, o teatro vai começar! O que parecia bastante improvável e, até, impossível, aconteceu, hoje você pode assistir e fazer teatro pelo celular.
Embora as ações realizadas no espaço digital possam ser registradas e eternizadas, não é essa a opção do grupo La fura, na visita à página do grupo não encontramos suas apresentações, as performances do grupo [mesmo no espaço digital] carregam a característica efêmera do teatro, como as performances art o teatro digital do La fura, como ato performático, duram o instante de sua realização, tornando a visita à sua página e ao manifesto binário um tanto “frustrante” para o expectador.
Outra experiência desenvolvida com o teatro em rede digital é organizada pelo Departamento de Dramaturgia da Universidade de Arhus, na Dinamarca. O “Teatro Digital Experimentarium” examina as possibilidades artísticas envolvidas no encontro entre atores reais e virtuais. Em São Paulo, a Cia Phila 7 também focaliza o teatro em diferentes mídias de comunicação e, também no Brasil, o “Grupo de Teatro para Alguém” trabalha com o espaço digital e já realizou pela web diversas apresentações em todos esses casos existe a possibilidade de interação e a
performance está ligada ao momento da execução. É possível acompanhar o grupo
de teatro brasileiro Oficina Uzyna Uzona, do mestre tropicalista José Celso Martinez Corrêa [Zé Celso], que transmite ao vivo pela web suas apresentações, nesse caso o espaço digital e somente um meio de transmissão e a interação é pequena, restrita a comentários na página. Para o teatro contemporâneo, parafraseando Eurípedes, cada vez mais, Deus ex Digital Machina.
São muitos os experimentos contemporâneos e “até onde o teatro pode ir ao espaço digital?” é uma pergunta ainda impossível de responder, o certo é que, se o espaço digital vem modificando as características da comunicação na sociedade, transformará também a arte. O próprio formato e as ferramentas para o funcionando dessas atividades tendem, em um futuro próximo, a evoluir, facilitando e, em contrapartida, modelando esse tipo de experiência com novos instrumentos tecnológicos. Embora determine muito nessa comunicação, a economia também é influenciada por este processo, e não o determina completamente. Os aspectos positivos são muitos, na nossa qualidade de vida, nas relações sociais, no lazer, na educação. O desenvolvimento tecnológico deve atender às necessidades de
conforto, de interatividade, de acessibilidade que a sociedade possui, e não o contrário. Se vivemos com o desenvolvimento tecnológico moldando nossas necessidades, estamos no universo do imaginário criado pela economia capitalista, se buscamos nossas necessidades de expressão, criamos conteúdos. Precisamos, entretanto, considerar que avanços tecnológicos nem sempre aumentam a produção de conteúdos, às vezes, estes são inacessíveis pelo preço, outras vezes, são complexos e exigem novas alfabetizações, passam por um período de adaptação, modificam-se em seu uso.
Dentro desse contexto, devemos garantir, primeiro, o livre acesso e a participação de todos a esse novo espaço de mediação, sem fronteiras e ilimitado. Em um segundo momento, o usuário deve perceber seu papel de protagonista onde a centralização da produção de informações pela indústria cultural [de capital] é substituída pelos próprios usuários, que devem fornecer informações de seu interesse. Este novo modelo de organização da comunicação de massa possibilita uma construção de conhecimento baseada no compartilhamento de informações, conscientes ou não. A informação desempenha papel fundamental na produção da riqueza contida no espaço digital, quase uma condição para a comunicação digital avançar, já que, dentro do nosso cotidiano contemporâneo, elas constituem instrumento indispensável às comunicações pessoais, de trabalho e de lazer. Por outro lado, esta sociedade poderá ser responsável por grandes diferenças sociais, levando-se em conta as dificuldades econômicas e o grau de exigência cognitiva das novas tecnologias. Uma sociedade que vive do poder da informação, tendo como base o desenvolvimento de novas tecnologias, corre o risco de ser discriminatória.
Nessa mudança de paradigma social, enquanto vivemos constantes modificações no uso das tecnologias, somos todos aprendizes, o conhecimento está em constante transformação. A ampliação da quantidade de informações e a velocidade com que elas circulam e se modificam não têm parâmetros de comparação na história. Qualquer pessoa pode produzir dentro do universo digital, utilizando uma plataforma específica ou pensando a convergência de mídias. No processo de inclusão digital, não incluo só pessoas e reconheço o cidadão, incluo informações, concedo voz ao cidadão. Quanto maior o número de usuários da internet, maiores serão as produções de conteúdo. Multiplicam-se opiniões acerca dos conteúdos de áudio, texto, vídeo ou dados, seja em conversas no âmbito
privado, ou público, por meio da divulgação em comunidades virtuais, seja em blogs, fotoblogs, páginas web que podem ser vistas e acompanhadas desde diferentes plataformas tecnológicas.
Talvez o critério de quantidade não seja o ângulo perfeito para analisar a importância da inclusão digital, entretanto, entendo que, dentro do processo de construção do conhecimento e na formação do sujeito crítico, um maior número de conexões e informações permite maior desenvolvimento nas relações humanas e entre países. Uma ação, lançada ao mundo digital, entra em um turbilhão de interações e retroações, que podem voltar como feedback, cimento da aprendizagem, proporcionando liberdade para indivíduos e grupos. A ligação entre comunicar e ser entendido não é direta, entretanto, se me abro à diversidade de discursos, estou mais perto do sentido de comunidade. Entro em relações que me permitem rever minha identidade e, com a forma poética no meio de tudo isso, em algum momento, talvez até nos permitamos ser criativos.
Em todos os sentidos, o desenvolvimento e o uso de ferramentas tecnológicas no teatro, na performance ou em qualquer outra arte, nos permitem sair da condição de passageiro para a de condutor, atores da transformação social, contribuindo para o retorno à expressividade ou, pelo menos, ajudando a construir ferramentas cognitivas necessárias para isso. Fora do teatro, destacamos a ação do canal YouTube que, em 2008, com o intuito de promover a música clássica, lançou uma seleção mundial para músicos. Para isso, criou o canal YouTube Symphony
Orchestra, disponibilizado, em várias línguas, um local onde os músicos
interessados em participar tiveram de postar dois vídeos [onde mostravam sua técnica]; o download da partitura para cada instrumento podia ser feito no próprio canal. Os vídeos foram avaliados por especialistas das orquestras filarmônicas de Berlim, Nova York e São Francisco. Participaram dessa audição virtual cerca de 3000 músicos, de um total de 70 países. Os 94 vencedores foram aos EUA, onde estrearam uma obra de Tan Dun [compositor Japonês contemporâneo], no Carnegie Hall de Nova Iorque, sob a direção do maestro Tilson Thomas, da Orquestra Sinfônica de São Francisco. Em outra rede social, o Twitter, José Cohen, escritor mexicano, em agosto de 2009, lançou um desafio aos seus seguidores: escrever uma novela em dez capítulos, de 140 caracteres cada [limite da rede social], sendo que os primeiros quatro foram por ele publicados e os restantes foram resultado da
colaboração de outros seguidores, “El Espejo” foi o nome escolhido para a obra criada e lançada na rede.
As possibilidades que este novo espaço invisível, o espaço digital, criado pelas tecnologias de informação e comunicação, traz para a expressão humana é o acontecimento de uma verdadeira “era da informação”, a possibilidade de uma ampla produção de conteúdos e de acesso a essa informação. Enquanto rede de informação, de computadores, a própria arquitetura da internet já possui as características de comunicação aberta [ilimitada], não que não tenha um fim, só não conseguimos perceber, porque o espaço digital é livre das limitações do corpo físico.