• No results found

O conjunto foi identificado pelo Museu de Grão Vasco, tratando-se de uma representação dos deuses Atena e Posídon, possivelmente pela identificação dos atributos que ostentam.

Em relação á figura feminina identificada como sendo a Deusa Atena, esta pertence á crença mitológica grega e que corresponde à Deusa Minerva na mitologia romana. Segundo a mitologia, Atena era filha de Zeus e de Métis. Durante a gravidez de Métis revelaram a Zeus que teria uma filha e em seguida um filho, que arrebataria de Zeus o seu poder. Com medo, Zeus engoliu a esposa antes de a criança nascer e logo foi arrasado por uma forte dor de cabeça. Zeus pediu a Hefesto que lhe fendesse a cabeça com um

19

M. VALE, Teresa Leonor, Escultura Barroca Italiana em Portugal. Obras dos séculos XVII e XVIII em coleções públicas e particulares, p. 2

19

machado. Porém, nesse instante soltou da sua cabeça uma menina completamente armada, era a Deusa Atena, soltando um grito que abalou o céu e a terra20. Considerada a Deusa da Guerra, teve um grande papel na luta contra os gigantes, e na defesa dos gregos na Guerra de Troia. Protegeu os heróis Héracles, Perseu, Belerofonte e Ulisses. É também considerada a Deusa da Razão, dominando igualmente as artes, a literatura, a música, a filosofia e a atividade inteligente. Foi responsável pela construção da nau Argo e na invenção do carro de guerra. O episódio que lhe conferiu maior estatuto perante o povo de Atenas, foi o da disputa com Posídon (irmão de Zeus) pela soberania da cidade. O Deus que oferece-se o presente mais útil para a cidade ganharia a soberania da região. Posídon, com um golpe de tridente, fez brotar um lago de água salgada no cimo da acrópole. Por sua vez, Atena fez surgir uma oliveira e os Deuses designados para árbitros, decidiram a favor de Atena conferindo-lhe a soberania sobre a cidade.

Iconograficamente, Atena é geralmente representada como uma jovem armada com um elmo, lança, escudo e uma égide (uma espécie de couraça da pele que arrancou do gigante Palas). Por vezes é acompanhada por um mocho ou uma coruja conferindo o símbolo da sabedoria. Sobre o seu escudo, fixou a cabeça da Górgona, conhecida por Medusa, que Perseu matou e ofereceu à deusa. Dos atributos descritos, a peça em estudo, apresenta somente o elmo, o escudo e supostamente uma lança (em falta). No escudo podemos observar uma carranca, pois era uma característica habitual da época barroca. Porém, as inúmeras representações de Atena, apresentam a cabeça de Medusa incrustada no escudo, o que leva-nos a pensar se não teria sido essa a intenção do artista que ao se basear em gravuras da época tentou aproximar-se da cara horrenda da Górgona, mas sem representar as serpentes que formam o seu cabelo. O leão identificado no elmo da figura, muito presente na época Barroca, simboliza o poder material ou imaterial, a sabedoria, a justiça, a proteção, o orgulho excessivo, a força e a autoridade suprema.

Perante isto, as representações de Atena simbolizam a força física, a fecundidade, a sabedoria, a vitória, a criação psíquica, a inteligência socializada e mais particularmente a combatividade espiritual21. Desse modo, nas temáticas envolvendo a sabedoria, inteligência educação, força, são frequentemente visíveis as representações da Deusa, ostentando os seus típicos atributos.

20

GRIMAL, Pierre, Mitologia Grega, p. 53

21

20

Desde a antiguidade que a Deusa é representada. Fídias foi o autor das três mais célebres e monumentais esculturas da deusa, descobertas em Atenas (ver Apêndice I, fig. 161 a 163). Muitos foram os artistas que se inspiraram ao longo dos séculos na deusa para as suas obras de arte, destacando-se as obras: Sandro Botticelli (1445-1510) em Palas e o Centauro (ver Apêndice I, fig. 164) e o Triunfo da Virtude de Andre Mantegna (1431- 1506) (ver Apêndice I, fig. 165). A deusa ainda está representada em inúmeras pinturas, destacando a obra Disputa de Atena e de Neptuno de Noël Hallé (1711-1781) (ver Apêndice I, fig. 166), a pintura O Combate de Marte e Minerva de Jacques-Louis David (1748-1825) (ver Apêndice I, fig. 167) e a obra Pallas Atena de Klimt (1862-1918) (ver Apêndice I, fig. 168). Destaca-se ainda a representação da deusa na escultura em mármore de August Rodin (1840-1917) (ver Apêndice I, fig. 169).

Em relação à figura masculina, foi identificada como sendo o Deus Posídon, pelo Museu de Grão Vasco. Posídon é um dos Deuses mais importantes da mitologia grega, o senhor supremo dos mares. Para os romanos é conhecido por Neptuno. É filho de Crono e Reia e irmão mais novo de Zeus. O seu poder permite dominar as vagas, provocar tempestades, estremecer rochedos tocando apenas com o tridente, e parece estender-se não só ao mar mas também aos rios e lagos22. Foi responsável pela construção das muralhas de Troia e perante a negação da sua recompensa, Posídon fez erguer um monstro marinho, que dizimou grande parte da população troiana. Durante as disputas pela soberania das cidades Posídon geralmente ficou a perder. Quando disputou a cidade de Corinto, perdeu para o Deus Hélio. Quando desejou reinar em Egina, foi suplantado por Zeus. Mas a disputa mais célebre foi contra Atena, anteriormente referido. Contudo, Posídon possuía uma ilha lindíssima, a Atlântida. As suas numerosas paixões, concederam-lhe uma grande descendência. Ao contrário de Zeus cujos filhos eram grandes heróis, os descendentes de Posídon eram geralmente gigantes violentos e perigosos.

Posídon é geralmente representado com um tridente - arma usada pelos pescadores de atum. E desloca-se num carro puxado por animais monstruosos, híbridos de cavalo ou de serpentes, acompanhados por peixes, golfinhos e criaturas marinhas de todas as espécies. Simbolicamente, Posídon, representa a imponência, o poder, a força activa que

22

21 faz oscilar a terra receptiva e passiva, quer se trate, aliás, da seiva vital, quer das sacudidelas sísmicas23.

Posídon foi inúmeras fezes representado ao longo dos séculos, e na maioria enquadrado em fontes de jardins. Entre várias, destaca-se a fonte situada no Museu Nacional do Prado, em Madrid, com um Posídon semicolossal em mármore. Outra obra colossal é a Fonte de Neptuno de Bernini (1562-1629) em Nápoles, e a já referenciada a

Fonte de Trevi, em Roma. Em Portugal existem também inúmeras representações de Posídon, destacando-se as seguintes obras (ver Apêndice I, fig. 170 a 173): a Fonte de Neptuno dos jardins do Palácio de Queluz, a Fonte de Neptuno no largo da Estefânia, o chafariz da Praça da Armada em Alcântara e um Neptuno situado nos jardins do Palácio dos Marqueses da Fronteira, em Oeiras.

2. Exames laboratoriais