5 Resultater
5.1.1 Dateringer
Nossos contatos, conversas e observações das crianças na atuação do Expresso Lazer ocorreram durante o mês de agosto e na primeira semana de setembro de 2007. Os bairros visitados, aos sábados e domingos, foram: Cruzado 2, Jardim Irene, Vila Lutécia, Vila dos Ciganos, Quilombo, Quilombo II, Jardim Cristina, Jardim Progresso e Espírito Santo.
As preliminares
Depois das entrevistas com a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e com a gerente do Programa de Atenção às Famílias do Departamento de Assistência Social, das observações aleatórias no espaço urbano, da participação na Redinha, da participação nas pré-conferências e da entrevista com o Diretor do Departamento de Cultura, fomos recebidos, juntamente com nossos ex- alunos, pelo Gerente de Ação Comunitária, que conversou longamente conosco sobre a atuação do Expresso, apresentou-nos à equipe e colocou tudo à nossa disposição. O relato a seguir é uma compilação das 16 observações feitas nos 9 bairros visitados.
A chegada
O Expresso Lazer prepara-se para chegar aos locais no parque Antonio Pezzolo, mais conhecido na cidade como Chácara Pignatari, nome de seu antigo proprietário, onde funciona a sua sede e também uma das Brinquedotecas do Departamento de Cultura e Lazer. Os agentes carregam o ônibus com os materiais que serão utilizados no dia: brinquedos, adereços, fantasias, jogos, caixas de som, microfones, tendas, lonas, livros, mesas e cadeiras. Conversam entre si sobre diferentes assuntos: brincadeiras novas, jogos que acham interessantes, adereços, especialmente adereços, e sugestões de histórias, de maneiras de contá-las, de obter um efeito de suspense, de surpresa. Tudo é feito num clima de bastante descontração.
Os agentes entram no ônibus e procuram um lugar onde seja possível sentarem, pois esse está sempre cheio de materiais. A conversa continua animada: brincam entre si, riem uns dos outros, contam situações engraçadas que já passaram no Expresso. O caminho é percorrido com alegria e o celular toca, combinam-se os últimos detalhes com a sede.
Quando o ônibus chega ao local, invariavelmente a equipe aguarda o contato com a liderança local para iniciar os trabalhos, mesmo que haja uma faixa anunciando a presença do Expresso Lazer com dia e hora do funcionamento. O contato com a liderança é decisivo para o início dos trabalhos, pois o ônibus não pode estacionar em qualquer local: sua posição na rua é estratégica para o desenrolar das atividades. O ônibus conta com um palco e, por isso, deve ficar numa das extremidades do fechamento da rua. Este contato pode ser feito imediatamente, mas também pode demorar bastante, o que causa certa apreensão na equipe. Algumas tensões entre os moradores e o Expresso podem ser observadas nesse momento, como os moradores que reclamam com o motorista e com os agentes sobre o estacionamento do ônibus no local, o que impedirá a circulação de automóveis durante todo o período de permanência no local: das 9 às 16 horas.
O contato com a liderança local também é importante para que os agentes saibam qual casa dará o apoio de um ponto de energia elétrica para ligarem o som, para beberem água, caso a disponível no ônibus não seja suficiente, bem como para usarem o banheiro durante o dia.
A chegada do ônibus é sempre acompanhada pelas crianças que estão esperando curiosas para ver o que vai acontecer. A espera, que é parte importante da chegada para o início do trabalho, no entanto, não impede as crianças de iniciarem suas brincadeiras por conta própria. Para muitas, o Expresso é uma novidade, mas outras já o conhecem e, como estão familiarizadas com a proposta, vão logo perguntando sobre brincadeiras mais lembradas. Dentre elas, a mais lembrada é a cama elástica. Por sinal, esse é um detalhe interessante, pois está relacionado com uma visão de lazer que a gerência trabalha para desconstruir; para eles, a cama elástica virou um tipo de ícone do lazer alienado, em que as pessoas se limitam a brincar e a ir embora depois, sem levar consigo nada. Os agentes, por sua vez, só têm que ficar tomando conta de brinquedo, com poucas oportunidades para interação.
Ao descer do ônibus, a equipe é recebida pelas crianças. Cada local a recebe de forma diferente e imprevisível, embora seja previsível que elas estarão ali esperando.
Algumas se propõem a ajudar e de fato ajudam na montagem das tendas e na arrumação dos brinquedos. Ajudar a arrumar, no entanto, não é tarefa nem trabalho; faz parte da brincadeira, e as crianças conversam, vão explorando, identificando, detém-se em pequenos detalhes, examinam tudo em ritmo próprio e diferente daquele dos agentes, preocupados em montar o Expresso, isto é, em deixar o espaço “arrumado”.
As brincadeiras
O Expresso oferece várias brincadeiras, distribuídas ao longo do dia: algumas atividades acontecem no palco, outras no chão. No palco, são desenvolvidas atividades do tipo show. Os animadores encenam, inicialmente, sua própria apresentação, etapa considerada importante para que as crianças os conheçam. Um deles, que está coordenando o Expresso no dia, vai apresentando os outros, um a um, chamando-os ao microfone. Uma música no alto-falante, em volume bem alto, também ajuda a identificá-los. Todos se apresentam com adereços e fantasias e fazem graça. Durante todo o dia, várias outras propostas de show são apresentadas, em sua maioria semelhantes às brincadeiras dos palhaços, que interagem com a platéia. Nem todos os que estão no palco sabem o que está sendo apresentado. Só um deles e a platéia têm domínio do conteúdo e desse modo criam uma relação de cumplicidade,, uma trapaça. As crianças e adultos adoram essa parte do show. Outro momento bastante especial é a apresentação do ventríloquo, que deixa algumas crianças intrigadas e outras irritadas.
Também a partir do palco, os animadores convocam as crianças para os diferentes momentos do Expresso: fazem as chamadas para as gincanas, para o circo, para os jogos (dança das cadeiras, bambolê) e também orientam e disciplinam o andamento da atividade e o comportamento das crianças, quando alguma situação sai do controle dos monitores que estão no chão. Mas não são apenas os monitores que se apresentam ou são apresentados às crianças. Há um momento do Expresso aguardado com muita ansiedade pelas crianças e amplamente anunciado ao microfone desde o início: a chamada apresentação da comunidade “Esta comunidade é show”. As crianças se inscrevem com os monitores que estão no chão para se apresentarem no palco. Essa parte é bastante divulgada para as crianças, algumas das quais ensaiam previamente o número que vão apresentar, ao passo que outras se inscrevem um pouco antes da apresentação. As crianças podem apresentar o que quiserem e a maioria escolhe dançar; entre os ritmos preferidos estão o black, funk e o axé.
No chão os monitores se revezam nos diferentes brinquedos montados na chegada. Mesa de pingue-pongue e mesa de futebol de botão, ao ar livre, são jogos que atraem adolescentes e crianças maiores e suscitam discussões diversas sobre regras e formas de jogar. Sob uma tenda localiza-se o Espaço Criança. Sobre uma lona são colocados diversos brinquedos e jogos: mobília, bichos de pelúcia, bonecas e bonecos de diferentes tamanhos, pacotes de comida, jogos de montar, tais como o lego e utensílios domésticos de brinquedo, como fogão, geladeira, talheres, pratos, copos, xícaras. Também nesse espaço são montadas as mesas e cadeiras e distribuídos jogos de tabuleiro, como damas e xadrez e outros mais simples, como –pula-pirata e equilibrista, para serem jogados em grupo. Ainda nesse espaço dois brinquedos são bastante disputados: uma gangorra de plástico e um trem.
Uma outra lona é esticada no chão e nela são distribuídos livros para diferentes faixas etárias: é o Canto da Leitura, onde a proposta é que, em certos momentos do dia, um dos monitores seja contador de histórias e, terminada esta, as crianças explorem os livros e leiam por conta própria ou acompanhadas por um adulto.
Outra atividade é o circo. Depois de uma apresentação de malabares e de palhaço, feita por um dos monitores, as crianças e adultos são convidados a aprender como fazer. Os malabares e sapatos de palhaço são distribuídos para todos e os monitores ensinam a manuseá-los. Crianças e adultos que estão presentes se envolvem com os materiais e tentam executar as brincadeiras.
A saída
O término das atividades do Expresso geralmente é anunciado ao microfone e ocorre depois de um jogo coletivo do tipo “meninos contra meninas” ou depois da brincadeira do circo. As crianças ajudam a recolher os materiais utilizados e se despedem afetuosamente dos monitores. Algumas vezes perguntam se eles vão voltar e solicitam o telefone para o qual devem ligar para solicitar a presença do Expresso novamente. Mas essa ligação não é incentivada ou mesmo sugerida às crianças. Essa possibilidade foi oferecida apenas uma vez e as crianças ficaram bastante entusiasmadas. Os monitores ficaram surpresos com o entusiasmo das crianças e procuravam contornar a situação, orientando-as a pedir para que algum adulto ligasse, e não elas mesmas.
A saída do Expresso Lazer do dia 5 de agosto foi marcante. Depois de anunciado o término das brincadeiras do Expresso e com a promessa de que poderiam voltar, várias crianças se juntaram em volta da monitora e pediram o telefone para ligar. Ela respondia que estava no panfleto e que seria preciso pedir para algum adulto telefonar para lá. Isso não desencorajava as crianças e os pedidos continuavam. Elas ficavam procurando papel e caneta umas com as outras; quem conseguia papel e caneta anotava, quem não conseguia pegava a caneta e escrevia no próprio corpo, na mão, no braço, umas escreviam no braço da outras. (Observação feita no dia 5 de agosto de 2007, no bairro Cruzado 2)
No entanto, a saída está relacionada ao andamento do dia com as crianças. Tivemos uma saída abrupta, por exemplo, no dia em que uma criança foi ferida com um tijolo. Em outros dias observamos que algumas crianças se mantiveram por perto, enquanto os materiais eram arrumados para irem embora e também se despediam afetuosamente dos monitores, outras simplesmente saíam andando em direção a suas casa. Havia ainda outras que organizavam alguma outra brincadeira e continuavam com seus próprios jogo depois que os monitores se despediam.
Os monitores interpretaram os abraços, agradecimentos, apertos de mão e até mesmo as solicitações de autógrafos que ocorriam durante a despedida como formas de agradecimento, sentindo que seu trabalho estava sendo valorizado.
6.3. A relação das crianças com o Expresso Lazer
São muitas as relações que as crianças estabelecem com o Expresso Lazer. Uma das narrativas mais comuns é que elas estão apenas brincando ou passando um dia agradável, porém nem sempre isso acontece. As relações com os monitores do Expresso Lazer são estabelecidas com relativa facilidade, pois as crianças buscam um tipo de aproximação direta: algumas os chamam de tio e todas vão logo perguntando o que eles vão fazer ali. Outra aproximação direta é feita ao ônibus. O ônibus do Expresso Lazer lhes chama a atenção: elas correm para ver, tocam, querem entrar nele, querem mexer. No entanto, as crianças não necessariamente estão dispostas a seguir o que foi planejado para elas e a brincar, se apresentar ou a dizer coisas consideradas aceitáveis pelos monitores, ou mesmo para os adultos, em geral.
Evidentemente, os monitores são pessoas interessantes e interessadas em seu trabalho e têm abertura e recursos de formação para se relacionar com as crianças, tarefa esperada e desejada na ação do Expresso Lazer. Porém, a interação com as crianças e o acontecer do Expresso mostram que as crianças decididamente não apresentam a
maleabilidade que é esperada delas. Podemos observar conflitos entre ambos no que diz respeito a diferentes formas de uso dos brinquedos, do tempo e do espaço.
Nesses conflitos, as crianças ocupam uma posição menos privilegiada. Ward (1978: 96) cita Paul Thompson1 para falar das fragilidades das crianças nesta posição e de como devemos entender suas expressões de descontentamento nesses conflitos:
Seu ponto de conflito com o grupo opressor é através dos membros que elas mais valorizam pessoalmente. Para a maioria das crianças, os pais parecem ser os melhores adultos que elas conhecem. É isso que faz com que suas expressões de descontentamento para com outros adultos, com os quais têm vínculos próximos, como vizinhos, policiais e professores – nas universidades assim como nas escolas - sejam de especial significância. São expressões que precisam ser entendidas, não meramente nos termos de atos observáveis e de questões estabelecidas, mas como um protesto simbólico (e talvez sem esperança) contra todo o sistema do controle adulto da sociedade. (Ward, 1978: 96, tradução livre da autora) 2
Apresentaremos, a seguir, pequenos episódios ocorridos durante a atuação do Expresso Lazer, com a finalidade de ilustrar as estratégias de resistência no contato direto com a política pública voltada para a criança, no espaço urbano.
Tanto na entrevista com o diretor do Departamento de Cultura, como na Pré- Conferência, e na conversa com o gerente de ação comunitária foi recorrente a ênfase na relação da criança e dos monitores com os brinquedos. É parte da proposta atual do Expresso que sua passagem pelas comunidades possa servir para o empoderamento das comunidades para que elas usem seus espaços para o seu próprio lazer. Da mesma maneira, na formação dos monitores procura-se construir uma forma de trabalho que “não sejam tomadores-de-conta dos brinquedos”.
No entanto, é inevitável que eles atuem em relação aos vários brinquedos distribuídos durante a montagem do Expresso, e esses são um dos atores importantes na construção das relações das crianças com o Expresso. Nesse sentido notamos que a paz entre adultos e crianças reina no Expresso quando as crianças estão usando brinquedos de forma adequada ou quando os adultos ensinam as crianças a brincar. Em suma, os
1 Paul Thompson: “The War with Adults”. Oral History, Journal of the Oral History Society, Vol 3. No 2
Autumn 1975
2 Their point of conflict with the oppressing group is trough the members of it they most value
personally. For most children, parents are likely to be the best adults they know. It is which make their expressions of discontent against other adults, with whom they have close bonds, such as neighbours, policemen and teachers – in universities as well in schools – of special significance. They are expressions which need to be understood, not merely in terms of observed acts and stated issues, but as a symbolic (and perhaps hopeless) protest against the entire system of adult control society.
brinquedos, como materialidades, são atores importantes na aceitação ou resistência das crianças à proposta do Expresso.
Crianças brincam em qualquer lugar
Os planejadores urbanos abordam as preferências dos lugares pelas crianças em diferentes perspectivas: Roger Hart (1979) fala sobre a preferência das crianças por lugares não estruturados que ofereçam possibilidade de construção e de relação. Esses lugares são importantes para o desenvolvimento cognitivo e as interações socializadas. Kevin Lynch (1975) fala sobre as possibilidades de construções de ambientes favoráveis e com oportunidades ao desenvolvimento, nas diferentes cidades do seu estudo. Já Colin Ward (1978) fala sobre o fato de as crianças adaptarem o ambiente que lhes é imposto.
No fragmento que apresentamos abaixo pode-se observar que essas três condições estão presentes. No entanto, a adaptação do ambiente não é um processo simples: as crianças buscaram estabelecer uma brincadeira entre elas. Nesse lugar estava acontecendo uma interação das crianças em grupo, ao mesmo tempo em que se configurava a possibilidade de elas se organizarem utilizando elementos do ambiente, da situação proposta pelo Expresso. Porém, nem todas as partes dos enunciados seguem de forma linear e o desenrolar do episódio mostra uma situação de conflito: a ação das crianças, coladas ao brincar, de adaptar o ambiente imposto conflita com a proposta dos adultos para a brincadeira.
A situação mostrada neste fragmento aprofunda as proposições sobre a paisagem feitas por Hart, pois as crianças relacionam-se ativamente com a realidade de que fazem parte e questionam as proposições sobre a possibilidade da simples escuta de suas necessidades, desvinculada da vida social, tal como ela se apresenta no cotidiano. Com certeza, as crianças, como muitos adultos, também preferem lugares com árvores e lugares para encontrar amigos. Quando os aspectos relacionais da construção dos lugares estão em cena, os diferentes sentidos presentes podem evidenciar que, para conhecer o espaço social das crianças, é necessário localizar seus direitos também em outros espaços e relações e não apenas nelas mesmas.
O monte de areia. Meninas e meninos pequenos brincavam próximo à tenda do espaço
-criança onde vários brinquedos (carrinhos, caminhões, brinquedos de casinha, panelas, pratos, garfos, caixinhas de comida, ursinhos e bichinhos de pelúcia, peças de mobília, um trem onde as crianças podem passar por dentro e sentar em cima, um jacaré que é uma gangorra) são distribuídos numa lona pelo chão e jogos diversos ficam em mesas com quatro cadeiras. Um deles se afasta da mesa e leva um caminhão
para carregar num monte de areia que estava na calçada da rua, em frente a uma casa em construção. Ele rapidamente carrega o caminhão e começa a fazer uma garagem para ele, enquanto outras crianças se aproximam com seus caminhões e começam a fazer suas garagens, seus caminhos e a carregar e descarregar seus caminhões. Um outro menino um pouco menor se aproxima, mas um deles não o deixa brincar e diz: “A mãe dele não deixa ele brincar na areia”. Então, ele começa a chorar e fica de fora do monte de areia. Ao ver outras crianças chegarem, seu choro aumenta. Outras crianças começam a sair do espaço-criança com brinquedos, outras se afastam, dando a impressão de levar os brinquedos consigo. Ouve-se a advertência do monitor ao microfone, pedindo para deixarem os brinquedos no espaço-criança e esclarecendo que eles não podem ser retirados. As crianças ficam indiferentes e continuam a fazer a mesma coisa. Então o monitor chama a atenção de um menino, dizendo que ele não estaria ouvindo e, visivelmente irritado, ordena que todos devolvam os brinquedos. Diante disso, alguns largam os brinquedos, enquanto outros os jogam no chão. Em seguida, o monitor passa com um grande saco de plástico e os recolhe. Uma menina de mais ou menos 5 anos mostra a língua.
As formas de as crianças lidarem com o conflito podem ser interpretadas como resistência. Essa resistência, como vimos, nem sempre é aberta, mas sempre atua de forma a questionar a identidade que o poder exerce sobre elas: As crianças exasperam os adultos que acham normal e natural que elas obedeçam, e exasperam a autoridade deles para manter o disciplinamento. Enquanto foi possível, as crianças permaneceram indiferentes e, quando não foi mais possível, pararam de agir daquela forma, largaram os brinquedos no lugar onde estavam, sem, no entanto, fazer o que lhes foi solicitado. Brincar e a paisagem urbana
A organização da cidade e de seus bairros na proposta do plano diretor baseado no modelo das cidades sustentáveis define alguns padrões para a habitação. O uso dos espaços para moradia tem sido uma preocupação nos diferentes fluxos das pessoas nas cidades. A urbanização das favelas tem sido um dos objetivos de vários governos municipais como forma de garantia dos direitos e da qualidade de vida, especialmente porque as pessoas para as quais as iniciativas de urbanização se dirigem são pobres. Sabe-se que as crianças são as mais afetadas pela situação econômica de seus pais, inclusive pela pouca possibilidade de buscar alternativas transformadoras. Essa complexa relação das políticas públicas com os grupos marginalizados muitas vezes constrói o foco de sua atenção como um problema a ser resolvido e identifica esse problema na população pobre. A moradia, assim considerada, torna-se um espaço necessariamente íntimo e protegido que, na periferia, contrasta com a precariedade da vida nos barracos.
No episódio utilizado como ilustração deste tema, descrevemos uma visita em que o Expresso estacionou o ônibus numa rua que separava uma favela de uma iniciativa de urbanização que havia construído um grande conjunto habitacional.
Nesse conjunto habitacional, um alambrado separava os prédios da rua. Pode-se observar que várias relações sociais estão materializadas ali, inclusive a ação da política pública. Para as crianças e adultos que ali residem configuram-se territórios que