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ZDP daquela. Concorda com Vygotsky quando este afirma que um ensino eficaz será o que precede o processo de desenvolvimento, orientado para os conhecimentos que estão em vias de ser adquiridos, orientado para a formação de zonas potenciais de desenvolvimento, assumindo o professor o papel de potenciar o desenvolvimento cognitivo do aluno?

Professora Marina Lemos: Sim, concordo totalmente com Vygotsky. Aliás, essa noção de zona potencial de desenvolvimento é muito parecida com o que Piaget dizia de que devemos estar um passo à frente. É absolutamente crucial perceber onde o sujeito se encontra e partir daí. Ele contraria totalmente a ideia de informação, porque só será aprendido algo que vier mexer no que já lá está. Só sabendo onde o aluno está é que o professor pode partir daí para a construção do novo conhecimento. E o novo conhecimento não é mais do que a alteração, a reconstrução do que já lá está. E por outro lado, a valorização e importância da interação, pois ele considera que a aprendizagem é um processo interativo. Na sua teoria, toda a ideia de passagem da informação torna-se absurda e obsoleta. E aí estou totalmente de acordo. E todo o simbolismo da linguagem neste processo interativo que é a educação é também muito importante. Aí sim existe um contributo direto de Vygotsky para a educação e ele fala claramente nisto.

Toda a sua teoria envolve o como ensinar, ressalvando a importância da interação no ensino, a compreensão de que a aquisição de um novo conceito tem que passar pelo confronto dos meus conceitos com os conceitos dos outros, de que o conhecimento é ele próprio uma construção social. Tem uma implicação direta na maneira, no método de ensino, não nas matérias.

XIX 15. Na sua perspetiva, será a aprendizagem determinada pelo desenvolvimento psicológico, como defendia Piaget, ou será que a aprendizagem promove o desenvolvimento psicológico do indivíduo como defendia Vygotsky?

Professora Marina Lemos: Eu considero que ambas as conceções são verdadeiras embora a de Vygotsky me pareça mais completa, visto que não há uma negação de que não haja nada no desenvolvimento que seja pré-programado. Eu concebo mais a aprendizagem favorecendo o desenvolvimento, ou seja, quase com pouca distinção entre uma coisa e outra. Concebo mais a visão de Vygotsky pois considero-a mais útil para o ensino, embora não tenha dúvidas de que existem aspetos do desenvolvimento que não conseguimos alterar com a aprendizagem, existe qualquer coisa pré-programada também. Como disse, a que é mais útil para o ensino é claramente a conceção de Vygotsky.

Entrevista à Professora Ivone Morgado Rebelo - realizada a 06/09/2013 às 10H00.

A Professora Ivone Rebelo leciona atualmente psicologia ao 12º ano no Colégio Luso- Francês no Porto e também leciona filosofia e psicologia ao ensino secundário na Escola Secundária de Gondomar. No ano transato foi minha orientadora de estágio na disciplina de filosofia ao 11º A, conjuntamente com o apoio do professor Fernando Mota com a sua turma do 10º B. A professora Ivone Rebelo é formada em filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem desempenhado um excelente trabalho enquanto orientadora dos alunos de mestrado em ensino da FLUP, os quais têm obtido excelentes resultados.

Entrevistador: O Programa do Ensino de filosofia no Ensino Secundário (10º e 11º anos) do Ministério da Educação, homologado em fevereiro de 2001, considerando-se as linhas do domínio cognitivo, das atitudes e valores e das competências, métodos e instrumentos, visa a promoção do exercício da razão, o fomentar a intervenção do e no aluno, com vista ao desenvolvimento do pensamento ético-político responsável, exigindo um reconhecimento linguístico-retórico e lógico-argumentativo. A filosofia surge como um espaço de reflexão interdisciplinar, com a pretensão de desenvolver um pensamento autónomo e emancipado, consciencializando o aluno para os princípios

XX éticos, sociais e políticos, disponibilizando-lhe ferramentas para que este assuma o verdadeiro exercício da cidadania.

Segundo a Psicologia do desenvolvimento e as teorias cognitivo- desenvolvimentistas, como a de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo e a de Kohlberg sobre o desenvolvimento moral, é na fase da adolescência que se começa a desenvolver o pensamento hipotético-dedutivo, formal e abstrato, nem sempre atingível por todos os jovens, ainda que este patamar só comece a ser exequível a partir dos 14, 15 anos.

Não questionando a estrutura do atual programa de filosofia do ensino secundário, a conceção valorativa está muito presente, exigindo de certa forma o posicionamento dos alunos no estádio 5 da teoria de desenvolvimento moral de Kohlberg, e no estádio operatório-formal de Piaget, numa conceção de moralidade autónoma. Contudo, estudos realizados no final dos anos 70 revelaram que a maioria dos jovens encontrar-se-ia entre os estádios 2, 3 e 4 kohlberguianos.

É entre os estádios 2 e 3 que se enquadram os alunos de 13-14 anos, que têm tendência para encarar as questões morais em termos materialistas, querendo obter ganhos próprios, ou de uma forma que vise a obtenção de aprovação por parte das outras pessoas. Em vez de levarem em conta o seu eu, os seus padrões e valores, dependem geralmente das opiniões dos outros. De acordo com o raciocínio moral característico deste estádio, qualquer solução simplista para um problema difícil da vida diária parecerá bastante aliciante, desde que seja aprovada por um determinado grupo de referência. Por volta dos 16-18 anos, o tipo de raciocínio característico do estádio 3 torna-se quase no único utilizado pelo indivíduo. Nesta fase, ser adequado, apreciado, respeitado pelos outros e possuir uma boa reputação são aspetos muito mais importantes neste estádio do que em qualquer um dos outros momentos do processo de desenvolvimento. Enquanto nos estádios 1 e 2, o raciocínio é quase exclusivamente concreto pois as escolhas são efetuadas ou para evitar punições, ou para obter ganhos materialistas, no estádio 3 o sistema é bem mais complexo já que o pensamento é orientado por questões mais abstratas, caracterizando-se este estádio por um método mais adequado de raciocínio. Como é que as outras pessoas encaram o problema e bem mais importante do que isso, como é que se sentem face a esses assuntos? Nesta altura o indivíduo consegue assumir a perspetiva social dos outros, tendo a capacidade de se colocar, em termos emocionais, no papel do outro.

XXI 1. Assim sendo, visto que o adolescente orienta-se pelo ponto de vista dos outros procurando a sua aprovação, em que sentido o ensino da filosofia poderá promover o desenvolvimento do pensamento autónomo no aluno, levando-o a atingir patamares de uma moralidade pós-convencional, correspondente à moralidade autónoma piagetiana?

Professora Ivone Rebelo: Já considerava Nietzsche que para muitas pessoas a voz da consciência é a voz da vizinha. Muitas vezes o que consideramos correto ou incorreto está marcado profundamente por aquilo que os outros acham ser correto ou não. No fundo é o peso da sociedade que está aí profundamente marcado. Isto espelha a falta de autonomia sob o ponto de vista moral e crítico nestas faixas etárias. Claro que quando Nietzsche diz isto não se está a referir especificamente aos adolescentes, mas está a referir-se ao Homem no seu sentido geral, e o que ele diz é verdade. Nós somos sempre influenciados pela sociedade, somos animais sociais. Portanto, o que somos também o devemos à sociedade. Sem essa sociedade não seriamos aquilo que somos. Agora, dentro dos limites que a sociedade nos impõe, que vão variando de cultura para cultura, existindo sociedades muito mais fechadas e rígidas do que outras, pretende-se que o indivíduo ao longo da sua vida, isto ainda sem a influência que a filosofia possa ter, se desenvolva nível físico, cognitivo, emotivo, social e também a nível moral. Pretende-se que progressivamente o indivíduo se torne um sujeito autónomo, e é nesta dimensão que a filosofia pode ter um papel importante.

Podemos perguntar-nos: qual o contributo da filosofia para esta autonomia do sujeito? Desenvolvendo o sentido crítico. E como é que se desenvolve o sentido crítico? Pelo sentido e capacidade da reflexão. Nós só quando refletimos sobre as coisas é que podemos ter verdadeiramente uma posição crítica sobre elas. Hoje é muito comum ouvirmos a expressão: “dê lá a sua opinião acerca de”, e parece que o “ dar a opinião acerca de” é já ter uma posição crítica acerca da temática em questão, mas isso não é exatamente a mesma coisa, porque opiniões há muitas, todos nós as temos, mais ou menos fundamentadas. Ter uma opinião crítica sobre as coisas é ter primeiro de tudo uma base sólida para pensar sobre elas, para refletir e depois desenvolver isso.

Claro que isto dá muito trabalho, não é uma coisa que se faça em dois anos, que é o tempo de formação da disciplina, dado que o programa de filosofia está orientado para um 10º e 11º anos. Mas também penso, que não é isso que se pretende. Penso que o pretendido com o programa não se esgota aqui. A meu ver, ele abre para o futuro, e vai desenvolvendo, vais despertando para o futuro. O despertar é aqui fundamental porque

XXII se este despertar, esta capacidade de reflexão e de pensamento crítico, forem desenvolvidos no aluno de uma forma consolidada, existem grandes probabilidades de se tornarem o esteio para o resto da sua vida.

Assim, a disciplina de Filosofia pode ter esse papel fundamental: despertar para a reflexão, desenvolvendo o sentido crítico bem fundamentado. E como é que se consegue isso? – o programa abre muitas perspetivas, e abrindo muitas perspetivas e muitos pontos de vista leva a que o aluno seja confrontado com essa diversidade. Esta é uma disciplina muito diferente das outras. Quando, no décimo ano, os alunos nos chegam às mãos, transportam uma visão dicotómica da realidade, para eles o mundo é “a preto e branco”. E, talvez pela primeira vez para muitos deles – não digo todos, porque obviamente alguns deles podem já ter essa perspetiva, até pelo próprio meio familiar e não somente pela escola, podem ter já sido despertados para isso – surja esta confrontação somente agora, pois normalmente as coisas aparecem-lhes todas muito arrumadas. A filosofia tem essa vantagem, tira-lhes o “ tapete” e diz-lhes que às tantas as coisas podem ser perspetivadas de diferentes modos. Só quando somos confrontados com diferentes pontos de vista é que se aguça o nosso sentido crítico, pois começamos a pensar sobre as coisas – porque é que isto é assim?, eu pensava que era de outra forma, mas às tantas não é! E porque é que o outro pensa de uma forma diferente de mim? – e isto até vai incentivando a própria discussão na aula, a troca de pontos de vista, o ser confrontado com a opinião do colega, que muitas vezes é completamente contrária à dele. Às vezes irritam-se muito e até se torna difícil o autocontrolo, não estão muito habituados a fazê-lo. Mas a verdade é que vão desenvolvendo a capacidade de argumentação. Todos estes aspetos são desenvolvidos pela filosofia.

Entrevistador: No entanto, é no 11º ano, dada a faixa etária preponderante (a partir dos 16 anos), que alguns alunos (ainda que poucos segundo o estudo longitudinal de 1979 de Kohlberg), atingem o estádio 4 de desenvolvimento moral, em que o indivíduo desenvolve a capacidade de pensar racionalmente nos problemas. É já capaz de conceber, analisar e avaliar questões importantes. Ao contrário do estádio 3, cujo foco de referência é o grupo social, no estádio 4 o pensamento passa a ser internamente orientado.

2. Dado que o pensamento formal é proposicional, i.e., é capaz de operar

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