A área do presente estudo está situada na planície litorânea da Praia da Fazenda, localizada ao norte do município de Ubatuba, SP (23020’-23022’S / 44048’-44052’W), pertencente
ao Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar (GARCIA, 1995). Trata-se da única Unidade de Conservação do Parque Estadual da Serra do Mar cujos limites estendem-se até a orla marítima (ASSIS, 1999). O acesso ao Núcleo se faz através da Rodovia BR-101, que atravessa a respectiva planície litorânea (figura 4). Devido a sua localização, o Núcleo Picinguaba une-se fisicamente com o Parque Nacional da Bocaina e à Área de Proteção Ambiental (APA) do Cairuçu (RJ), formando 118.000 ha de área de conservação contínua (MANIA, 2008).
O local escolhido para as coletas é um conjunto de 100 parcelas de 10x10m contínuas que formam uma área de 10.000m2 (figura 4). Essa área, denominada simplesmente de hectare, foi inicialmente utilizada por Cesar & Monteiro (1995) para levantamento fitossociológico. Atualmente, faz parte do Projeto Biota-Gradiente (FAPESP), correspondendo à menor cota altitudinal dos levantamentos do projeto e sendo denominada de Plot A.
Figura 4: Localização do Núcleo Picinguaba, Município de Ubatuba, SP, destacando a área de estudo (Plot A) (fonte: MANIA, 2008).
Geomorfologicamente, a planície litorânea do Núcleo Picinguaba é relativamente estreita, com largura de 400 a 1.000m, e com altitudes entre 2 e 4m, podendo alcançar até 12m mais para o interior, junto às baixas vertentes. Com aspecto semicircular, forma-se uma enseada de abertura voltada para o sudeste, limitada tanto lateralmente quanto ao fundo pelas vertentes serranas. Possui dois pequenos morros isolados: Morro do Tambor e Morro do Corsário (ASSIS, 1999) (figura 5).
Possui uma rede de drenagem complexa, resultado tanto da posição geográfica em relação à região climática de alta precipitação quanto da proximidade do mar, responsável por diversos processos que condicionam o comportamento de drenagem na planície litorânea, e a presença da Serra do Mar, que conta com uma alta densidade de canais de drenagem, concentrados e com alta energia (GARCIA, 1995). A planície é banhada pelos rios Fazenda e Picinguaba, ambos desaguando na Praia da Fazenda que possui cerca de 3,7km de extensão, pouca inclinação e baixa energia. Esses cursos d’água, que se unem na foz, além de pequenos canais, brejos e pequenas lagoas, sendo estas últimas muito variáveis em função das ocorrências das chuvas, formam a rede de drenagem na planície (ASSIS, 1999). O divisor de águas desta bacia hidrográfica é formado pelas duas mais altas elevações da região: o Morro do Corísco e o Morro do Cuscuzeiro (figura 5).
Figura 5: Mapa de relevo da bacia hidrográfica dos rios do Núcleo Picinguaba e a localização da área do estudo (Plot A) na planície litorânea. (fonte: SANCHEZ, 2001, modificado).
Ponçano et al. (1981) descreve a planície litorânea da região do Núcleo Picinguaba como compondo um dos três sistemas de relevo da Província Costeira: Serrania Costeira, Morraria Costeira e Baixadas Litorâneas. As Planícies Litorâneas dessa região são definidas como sendo um sistema de relevo constituído por sedimentos de idade terciária ou quaternária, diversificadas quanto às suas origens e composição, geralmente caracterizadas pelas superfícies planas a ligeiramente onduladas, com suaves declives para o oceano, podendo ainda integrar em suas paisagens as feições de pequenos morros isolados em zonas serranas. O Núcleo ainda engloba uma pequena porção do Planalto Atlântico que corresponde ao Planalto do Paraitinga.
O Plot A situa-se sobre os cordões quaternários regressivos, caracterizado por apresentar locais mais altos, com larguras máximas de 2m, bem drenados e com solos arenosos, e locais mais baixos (depressões ou canais) onde ocorre o afloramento periódico do lençol freático e o solo é de origem mineral com matéria orgânica em diferentes graus de decomposição (GARCIA, 1995; GUEDES et al. 2006).
Essa estrutura encontra-se sobre duas diferentes unidades de relevo que dividem o Plot A praticamente ao meio (figura 6). Uma dessas unidades de relevo, a mais antiga, é caracterizada pela presença de cordões regressivos, porém com os microcanais interligantes mais assoreados e menos ativos (planície litorânea de cordões regressivos). Na unidade de relevo mais recente (planície litorânea de cordões regressivos com microcanais interligantes) os microcanais estão mais ativos, sofrendo alagamentos periódicos nos períodos de maior intensidade pluviométrica.
Parte dos dados sobre o clima na região foram obtidos através do site http://ce.esalq.usp.br/nurma.html do Núcleo de Monitoramento Agroclimático (NURMA) pertencente ao Laboratório de Processamento de Dados Meteorológicos do Departamento de Ciências Exatas da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (ESALQ/USP, Piracicaba, SP). Esses dados climáticos são referentes a um período de 30 anos (1961 – 1990) e abrangem toda a região de Ubatuba.
O clima que caracteriza grande parte do litoral paulista, segundo a classificação de Köppen, é do tipo Af com temperaturas elevadas (médias mensais acima de 18ºC) e altos índices pluviométricos com médias anuais acima de 2.200mm (SANCHEZ et al, 1999). Em Ubatuba, o pequeno desenvolvimento da planície costeira e a proximidade das escarpas da Serra do Mar junto às praias determinam precipitações mensais elevadas na região.
Figura 6: Unidades de relevo da planície litorânea do Núcleo Picinguaba (Parque Estadual da Serra do Mar), no município de Ubatuba, SP. Em destaque a área de estudo (Plot A) (fonte: GARCIA, 1995).
Há a existência de dois períodos durante o ano, um superúmido, de outubro a abril, com chuvas freqüentes (15 ou mais dias/mês) e pluviosidade total de cerca de 180mm mensais, e outro menos úmido, de maio à setembro, com chuvas menos constantes (média de 10 dias/mês), e precipitação em torno de 80 e 160mm mensais. As chuvas são, portanto, bem distribuídas e os menores índices de precipitação ocorrem entre os meses de junho a agosto. Os dados obtidos junto ao NURMA indicam que nos meses de julho houve déficit hídrico no período de 30 anos analisados (figura 7A).
No período mais chuvoso, a maior precipitação ocorre entre os meses de dezembro e março, com valores médios de 300 a 340mm mensais, época em que o solo entre os cordões regressivos (microcanais interligantes) do Plot A são passíveis de inundação (figura 8). A umidade relativa média geralmente encontra-se acima de 85% e a temperatura média anual é de 21 ºC, com média das máximas em fevereiro (30,4 ºC) e a média das mínimas em julho (12,6 ºC)
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Legenda:
Planície litorânea de cordões regressivos com microcanais interligantes
(SANCHEZ et al, 1999; TALORA & MORELLATO, 2000). As temperaturas absolutas mais baixas não caracterizam períodos de geada (MARTIN-GAJARDO & MORELLATO, 2003). Os valores de evapotranspiração potencial e evapotranspiração real são bem próximos (figura 7B).
O comprimento do dia em horas varia de 13,47 h/dia em dezembro a 10,55 h/dia em junho, variando em 2,92 horas durante o ano. A insolação média diária é de 4,3 horas, sendo fevereiro o mês com maior número de horas de insolação (5,1 h/dia) e outubro o mês com menor (2,9 h/dia), uma vez que o céu, nesse período do ano, encontra-se encoberto por nuvens em grande parte do dia (TALORA & MORELLATO, 2000).
Figura 7: Valores de Deficiência, Excedente, Retirada e Reposição Hídrica ao longo do ano (A) e balanço hídrico mensal (B) para o Município de Ubatuba, SP, no período de 1961-1990. (fonte: Núcleo de Monitoramento Agroclimático – NURMA/ESALQ/USP). m m m m A B
Figura 8: Imagens dos canais entre os cordões arenosos regressivos inundados durante o período de chuvas na floresta de restinga alta da planície litorânea do Núcleo Picinguaba (Parque Estadual da Serra do Mar), em Ubatuba, SP.
O Plot A encontra-se à aproximadamente 6m de altitude em relação ao nível do mar (medido com barômetro), em área coberta por vegetação natural com pouca ou nenhuma ação antrópica (RIBEIRO et al, 1994). De acordo com o sistema de classificação do IBGE (VELOSO et al. 1991), essa área corresponde à Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas ( 5 – 50m de altitude) e, portanto, não corresponde à uma vegetação de restinga. No entanto, por ser uma delimitação generalista da vegetação, a classificação de Veloso et al. (1991) deve ser interpretada de acordo com a situação local. Para tanto, optou-se em manter a denominação “restinga alta” para o Plot A, visto que somente após as análises da vegetação será possível afirmar em qual classificação a érea estudada se enquadra melhor. O termo “restinga alta” foi adotado em referência à altura das árvores do dossel (10 a 15m) e a existência de um sub-bosque denso e diversificado na área (CESAR & MONTEIRO, 1995; PEDRONI, 2001).
As principais famílias compondo o dossel da restinga alta no Plot A são Myrtaceae, Melastomataceae, Clusiaceae e Euphorbiaceae (CESAR & MONTEIRO, 1995). As espécies mais representativas do dossel são Pera glabrata, Calophyllum brasiliensis, Stenocalyx brsiliensis, Alchornea triplinervia, Myrcia racemosa, Nectandra oppositifolia, Jacaranda puberula, Euplassa cantareirae e Myrsine umbellata. Espécies arbustivas e herbáceas das famílias Rubiaceae (principalmente espécies do gênero Psychotria), Piperaceae (principalmente espécies do gênero Piper) e Bromeliaceae são as mais abundantes no sub-bosque e um grande número de epífitas, principalmente das famílias Bromeliaceae, Araceae e Orquidaceae, são encontradas nas árvores de grande porte (TALORA & MORELLATO, 2000; PEDRONI, 2001).
A ação antrópica, em alguns aspectos, determina o mosaico vegetacional que compõe a planície litorânea de Picinguaba. Essa ação é refletida principalmente nas modificações do sistema de drenagem nessa planície. Trata-se de pequenas, porém contínuas modificações, como extração seletiva de espécies (principalmente de Euterpe edulis para a produção de palmito) e desmatamento total para assentamentos de pequenos agricultores (ASSIS, 1999).
O substrato da planície litorânea de Picinguaba é basicamente formado por material inconsolidado, de origem recente (3.200 anos), sendo que as areias constituem a fração granulométrica principal. A Praia da Fazenda é constituída de areias finas a muito finas, pouco acinzentadas e não muito frouxas (ASSIS, 1999). Os depósitos quaternários aluvionares apresentam uma diminuição granulométrica para jusante. Estes são, em geral, arenosos, apresentando algumas vezes silte, argila e cascalho. Também estão presentes, nesta região, os sedimentos marinhos representados por areias de granulometria variável, com composição predominantemente quartzosa apresentando, ainda, micas, minerais ferromagnesianos e feldspatos (SILVA, 1995).
Segundo Sanchez (2001), de um modo geral, os solos presentes na planície litorânea de Picinguaba apresentam-se ácidos, pobres em nutrientes, principalmente K+, com elevados teores de alumínio e matéria orgânica, baixa fertilidade e textura mais grossa (arenosa).