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As diferentes juventudes em suas inserções sociais heterogêneas no mundo do trabalho e da vida conduzem-nos a uma pluralidade de possibilidades de compreensão dos jovens ou grupos de jovens no contexto das configurações contraditórias da civilização do capital em tempos contemporâneos. Os dias atuais, marcados pelo individualismo, pelo pragmatismo e pela ditadura do tempo presente, desencadeiam múltiplas exclusões sociais ou inclusões sociais precárias, pontuais e limitadas, como também possibilitam a criação de mecanismos que violam os direitos básicos e humanos.

Nessa perspectiva, os jovens das periferias da vida vivenciam um processo de “globalização” (mundialização do capital) que apregoa a crença numa integração de todos num mundo sem fronteiras, escondendo a lógica seletiva, cada vez mais abstrata e destrutiva do capital, que cria desejos artificiais e heterônomos e ignora as necessidades humanas. Ao promover maiores desigualdades sociais por meio de novas estratégias que estimulam a concentração e a centralização de capitais entre os grandes conglomerados financeiros transnacionais, a lógica do capital desencadeia a falta de oportunidades para as populações de baixa renda, entregues à violência da ausência ou quase ausência do poder público e ao risco iminente da criminalidade (CARVALHO; GUERRA, 2008).

Nesse contexto de transformações na vida contemporânea, em que o homem cada vez mais se torna submisso à mediação da máquina e das tecnologias microeletrônicas, em

que os trabalhadores diretos são tidos como extranumerários e excessivos, os jovens pobres se sentem fragilizados. Eles são continuamente expostos a diferentes espectros, que se materializam na forma de desemprego, de marginalidade e de exclusão social. Em meio à ausência de políticas públicas, veem-se abandonados, o que possibilita a evolução do narcotráfico como uma rede transnacional a deitar raízes nas periferias e o desenvolvimento de uma indústria bélica que trivializa o uso das armas de fogo, corrupção e a truculência de policiais despreparados.

O quadro de violências é retroalimentado pelo atual modo de operar do sistema do capital que, ao incorporar a robótica e a microeletrônica à produção capitalista, vem substituindo o trabalhador imediato por máquinas cada vez mais autônomas e seletivas. Em decorrência, o trabalhador direto tem se tornado prescindível na produção da riqueza material. De sua parte, o capital experimenta processos de concentração e centralização mais intensos por meio de processos de fusões, aquisições ou de desterritorialização da produção, o que permite a otimização de seus ganhos. Sobre esse processo de desenvolvimento contraditório, alertam Carvalho e Guerra (2008, p. 88):

Em verdade, tem-se em curso uma nova configuração do capitalismo mundial e dos mecanismos que comandam seu desempenho e seu modo de funcionamento e de regulação. O capital promove transformações no padrão de acumulação e nas suas formas de valorização, gestando novas expressões da dominação social. Com efeito, respaldado no paradigma da microeletrônica, o capital adquiriu uma extraordinária mobilidade, apresentando-se, na forma atual, deslocalizado, desterritorializado, sem amarras e sem limites.

Esse novo momento do capitalismo acentua a concentração de renda nas mãos de poucos, impedindo o gozo dos bens advindos da produção econômica e dos avanços da ciência e da tecnologia para a maioria dos brasileiros. Eis assim a lógica do capital, com suas novas configurações científico-tecnológicas cada vez mais seletivas e excludentes, trazendo consequências para os diferentes segmentos sociais e para todas as faixas etárias - moradores do centro ou da periferia, incluídos, excluídos ou incluídos precariamente -, oferecendo-lhes pseudopossibilidades de inserção social. No entanto, ela atinge, de maneira particular, os jovens pobres que lutam pela sobrevivência no confinamento dos grandes bolsões de miséria, nos espaços sobrantes dos adensamentos populacionais e sem a presença do poder público que viabilize a construção de uma rede de serviços essenciais à vida humana, ou seja: nas periferias!

Os jovens das periferias da vida, postos à deriva da expansão capitalista, excluídos do contexto produtivo do mercado de trabalho contemporâneo, encontram-se “sem lugar”, na condição de “refugo” ou “lixo humano”, expressão cunhada por Bauman (2005b). Desse modo, a metáfora do lixo expressa muito bem o desprezo com que seres humanos são descartados, são considerados supérfluos, imprestáveis e, portanto, indesejáveis como se criminosos fossem, tal qual os dejetos do consumo são confinados nos aterros sanitários. Verifica-se, assim, uma criminalização da pobreza. Segundo Bauman (2005b, p. 55),

As pessoas supérfluas estão numa situação em que é impossível ganhar. Se tentam alinhar-se com as formas de vida hoje louvadas, são logo, acusadas de arrogância pecaminosa, falsas aparências e da desfaçatez de reclamarem

prêmios imerecidos – senão de intenções criminosas.

Nessa linha analítica do “lixo humano”, Bauman (2005b, p. 186), em sua obra Modernidade líquida, anterior ao livro Vidas desperdiçadas, já sinalizava para a precariedade de condições de vida (oriunda do desemprego estrutural da contemporaneidade) que conduzam o indivíduo a “perceber o mundo como um contêiner cheio de objetos descartáveis para uma civilização”. Assim, no âmbito, do consumismo exacerbado, o próprio homem torna-se também objeto descartável abandonado num depósito de lixo qualquer, na condição de “refugo humano”. Desse modo, Bauman reafirma sua teoria das “vidas desperdiçadas”, à mercê de um mundo “líquido” regido pelo consumismo da civilização do capital. Nesse contexto desolador, torna-se oportuno observar que as juventudes pobres brasileiras, na concepção neoliberal, são vistas como um “problema social” quando vinculadas à violência e à delinquência juvenil irradiadas das metrópoles para os centros de médio e pequeno porte. Nesse horizonte, criam-se políticas públicas compensatórias ou assistencialistas, executadas em parcerias com organismos da sociedade civil, configurando ações que atenuam ou ocultam os problemas reais, sem uma prestação de atendimento ampliado. Segundo Carrano e Dayrell (2002, p. 6),

[...] a situação dessas parcelas de jovens se vê ainda agravada pelo encolhimento do Estado na esfera pública, que não favorece soluções por meio de políticas públicas que contemplem a juventude, o que gera uma privatização e despolitização das condições de vida.

Em meio ao quadro de abandono e impossibilidade de acesso a postos mais elevados no mercado de trabalho, percebo que os jovens das periferias da vida sonham com a oportunidade de assumir responsabilidades, como a construção de família, apelando a fontes de independência provisórias e precárias próximas às trajetórias profissionais mais cabíveis às

suas classes sociais subalternas mergulhadas nas incertezas, vulnerabilidades e riscos do setor de serviços, dos subempregos, dos trabalhos temporários. Desse modo, sonham ser operador de telemarketing, “mototaxista” (prestador de corridas de aluguel em motocicleta), ou flanelinha (guardador de carros em lugares públicos), em longas jornadas de trabalho, de modo que possam contribuir com o sustento da família.

Exercendo minha razão crítica, verifico que em sua maioria os jovens das periferias da vida revelam sonhos inseridos na provisoriedade, na descartabilidade, no descompromisso com a ideia de permanência e durabilidade do conceito de “modernidade líquida” estabelecido por Bauman (2007). No olhar do sociólogo polonês, a “modernidade líquida” também esgarça os relacionamentos humanos, que se veem marcados pelo curto prazo, pela perda da consistência e da estabilidade afetiva. Nesse aspecto, a “vida líquida” não mantém sua forma nem seu curso, além de não consolidar hábitos, afetos, nem formas de ser ou agir. O “viver líquido” apresenta-se movediço e flexível, mediado por uma crise nos valores e nas instituições sociais que desencadeia uma ruptura identitária, ou uma “desfiliação”, na qual os jovens pedem acesso a um grupo ou tribo em busca de uma identidade disponível.

A propósito do desencantamento gerado pelo desemprego, que reflete o mundo contemporâneo movido pelas incertezas e medos do presente, e por um individualismo avassalador, o homem contemporâneo encontra-se desprovido de laços sociais e parcerias humanas estáveis. Esse cenário “líquido” de incertezas e riscos vem inspirar condutas egocêntricas e desleais que podem desembocar no isolamento do consumismo desenfreado que separa em vez de unir e transforma homens em objetos. Diz Bauman (2007, p. 170): “Os medos, ansiedades e angústias contemporâneos são feitos para serem sofridos em solidão. Não se somam, não se acumulam numa “causa comum”, não tem endereço específico e muito menos óbvio”.

Logo, nesta sociedade contemporânea marcada por inseguranças, incertezas e riscos de diversas ordens e dimensões fabricados pela civilização do capital, a humanidade parece sentir-se indefesa e impotente. Nessa direção, Beck (2010) entende que os riscos estão estabelecendo-se de forma ampliada e difusa planetariamente, por meio do processo de globalização (mundialização do capital) dominante que atua nas esferas pública e política. Nesse sentido, são reais os temores de desastres nucleares, de ataques terroristas, de uso de armas biológicas que geram possibilidades de destruição concreta da vida na Terra.

Torna-se relevante perceber que Beck (2010) não se refere aos riscos de desastres naturais, mas sim aos riscos fabricados pela ação do homem e vinculados a uma tomada de decisão humana. Esses riscos reais caracterizam-se por uma multimensionalidade associada à tecnologia genética, à energia nuclear e à ação destrutiva da natureza pelo homem, denunciando uma grave crise no Estado-Nação moderno. Em face de tais circunstâncias, Beck teoriza que os riscos fabricados podem reconfigurar o conceito de cidadania numa perspectiva ampliada, não mais associada a uma nação ou território, ou seja, uma cidadania planetária. Contudo, o sociólogo alemão também chama a atenção para uma ausência de responsabilidade e uma decorrente impunidade pelos danos cometidos contra o próprio homem e contra à natureza.

Segundo a cientista social Felícia Madeira (2004), as altas taxas de desemprego juvenil no Brasil representam, a falta de capacidade da economia do país em oferecer todo o trabalho produtivo de que sua população necessita. Nesse sentido, seria viável questionar se o alto índice de desemprego da juventude brasileira se origina da dificuldade de obtenção do primeiro emprego ou da alta rotatividade no mercado de trabalho juvenil. Conforme Madeira, é importante também para a compreensão do desemprego juvenil brasileiro romper com o mito neoliberal de que existe trabalho/emprego e não há material humano qualificado. Desse modo, a ampliação dos anos de escolaridade não deveria servir para disfarçar o desemprego, mas sim para facilitar a aquisição de conhecimentos e competências profissionais.

Na percepção de Pastore (2006), já foi o tempo em que o desemprego atingia apenas os menos educados. O desajuste entre educação e emprego decorre do fato de o Brasil ter avançado um pouco mais na área do ensino do que na área do emprego. Contudo, deve-se lembrar que não sobra educação, o que falta é emprego. Seguindo a pista de Pastore, para muitos pais, a formação profissional juvenil aliada à escola formal são as maiores determinantes de chance de emprego e melhoria da qualidade de vida. Porém, os jovens já não apostam tanto na educação como “salvadora da pátria”, em virtude do nível de desigualdades e excludências sociais vividas por eles em meio a uma reestruturação produtiva que redesenha o capitalismo à luz dos interesses transnacionais.

Segundo a ótica de Pochmann (1998), a automação do mundo do trabalho vem promovendo taxas de lucros desmedidos, à beira do ilícito, para as elites com a redução da quantidade de trabalhadores num processo de precarização e desregulamentação do trabalho que resultou na diminuição dos direitos sociais dos empregados. Nesse sentido, o desemprego

vem configurando-se um fenômeno complexo e heterogêneo que favorece a eclosão da violência desencadeada pela concentração de renda com as elites, o que redunda no resvalamento dos desempregados na medicância, no furto ou no tráfico de drogas. Esse quadro constitui uma crise enfrentada pela sociedade brasileira, e sua lógica neoliberal movida pela flexibilidade e mentalidade de curto prazo que se mostra desprovida de recursos para enfrentar o ócio e a delinquência juvenil decorrentes do processo de crescimento do desemprego. Conforme Pochman (2005, p. A-3),

É no labirinto do submundo das fortunas ilícitas que parcela do meio empresarial se transforma em covil diabólico, com saques às instituições, fraudes aos mercados financeiros e pilhagem de negócios legítimos via o chamado “caixa dois”.

Outro aspecto conflitante do mercado de trabalho atual se relaciona com a flexibilidade de comportamentos e estilos de trabalho impostos ao jovem que busca o primeiro emprego. Conforme Sennett (2005), essa flexibilidade concede maior liberdade ao trabalhador para que ele molde sua trajetória individual de viver e também promove uma dinâmica de restrições e mudanças novas e rígidas que impedem a existência de uma carreira vitalícia e de uma narrativa linear de vida pela formação de laços afetivos a longo prazo. Por outro lado, a flexibilidade vem favorecer o exercício estressante de vários empregos distintos com alta rotatividade. Questiona Sennett (2000, p. 69): “como se pode buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações duráveis?”

Avançando no olhar de Sennett, o novo capitalismo expresso na flexibilidade do trabalho não permite uma construção linear de vida ao estilo fordista passado que possibilitava um curso contínuo permeado por projetos a longo prazo. Convém destacar que o “capitalismo flexível” de Sennet não afeta somente a dimensão profissional, ao requerer agilidade dos trabalhadores, ao exigir abertura de consciência para administrar uma independência cada vez maior de leis e procedimentos formais, para assumir riscos constantes e para aceitar mudanças de curto prazo. Mas vem interferir também na dinâmica social do indivíduo, ao contrariar valores como a lealdade, metas de longo prazo, compromisso e confiança. Eis assim a instalação do processo progressivo de corrosão do caráter, preconizado pelo referido cientista social, que tende a manifestar-se principalmente no âmbito das sociabilidades que reúnem vivências fragmentadas e episódicas no sentido de compor histórias de vida.

No âmbito do modelo de trabalho contemporâneo marcado pela expansão do capital, Sennett (2005) aponta três características, a saber: a reinvenção descontínua das instituições, a especialização flexível da produção e a concentração de poder sem centralização. Quanto à primeira característica, trata-se da capacidade das instituições de trabalho apresentarem constantes reengenharias no sentido de produzir mais com menos, o que resulta na demissão de empregados. A segunda característica diz respeito à especialização flexível da produção que tende ao lançamento constante de novos produtos no mercado, o que provoca mudanças contínuas das tarefas dos empregados, a exigir qualificações novas no ritmo de um processo de seleção contínuo. A terceira e última característica refere-se às novas de controle no trabalho que provocam uma concentração de poder sem centralização, mediante o reduzir da hierarquização simulando um processo de descentramento de poder ao fornecer uma autonomia de aparência aos trabalhadores mais inferiores; porém, o que ocorre de fato é a concentração de poder e controle pelos altos escalões do trabalho.

Portanto, aprofundando a perspectiva do trabalho na civilização do capital, Castel (1998) considera que o trabalho, mesmo passando por uma crise sem precedentes, continua sendo a referência maior para o homem moderno não apenas na esfera econômica (como provedor de oportunidades de sobrevivência), como também nas outras múltiplas dimensões do ser humano, como espaço de sociabilidade e de construção identitária. No caso dos jovens, o trabalho é categoria fundante para o exercício da dignidade humana, é o ideal que eles perseguem na luta pela sobrevivência, pela independência, pelo reconhecimento pessoal, pela qualidade de vida e por alguma realização pessoal. Desse modo, no âmbito da realidade dos jovens pobres, o desemprego juvenil condena as juventudes das periferias da vida - a margem do consumo a mercê da civilização do capital -, que não conseguem vender sua força de trabalho, que não conseguem sequer serem explorados, ao confinamento num “sem lugar”, à negação de seus direitos fundamentais.

Torna-se relevante verificar que a reestruturação produtiva brasileira vem estabelecendo um cruel processo de redução de custos pela redução da força de trabalho. Nesse sentido, é conveniente lembrar a atualidade da Contradição Central enunciada por Marx (1980), que previu a substituição do trabalho vivo (trabalho humano direto) pelo trabalho morto (trabalho executado por máquinas), onde ficava estabelecida a ferrenha luta entre “o homem de ferro contra o homem de carne e osso”. A tendência substitutiva vislumbrada por Marx deita raízes na contemporaneidade das juventudes pobres brasileiras que vivenciam o

desemprego (ou subemprego), num mercado de trabalho excludente regido pela Lógica do Capital que preconiza o aumento da produtividade através da reorganização da produção, da redução do número de trabalhadores e da intensificação da jornada de trabalho dos empregados.

Marx analisou o movimento histórico do capital e percebeu a paulatina perda de virtuose por parte dos produtores diretos. Em seu decurso histórico-social o capital passou por diferentes momentos. Sob a cooperação simples ele impôs um domínio exterior sobre o fazer dos trabalhadores artesãos. Depois os submeteu à divisão do trabalho e à fragmentação dos fazeres. Sob a grande indústria, ele os sujeitou ao ritmo ditado pelo sistema de máquinas. Por seu turno, os produtores imediatos foram submetidos ao crescente esvaziamento de sua virtuosidade produtiva em favor de máquinas cada vez mais autorreferenciadas. O trabalho foi deslocado do centro da produção industrial para a sua periferia, tornando-se um apêndice.

E é exatamente com base nessa reconstituição histórica que o professor de Teoria Econômica da Universidade Federal do Ceará, Aécio Alves de Oliveira (2006), desenvolveu uma tese que aponta a tendência à “qualificação-desqualificante da força de trabalho”:

A evolução histórica das formas de consumo da força-de-trabalho incorpora

um processo de qualificação-desqualificante desta mercadoria que se torna visível com a perda de importância do chamado produtor imediato, cada vez mais parecido com um „apêndice vivo de um organismo morto‟. Isso porque, com a crescente utilização de máquinas-ferramentas mais aperfeiçoadas, a habilidade e a virtuose particular dos trabalhadores contam cada vez menos, o que os torna cada vez mais desqualificáveis e substituíveis. A tendência

observada quanto à redução do trabalho ao nível da quase completa

simplificação sinaliza que, de um modo geral, as operações podem ser

executadas por qualquer pessoa, „física e mentalmente capaz‟ (OLIVEIRA,

2006, p. 21, grifos do autor).

Com a disseminação das práticas da automação e da robótica enquanto meios de produção capitalista, esse processo se acelerou vertiginosamente, tornando a própria presença física de trabalhadores diretos supérflua, o que redunda na explosão do designado desemprego estrutural. No Brasil, esse processo de automação das forças produtivas e de mundialização do capital se inicia no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

O mundo do trabalho brasileiro contemporâneo não oferece espaço de escolha para os jovens pobres; para a maioria deles, sobra apenas o setor de serviços (a precariedade

da informalidade), tão longe de um primeiro emprego que abrisse uma porta de entrada para uma carreira. Nesse sentido, a precarização do trabalho e a redução dos salários intensificam o processo de desregulamentação do trabalho com a redução dos direitos sociais para os empregados. Esse quadro configura uma crise enfrentada pela sociedade, a bordo da lógica neoliberal vigente que estabelece o dito “desemprego estrutural” mediado pelo medo dos jovens de serem descartados a bordo da flexibilização dos direitos sociais e trabalhistas, e da precarização das relações de trabalho.

O momento atual brasileiro caracteriza-se por uma reestruturação produtiva que redesenha o capitalismo através de processos de mundialização, financeirização dos capitais e transnacionalização da produção. Em decorrência da automação da produção e do caráter fictício da economia instaura-se uma crise no mundo do trabalho que avança sobre as relações de produção. Todo o contexto de desemprego estrutural e de precarização do trabalho vem submetendo os jovens pobres a desenvolver uma formação geral “volante” expressa um processo de atualização instantânea, que tende para a desatualização, como uma qualificação que tende para a desqualificação.

Nesse aspecto, o sociólogo e professor do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (Cefetce), Marcelo Santos Marques (2009) desenvolve pesquisa sobre esse relevante fenômeno social, que reflete as novas configurações do capitalismo contemporâneo organizado a partir das novas tecnologias high-tech, constituídas à base da robótica, da microeletrônica e da automação flexível. Em sua pesquisa de doutorado, Marques avança na teoria sobre a tendência à qualificação-desqualificante da força de trabalho, investigando os tecnólogos egressos dos cursos superiores de telemática e de mecatrônica do (CEFETCE). Ele afirma que os tecnólogos desenvolvem atividades práticas aquém da