Para abordar este tema e alimentar esta discussão, trago um diálogo descrito por Leonardo Boff (2006, p. 13), entre o Dalai-Lama e um ouvinte:
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ma vez fizeram esta pergunta ao Dalai-Lama e ele deu uma resposta extremamente simples: “Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior.”
Não entendendo direito, alguém perguntou novamente:
– Mas se eu praticar a religião e observar as tradições, isso não é espiritualidade?
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O Dalai-Lama respondeu:
– Pode ser espiritualidade, mas, se não produzir em você transformação, não é espiritualidade.
E acrescentou:
– Um cobertor que não aquece deixa de ser cobertor. Então atalhou a pessoa:
– A espiritualidade muda ou é sempre a mesma coisa? E o Dalai-Lama falou:
– Como diziam os antigos, os tempos mudam e as pessoas mudam com eles. O que ontem foi espiritualidade, hoje não precisa mais ser. O que em geral se chama espiritualidade é apenas a lembrança de antigos caminhos e métodos religiosos.
E arrematou:
– O manto deve ser cortado para se ajustar aos homens. Não são os homens que devem ser cortados para se ajustarem ao manto.
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Boff (2006) esclarece que o ser humano é um ser de mudanças, um ser inacabado e em eterno refazimento, nos mais diferentes níveis de experiência e estado. Hoje, a espiritualidade vem sendo descoberta como dimensão profunda do humano, onde o olhar da ciência perscruta e promove um diálogo que reúne estes dois eixos que, por muito tempo, foram separados.
Groff (et al, 2000) explica que a espiritualidade reflete a relação existente entre o indivíduo e o cosmos. E que os verdadeiros sistemas espirituais são, sobretudo, produtos de uma análise sistemática e secular da ciência da psique, as quais existem tecnologias precisas que investigam as alterações dos estados mentais. Daí é possível entender esta relação entre espiritualidade e ciência se presentificando nos muitos processos dos métodos científicos dos últimos tempos.
Russell (2010) define ciência como conhecimento, caminho que serve de observação rigorosa que proporciona conhecimento confiável e aponta para o método científico. Um exemplo claro, é que este processo rigoroso facilita a investigação da atividade elétrica do cérebro humano no momento da meditação, por meio de ambiente propício e equipamentos eletromagnéticos, conectados ao mesmo indivíduo em meditação e fora da meditação. Assim, torna-se possível mensurar e quantificar os avanços das pesquisas. Claro que a mesma prática pode ser aplicada em grupos, mas somente após um consenso científico, é possível estabelecer algum conhecimento confiável sobre a atividade cerebral durante a meditação e a exploração direta de nossa mente (RUSSELL, 2010).
Sendo assim, “o espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a espiritualidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas [...]” (EINSTEIN, 1981, p. 20-21).
Heisenberg (1959) afirma que a ciência moderna nos permite “[...] abrir portas numa perspectiva mais ampla das relações entre inteligência humana e realidade” (p. 169). E isto poderá conduzir a “[...] matéria cósmica [...] uma substância universal [...]” (p. 170), a passar por todas as transformações, da qual todas as coisas emerjam para depois a ela retornar. De modo geral, é provável que na história do pensamento humano, os pensamentos mais frutíferos tenham tido lugar nos pontos onde convergem duas linhas diferentes do pensamento. Estas linhas podem ter suas raízes nas distintas origens culturais, míticas, sociais, religiosas, etc.
É este espírito científico, esta matéria cósmica, esta substância universal, este rigor e o equilíbrio da sensação, da observação e da conceituação que nos impulsiona para a busca de uma espiritualidade cósmica, de uma educação responsável e comprometida com os seres humanos.
Portanto, voltada para uma aprendizagem consciente da existência humana em todos os sentidos, uma educação que surge com um novo olhar, a caminho das mais variadas tecnologias espirituais abordadas hoje, nos mais diversos estudos científicos que podem ser utilizadas como ferramentas para a realização e desenvolvimento de processos afetivos e amorosos, dialógicos, interativos e ecoformadores.
Tais ferramentas podem nos abrir portas para uma dimensão humana mais profunda, capaz de atingir a inteireza humana, o despertamento para uma espiritualidade consciente que se manifesta na atenção plena docente e significativa, por meio de uma consciência plenamente desperta e atenta as emergências no aqui e no agora. E é este momento no presente que pode nos possibilitar uma abertura de consciência e melhor interconexão com o relicário da nossa alma e o encontro com o outro.
Roger Walsh (apud Siegel, 2010) amplia a visão científica ao fazer uso da narrativa pessoal e da informação obtida por meio do conhecimento da experiência. Segundo Siegel (2010), Walsh sugere que as áreas que analisam a consciência humana, através de práticas como a meditação, aumentam nossas vias de conhecimento fazendo uso da experiência prática, nos apresentando um novo conhecimento sobre a compreensão da linguagem conceitual e do pensamento abstrato que nos oferece conhecimento mediante a experiência pessoal direta. Daí desencadeia um processo que envolve a observação da mente e a autorregulação que, posteriormente, se converte na atenção sobre a própria atenção (SIEGEL, 2010).
Mas, como se apresenta, cientificamente, a experiência subjetiva que proporciona o mindfulness? Para tanto, é necessário: 1) não reagir à experiência interna; 2) observar,
perceber, atentar para as sensações; 3) atuar com atenção, não entrar em piloto automático, manter a concentração sem distração; 4) descrever, etiquetar com palavras as emoções, sensações e novos aprendizados; 5) não emitir juízos sobre a experiência. Com isso, a compreensão e aplicação destas cinco dimensões nos permite estar atentos quando um pensamento preconcebido chegar a nossa mente. Poderemos senti-lo, observá-lo, pensá-lo e conhecê-lo pelo que ele é e se apresenta. Este estado de atenção no aqui e no agora contribui para a textura da atenção receptiva, onde se encontra o centro da nossa mente (SIEGEL, 2010).
O mindfulness prepara a nossa mente para que possamos discernir sobre nossa própria natureza e revela a cada indivíduo os conhecimentos de acordo com o nível de percepção e de realidade que cada um traz consigo. Além das ideias preconcebidas e das relações emocionais que se cristalizam no pensamento e nas respostas automática que geram estresse interno (SIEGEL, 2010).
O resultado deste despertar permite a cada um mostrar-se mais receptivo com os acontecimentos tal e como são. A atenção plena, momento a momento, não se apega a juízos e isto nos conduz a uma sintonia intrapessoal entre os âmbitos físico, somático e mental da realidade. A atenção reflexiva elimina o estado do piloto automático. Nos lança no fluxo do bem estar mental, flexível, adaptativo, coerente, energizado e estável (SIEGEL, 2010).
Dessa forma, durante a prática da atenção plena pelo docente, a atenção se focaliza na sensação e percepção de todos os movimentos que emergem na sala de aula e entre todos os envolvidos. Atento, o docente deve observar a interação e sintonia dessas relações que fomentam a aprendizagem consciente, imprimindo sua intencionalidade na orientação para o momento de autorregulação que ocorre no presente, seja em nível do aluno em si, de aluno para aluno ou de aluno para professores, num contínuo ir e vir.
Quem sabe assim, possa emergir uma educação capaz de tocar, animar e estimular a sensibilidade, a capacidade de contemplação, de reverência, de generosidade e de compaixão por tudo o que foi criado e por tudo que é vivo, que respira, promovendo, o desenvolvimento de uma consciência ética planetária (BATALLOSO, 2012).
Para atingir tal nível de consciência, Morin (2000) ensina o que devemos inscrever em nosso ser: a consciência antropológica, o reconhecimento da unidade na diversidade; a consciência ecológica, a consciência de habitar, a mesma esfera viva (biosfera), reconhecendo a nossa união consubstancial com a biosfera, para que possamos nutrir a aspiração da convivibilidade sobre a Terra; a consciência cívica terrena, que chama à responsabilidade e à solidariedade os filhos da Terra; a consciência espiritual da condição humana, decorrente das
manobras complexas do pensamento e que nos permita, concomitantemente, “[...] criticar-nos mutuamente e autocriticar-nos e compreender-nos mutuamente” (MORIN, 2000, p. 76).
É preciso trazer este contexto de consciência para o contexto da educação, para que cada indivíduo tome conhecimento de sua condição humana e, por conseguinte, desenvolva sua consciência e perceba que sua identidade é complexa e comum a todos os outros seres humanos. Desse modo, a condição humana tornar-se-ia o objeto essencial de todo o ensino, “[...] por que viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilização de todas as aptidões humanas” (MORIN, 2009, p. 54).
Acreditamos ser possível, com base nas disciplinas atuais, despertar a consciência e “[...] reconhecer a unidade e a complexidade humanas, [...]” reunindo e reorganizando conhecimentos concernentes às ciências da natureza, às ciências humanas, à literatura e à filosofia, colocando em evidência o “[...] elo indissolúvel entre a unidade e a diversidade de tudo que é humano.” Assim, é imprescindível aceitar “[...] a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno”, para que a educação possa começar a trabalhar um princípio que compreenda a “[...] unidade/diversidade em todas as esferas” (MORIN, 2000, p. 55).