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2 Materiale

2.1 Datamateriale og metode

Tendo como base o conjunto da filmografia brasileira dos anos 1990-2000, com recorte até 2008, em função do período de elaboração do texto do presente trabalho – 2009/11, foram identificados onze longas-metragens com estrutura narrativa de filmes de estrada (ver quadro com relação de títulos e dados de referência registrados após esta introdução).

A primeira característica a ser comentada diz respeito à geração dos diretores. Excetuando Cacá Diegues, expoente do Cinema Novo, que completou 70 anos em 2010, os seis diretores nasceram, justamente, durante o período de florescimento desse movimento – a segunda metade da década de 1950 e primeira dos anos 1960 (quando aquele lançou seu primeiro filme, Cinco vezes

favela, aos 21 anos) – e iniciaram a carreira profissional em longa-metragem na

presente fase pós-Embrafilme.

Posto isso, certas perguntas emergem deste corpus de pesquisa: Por que o interesse da geração recente pelo gênero? Há semelhanças de proposição entre estes realizadores e Diegues? Como a questão da identidade cultural atravessa tais filmes e a trajetória destes diretores? Como os elementos de análise – história de vida dos autores, enredos, gêneros narrativos e realidade social mimetizada – se entrecruzam?

O segundo aspecto de abordagem introdutória à filmografia a ser analisada remete à própria questão narrativa. As histórias imaginadas por meio de personagens em viagem por estradas pelo Brasil, América do Sul e Portugal inserem-se em padrões estruturais do gênero road movie, mas também dialogam com o gênero drama social, evidenciando a intenção, em maior ou menor grau, de realismo crítico desses diretores.

Além dessas narrativas, dependendo do estilo de cada autor, as histórias contadas movem-se também pelos caminhos da comédia – Deus é brasileiro

(Cacá Diegues), Árido movie (Lírio Ferreira) e Lisbela e o prisioneiro (Guel Arraes) -, do melodrama – Central do Brasil (Walter Salles) e A caminho das

nuvens (Vicente Amorim) -, do policial – A grande arte (Walter Sales), Os matadores (Beto Brant) e Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas) –

ou simplesmente, compõem-se num registro narrativo que sublinha as afinidades de caracterização do filme de estrada e do gênero drama social –

Cinema, aspirinas e urubus (Marcelo Gomes), O céu de Suely (Karim Aïnouz) e Diários de motocicleta (Walter Salles). Ou seja, observa-se nessas narrativas a

exposição em relevo de conflitos de classe ou de caráter socioeconômico auxiliados, em parte, por base documental.

O reconhecimento dos gêneros narrativos é apenas uma pista inicial de entendimento do significado social e cultural desses longas-metragens. O texto a seguir pretende aprofundar tal apontamento com a caracterização do gênero

road movie, por meio da leitura da peculiaridade de cada enredo, a tipificação

dos protagonistas, a criticidade autoral, o desvendamento de elementos audiovisuais marcantes – planos, registros fotográficos, trilha sonora20 – e o detalhamento da geografia física e humana representada.

Segue, portanto, a proposta de análise e interpretação do material audiovisual em relevo, conforme discussão teórico-metodológica realizada na introdução do trabalho. Em linhas gerais, o protocolo da pesquisa propõe-se investigar as relações socioculturais e históricas estabelecidas/mediadas no gênero narrativo

road movie, especialmente da recente filmografia brasileira – anos 1990-2000,

bem como leitura do plano simbólico do imaginário social de contexto.

20 A análise e a interpretação da banda sonora serão aprofundadas no subcapítulo seguinte -

5.2. À escuta dos sons e da poesia do lugar: as trilhas sonoras da filmografia brasileira road movie

Quadro 9: Filmes brasileiros de estrada – 1990-2008: diretores, dados de referência e síntese da caracterização narrativa.

Anos 1990

Filme Diretor/ Ano de Nascimento

Origem (Dir.) Ambiente Geográfico Ficcional Principais Gêneros Narrativos A Grande Arte (1991) Walter Salles (1956) Rio de Janeiro (RJ) Cidade do Rio de Janeiro, Mato Grosso, Bolívia e África

Filme de estrada, policial

e drama social Terra Estrangeira (1995) Walter Salles (1956) Daniela Thomas (1959) Rio de Janeiro (RJ) Cidades de São Paulo e Lisboa

Filme de estrada, policial

e drama social Os Matadores

(1997) Beto Brant (1964) São Paulo (SP) Cidade do Rio de Janeiro e região de fronteira com o Paraguai

Filme de estrada, policial

e drama social Central do Brasil (1998) Walter Salles (1956) Rio de Janeiro (RJ) Cidade do Rio de Janeiro e sertão pernambucano

Filme de estrada, policial

e drama social Anos 2000 Deus é Brasileiro (2003) Cacá Diegues

(1930) Maceió (AL) Alagoas, Pernambuco e Tocantins

Filme de estrada,

comédia e drama social A Caminho das Nuvens (2003) Vicente Amorim (1966) Viena, Rio de Janeiro (RJ) Paraíba, Ceará, Bahia e Rio de Janeiro Filme de estrada, melodrama e drama social Lisbela e o Prisioneiro (2003) Guel Arraes

(1953) Recife (PE) Zona da mata pernambucana Filme de estradacomédia e romance,

Diários de Motocicleta (2004)

Walter Salles

(1956) Rio de Janeiro (RJ) América do Sul, de Buenos Aires a Caracas

Filme de estrada e drama social Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) Marcelo Gomes (1964)

Recife (PE) Sertão do

Pernambuco Filme de estrada drama social e Árido Movie

(2006)

Lírio Ferreira

(1965) Recife (PE) Sertão/agreste pernambuco Filme de estrada, drama social

ecomédia

O Céu de Suely (2006)

Karim Aïnouz

Filmes brasileiros de estrada dos anos 1990

Do ponto de vista social, político e cultural, essa foi uma década de grande transformação e de transição econômica: adentra-se na economia global e afirma-se o Plano Real (1994), que estabilizou a moeda e trouxe a retomada do crescimento econômico, o qual repercutiu nas décadas posteriores. Não obstante observa-se, também, por todos os cantos do país, que a herança social desigual, injusta, ainda é tônica e resiste brutalmente.

No cinema, como discutido no capítulo 1, a Embrafilme (1969-1990) foi extinta por decreto durante o curto governo Fernando Collor (1990-1992). O

impeachment deste, motivado por corrupção, torna-se um alento às esperanças perdidas com o naufrágio do processo de redemocratização

política e social, durante a conservadora e decadente gestão, do ponto de vista econômico e social, do presidente José Sarnei (1985-1990).

No governo Itamar Franco (1992-1995), pós-impeachment, a economia retoma impulso e é decretado o bem sucedido Plano Real (1994). Durante seu mandato, começa a ser implementado o novo modelo de produção de cinema que vigora até o presente momento: produção baseada nas leis de incentivo fiscal. A Lei do Audiovisual (1993), que se soma à Lei Rouanet (1991), criada no governo Collor, viabiliza a maior parte das produções do cinema brasileiro de ficção e documentário nas duas últimas décadas.

Em 1995, o filme de Carla Camurati, Carlota Joaquina, rainha do Brasil, amparado nas leis de incentivo, marca o início do ciclo denominado pela imprensa e crítica especializada de Cinema da Retomada. Em relação à safra de filmes de estrada que surgem antes e no bojo desse ciclo, observa-se que o período é caracterizado pelo surgimento e confirmação da carreira, em longa- metragem de ficção, do cineasta Walter Salles. São três películas road movies desse autor que serão analisadas adiante: A grande arte (1991), Terra

estrangeira (1995) e Central do Brasil (1997). Beto Brant, outro expoente do

chamado Cinema da Retomada, estreia em longa-metragem com Os

Há algumas características narrativas e temáticas em comum nessa safra de filmes de estrada dos anos 1990. Todos os filmes possuem forte conexão com os gêneros policial e drama social e a maioria deles traz enredos nos quais os protagonistas viajam além dos limites geográficos do território nacional.

Narrar a fronteira por meio da investigação subterrânea do mundo do crime, feito de assaltos e homicídios, foi, neste período, um modo de fotografar um país imerso na violência extrema, herança histórica das diferenças sociais gigantescas e, ao mesmo tempo, emergir o pêndulo da individualidade que caracteriza as sociedades contemporâneas e o eixo ficcional das personagens em filmes no registro do gênero road movie.

Quadro 10 – Produção de filmes brasileiros de estrada – década de 1990

Dados de produção – roteiro e fotografia

FILMES DE ESTRADA DIRETORES ROTEIRO FOTOGRAFIA

A grande arte

(1991) Walter Salles Rubem Fonseca José Roberto Eliezer Terra estrangeira

(1995) Walter Salles

Walter Salles; Daniela Thomas; Marcos Bernstein; Millor Fernandes Walter Carvalho Os matadores (1997) Beto Brant

Beto Brant, Fernando Bonassi, Victor Navas;

Marçal Aquino Marcelo Durst Central do Brasil

(1998) Walter Salles

João Emanoel Carneiro; Marcos

5.1.1 A grande arte (1991)

Imagem 44 - A grande arte (Walter Salles, 1991) Walter Salles, um dos maiores responsáveis pela afirmação de público e de crítica do chamado, à época, Cinema da Retomada – anos 1990 – lança A

grande arte, seu primeiro filme, em 1991, aos trinta e cinco anos de idade (o

diretor nasceu em 1956). Antes disso, o cineasta já havia consolidado uma carreira de forte visibilidade na televisão (GONÇALVES, 2001).

Carioca, filho de Elisa Margarida Gonçalves e do embaixador e banqueiro Walter Moreira Salles, pertence à família que detém o controle do grupo Unibanco. É irmão do cineasta João Moreira Salles e do banqueiro Pedro Moreira Salles, e meio-irmão do editor Fernando Roberto, filho do primeiro casamento de seu pai.

Salles foi criado no Brasil até os seis anos. Permaneceu fora do país com a família até os 13 anos, morando em Paris e Washington. Estudou economia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e fez mestrado em comunicação audiovisual na Universidade de Artes Cinematográficas da Califórnia.

Para se ter uma ideia das atividades desenvolvidas pelo cineasta na fase anterior à sua dedicação ao cinema de ficção, ressalta-se que, nos anos de 1983 e 1985, dirigiu o programa de entrevistas Conexão Internacional, exibido pela antiga Rede Manchete. Em 1986, foi responsável pela produção de um documentário de cinco horas sobre os conflitos entre tradição e modernidade no Japão.