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2.2.2.1. Entrevistas

Recorreu-se ao uso da entrevista como principal instrumento para a realização da pesquisa. Até a qualificação, pretendia-se realizar seis entrevistas com alunos, em seis escolas diferentes, para trazer uma dimensão de distintas construções de situações de fracasso no campo escolar. Pensou-se na quantidade de seis por não poder ser um número muito extenso, devido ao tempo da pesquisa de doutorado, e tampouco uma quantidade reduzida ao ponto de não se abstrair singularidades nas trajetórias.

No entanto, foi apontada pela banca a necessidade de trazer, para o corpo do trabalho, a versão da escola, ainda que como suplemento, sobre o que acontece dentro da instituição para que existam alunos nas condições dos entrevistados. Assim, optou-se por retornar às escolas, trabalhar com mais densidade sobre dados das escolas onde estão inseridos esses sujeitos.

A entrevista com o integrante da equipe gestora e a análise de documentação da escola foram interpostas como material complementar da pesquisa. Mediante o escasso tempo, decidiu- se redimensionar as ações e realizar entrevistas com as coordenadoras pedagógicas das escolas onde estudavam os sujeitos e dar por findada a busca por outros alunos participantes, considerando-se que, no material coletado, já havia a presença de três representações distintas de construção escolar do insucesso no percurso. Na escola 01, devido à troca de coordenadoras, a conversa foi realizada com a vice-diretora, que já trabalhava na escola no ano anterior. A única entrevista com aluno, feita após a qualificação, foi a da aluna K, por ter-me sido apresentado um novo contexto rico para a pesquisa, que seria uma aluna em sala de recuperação intensiva (RI).

O roteiro para a entrevista com os alunos foi elaborado com vistas a atender aos objetivos que se pretendia alcançar e focalizado o problema da pesquisa. Foram inseridas questões fechadas para traçar o perfil de características econômicas, sociais e culturais dos sujeitos. Foi elaborado também um conjunto de perguntas abertas no intuito de mapear as particularidades da trajetória de cada aluno e sua relação com o saber e a escola. Foram realizados muitos recortes, de acordo com os aspectos que se pretendia discutir, pois as falas justapostas não permitiriam condensar os assuntos e analisá-los de forma a apreender o que se pretendia evidenciar em cada eixo.

Para a conversa com um dos membros da equipe gestora de cada escola, foi também elaborado um breve roteiro com questões abertas, cujo objetivo foi o de trazer para a pesquisa a versão da escola sobre o processo que resulta na questão discutida na pesquisa.

Para essas entrevistas, tomou-se, como orientação, as considerações de Bourdieu (1999), para quem a reflexão de que quaisquer métodos adotados se apoiam em interações sociais que ocorrem sob a pressão de estruturas sociais é um primeiro passo para tentar controlar, na execução dessas interações, os efeitos da estrutura social na qual ela se realiza. Há que se considerar a violência simbólica imposta numa relação entre pesquisador e entrevistado, colocando em contato dois indivíduos de posições sociais diferentes, em que há a iminência de uma violência simbólica entre dois interlocutores, um legitimamente ligado ao trabalho científico e outro na situação de observado e interrogado. Assim, as características da interação contêm efeitos sociais que podem afetar as respostas, situação ainda mais proeminente quando se tem que falar de um papel que exerce e no qual não se obtém êxito, como é a situação dos alunos entrevistados em questão. Ciente desses pressupostos, evitou-se a ingenuidade da ciência como neutra e se agiu no sentido de amenizar as consequências. “Só a reflexividade que é sinônimo de método, mas uma reflexividade reflexa, baseada num “trabalho”, num “olho” sociológico, permite perceber e controlar no campo, na própria condução da entrevista, os efeitos da estrutura social na qual se realiza”. (BORDIEU, 2011, p.694, grifo do autor).

Na condução das entrevistas, procurou-se adotar a postura de interpretar as falas, os silêncios, e ainda o que está por trás das manifestações, haja vista que os sujeitos sabem que “(...) seu ser é um ser percebido, condenado a ser definido em sua verdade pela percepção dos outros” (BOURDIEU, 2001, p.200). Mediante essa percepção que se adquire desde a infância, e de que o pesquisador é mais um no cotidiano escolar que ali está para percebê-lo, pode não ser uma situação confortável se mostrar sem nuances. Assim, para uma análise efetiva do problema apresentado, não é possível direcionar o olhar estritamente para a fala dos agentes sem que se vincule aos seus discursos, representações e comportamentos suas determinações sociais. (BONNEWITZ, 2003, p.27).

Se interrogarmos os indivíduos sobre o sentido de suas ações pessoais, eles sempre serão capazes de apresentar “boas razões” que as justifiquem. Mas o sociólogo deve ser muito prudente diante das significações que os indivíduos dão de sua conduta. Certamente, elas não são falsas, mas são sempre incompletas. Esta incompletude se explica pelo fato de que a produção do discurso dos indivíduos não é independente de suas características sociais (...). Romper com as pré-noções contidas no discurso comum se justifica também pelo fato de que os indivíduos que apresentam explicações de sua prática não estão conscientes dos determinismos que produzem o seu discurso. (BONNEWITZ, 2003, p.30).

Além disso, como afirma Bourdieu (2004), ao analisar o cuidado a se ter quanto à ilusão da transparência e à ilusão do saber imediato, deve-se evitar a tomada de decisões que sejam de seu interesse apenas, mas ter a clareza de que há relações sociais envolvidas nas manifestações, a serem detectadas por princípios organizacionais capazes de explicar as atitudes, opiniões e aspirações dos envolvidos no estudo. Em outras palavras, há a necessidade de atentar ao social de toda a situação. “O sentido das ações mais pessoais e mais “transparentes” não pertence ao sujeito que as realiza, mas ao sistema completo de relações nas quais e pelas quais elas se realizam”. (BOURDIEU, 2004, p. 25-9). A realidade, portanto, de um problema estudado não pode ser compreendida somente pelos sentimentos, explicações ou reações pessoais dos sujeitos.

2.2.2.2. Consulta documental

Foi solicitado aos agentes das escolas que a pesquisadora tivesse acesso ao prontuário dos alunos, no intuito de analisar a documentação que porventura pudesse fornecer informações sobre a trajetória escolar dos sujeitos. Definiu-se que, ao menos, fosse possível verificar o Histórico Escolar como indicador da fase em que os sujeitos começaram a ter seu baixo desempenho atestado pelas notas. É um documento em que também se podem observar as faltas dos sujeitos à escola.

Já a proposta pedagógica das escolas foi considerada um documento relevante para verificar se os alunos, como os sujeitos da pesquisa, eram contemplados nos planos de ação das escolas. Na escola 01, não foi permitido o acesso ao prontuário dos alunos. Solicitado à diretora, que, na ocasião, era oficialmente uma das vice-diretoras (porque a diretora de fato estava em férias), esta não aceitou e disse que, se fosse a gestora efetiva, não permitiria em nenhuma circunstância. Mas, orientou-me a retornar, quando a diretora voltasse das férias, para conversar esse assunto com ela e saber de sua decisão. Procurei pela diretora, que também negou o acesso. Assim, não tive contato com a documentação escolar do aluno G nem da aluna K.

Quanto à proposta pedagógica, a informação foi a de que não havia sido encontrada a do ano anterior, e a do ano corrente estava em construção. Foi-me disponibilizado o plano gestor da escola e, quanto aos dados que não constavam no plano, tratou-me com hostilidade. Ao solicitar a informação de quantos professores eram efetivos, me respondeu a diretora: “Mas você precisa desse dado? É necessário?”. Em uma das solicitações de informação: “Ah, hoje eu não posso,

porque já está dando o meu horário. Por que você não veio em outro momento?” Expliquei-lhe que procurei por ela, mas estava em férias, ao que retrucou: “É, mas eu não voltei hoje”. Eu já havia ido à escola outras vezes e não a encontrara.

Na escola 02, embora tenha havido uma ideia inicial de recusa, alegando ser o prontuário do aluno portador de documentos confidenciais, após conversar com o diretor, este requisitou que eu fizesse um documento no qual me comprometesse a utilizar os dados somente para os fins a que se destina a pesquisa e não divulgar a identificação do aluno. Assim o fiz e tive acesso ao prontuário do aluno F, com permissão para fazer anotações, mas não fotocopiar. Se eu precisasse, o diretor disse que encaminharia um pedido para a Diretoria de Ensino. Procedeu chamando a coordenadora pedagógica e a chefe da secretaria para conversarem comigo, a fim de receberem as explicações sobre a pesquisa para, então, atenderem as solicitações necessárias para sua execução. Foi informado, nessa ocasião, que, caso não estivesse um membro da equipe gestora, poder-se-ia procurar pela profissional da secretaria para disponibilizar o que fosse necessário após a entrega do documento solicitado. Considerou ainda que o meu acesso à documentação, via procedimentos legais, seria educativo, para que funcionários que lidam com a questão burocrática percebessem o quanto é importante manter a documentação em ordem.

Quanto à documentação sobre a escola, o diretor informou que, quando ele chegou nessa unidade, em 2013, não havia arquivos que se referissem à documentação que eu buscava. Para o ano corrente, estava para ser construído, mas que não tem sentido a execução de uma proposta pedagógica atualmente quando o currículo é imposto pelo Estado. Disse que, se a escola não tem autonomia, não faz sentido desenvolver uma proposta. Ainda assim, ressaltou que não desacredita que o Estado tenha mesmo que estabelecer um mínimo comum.

De acordo com informação da escola, o Plano Gestor é realizado de quatro em quatro anos e, como não havia arquivado na escola, e este é o ano de renovação, não tive acesso ao documento escrito. As informações de que eu precisava para além da proposta pedagógica foram encaminhadas a mim por e-mail pelo vice-diretor, pois, num primeiro momento em que fui procurar tais informações, ele havia me dito que estava finalizando a redação de um documento com essas informações e que estava em seu pen drive em sua residência, e, por isso, me enviaria ao chegar lá. Recebi semanas depois o arquivo, com um relato da observação de estágio de um professor de Geografia na escola, do qual extraí o que foi possível.

Na escola 03, prontamente foi permitido acessar a documentação da aluna, na qual constava somente seu histórico escolar.

2.2.2.3. Procedimentos de análise

Após transcrever as entrevistas e ouvi-las diversas vezes, elas foram analisadas. Para a extração dos dados, todas as entrevistas foram relidas várias vezes para marcar, nos textos, os assuntos e referências aos eixos, cada um deles com uma cor para, posteriormente, organizá-los para análise e exposição.

Foram categorizadas em quatro eixos: percepções sobre o que construiu sua trajetória escolar desqualificada; estratégias de sobrevida na escola; marcas incutidas nos agentes em decorrência da permanência desqualificada; e sentido da permanência e expectativas com relação à escola. Para efeito de apresentação dos dados, foi feita a junção de dois eixos no capítulo 04 e dois eixos no capítulo 05 e analisados segundo o referencial teórico adotado.

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