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Kapittel 3: Forskningsdesign og metode

3.2 Datainnsamling og utvalg

3.2.2 Datakilder og utvalg

O sentido do sagrado e do profano foi trabalhado no início do capítulo anterior a partir da ótica de três autores: Durkheim (2009), Debray (2000) e Eliade (2011). Para dar conta dos dois conceitos antagônicos passamos a trabalhar com um ponto comum entre os três pensamentos. De forma genérica, discutimos o sagrado como um ponto federador capaz de reunir sujeitos em prol de um juízo. Identificamos esses conceitos às teofanias, a fim de entender como o sagrado pode ser configurado e expresso. O profano, por sua vez, assumiu o local do complexo, do caótico, de tudo aquilo que pode causar desorientação. Associamos essa maneira de ser e pertencer, posteriormente, ao reino das necessidades diárias, do mundo, dos sentidos.

Nesta seção deveremos retomar a discussão sobre o profano trabalhando a partir do conceito de erotismo em Bataille (1988), que aparece aqui como sinonímia de transgressão. Com efeito, o erotismo do sagrado deverá ser compreendido como uma profanação ameaçadora daquele significado federador. A luz lançada por esse pensador nos será útil para entendermos como o profano e o sagrado se expressam no blog.

O erotismo, no diz Bataille, está sempre associado a uma violação interditada, tratando-se dessa forma de uma transgressão. Ele é aplicado sob três categorias: corpos, coração e sagrado. Aqui nos interessará principalmente a última. Bataille testemunha: “o que o erotismo implica é a dissolução das formas constituídas, ou seja, repetindo, das formas da vida social, regular que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que somos” (BATAILLE, 1988, p. 18). Essas formas sinalizadas pelo autor estão associadas aos limites dos fenômenos culturais, o que inclui, sem dúvidas, a religião e a moral que em muitos momentos estão revestidas por armaduras sacralizadas.

O sagrado cristão é proibidor do erotismo, do transgressor e do (seu) mundo profano. Essa sacralidade assegura-nos Bataille (1988, p. 106), lança discursos ortopédicos sobre a sexualidade, o incesto, a orgia, a festa, a morte, a emoção, o assassinato, a guerra, a caça, a crueldade, a liberdade e a tudo que é avesso ao contínuo, já que o descontínuo foge do centro, do controle, do ponto federador, do sagrado. A própria noção de continuidade (que pode ser adaptada à ideia de salvação e eternidade) é tratada por Bataille como uma forma de erotismo do sagrado:

O sagrado impuro (pagão) foi, por conseguinte, lançado para o mundo profano. Nada podia substituir no mundo sagrado do cristianismo, que confessasse claramente o caráter fundamental do pecado, da transgressão. O diabo (figura da cosmologia pagã) – ou o anjo da transgressão (da insubmissão e da revolta) era expulso do mundo divino (no cristianismo) (BATAILLE, 1988, p. 105).

A figura do diabo é então expulsa do campo das coisas sacralizadas e assume o papel antagonista nas crenças cristãs. Há, portanto uma readaptação da noção de sagrado. Essa realidade do passado é perene e, em função do fenômeno da transmissão, afetou a blogosfera de Macedo e os seus testemunhos de fé. O diabo cristão, soberano no mundo da profanação, é o inimigo da verdade e da paz. A luta contra o mal ou a promoção da guerra santa é um dos principais efeitos de sentido gerados no blog. Satã e sua legião inimiga, tão citados nos testemunhos, devem ser expulsos e humilhados. São eles os responsáveis por todas as agruras e infortúnios que assombram o mundo palpável.

Nessa concepção, a figura profana mantém contato, por conseguinte, com o cotidiano. Os vícios, a depressão, as doenças, o suicídio, os medos, os desmaios, o desemprego são índices do seu triunfo. Todos esses tópicos assumem temas centrais nas publicações do blog e deflagram a luta incansável e necessária do bem contra o mal. Não é difícil encontrar títulos de postagens com essas palavras. A expressão diabólica também está associada aos ritos das religiões africanas, daí o imperativo da Guerra Santa e a justificativa da IURD de ser a pioneira nessa prática. São comuns no blog testemunhos e postagens de pessoas que mudaram de religião para se dar bem na IURD. O patrulhamento às religiões de origem africanas ou indígenas, que mantém uma relação específica com a noção do sagrado, também é notadamente percebido em função das muitas manifestações discursivas na página, seja por meio de áudio, vídeo ou da escrita.

Essa postura, que é expressa na Igreja e no blog, é uma reprodução referenciada biblicamente. Mirados no exemplo de Jesus, que expulsou demônios, a instituição segue reproduzindo rituais de exorcismos, muitas vezes apresentados por vídeos disponibilizados também nas publicações pelo canal do Youtube. A presença de testemunhos que funcionam como provas narradas publicamente da eficácia do poder e ação de “Deus” na vida do fiel ganha importante valor nesse instante. É ele, pois, quem valida as provações pelas quais o rebanho passa, sobretudo na guerra contra o mal. Da mesma forma, por meio dessas confissões são também expostas as conquistas e vitórias conseguidas graças à ação de “Deus” na vida pessoal do sujeito.

A relação do profano com o cotidiano parece-nos compreensível pela figura desestabilizadora do Diabo, mas a ligação do sagrado com a bem-aventurança só é justificada com a Teologia da Prosperidade, que aparece para reatualizar os investimentos de Calvino. Conceitualmente, a Teologia da Prosperidade funciona como uma fenda na história do cristianismo. Ela rompe com os ideais de simplicidade e com os votos de pobreza como pré- requisitos para a salvação, ou seja, a continuidade. Ao invés disso, “o compromisso com Cristo (que é firmado dentro da igreja) é garantia de sucesso, saúde, felicidade e estado financeiro nobre” (FRESTON, 1993, p. 106).

Ora, a vida de privações encarou na contemporaneidade um grande desafio. O consumismo e a indústria cultural e do entretenimento, assim como o mercado da moda, são possíveis condições de produção que poderiam estar implicadas com essa transmutação teológicas que reinterpreta ensinos e mandamentos do evangelho. A teologia é mais uma expressão da mutação do sagrado, pois ela:

Encaixou-se como uma luva tanto para demanda imediatista de resolução ritual de problemas financeiros e de satisfação de desejos de consumo dos fiéis mais pobres, a grande maioria, como para a demanda (infinitamente menor) dos que almejavam legitimar seu modo de vida, sua fortuna e felicidade (MARIANO, 1999, p. 149).

O lucro e as economias já não aparecem nesse cenário como problemas, mas como bênçãos sagradas, verdadeiros bônus oferecidos pela força sacralizada à boa conduta do fiel. A oferta e o dízimo funcionam nessa perspectiva como uma ação altruísta de gratidão às graças que foram alcançadas. É comum, ao visitar o blog, observar publicações que associam

essa forma de gratidão à salvação (na visão de Bataille (1988), uma prática de erotismo que pretende prolongar e dar continuidade ao corpo vivo).

Muitas postagens registram perguntas retóricas em seus subtítulos como: “Será que o bolso é convertido?39”; “Por que os espíritos malignos não pedem R$ 1 ou R$ 5 como voto, mas sempre um valor alto?40”; e “Qual seria o valor do presente que Jacó deu a seu irmão, Esaú, na moeda atual?41”. Desde do fim de 2012 até o começo de 2013, o bispo tem feito campanha nessa página para aumentar o número de ofertas para a construção do templo de Salomão, já mencionado na descrição da blogosfera.

Se levarmos em consideração as reflexões do segundo capítulo, observamos como a noção de sagrado pode ser mutante, muito embora em sua efetuação dogmática essa sacralidade não admita interpretações polissêmicas. A natureza do discurso religioso comumente não admite, por exemplo, que “o que caracteriza qualquer discurso é a multiplicidade de sentidos possíveis” (ORLANDI, 2012, p. 29), o que expressa a noção de incompletude de qualquer ato linguístico. Em desacordo com a noção dogmática de verdade, e certos da necessidade de oferecer sempre mais uma brecha interpretativa aos fenômenos linguísticos e sociais, que posteriormente trataremos da configuração dos testemunhos no blog. Antes de analisar as narrativas (no capítulo posterior), é necessário levarmos adiante essa noção de incompletude, da linguagem inacabada, estática ou inteira.