As atividades recreativas coletivas mais recorrentes na Aldeia Central de Tadarimana foram a prática do futebol, as festas (aniversário, festa junina, comemoração ao dia do índio e ao aniversário da escola) e os banhos de rio. As festas e os torneios envolvem pessoas de diferentes gerações e são momentos bastante aguardados pelos Bororo, ocupando o centro das conversas entre as pessoas, antes e depois do acontecido.
O campo de futebol é o centro das atenções dos Bororo nos finais de semana e nos feriados. O campo oficial, com traves de madeira e rede, era de chão batido, mas na época da chuva fica forrado de grama. Além dele, as crianças improvisavam outros campos no pátio da escola, na beira do rio e próximo às casas, onde praticavam o jogo com os parentes. Duas mães me mostravam com alegria que o time que jogava no quintal da casa de uma delas era
formado por crianças que eram parentes umas das outras, sem a necessidade de requisitar jogadores de outras famílias.
Figura 11 - Trecho do campo de futebol na Aldeia Central de Tadarimana
Nos finais de semana e nos feriados, a organização dos jogos contava com locutor oficial ao microfone desde cedo, informando os times (masculinos, femininos e infantis) sobre a tabela e os horários de jogos. Nesses dias, os times entravam uniformizados em campo, e as famílias vinham para a beira do campo acompanhar os jogos. Enquanto as mães jogavam, as crianças menores ficavam com os irmãos maiores, com as tias ou com as avós.
Os Bororo da Aldeia Central de Tadarimana costumam referir-se à prática de jogar futebol como “brincar de bola”. Enquanto a brincadeira acontecia, eles iam mostrando suas habilidades na organização, na apresentação pontual e a caráter para o desempenho da atividade, o espírito de cordialidade, na integração entre as famílias dentro e fora do campo. O máximo visto na manifestação das torcidas foram gritos de “ô Xavante” para um jogador que impõe mais força contra o outro na disputa pela bola. Os Xavante são considerados grandes inimigos dos Bororo, em cujo confronto são contrastados a valentia e agressividade dos primeiros contra o poder do Bari (xamã) dos segundos.
Quando ocorrem os torneios, que envolvem outras aldeias, demonstrações de bairrismo eram manifestadas entre grupos de localidades distintas. Embora fosse um só povo, as diferenças entre as aldeias eram demarcadas nessas circunstâncias. Ao mesmo tempo em
que está reunido, o povo está competindo entre si na busca de um troféu. Há uma relação de força entre a identidade local de cada aldeia e a do grupo étnico como um todo. Diante disso, o discurso das lideranças aconselhava ao fortalecimento da identidade dos Bororo.
Figura 12 - Líder discursando em dia de torneio de futebol
No torneio de Tadarimana, houve líderes que, em seus discursos, chamaram a atenção do povo para os cuidados com as palavras e as atitudes, quando se está coordenando e participando de um evento como o torneio de futebol, porque esse é um momento de orientar as crianças, quanto ao modo de os Bororo tratarem uns aos outros, e também de mostrar aos observadores externos que o povo sabe organizar um evento e sabe como se comportar nele. Houve também lideranças que enfatizaram os torneios de futebol como um momento de reunião entre pessoas das diferentes aldeias, num momento de brincadeiras e alegrias.
A recreação responsável, destacada pelas lideranças, vai ao encontro do que Viertler (2000, p. 163) fala quanto ao senso de beleza: “(...) para os índios, um ser humano será tanto mais belo quanto for pleno e amadurecido o seu senso de responsabilidade, seja em relação a si mesmo, aos seus próximos ou aos outros seres que o rodeiam.” Nesse sentido, o jogo de
futebol e o entorno do que ele envolve é apropriado pelos Bororo como um momento de aprendizado entre adultos e crianças, adultos e adultos e Bororo e não indígenas.
Os jogos que envolvem os times bororo e times de outros municípios são momentos de interação com o outro para conhecê-lo e para fazer-se conhecer. Os Bororo demonstravam apreciar quando algum não índio participava como jogador de um de seus times. Observei, principalmente, entre os times femininos que a formação deles levava em conta as relações de parentesco entre as jogadoras. Esse aspecto também foi apontado na pesquisa de Grando (2006), em Meruri, quanto à formação de times em geral.
O gosto e o interesse pelo futebol foram também usados pelas lideranças como estratégia de organização dos grupos para assumirem frentes de trabalho. Para realizar a limpeza dos arredores da aldeia e do próprio campo de futebol por ocasião dos eventos, os times foram convocados a trabalharem em horas demarcadas para cada um deles. Nessas ocasiões, as lideranças providenciaram o lanche para quem estivesse trabalhando. As mulheres prepararam pão e refresco na padaria da Pastoral.
Se em campo e na beira do campo predominava a alegria e a descontração enquanto os jogos aconteciam, nas casas, os mais velhos criticavam o abandono a que eram submetidos pelos mais jovens nos dias de jogos. Eles reclamavam falta de almoço ou de água para prepará-lo e, em época de funeral, também reclamavam que o futebol afastava as pessoas das cerimônias rituais, porque mesmo não havendo jogos na aldeia nesse período, os times iam para as localidades vizinhas participar dos torneios.
Os contrapontos da prática com o funeral foram muito bem resumidos por uma senhora que, sentada na varanda da Pastoral, via as pessoas sobre o caminhão, prontas para irem aos jogos, enquanto alguns homens se dirigiam ao baito com o alimento para as almas. Observando tudo, ela disse: “Esse povo! Enquanto uns estão correndo atrás de bola, outros estão comendo boe kugu [comida das almas: mingau de arroz, feito com caldo de peixe ou de caça]”. Situações sintomáticas de práticas originárias de padrões culturais diferentes, em coexistência num mesmo território.
Entre as festas organizadas pela liderança, estão os bailes que acontecem por ocasião dos torneios e a festa em comemoração ao dia do índio. Nesses eventos, os bailes eram embalados por bandas ou cantores vindos das cidades vizinhas, chamados pelos Bororo de tocador-doge e cantor-doge (tocadores e cantores). A animação costumava adentrar a madrugada, e a vitalidade e animação do povo são impressionáveis.
A festa junina e outra festa realizada em comemoração ao aniversário da escola e ao dia do índio13, conhecida como “Festa das comidas típicas”, envolve os profissionais da escola em sua organização. A festa junina de que participei contou com desfile de cavaleiros (crianças montadas em cabo de vassoura) carregando a imagem de Nossa Senhora. Ao final do desfile, a coordenadora convidou todos a rezarem a Ave-maria e o Pai-nosso. Outras ocasiões em que registrei práticas do catolicismo entre os Bororo da Aldeia Central de Tadarimana foi por ocasião da comemoração ao dia das mães, quando a coordenadora entoou com as crianças a música “Mãezinha do céu”, durante um aniversário de crianças, em que a mãe delas convidou todos a rezarem o Pai-nosso, antes de servirem os alimentos e no batismo católico de 10 crianças.
A “festa das comidas típicas” aconteceu em comemoração ao aniversário da escola e também ao dia do índio. Ela evidencia um ciclo de atividades temáticas sobre a cultura bororo, desenvolvidas por professores, alunos e outras pessoas da aldeia. O evento envolve a comunidade local e atrai pessoas dos municípios vizinhos (alunos e professores), sendo uma ocasião propícia para que as artesãs da aldeia ofereçam os seus colares e brincos para venda.
O lazer no rio ocorre principalmente nos finais de semana, quando as crianças utilizam-no para banhos e para jogo de bola na praia, e alguns adolescentes vão para namorar. Em época de funeral, a praia do rio é a opção para alguns adolescentes jogarem bola, sem muito alarde, uma vez que na aldeia deve ser guardado o silêncio em respeito aos mortos.
Em termos de profundidade, no trecho próximo à Aldeia Central, o rio Tadarimana é raso, com fundo de areia vermelha que dá uma coloração mais escura para água. Hoje, ele não é um rio farto em peixes, e as arraias que nele vivem, vez ou outra, vitimizam os Bororo com suas ferroadas.
13 Para comemorar o dia do índio, em 2012, na Aldeia Central, foram realizadas duas festas: a “Festa das comidas típicas”, que acontece desde 2009, e um almoço comunitário (foram servidos nele: carne de boi assada, arroz, mandioca cozida e salada de repolho com tomate) com baile durante a noite. Elas aconteceram em dias diferentes.
Figura 13 - Trecho do Rio Tadarimana