3 Metode
3.4 Datainnsamling
Em diferentes teorias encontramos a importância do contexto de inserção em que a criança encontra-se durante seu processo de desenvolvimento. Como apontado anteriormente com Winnicott, Vygotsky e Piaget, em diferentes olhares para o desenvolvimento biopsicossocial do infante, é possível localizar a presença de um contexto que exerce diferentes funções.
Bronfenbrenner (1996) discute o desenvolvimento dentro do modelo bioecológico em que destaca o contexto, inserindo as dimensões culturais e transculturais. O autor apresenta suas idéias dentro do estudo de uma ecologia no qual o desenvolvimento da criança acontece. Assim, este define que (p. 18):
A ecologia do desenvolvimento humano envolve o estudo científico da acomodação progressiva, mútua, entre um ser humano ativo, em desenvolvimento, e as propriedades mutantes dos ambientes imediatos em que a pessoa em desenvolvimento vive, conforme esse processo é afetado pelas relações entre esses ambientes, e pelos contextos mais amplos em que os ambientes estão inseridos.
Assim, as idéias de Bronfenbrenner sobre a ecologia do desenvolvimento apresentam consonância com nosso estudo, por considerar o desenvolvimento infantil em dialética com o contexto em que se insere.
O autor entende a criança como influenciada pelo meio, como também atuante neste, e ressalta ainda a importância de se pensar as interconexões entre
diferentes ambientes sobre o meio em que acontece o desenvolvimento infantil, não apenas aquele das relações imediatas.
Assim, o modelo bioecológico proposto por Bronfenbrenner (1996) compreende dentro do contexto quatro níveis ambientais: o microssistema, que é o meio onde acontecem os papéis sociais e as relações interpessoais imediatas da pessoa; o mesossistema que são os conjuntos de microssistemas, ou seja, são os lugares em que as pessoas frequentam e participam ativamente; o exossistema que consiste nos espaços em que a pessoa não frequenta como participante ativo; e por fim, o macrossistema que é constituído pelas ideologias, valores e crenças, religiões, forma de governo, culturas e subculturas que se encontram presentes no cotidiano.
Esta ideia amplificada sobre a presença do contexto influenciando o desenvolvimento da criança nos permite um maior entendimento sobre a multiplicidade dos diferentes aspectos envolvidos na constituição do ser como sujeito singular e ator de seu meio.
Assim, não apenas utilizaremos as variáveis referentes ao ambiente e nível socioeconômico mas, como apontam Cohen e Siegel (1991), relacionaremos ao contexto o desenvolvimento das variáveis que consideram os sistemas sociais, os ambientes físicos e as pessoas como participantes ativos, interagindo, influenciando e sendo influenciados por este contexto. Assim, para estes autores (p.18):
(…) o contexto inclui a consideração de pessoas (vistas como ativas, construtivas, processadoras de informação, contendo uma história passada e um conjunto atual de agendas, objetivos, expectativas etc.), imersas em relacionamentos sociais (proximais e distais) e dentro de um ambiente físico (oferecendo oportunidades e limitações), todos eles se desenvolvendo no tempo.
No desenvolvimento infantil, portanto, o primeiro meio de contato com este contexto é a família – e em crianças muito pequenas a figura da mãe – colocando-se como grupo social básico. Assim para Bastos, Alcântara e Santos (2002, p. 100):
O ambiente familiar apresenta-se à criança em desenvolvimento como um fluxo de práticas e rotinas, dentro do qual são socializados e construídos significados culturais e padrões de interação que se tornam o material de que é feito o estilo singular de cada família e de cada pessoa.
Vygotsky (1994, p. 83) também pontua a influência de um contexto/ambiente e das relações situadas entre este e o desenvolvimento da criança, pois desde:
(…) os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto para através da outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento enraizado nas ligações entre história individual e história social.
É possível observarmos que em territórios onde as condições de vida são precárias, a sobrevivência dá-se geralmente em ambientes que se configuram de maneira hostil, já que as relações tendem a ser mais impessoais e os cuidados às crianças encontram-se deslocados para sua própria responsabilidade, além da possibilidade de serem responsáveis pelo cuidado de seus irmãos menores, desempenhando funções não pertinentes as suas idades.
Estas situações configuram-se em um cuidado negligente que pode ser definido como a omissão de prover as necessidades físicas e emocionais de uma criança ou adolescente, tais como de alimentação, de vestuário, de saúde, de educação, de higiene ou de supervisão das atividades dos filhos de modo a prevenir riscos e danos (ALBERTON, 2005).
Tais situações são caracterizadas como situações de risco, nas quais são encontrados frequentemente, segundo Azevedo (2005), a presença de elementos como famílias marginalizadas e desestruturadas (baixo nível de expectativa em relação aos filhos, más relações entre o casal, negligência e etc), que desenham um ambiente de grandes contradições e desfavoráveis ao desenvolvimento saudável da criança.
Em condições de desenvolvimento como estas, permeadas por fatores de risco faz-se necessário a criação de fatores de proteção à personalidade diante das situações adversas de sobrevivência em que se encontram as crianças em vulnerabilidade social, a fim de se minimizar os impactos que a realidade dos contextos sociais afetam no desenvolvimento infantil.
Desta forma, os fatores protetivos possuem tanto características individuais quanto ambientais. Hutz (2002, p. 12) nos esclarece que:
A primeira compreende atributos disposicionais da criança, enfatizando alguns fatores como atividades, dificuldades, autonomia, organização social positiva, auto-estima e preferências. A segunda categoria refere-se às características familiares, como coesão, afetividade, e ausência de discórdia e negligência. O brincar, então, caracteriza-se como fator protetivo em situações vulnerabilizantes, pois proporciona em sua essência alguns dos mecanismos que permitem a resiliência da criança contra processos invasivos.