Uma vez estabelecido o tipo de estudo, definem-se os procedimentos para a realização da coleta de dados, os quais variam conforme o problema, os objetivos e/ou a natureza das hipóteses. Segundo Vilelas (2009), os procedimentos de coleta de dados são recursos que o pesquisador emprega a fim de conhecer os fenômenos e extrair deles a informação. Para o autor, “É mediante uma adequada construção dos instrumentos de recolha de dados, que a investigação alcança então a necessária correspondência entre a teoria e os factos.” (VILELAS, 2009, p. 265).
A seguir, na tabela 12, apresentamos os procedimentos de coleta de dados identificados nas dissertações analisadas e observamos que os mais empregados foram: a entrevista (29,85%); a observação (14,93%); a análise documental (14,93%); o diário de campo (11,19%); o questionário (9,7%); o teste (4,48%) e o grupo focal (2,99%).
Salientamos que entre as dissertações que empregaram a entrevista como recurso para a coleta dos dados (n=40), 18 utilizaram um roteiro de entrevista semiestruturado, 1 utilizou um roteiro estruturado e 1 dissertação aplicou uma entrevista coletiva. As demais dissertações (n=20) não especificaram o tipo de entrevista realizada. Em relação à observação como recurso para a coleta de dados, 5 dissertações realizaram uma observação participante, dentre as quais, 3 foram acompanhadas de registros em vídeo; outras 4 dissertações também utilizaram videogravações no momento da observação; e 1 realizou uma observação do tipo espontânea, sistemática e participante. Dentre as dissertações que aplicaram testes (n=6), 3 realizaram pré-teste, intervenção e pós-teste. E quanto ao grupo focal empregado nas dissertações (n=4), 3 foram acompanhados de registros em vídeo para a coleta dos dados.
Tabela 12 - Procedimentos de coleta de dados nas dissertações
Procedimentos de coleta de dados Dissertações %
Entrevista 40 29,85 Observação 20 14,93 Análise documental 20 14,93 Diário de campo 15 11,19 Questionário 13 9,7 Teste 6 4,48 Grupo focal 4 2,99 Formulário 2 1,49 Escala 2 1,49 Levantamento bibliográfico 1 0,75 Instrução ao Sósia15 1 0,75 Mônadas16 1 0,75 Aula focal 1 0,75 Grupo de debates 1 0,75 Grupo de trabalho 1 0,75
Bate papo via internet (chat) 1 0,75
Contação de histórias por alunos surdos 1 0,75
Videogravações do processo de interpretação (Libras/língua portuguesa) 1 0,75 Videogravações (interação entre professora e alunos em sala de aula e
entre professora e pesquisadora em encontros colaborativos) 1 0,75
Videogravações das aulas 1 0,75
Aplicação de metodologias didáticas em sala de aula 1 0,75
Total 134* 100%
Fonte: Elaboração própria.
(*) O total é superior ao número de dissertações (n=62), pois muitas empregaram mais de um procedimento de coleta de dados.
Ressaltamos, ainda, conforme a tabela 13, que 21 dissertações (33,87%) empregaram um único procedimento de coleta de dados, enquanto as demais (n=41) empregaram entre 2 e 5 procedimentos de coleta de dados concomitantemente, totalizando 66,12% das dissertações.
15
De acordo com Mello (2013), autora da dissertação “A experiência como fonte de normas: o trabalho de professores da EJA com alunos surdos”, analisada na presente pesquisa, o procedimento de coleta de dados denominado Instrução ao Sósia consiste em fazer com que um trabalhador explique o seu trabalho a um sósia imaginário, de modo que fale sobre o que realmente faz, e não sobre o que deveria fazer.
16 Conforme Ramos, E. L. (2013), autora da dissertação “A diferença e as rasuras do ensino inclusivo:
aproximações e distanciamentos entre o atendimento educacional especializado realizado com alunos surdos, e o acontecimento de Deleuze”, analisada nessa pesquisa, Mônadas são fragmentos narrativos e descontínuos, empregadas pela autora para redigir as experiências vividas no atendimento educacional especializado de um aluno surdo no ensino superior.
Tabela 13 - Total de procedimentos de coleta de dados empregados nas dissertações
Total de procedimentos de coleta de dados Dissertações
1 21 2 19 3 15 4 5 5 2 Total 62
Fonte: Elaboração própria.
A seguir, exibimos na tabela 14 os procedimentos de coleta de dados identificados nas teses analisadas e sua frequência entre as respectivas produções.
Tabela 14 - Procedimentos de coleta de dados nas teses
Procedimentos de coleta de dados Teses %
Observação 5 26,32 Diário de campo 4 21,05 Entrevistas 3 15,79 Questionário 2 10,53 Análise documental 1 5,26 Teste 1 5,26
Grupo focal reflexivo 1 5,26
Rede de conversações 1 5,26
Discussões em grupo 1 5,26
Total 19* 100%
Fonte: Elaboração própria.
(*) O total é superior ao número de teses (n=8), pois muitas empregaram mais de um procedimento de coleta de dados.
Observamos que os principais procedimentos de coleta de dados empregados nas teses analisadas foram: a observação (26,32%); o diário de campo (21,05%); a entrevista (15,79%) e o questionário (10,53%).
Dentre as teses que empregaram a observação como recurso para a coleta dos dados (n=5), duas utilizaram videogravações e uma realizou uma observação participante. As demais dissertações (n=2) não especificaram o tipo de observação efetuada. Em relação às entrevistas (n=3), duas dissertações aplicaram um roteiro semiestruturado e uma realizou entrevistas dialógicas.
E conforme a tabela 15, notamos que 2 teses (25%) empregaram um único procedimento de coleta de dados, a saber: grupo focal reflexivo (n=1) e entrevistas dialógicas (n=1). As demais teses (n=6) empregaram entre 2 e 4 procedimentos de coleta de dados concomitantemente, perfazendo 75% do total de teses.
Tabela 15 - Total de procedimentos de coleta de dados empregados nas teses
Total de procedimentos de coleta de dados Teses
1 2
2 2
3 3
4 1
Total 8
Fonte: Elaboração própria.
Considerando-se os principais procedimentos de coleta de dados empregados nas dissertações e teses analisadas, notamos que os que apresentaram maior frequência foram a entrevista, a observação, a análise documental, o diário de campo e o questionário, respectivamente. Também, sinalizamos o uso frequente de videogravações nas observações e grupos focais. Esses resultados condizem com aqueles observados por Manzini et al. (2006) e Manzini (2011), sobre a pesquisa em Educação Especial no Brasil, no que concerne, principalmente, ao predomínio de entrevistas, observação e filmagens entre os trabalhos analisados; e por Bueno (2009), em um balanço tendencial sobre as dissertações defendidas no PPGEEs da UFSCar, entre 1981 e 2001, em relação, sobretudo, ao alto percentual de pesquisas que empregaram a entrevista e a observação.
Verificamos, ainda, um conjunto significativo de investigações que fez uso complementar de diferentes procedimentos de coleta de dados, como constam nas tabelas 13 e 15, o que pode indicar, assim como apontou André (2006, p. 22), que, em muitos casos, “[...] uma única fonte de dados não dá conta da análise das complexas problemáticas educacionais.”.
Por sua vez, no que tange especialmente às dissertações (n=40) e teses (n=3) que utilizaram a entrevista, notamos que um número expressivo contou com participantes surdos, 22 dissertações e 2 teses. Por isso, consideramos pertinente examinar os modos de registro e transcrição empregados pelos autores das respectivas dissertações (tabela 16) e teses (tabela
17), pois assim como apontaram McCleary, Viotti e Leite (2010) e Santiago (2014), esse processo torna-se particularmente complexo devido às especificidades das línguas envolvidas.
Tabela 16 - Entrevistas com surdos nas dissertações, modos de registro e transcrição
Modos de registros e transcrição Dissertações
Não se aplica 18
Videogravação dos depoimentos em Libras e tradução/transcrição para o Português
pelo pesquisador 8
Videogravação dos depoimentos em Libras e tradução/transcrição para o Português pelo pesquisador conforme as convenções de transcrição de Atkinson e Heritage (1984) e Gago (2002), complementadas pelo sistema de transcrição de Felipe (1997) e Starosky (2011)
1
Videogravação dos depoimentos em Libras e tradução/transcrição para o Português
pelo pesquisador a partir da ferramenta ELAN 1
Videogravação dos depoimentos em Libras e tradução/transcrição para o Português
com apoio de intérpretes de Libras/língua portuguesa 6
Entrevistas realizadas com a presença de intérpretes de Libras/língua portuguesa 1
Não consta 5
Total 40
Fonte: Elaboração própria.
De acordo com a tabela 16, em 22 dissertações foram realizadas entrevistas com surdos, das quais, em 5 produções não constaram os modos de registros e transcrição. Entre as demais (n=17), em 16 dissertações as entrevistas foram realizadas em Libras, utilizando-se de videogravações para registro, e em 1 dissertação foi realizada com a presença de intérpretes de Libras/língua portuguesa, desse modo, as narrativas dos surdos foram interpretadas no momento da entrevista e registradas por escrito em Português pelo pesquisador.
Quanto aos modos de transcrição, em dez dissertações as entrevistas em Libras foram traduzidas e transcritas para o Português pelo próprio pesquisador, o que indica domínio da língua de sinais por parte desses pesquisadores. Entre elas, em uma dissertação empregou-se as convenções de transcrição de Atkinson e Heritage (1984) e Gago (2002), complementadas pelo sistema de transcrição proposto por Felipe (1997) e ampliado por Starosky (2011), e em uma dissertação os depoimentos foram transcritos por meio da ferramenta ELAN, desenvolvida pelo Max Planck Institute for Psycholinguistics, a partir de um sistema de glosas, ou seja, em que uma palavra em Português, grafada em letra maiúscula, representa o sinal manual com sentido equivalente, e em que “[...] sinais não manuais podem ser representados por códigos sobrescritos, e usos do espaço de sinalização podem ser indicados
por letras ou números subescritos.” (McCLEARY; VIOTTI; LEITE, 2010, p. 267). Por fim, em 6 dissertações as entrevistas foram traduzidas e transcritas para o Português com o auxílio de intérpretes de Libras/língua portuguesa.
No que concerne às teses, conforme a tabela 17, duas realizaram entrevistas com sujeitos surdos a partir de depoimentos em Libras registrados por meio de videogravações. Em uma tese os depoimentos em Libras foram traduzidos e transcritos para o Português pelo próprio pesquisador, e em uma foram traduzidos e transcritos para o Português pelo pesquisador e com base em adaptações das normas de transcrição indicadas por Gesser (2006) e Nogueira e Fiad (2007).
Tabela 17 - Entrevistas com surdos nas teses, modos de registro e transcrição
Modos de registros e transcrição Teses
Não se aplica 1
Videogravação dos depoimentos em Libras e tradução/transcrição para o Português pelo
pesquisador 1
Videogravação dos depoimentos em Libras e tradução/transcrição para o Português pelo pesquisador a partir de adaptações das normas de transcrição de Gesser (2006) e Nogueira e Fiad (2007)
1
Total 3
Fonte: Elaboração própria.
Observamos que a maior parte dos estudos que realizaram entrevistas com surdos declarou que as entrevistas foram registradas por meio de videogravações, dada a visualidade da Libras, e traduzidas/transcritas para o Português pelo próprio pesquisador ou com auxílio de intérpretes de Libras/língua portuguesa. E um número reduzido de trabalhos declarou ter adotado mecanismos de transcrição específicos, com base na literatura científica.
Santiago (2014, p. 6), ao examinar o modo de apresentação de trechos de enunciações em Libras em produções acadêmicas sobre tradução/interpretação, notou, por sua vez, maior recorrência de transcrição em glosa, como uma “[...] estratégia de aproximar visualmente os textos da língua alvo e da língua fonte [...] para fins de análise e comparação dos enunciados.”. Para a autora, contudo, a apresentação das enunciações em Libras pode ocorrer de diferentes formas, uma vez que vinculam-se à natureza de cada trabalho.
De acordo com McCleary, Viotti e Leite (2010, p. 266), o processo de transcrição de línguas de sinais mostra-se ainda complexo, visto que “[...] não existe um sistema de escrita de línguas de sinais que seja amplamente aceito e que possa servir de base para o
desenvolvimento de um sistema de transcrição apropriado para essa modalidade de língua.”. E para os autores, a despeito de muitos avanços na tecnologia digital, inúmeros fatores justificam a importância da escrita como ferramenta de apoio em análises linguísticas, entre os quais, o fato de a escrita consistir no recurso mais utilizado em todo o mundo na divulgação de resultados para a comunidade científica, dada a simplificação e padronização que atinge. E diante da necessidade de se elaborar um sistema de transcrição capaz de registrar os diferentes aspectos da sinalização, McCleary, Viotti e Leite (2007; 2010) têm se dedicado ao desenvolvimento de um sistema de transcrição caracterizado por um alto nível de detalhamento e rigor metodológico, com vistas a possibilitar análises linguísticas em nível fonológico, morfológico, semântico-pragmático e discursivo, e análises comparativas com outras línguas de sinais; tal sistema encontra-se, ainda, em desenvolvimento. Considerando o exposto, sinalizamos a pertinência de estudos que se dediquem à elaboração, validação ou mesmo à adaptação de sistemas de transcrição de línguas de sinais, a fim de contribuir para a análise de dados produzidos por meio de línguas sinalizadas utilizadas por surdos, como a Libras.
4.3.3 O perfil dos participantes, o nível/etapa de ensino e o âmbito educacional