A trajetória da mulher brasileira nos últimos séculos tem início em uma educação no lar e para o lar, no período colonial, para uma participação tímida nas escolas públicas mistas do século XIX. Após alguns anos, a mulher obteve “uma presença significativa na docência do ensino primário, seguida de uma presença hoje majoritária em todos os níveis de escolaridade, bem como de uma expressiva participação na docência da educação superior” (RISTOFF, 2006, p. 01).
Segundo estudos realizados por Moraes (2008), as mulheres entraram tardiamente no ensino superior brasileiro, uma vez que só tiveram acesso ao nível superior de educação quase um século após o surgimento das primeiras universidades brasileiras. Assim como Moraes (2008), outros estudos também registraram a entrada tardia das mulheres em universidades no Brasil (BLAY; CONCEIÇÃO, 1991).
Apesar disso, no Brasil, o número de mulheres no ensino superior tem sido cada vez mais expressivo. Segundo Censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP de 2008, das 5.080.056 matrículas efetuadas no ensino superior brasileiro, 2.772.828 foram do sexo feminino e 2.307.228 foram do sexo masculino. Isso indica que as mulheres, atualmente, representam 55% da comunidade discente universitária no país.
Quando se considera as matrículas por curso de graduação, as mulheres são maioria em 69% das áreas. Conforme mostra a Figura 1, elas também são maioria em todas as categorias administrativas, exceto nas instituições federais da educação superior, onde o número de homens e mulheres matriculados é praticamente o mesmo (RISTOFF et al., 2008).
Figura 1: Matrículas por categoria administrativa Fonte: Ristoff et al. (2008).
Os números de mulheres e homens que ingressaram na graduação mostram que as carreiras continuam sendo divididas por gênero (RISTOFF et al., 2007). Há um número maior de matrículas de mulheres em carreiras consideradas femininas, como pedagogia, em que elas representam 91,3% dos alunos matriculados. Letras e Enfermagem também são carreiras com expressiva participação feminina. O mesmo acontece com as carreiras consideradas masculinas, como Engenharia e Ciência da Computação, em que há inexpressiva participação feminina conforme mostra o Quadro 2. Segundo Ristoff (2006), essa tendência se mantém nos mestrados, doutorados e na própria docência da educação superior.
Quadro 2: Cursos com maiores números de matrículas no Brasil Fonte: Ristoff et al. (2007).
As narrativas das mulheres pesquisadas por Moraes (2008), em estudo realizado no Brasil, refletem uma história, sobretudo, de segregação da mulher a certas áreas de conhecimento. Todas elas fizeram faculdade na área de Filosofia, Ciências e Letras. O mesmo ocorreu no trabalho de Otte (2010) sobre os CEFETs do Brasil, em que as quatro entrevistadas são formadas em áreas femininas (pedagogia, letras, licenciatura em química).
Estudo realizado por Kuharski (2009) nos Estados Unidos da América mostrou relatos sobre oportunidades limitadas para a entrada na faculdade, uma vez que, quando as entrevistadas tiveram que escolher suas carreiras, havia poucos campos em que a mulher era aceita, como por exemplo, educação, secretariado ou enfermagem.
É como se homens e mulheres tendessem a buscar a área de atuação por determinação do que se estabelece como o esperado de cada um dos sexos. Este processo tem início na infância, sob a influência da família e da própria escola, quando meninas e meninos são orientados para objetos de interesse distintos, reforçando o processo de preparação para os papéis que deverão assumir na vida adulta (RISTOFF et al., 2008).
Ristoff (2006) destaca o percentual de mulheres que concluem o curso superior como maior do que o percentual de homens. Refere-se ainda à taxa de sucesso feminino ser maior que a dos homens, por isso, a maioria observada no momento do ingresso se torna ainda mais sólida na formatura. A taxa de concluintes apresenta uma crescente elevação entre as mulheres, que passam de 59,9% em 1991, para 62,2% em 2005. Os concluintes masculinos sofrem uma redução de 40,1% (1991) para 37,8% em 2005 (RISTOFF et al., 2007).
Em relação aos docentes da educação superior no país, os homens constituem a maioria, tanto na rede pública, quanto na particular (RISTOFF et al., 2007), conforme representado no Quadro 3.
Quadro 3: Participação feminina e masculina no quadro docente das IES brasileiras Fonte: Ristoff et al. (2007).
No Brasil houve um aumento da participação feminina no quadro docente das universidades. As mulheres ainda não são maioria na docência da educação superior, mas a sua participação cresce a cada ano num ritmo maior que a dos homens, conforme mostrado no Quadro 4. Se mantida a atual tendência de crescimento, elas serão maioria também na docência dentro de alguns anos (RISTOFF, 2006).
Quadro 4: Participação feminina e masculina no quadro docente das IES brasileiras Fonte: Ristoff (2006).
Estudo realizado por Ristoff (2006) sobre a Trajetória da Mulher na Educação Brasileira mostra que as mulheres, além de dominarem a graduação, detêm o maior número de bolsas de mestrado e doutorado no País. Segundo Moraes (2008), o Brasil formou mais mestres e doutoras mulheres (18.160) do que homens (17.509) entre 1996 e 2003.
O Censo de 2000 apresenta, por sexo, as matrículas na pós-graduação nacional (mestrado e doutorado). Naquele ano havia 162,5 mil pessoas, sendo 52% mulheres e 48% homens, o que significa uma ligeira supremacia feminina no universo do sistema científico nacional (RISTOFF et al., 2008).
A participação feminina na pesquisa é inferior à participação masculina. Os homens são maioria entre os pesquisadores mais qualificados, porém o crescimento da participação das mulheres é relativamente superior ao dos homens em todas as bases de dados estudadas. Em 2006 havia 48% de mulheres entre os pesquisadores e 43% de mulheres líderes nos projetos de pesquisa. Quanto à titulação, 55% das mulheres na pesquisa eram mestres e 44% eram doutoras (RISTOFF et al., 2007).
Os números mostram que, na educação superior, a barreira entre os sexos vem sendo rapidamente rompida. Porém, estudos apontam que, apesar do número de mulheres ingressantes em cursos de graduação ser maior do que o número de homens, essa proporção não é similar em ocupantes de cargos de liderança no ensino superior. Isso demonstra que o acesso à educação superior não garante igualdade de condições e direitos, muito menos acesso ao poder. No ambiente universitário as mulheres têm transito fácil, mas a participação delas em cargos executivos não é comum (BARELLI, 2002).
Estudos mostram que o número de homens ainda é maior do que o número de mulheres ocupando cargos de liderança nas universidades (CARTER, 2009). Moraes (2008) salienta que, como reflexo da entrada tardia das mulheres no ensino superior, elas acabam não tendo acesso à liderança nessas Instituições.
O número de mulheres em posições de liderança nas IES – Instituições de Ensino Superior tem aumentado nos últimos vinte anos (CORRIGAN, 2002; CURTIS, 2002). Estudos norte-americanos mostram que, apesar do número de mulheres em cargos de liderança estar crescendo, esse número ainda é insignificante quando comparado ao número de homens que ocupam essas posições (CARTER, 2009; VELVIS, 1990; AMEY; VANDERLINDEN; BROWN, 2002;
TATUM, 2008). Moraes (2008) constata que, quando se observam os níveis hierárquicos mais baixos da estrutura acadêmica, o número de mulheres é significativo, porém isso não ocorre em níveis mais elevados dessas instituições.
Foi realizada uma extensiva busca na literatura brasileira e não foi encontrado nenhum estudo que listasse o número atual de mulheres em cargos de reitoria no Brasil. Não foi possível localizar nenhum documento oficial do Ministério da Educação que trouxesse a informação de quantas mulheres alcançaram o cargo de reitora nas instituições de ensino brasileiras.
Após realizar pesquisa junto ao INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, à ABRUC – Associação Brasileira das Universidades Comunitárias, à ANUP – Associação Nacional das Universidades Particulares, à ANACEU – Associação Nacional dos Centros Universitários, à ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior e à ABRUEM – Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais foi possível verificar que:
Das 58 Universidades Federais pesquisadas, 50 reitores são do sexo masculino e 08 são do sexo feminino. 47 vice-reitores são do sexo masculino e 10 do sexo feminino. 234 pró-reitores são do sexo masculino e 99 do sexo feminino.
Das 43 Universidades Estaduais e Municipais pesquisadas, 36 reitores são do sexo masculino e 07 são do sexo feminino. 26 vice-reitores são do sexo masculino e 10 do sexo feminino. 118 pró-reitores são do sexo masculino e 83 do sexo feminino.
Das 58 Universidades Comunitárias pesquisadas, 47 reitores são do sexo masculino e 11 são do sexo feminino. 23 vice-reitores são do sexo masculino e 10 do sexo feminino. 121 pró-reitores são do sexo masculino e 62 do sexo feminino.
Das 30 Universidades Particulares pesquisadas, 20 reitores são do sexo masculino e 10 são do sexo feminino. 12 vice-reitores são do sexo masculino e 05 do sexo feminino. 55 pró-reitores são do sexo masculino e 39 do sexo feminino.
Dos 64 Centros Universitários pesquisados, 52 reitores são do sexo masculino e 19 são do sexo feminino. 20 vice-reitores são do sexo
masculino e 05 do sexo feminino. 70 pró-reitores são do sexo masculino e 34 do sexo feminino.
O levantamento de dados revela a predominância do sexo masculino em cargos de liderança no ensino superior brasileiro, evidenciando que a liderança nas IES brasileiras ainda é um exemplo de desigualdade de gêneros.