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Após conhecer o perfil geral dos 134 jovens que estudam no 1º ano do Ensino Médio da escola pública de Cachoeira do Campo, conforme o item 2.2.2, não houve distinção do local de moradia, ou seja, foram incluídos, na primeira análise, alunos que vivem em distritos e

localidades afastadas da escola e alunos que vivem em Cachoeira do Campo, próximo à escola. Agora, na seção 2.2.3, selecionamos apenas os jovens que vivem afastados da escola, sendo assim, foram excluídos aqueles que moravam em Cachoeira do Campo e selecionados para analisar apenas 39 jovens (14 rapazes e 25 moças) que vivem em pequenos distritos e localidades de Ouro Preto para uma investigação mais aprofundada, que será realizada através de uma breve comparação entre os que vivem em Cachoeira do Campo e os que vivem em outras localidades, conforme demonstrado na discussão abaixo.

Os 39 jovens escolhidos moram em Santo Antônio do Leite, Bocaina, Glaura, Rodrigo Silva, Serra do Siqueira, São Bartolomeu, Maciel e Miguel Burnier, conforme demonstra o Gráfico 8, abaixo. Após está análise, foram selecionados cinco jovens que vivem na localidade de Bocaina para uma discussão mais intensa, que será demonstrada e analisada no Capítulo 3.

Fonte: Elaborado pela autora

No perfil desses jovens, observa-se que, dentre os que vivem em distritos afastados da escola, 90% estão na faixa etária de 15 a 16 anos, com apenas 3% dos jovens entre a faixa etária de 17 a 18 anos, ou seja, grande parte dos jovens está dentro da faixa etária estabelecida pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996, da mesma forma que acontece em Cachoeira do

Gráfico 7 – Local de residência (distrito/localidade) dos jovens estudantes do 1º ano do

Campo. Diferentemente da análise total de dados, a taxa de jovens com a faixa etária de 17 a 18 anos é menor nos distritos afastados da escola, levando-nos a considerar que a taxa de reprovações e abandonos escolares nesses territórios isolados é menor em relação aos jovens que vivem no próprio distrito em que se localiza a escola.

A composição familiar nos distritos afastados não se difere muito dos demais, 69% dos jovens informaram que moram com mais de quatro pessoas, destacando os quadros familiares mais diversos, como aqueles que moram com os pais e irmãos, pais irmãos, avós e tios, pai ou mãe, madrasta ou padrasto, além de outros familiares e amigos.

No quadro familiar desses 39 jovens, a maioria possui irmãos, destacando somente um que não possui. Em relação à quantidade, houve 62% de afirmações para a opção de um a dois irmãos; 4% de afirmações para três irmãos; e, para as demais, quatro a cinco irmãos, 2,5% afirmações; para a opção mais de cinco irmãos, 1,5% de afirmações, demonstrando que grande parte das famílias que vivem nesses distritos isolados tem uma estrutura familiar em número de filhos menor em relação aos que vivem próximos à escola.

Na categoria de análise referente à renda familiar, percebe-se que apenas 8% recebem mais de três salários mínimos e que a condição socioeconômica dessas famílias não é alta. No entanto, 10% dessas famílias recebem menos de um salário mínimo; 18% entre um e dois salários mínimos; 44% de dois a três salários mínimos; e 24% dos jovens não souberam informar. Nesses distritos e localidades afastadas da escola, 26% dos jovens, o que equivale a 10 famílias, recebem algum tipo de auxílio do governo para complementar a renda familiar. Comparando estes dados com a análise de todos os jovens pesquisados, incluindo os que vivem em Cachoeira do Campo, observa-se que está concentrado em Cachoeira do Campo o maior índice de famílias que recebem auxílios do governo, o que remete a pensar que os jovens que vivem em camadas populares nos distritos podem não saber da existência desses recursos financeiros ou como obtê-los.

Em relação aos meios de informações disponíveis nos distritos é demonstrada uma grande limitação do acesso à internet em relação aos outros recursos. Apenas 38% dos jovens possui internet em casa, número reduzido e significante em relação aos jovens que vivem em Cachoeira do Campo, que, na sua maioria (70%), possuem internet em suas casas. Os recursos, como a televisão, estão presentes na casa de todos os jovens moradores desses distritos, possuindo pelo menos uma, conforme demonstrado no Gráfico 9:

Gráfico 8 – Acesso à informação na residência dos jovens estudantes do

Ensino Médio da escola investigada moradores de distritos e localidades afastadas de Cachoeira do Campo (2015)

Fonte: Elaborado pela autora

Além da ausência de internet acessível para todos, observa-se que o computador também é um bem que não está presente em todos os lares, apenas em 51% dos domicílios nos distritos afastados da escola e, em Cachoeira do Campo, a prevalência do computador nos lares é de 81%, o que diferencia esses jovens na hora de fazer os seus trabalhos escolares. No entanto, prevalece como mais habitual a utilização de outras fontes de informações na casa desses jovens, como a televisão, rádio e o telefone fixo ou celular.

Através desta análise, observa-se que os primeiros laços de sociabilidade estabelecidos pelos jovens são em casa e na vizinhança. Nos distritos afastados da escola, a taxa de frequência de visitas aos vizinhos é maior em relação à Cachoeira do Campo, demonstrando que 69% dos jovens frequentam a casa de seus vizinhos.

Também foram apontados como os principais locais de lazer nas localidades afastadas, a rua, com 56% de afirmações, a casa (18%) e outros (23%), aspecto muito característico de cidades pequenas e ambientes rurais, enquanto que, na análise geral dos jovens, que inclui os alunos de Cachoeira do Campo, 41% dos principais locais de lazer foram a rua (valor inferior aos dos distritos) e 18% a casa (valor igual ao dos distritos afastados). O Gráfico 10, a seguir, apresenta estes dados de forma sistematizada.

Gráfico 9 – Locais de lazer mais mencionados pelos jovens que vivem longe da escola e

cursam o Ensino Médio em uma escola de Cachoeira do Campo (2015)

Fonte: Elaborado pela autora

Em relação às tarefas escolares, a maioria desses jovens que vivem em localidades afastadas da escola, 82%, recebem algum auxílio de familiares para realizá-las e o grau de escolaridade dos pais demonstrou ser em alta prevalência no máximo ao nível fundamental e médio, com algumas exceções; e 18% relataram não receber auxílio dos pais. Já os alunos que vivem em Cachoeira do Campo, próximos à escola, apenas 70% recebem algum tipo de ajuda e 30% relatam não receber ajuda dos familiares.

No nível de escolaridade do pai dos jovens que vivem afastados da escola, observa-se que a maioria dos pais estudaram menos: 31% estudaram apenas até o Ensino Fundamental e 5% não o concluíram. Em relação aos pais no perfil geral, quando incluímos Cachoeira do Campo, verifica-se que 37,5% estudaram até o Ensino Fundamental sem o concluir; e que 3% dos pais que não concluíram o Ensino Fundamental em Cachoeira do Campo, valor considerável nesta análise. No Ensino Médio completo, 8% dos pais que moram em distrito completaram esta etapa; e 8% não conseguiram alcançar o término. Em relação à Cachoeira do Campo, 19,5% dos pais tiveram a longevidade escolar por alcançarem o término do Ensino Médio e 6% não o concluíram. Percebemos, assim, que o pai que mora afastado teve menos longevidade do que os que vivem próximo a escola em Cachoeira do Campo.

Outro valor que me chamou atenção foi o número de pais que vivem nos distritos afastados que concluíram ou estão cursando o Ensino Superior: apenas 3% possuem curso

superior completo e, em Cachoeira do Campo, 5% possuem curso superior ou em andamento. Os demais variam entre Fundamental incompleto e Médio completo.

As mães que vivem em localidades afastadas possuem pouca escolaridade, na maioria dos casos, o Ensino Fundamental incompleto, com 38% dos casos, valor bastante elevado e que nos indica a baixa escolaridade. No Ensino Fundamental incompleto, encontramos 3% das mães. Em relação à Cachoeira do Campo, 4% não concluíram o Ensino Fundamental e 1% o completou apenas. O Ensino Médio nos distritos teve valores próximos aos do perfil geral, que inclui Cachoeira do Campo, sendo que aquelas mães que moram afastadas, 21%, completaram o Ensino Médio; e 5% não o completaram. Já incluindo Cachoeira do Campo no perfil geral, 23% das mães concluíram o Ensino Médio e 8% não o concluíram. Podemos dizer que as mães dos distritos, 31%, alcançaram a longevidade escolar enquanto que, no perfil geral, 32% também o alcançaram. Em relação aos pais, as mulheres estudaram mais do que os homens, nos distritos, 11% dos pais alcançaram a longevidade através da conclusão do Ensino Médio e do curso superior e 24,5% em Cachoeira do Campo alcançaram a longevidade escolar, sendo através da conquista do Ensino Médio, Superior completo ou incompleto.

Quanto ao perfil profissional dessas mães, destacam-se as seguintes profissões: doméstica, funcionaria do comércio local, motorista, aposentada, dentre outras, sendo a maioria caracterizada como “do lar”.

As condições de moradia, nestas regiões afastadas, são representadas por ruas sem pavimentação, normalmente, são estradas de terra ou calçamentos. As casas são em 90% próprias e 8% alugadas, apenas 2% não responderam. Essas casas foram caracterizadas como possuindo acabamento em 85% dos casos, sendo 10% não possuem acabamento e 5% não responderam. Segundo informações fornecidas pelos jovens, 80% dessas casas possuem rede de esgoto ou fossa, 79% possuem banheiro, 97% têm chuveiro e água encanada, 92% têm luz e 3% não responderam. Grande parte das casas que não possuem acabamento está na localidade de Bocaina.

Os tipos de cobertura dessas casas afastadas da escola são por telha ou laje e o piso é de cerâmica ou cimento grosso, na grande maioria. A quantidade de cômodos considerados pela maioria foi de cinco a oito cômodos, com 77% das afirmações, e apenas 5% descreveram suas casas como menores, possuindo de um a quatro cômodos.

Por morarem nas comunidades há mais de cinco anos, 77% desses jovens possuem um vínculo com o local de moradia, muitos escreveram que moram em suas casas desde o nascimento. Foram registrados poucos casos em que as famílias se mudaram há pouco tempo para o distrito, como demonstra o Gráfico 11, abaixo:

Gráfico 10 – Tempo médio em que os jovens estudantes do Ensino Médio de uma escola de

Cachoeira do Campo residem no atual local de moradia (2015)

Fonte: Elaborado pela autora

A questão da mobilidade, nessas localidades afastadas da escola de Cachoeira do Campo, demonstrou ser um componente importante para a pesquisa. Diferentemente dos alunos que moram neste distrito, 85% consideram suas casas distantes da escola, por isso, 92% deles utilizam o ônibus escolar ofertado pelo município, 5% usam van e apenas 3% dos jovens relataram ir à escola a pé, conforme demonstra o Gráfico 12, abaixo:

Gráfico 11 – Meios de transportes utilizados para o deslocamento dos jovens que estudam em

uma escola em Cachoeira do Campo até suas residências (distritos e localidades) (2015)

Fonte: Elaborado pela autora

Apesar de o transporte urbano ser acessível a 90% dessas famílias, os ônibus escolares possuem horários bem limitados saindo de uma a duas vezes por dia para outras localidades. O Gráfico 13 referente à proximidade entre a residência e escola, demonstra o número de jovens que consideram morar perto ou longe da escola. Para isso levou-se em consideração a distância entre o local de moradia e a escola, levando em consideração que não há transporte disponível durante todo o dia8.

8 Nesta pesquisa foi priorizada a fala dos alunos a respeito do que eles consideram em relação à

Gráfico 12 – Proximidade entre a residência e escola, de acordo com a percepção

dos jovens que moram em distritos e localidades afastados da escola de Cachoeira do Campo (2015)

Fonte: Elaborado pela autora

Muitas dessas famílias possuem carro, mas 44% dos jovens relataram sair pouco do território de moradia durante o mês, a não ser para fins escolares. Desses 44%, 8% saem menos de uma vez, 5% até uma vez e 31% de duas a três vezes, demonstrando que possuem pouco contato fora do local de moradia. Os outros 54% afirmaram sair mais de três vezes ao mês e 3% dos 39 jovens não responderam à questão.

Por fim, ao se auto avaliarem em relação à vida escolar, 67% consideram não faltar com frequência às aulas e apenas 15% relataram já terem abandonado os estudos ou sido reprovados. A maioria fica de recuperação em, pelo menos, duas matérias no bimestre (77% desses jovens), mas, por outro lado, 92% se consideram bons alunos, devido aos esforços para se manterem na escola, garantindo a frequência nas aulas.

3 MORANDO NO INTERIOR: REFLEXÕES SOBRE A VIDA DOS JOVENS

In document Finansiellstabilitet 2014 (sider 40-48)