2. Datagrunnlag og metode
2.1. Datagrunnlag
Este estudo teve como objetivo analisar o processo de construção do papel formador dos coordenadores pedagógicos na rede municipal de Boa Vista do Tupim, município integrante do Projeto Chapada, e compreender como o município conseguiu viabilizar esse processo.
A contribuição dos trabalhos acadêmicos revistos, de outras investigações e, especialmente, dos autores estudados, me ajudou a delinear os fundamentos desta pesquisa. Portanto, este trabalho foi escrito e construído a partir de outras vozes. O caminho percorrido apontou para a importância do papel formador dos coordenadores, porém também para a dificuldade em viabilizar esta função na prática.
O diálogo com as posições teóricas dos autores estudados me colocou em contato com ideias que foram fundantes para este trabalho, como: a formação permanente e o desenvolvimento profissional, a formação articulada ao contexto de trabalho, as redes colaborativas de aprendizagem, o papel do conhecimento didático na formação, o papel do coordenador pedagógico para a formação permanente, a rotina como estrutura de apoio para o trabalho do coordenador pedagógico e as estratégias formativas. Os autores recorridos foram: Nóvoa (1997, 2007, 2009), Imbernón (1998, 2010), Canário (1997, 2000), Placco, Almeida e Souza (2011), André (2010), Marcelo e Vaillant (2001, 2010), Schön (1997), e outros, o que me possibilitou configurar a complexidade do tema e desenvolver algumas considerações sobre o contexto da formação.
Apoiada nas indagações desse estudo preliminar, segui para a coleta de dados. Realizei um grupo de discussão com quatro coordenadores e entrevistas individuais com duas formadoras da Rede Municipal de Educação de Boa Vista do Tupim/BA. Os materiais foram transcritos, sintetizados, e, depois de leituras e releituras, dei seguimento para a análise a partir das categorias: formação, articulação e transformação.
O levantamento das conclusões será organizado a partir das três questões propostas no estudo, finalizando com reflexões sobre o processo de construção do papel formador dos coordenadores pedagógicos na rede municipal de Boa Vista do Tupim, município integrante do Projeto Chapada.
1. Quais foram as principais ações da Secretaria Municipal de Educação de Boa Vista do Tupim que contribuíram para a construção do papel formador do coordenador pedagógico?
A Secretaria Municipal de Educação de Boa Vista do Tupim, ao firmar parceria com o Projeto Chapada há dez anos, instituiu o papel do coordenador pedagógico nas escolas e implementou uma estrutura de formação, criando uma equipe técnica na Secretaria para apoiar o trabalho de formação permanente dos educadores. O processo de formação na Rede foi desencadeado pelo Projeto Chapada, porém foi mantido devido ao apoio político das lideranças do município e pelo compromisso de todos os atores envolvidos com os resultados da qualidade da aprendizagem dos alunos. Se, por um lado, havia o desejo político de melhorar os resultados da aprendizagem e o compromisso dos envolvidos, por outro entendiam que seria necessário viabilizar os caminhos para a formação.
Os pressupostos desse processo da Rede é que as escolas precisam tornar- se espaços de formação permanentes e os professores serem considerados como profissionais e não alunos, isto é, profissionais com uma responsabilidade social definida por sua profissão, que é ensinar. E, para tanto, foi organizado um grupo de coordenadores para assumirem o trabalho de formação dos professores nas escolas. A proposta era que a formação estivesse estreitamente articulada ao contexto de trabalho dos professores, que fosse centrada nas escolas (CANÁRIO, 1997).
Os coordenadores então passaram a ocupar o lugar de formadores, de articuladores de uma rede de aprendizagem dentro das escolas. Mas, esse processo não foi de um dia para o outro. Para os coordenadores tornarem-se formadores e agirem como formadores e, quem sabe, se reconhecerem como autoridades técnicas diante de um grupo, não bastava apenas nomeá-los ou entregar-lhes uma nova rotina e uma lista de atribuições. A Secretaria de Educação, em parceria com o Projeto Chapada, propôs caminhos para que a construção do papel formador do coordenador fosse feita com a consistência e seriedade necessárias.
O primeiro caminho foi inserir todos os envolvidos em um processo de formação. Isto é, criar uma cadeia distributiva da formação. A Secretaria compôs uma equipe de formadores, com educadores mais experientes da rede, para que pudessem apoiar, acompanhar e fazer a formação dos coordenadores. E essa
equipe, por sua vez, contava com o apoio de formadores do Projeto Chapada. Todos os sujeitos envolvidos nessa cadeia tinham apoio e interlocução de formadores mais experientes.
Com o pressuposto de que o papel prioritário dos coordenadores é realizar a formação dos professores nas escolas, e, com as equipes já constituídas, iniciaram o desenvolvimento de projetos de formação na área de leitura e escrita, conteúdo definido pelo Projeto Chapada e acolhido pela Secretaria em função dos baixos índices de aprendizagem. Para desenvolvê-los, a equipe de formadoras, junto com a equipe dos coordenadores, desenhou uma rotina que assegurasse os momentos da formação: garantiu momentos de discussão coletivos, de grupos de estudos, de planejamentos, de observação em sala de aula e momentos para o acompanhamento individual. As pautas dos coordenadores para propor cada uma dessas ações foram – e ainda são – discutidas e acompanhadas pelos formadores. Nessas pautas, a premissa teórica é a homologia dos processos, ou seja, procuram contemplar os mesmos princípios do trabalho que o professor em formação utilizará mais tarde com os seus próprios alunos. Quer dizer, do ponto de vista do funcionamento, consideram que a formação não pode ser realizada em uma perspectiva transmissiva. Compreendem que o tempo do aprender implica em acionar representações, reflexões, relações das situações práticas com a teoria e aproximações sucessivas com o conteúdo proposto. Para um aprofundamento do conteúdo e mudanças nas práticas, é preciso tempo e continuidade das discussões. Esta premissa está diretamente relacionada ao tempo dedicado às práticas de leitura e escrita na formação dos coordenadores e professores do município e aos resultados na aprendizagem dos alunos, que se destacaram nesta área do conhecimento.
Outro caminho a destacar é a decisão de o conhecimento didático da leitura e escrita assumir um papel central na formação. A proposta foi tratar das interações que se produzem entre o professor, os alunos e o objeto de ensino e discutir os problemas que estão vinculados ao ensino ou à aprendizagem escolar de determinados conteúdos, e sobre as melhores condições de ensino para incidir em uma melhor qualidade de aprendizagem dos alunos. De fato, buscou-se o entendimento quanto aos modos de ensino capazes de transmitir o conteúdo da forma mais compreensível possível para os outros (SHULMAN, 2005). A preocupação da equipe de formação é que os conteúdos não sejam tratados da
prática pela prática, mas que haja sempre a teorização, para a compreensão do que é feito, como é feito e porque é feito.
Portanto, no que diz respeito às ações da Secretaria descritas acima: a constituição de equipes de formação, o apoio político, técnico e institucional e os pressupostos teóricos escolhidos para balizarem o processo de formação foram desencadeadas junto com o Projeto Chapada e é esta parceria que contribui para viabilizar a formação nas escolas e tem conseguido manter o pleno funcionamento da cadeia formativa, com todos os envolvidos se corresponsabilizando pela qualidade da aprendizagem dos alunos.
2. Quais as principais necessidades formativas dos coordenadores durante o processo de constituição de seu papel de formador dentro da escola?
Aprender o tempo todo pode ser uma frase genérica ou mesmo um clichê desprovido de significado. Não raramente ouvimos profissionais da educação falando da necessidade da aprendizagem permanente. No entanto, não parece este o caso, na estrutura de formação de Boa Vista do Tupim, onde esta fala corresponde ao que, de fato, se observa nas escolas. Os coordenadores reconhecem a necessidade do estudo permanente e asseguram diferentes momentos na rotina para a formação dos professores, assim como para a sua própria formação.
Para constituírem o papel de formadores, os coordenadores investem na própria formação e aproveitam os espaços de reflexão organizados pela Secretaria para construírem saberes específicos necessários para sua função.
Os coordenadores deste estudo apontaram as seguintes contribuições da formadora para aprimorarem o seu desenvolvimento profissional:
apoio no planejamento das pautas, nas formas de ensino e na condução dos conselhos de classe;
acompanhamento individual para atender as questões específicas de cada coordenador, contribuindo com o processo de crescimento e aperfeiçoamento dos coordenadores enquanto formadores de professores;
acompanhamento de salas de aulas para atrelar a prática e a teoria; devolutivas individuais das observações;
participação nos planejamentos de cada coordenador;
criação de mini grupos de estudos para aprofundar conteúdos específicos.
Os espaços de formação destacados são ora individuais e ora coletivos. Em todos eles a formação está articulada ao contexto de trabalho.
Conforme já analisamos nas falas dos coordenadores, esses espaços da formação assegurados pela formadora contribuem para atender às suas necessidades formativas.
Para Regina, formadora, a chave para atender as necessidades formativas dos coordenadores é trazer o conhecimento didático como principal foco da formação e também os conteúdos relacionados à gestão. Ela também ressalta o vínculo da formação com o contexto de trabalho e a ajuda que oferece para os coordenadores reconhecerem as necessidades formativas dos professores.
Outro aspecto relevante é que, ao considerar a formação dos professores como uma das funções principais do coordenador pedagógico, é inevitável pensar na comunicação dos conhecimentos didáticos de que esses coordenadores necessitam para ensinar mais e melhor aos professores. Ou seja, é necessário discutir os caminhos que o formador escolhe para realizar a formação. E a definição dos caminhos está relacionada ao que se quer ensinar. A tematização da prática e a situação de dupla conceitualização são as estratégias de formação utilizadas pelos coordenadores. A pertinência de cada uma delas no processo de formação é um tema recorrente na formação com os coordenadores.
Ainda em relação às necessidades formativas, os coordenadores reclamam por investimento na formação das outras áreas de conhecimento. Notamos que se ressentem de não trabalharem com outros conteúdos na formação, além da leitura e escrita. É nítido que esta é uma fragilidade desse processo de formação. Embora entendamos que o tempo e continuidade são aspectos fundamentais para promover reconceitualizações do conhecimento, já são dez anos sem colocar outros
conteúdos no centro da formação. Esta é uma necessidade formativa apontada pelo grupo de coordenadores e corroborada pelas formadoras.
3. Como os formadores contribuíram para construir a rede colaborativa de formação?
Mia Couto, citado na epígrafe desta dissertação, traduz com linda metáfora o que parece ser um dos elementos chave para a compreensão do êxito da estrutura de formação no município de Boa Vista do Tupim: os resultados na formação dos coordenadores e dos professores, e as aprendizagens dos alunos são as missangas que deixam o colar vistoso, e o fio invisível que o sustenta é a rede colaborativa da formação.
Este estudo partiu do pressuposto de que a melhoria da qualidade da escola pública não é fruto de uma ação isolada, externa e pontual de formação. Ao contrário, pressupõe um conjunto de ações interligadas, envolvendo os diversos atores que compõem o cenário educativo. Os coordenadores são responsáveis pela formação, porém não podem assumir esta tarefa, sozinhos.
Podemos dizer que a rede de formação do município de Boa Vista do Tupim parece estar harmoniosamente articulada, as ações de formação estão interligadas, isto é, os coordenadores são responsáveis pela formação dos professores, e se corresponsabilizam pela qualidade dos resultados da aprendizagem das crianças, e recebem apoio político e institucional das equipes técnicas das Secretarias e do Instituto Chapada. Todos os sujeitos envolvidos nessa cadeia de formação se corresponsabilizam e oferecem o apoio técnico e formativo ao sujeito da formação a ele interligado. Dessa forma, não há o isolamento que costumamos observar na prática dos coordenadores pedagógicos. Imbernón (1998, p.102) ressalta que uma das certezas oriundas de seu trabalho e experiência é que a formação é uma tarefa, principalmente, coletiva e contextualizada e não se pode empreender uma formação baseada no isolamento.
Os coordenadores e as formadoras se reconhecem como parte integrante de uma rede colaborativa. Sentem-se um entre todos e com todos. A rede é concebida como baliza para as ações formativas e como espaços de participação democrática, de relações horizontais e muita parceria. Ela traz uma abertura de possibilidades: é o
olhar do outro, validando o que de melhor tem a diversidade. Não há dúvidas do poder decisivo que a engrenagem dessa rede tem para o êxito da estrutura de formação.
A partir da análise e fechamento do conteúdo destas três questões, podemos dizer que as principais condições para viabilizar o processo de construção do papel formador dos coordenadores pedagógicos de Boa Vista Tupim foram: o apoio político favorecedor de uma estrutura de formação, a compreensão e a efetivação de uma rede colaborativa, em que todos se corresponsabilizam pela qualidade da aprendizagem dos alunos, o apoio técnico oferecido pelo Projeto Chapada, a formação centrada nas escolas, a organização de uma rotina garantindo diferentes momentos de formação e um conjunto de pessoas que se dedicam, que se envolvem, que se comprometem com a melhoria do ensino público. E, por estarem profundamente implicadas em todo o processo de formação, esses profissionais reconhecem os resultados exitosos de seu trabalho e também as lacunas, como, por exemplo, as necessidades urgentes de formação em outras áreas do conhecimento.
Palavras finais
A experiência de investigação é uma possibilidade de sair do contexto afirmativo, indicativo. É olhar a partir de perguntas e não de respostas.
Como escrevi acima, não tenho dúvidas do poder de uma rede colaborativa de aprendizagem. Ela pode mobilizar o melhor de seus integrantes e, juntos, promoverem mudanças importantes.
Entendo que a cadência de formação construída no município estudado tem conseguido garantir um espaço real de interlocução, um tempo em que formadores e professores planejam juntos, pensam juntos, refletem e projetam juntos. Além de lançar mão do repertório de estratégias de formação que seguem refletindo, a formadora e os coordenadores não perdem de vista o momento de aprendizagem de seu grupo, do potencial intelectual que apresentam e do movimento de apontar e acolher. Cuidam da parceria para não exigir sem oferecer instrumentos, para não deixá-los sozinhos.
coordenadores pedagógicos e o necessário apoio político e técnico a todos os envolvidos em um processo de formação são aspectos, desta pesquisa, que podem inspirar e contribuir com outras estruturas de formação.
Por fim, ressalto que a esperança deste estudo é dar uma contribuição para a melhoria das formações dos coordenadores e professores. Reconhecendo as limitações desta pesquisa em relação às suas fronteiras, espero que novas pesquisas sejam propostas, mantendo o movimento compulsório de atender às novas exigências sociais de formação.