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In document KVARTS i praksis V (sider 9-17)

A motivação para a investigação da necessidade do outro amigo para a realização de uma vida boa está, em grande medida, relacionada ao questionamento que abre o capítulo IX da Ética a Nicômaco: “também se discute sobre se o homem feliz necessita ou não de amigos”89.

Esta preocupação é também uma verdade na obra de Ricoeur, que procura incluir na sua definição ética fundamental o outro como um complemento necessário para o entendimento da sua proposta de vida boa. Ele a expressa como o receio de que a busca da vida boa seja vazia se não for levada em conta a presença do outro: “cette

signification reste abstraite aussi longtemps que lui fait défaut la structure dialogique que la référence à autrui introduit”90. O que está em jogo é a necessidade da referência do outro para a estruturação da ética dos dois filósofos.

Há duas abordagens complementares na análise da amizade com relação à sua necessidade para a realização da vida boa. A primeira delas é que a amizade abre o campo de realização da vida boa, nesse sentido, a tese é que a relação com os amigos é necessária para a efetivação das promessas do si com relação à escolha por ações

88 PHILIPPE, op. cit. p. 73

89 ARISTOTE. L’Éthique à Nicomaque, 1163b 30-35 90 RICOEUR. Soi-même comme un autre. p. 202

boas. A segunda abordagem está relacionada ao fato de que uma vida verdadeiramente boa necessita de um conhecimento de si mesmo para que a estima de si possa acontecer de forma integral, e nesse sentido, a presença dos amigos será crucial, como pretendemos mostrar adiante.

O primeiro argumento que destacamos de Aristóteles para sustentar a ideia da amizade enquanto inclusão do outro na busca da vida boa é que o homem é um animal político. Ele precisa de outros homens para realizar-se plenamente como homem, pois a sociabilidade está na sua essência. Diz o Estagirita: “Ninguém escolheria a posse do mundo inteiro sob a condição de viver sozinho, já que o homem é um ser político e está em sua natureza o viver em sociedade ”91. A consecução de todos os bens não é de utilidade alguma para o homem se ele não estiver inserido em uma sociedade onde possa desfrutar deles. A vida boa é justamente esse estado em que os bens são alcançados e usufruídos e, portanto, ela precisa, igualmente, da vida em sociedade para ser plenamente atingida.

O segundo argumento aristotélico ligado à necessidade da amizade para efetivação da vida boa é descrito por Ricoeur como uma “impressionante bateria de argumentos”, na qual Aristóteles é obrigado a utilizar um dos maiores conceitos de sua metafísica, a saber, a distinção entre o ato e a potência92. Deixaremos de lado, para efeito dos nossos estudos com foco ético, as dificuldades da interpretação destes conceitos metafísicos para a análise na práxis apresentadas no capítulo X de Soi-même

comme un autre e procuraremos nos ater à implicação mais evidente de tal doutrina.

91 ARISTOTE. L’Éthique à Nicomaque. . 1169b 15-20 92 Cf. RICOEUR. Soi-même comme un autre p. 217

Essa implicação pode ser destacada da Ética a Nicômaco a partir da afirmação de que “...a felicidade é uma atividade, e a atividade, evidentemente é algo que se faz e que não está presente desde o princípio”93. O homem feliz precisa realizar atos bons e para isso é mais adequado fazê-lo “com outros e visando os outros”94. Para um solitário a efetivação desta atividade da vida feliz é muito mais complicada, senão impossível. Para o homem realizar o ideal da vida boa, ele precisa praticar ações virtuosas que são estimadas como boas, e isso é possível em plenitude apenas com relação ao outro e mui especialmente com os amigos que compartilham as mesmas virtudes.

Além disso, a busca da vida boa realiza-se na constatação da execução de ações estimadas como boas pelo si, mas, diante do que dissemos sobre a amizade, o outro amigo torna-se outro si e a convivência com ele torna-se também fonte de consecução da vida boa à medida que ele também é um outro si que realiza ações virtuosas. O texto de Aristóteles resvala nesta abordagem ao comentar que o propósito é contemplar ações dignas e ações que sejam suas, e as de um homem bom que seja seu amigo possuem ambas essas qualidades. O homem bom torna-se outro si em sentido completo. A satisfação da vida boa ao perceber que estimamos a nós mesmos por sermos responsáveis por ações boas estende-se ao outro de si, que igualmente realiza tais ações. Se o homem pudesse realizar integralmente todas as ações boas possíveis, bastaria a si mesmo, entretanto, como isso somente é possível a Deus, é preciso que eu me realize por meio da estima das ações boas praticadas pelo outro amigo. Em outras palavras, a satisfação da contemplação que faltaria ao si por estar ainda em potência, pode ser alcançada pela atualização do bem realizada pelo outro de si.

Trataremos agora da segunda abordagem para justificar a necessidade da amizade para a realização da vida boa, aquela estabelecida pela necessidade da referência do outro amigo para que a estima de si, momento reflexivo e fundamento

93 ARISTOTE. L’Éthique à Nicomaque. 1169b 28-30 94 Cf. ARISTOTE. L’Éthique à Nicomaque. 1170a 5

da busca da vida boa, possa de fato acontecer com base nas nossas ações.

Ao estimarmos a nós mesmos por nossas ações corremos o risco de nos enganar com relação à avaliação necessária para atribuir ações virtuosas a nós mesmos. A amizade ajuda o conhecimento de si-mesmo como por meio de um espelho. Além disso, os amigos se estimulam mutuamente a buscar a estima de si a partir da estima do outro. Aquilo que julgo digno de estima no outro passa a ser objetivo de realização na minha existência, tal é a uma das consequências da frase do Estagirita: “Quando dois homens marcham em conjunto, são juntos mais fortes tanto para ver como para agir”95.

Esta questão da ampliação do conhecimento de si por meio da amizade é comentada por Gauthier: “Precisamos de amigos porque possuímos apenas a consciência num estado imperfeito” e ainda, “por sermos espíritos limitados precisamos, para nos conhecermos a nos mesmos, colocarmo-nos dois a dois: a comunhão da amizade é a condição da consciência de si”96.

Na mesma linha segue o comentário de Aubenque sobre a necessidade de amigos para uma real compreensão de si mesmo e, por consequência, uma estima de si bem embasada: “a condição humana, com efeito, é tal que o conhecimento de si é ilusório, e se torne autocomplacência se não passar pela mediação do outro”97. O argumento da Magna Moralia parece ir ainda um pouco mais adiante: “não podemos contemplar a nós mesmos a partir de nós mesmos... Assim como quando queremos contemplar nossas imagens o fazemos nos olhando no espelho, quando queremos conhecer a nós mesmos, nos conhecemos nos vendo num amigo. Pois o amigo, dissemos, é um outro de nós mesmos”98.

Obviamente, dentro do contexto da obra de Ricoeur, o amigo não pode ter uma função absoluta para o reconhecimento de si, pois, como deixamos claro acima, existe sempre um referencial forte às ações e, são elas que, em última instância, serão a base

95 ARISTOTE. L’Éthique à Nicomaque, 1155a 14-16 96 GAUTHIER, op. cit. p. 103

97 AUBENQUE, op. cit. p. 290

da reflexividade procurada. Isto, no entanto, não descarta essa função do outro para auxiliar esse processo de reflexão a partir das ações.

Como procuramos mostrar neste bloco, vários são os pontos que foram assumidos por Ricoeur da noção aristotélica de amizade. Trata-se de uma das noções mais pródigas à ética da ipseidade e que acaba por permitir a passagem fundamental do si-mesmo para outro.

Além disso, o próprio tom aristotélico aproxima-se especialmente de uma filosofia preocupada com o si-mesmo, como bem nota Gauthier : “Nunca Aristóteles se aproximou tanto, como nestas reflexões [livro IX da Ética a Nicômaco], de uma concepção da consciência de si”99.

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