Quando a finitude humana se faz banalizada em meio a cenários de mortes coletivas, a morte individual perde-se anônima e apaga-se porque não há tempo para os rituais religiosos, para as demonstrações de dor ou para as cerimônias de sepultamento. Depois da guerra, a morte retorna grandiosa provocando “imenso espanto ou uma aversão em retrospectiva”. Ou seja, a morte adquire os contornos que os eventos da sociedade nela imprimem. No contexto das guerras, dá-se a afirmação do grau de relevância da sociedade acima da afirmação do grau de importância da individualidade. No combate, ou em marcha, mediante perigo, o combatente ou sitiado já não teme à morte e até mesmo o covarde passa à condição de corajoso. Edgar Morin, no livro O Homem e a Morte (1997, p. 46) comenta acerca do sentimento experimentado pelos soldados em meio às guerras, seus ideais pátrios e sonhos, ao afirmar que “[...] a glória é exaltação da vida individual. Ao mesmo tempo, o instante glorioso é a grande onda que recobre a história para sempre, o momento privilegiado mais forte que a morte, que permanecerá “eternamente” na memória coletiva.”
Conforme o autor, o título de herói se aplica a qualquer combatente que, ao contrário do que se supõe, morre como herói. Nas questões que envolvem o civismo e a morte, o caráter
heroico é uma forma de transcendência ou de superação da morte conforme pensamento moriniano, que afirma nesse contexto que “O herói tende a crer que viverá nas gerações futuras, que será um ‘vivo combatendo ao lado delas.’” (MORIN, 1997, p. 46).
Na produção literária poética podem-se mencionar os heróis dos poemas épicos que enfrentam “a morte” por elevados sentimentos de grandeza, em geral voltados para ideais de conquista ou busca da justiça para os seus povos. O herói, de certa forma, constrói-se acima da morte e a ela desafia. Nos episódios épicos ou mesmo lendários, é a morte que alavanca o personagem à condição de herói e mito. Para esse resultado, existe um “entorno” de enormes dimensões onde se verifica uma trama de natureza grandiosa perante determinada realidade histórica. No “cenário histórico” os versos tecem o lugar do herói que é reconhecido pelo seu povo e feito legado às gerações que se seguem, delas fazendo parte, por extensão do modelo e reconhecimento do valor heroico do enfrentamento da Morte em razão do coletivo.
O poema “El matador” elabora, em tom de crítica, a construção da narrativa histórica de um herói “questionável” do ponto de vista ético humano apesar dos marcos e documentos elogiosos que foram escritos em registro às suas façanhas. Os versos oferecem uma poesia eivada de morte, uma vez que é uma representação poética de narrativas dos tempos de guerra do período colonial, observável sob vários pontos de vista. Nele verifica-se que existe a perspectiva do narrador, mas também o ponto de vista dos personagens poéticos. Além disso, há um diálogo intertextual com documento histórico que faz relatos da época poetizada e que, dividido em trechos, foi criativamente intercalado entre as estrofes do poema:
EL MATADOR
‘1776-AGÔSTO, 1º- Tem começo a guerra contra os índios Pimenteiras, para a qual marchou neste dia, da cidade Oeiras, uma forte expedição militar sob o comando do tenente-coronel João do Rêgo Castello Branco.”34 De sangue e de fogo se faz um nome. No sangue e no fogo se desfaz a história de muitas vidas. 34
João do Rêgo Castello Branco foi o tenente coronel responsável pela dizimação de várias nações indígenas em terras do Piauí. Consta em documentário da Revista do Instituto Geográfico Brasileiro Tomo XX – 1º trimestre de 1857 – Memória Histórica da Província do Piauhy, por José de Martins Pereira, em 15 de maio de 1855, que o tenente coronel “passou a ferro” milhares de índios com as suas tropas, incluindo-se mulheres e crianças, que batiam palmas, que era o seu modo de pedir misericórdia. Quase cego, o tenente coronel orientava o filho, que
assumiu sua tarefa. Disponível em:
http://books.google.com.br/books?id=RcszAQAAIAAJ&pg=PA40&lpg=PA40&dq=O+coronel+João+do+Rêgo
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A sangue e fogo a ferro e fogo um homem liquida seus semelhantes.
“... foram presos uns e postos em pedaços outros, trazendo-se as orelhas destes, que se pregaram nos logares públicos da aldeia.”
No sangue
a crueldade desnecessária No sangue
a violência contra os desarmados.
“... manda logo o tenente-coronel o seu filho Felix do Rêgo e alguns agregados atrás dos Gueguezes..” “...mataram parte deles e levaram as cabeças que poseram em mastros na aldeia de S. Gonçalo para o tempo as consumir”.
Ao preço de tantas vidas sua vida se perde do consumo do tempo. Não matador de touros toureador da morte vencedor dos verões. Matador de índios. Sua glória triste pesa sobre nós. Sobre a sua memória pesa a morte inglória das nações tapuias.
“...e alcançando sucessivamente as malocas dos Tapuyas, os vão passando todos a ferro.” Tenente-Coronel dos auxiliares
João do Rêgo Castello Branco chefe da tropa
senhor dos trabalhos castigos e desgostos, matador de índios.
“No anno de 1780 vendo-se o tenente coronel João do Rêgo na Missão de São Gonçalo com menos índios do que desejava para mandar em seu serviço.”
Sem firmeza nos ajustes da paz. Firme na guerra a todos os índios Rápido na guerra lança os proclamas as derramas de gente farinha cavalos e bois.
“O coronel João do Rêgo, apesar de velho e quasi cego, tomou a cargo a conquista, porque apesar de alquebrado de forças, não tinha perdido a mania de querer achar o El-doirado.”
Índios e ouro
seu sonho execrando A lagoa dourada o rio do Sono; se resolve em sangue a sede do ouro. Os corpos no campo para o pasto de feras. Passados à espada Acoroazes Pimenteiras Gueguezes raça extinta lembrança extinta nomes nações apagados no próprio sangue. Matador de índios. A fama de seu nome a fúria de seu nome. Sua memória em sangue
se repete (DOBAL, 2007, p. 97-100, grifos nossos).
“El Matador” seria um poemeto épico, se não fossem os propósitos “anti-heroicos” do seu personagem-poético-protagonista, afinal, ainda que enriquecido pelos dados históricos, o poema narra em versos as ações de um Tenente-Coronel João do Rêgo Castello Branco, que chefiou, em 1776, expedição militar que culminou com a extinção de tribos inteiras de índios, tais como as nações Acoroazes, Pimenteiras e Gueguezes – conforme diz o poema, foram todos mortos. O olhar poético oferece um tom de elegia aos mortos e não de uma narrativa épica aos soldados. É um poema que exibe a face cruel das ações militares do governo colonial, que culminaram por extinguir raças indígenas inteiras, e que, por outro ângulo, também versifica os “feitos” desse homem que, de um ponto de vista histórico, até poderia ser um herói militar, caso não tivesse marcado essa história com o extermínio de índios desarmados, obcecado e cego pelo desejo de encontrar o sonhado “El doirado”. Com esse propósito em mente, o velho militar, já quase sem forças, “passa a ferro”, canta o poema, assim como também o diz a Revista do Instituto Geográfico nº 20 de 1857, “tribos inteiras” deixando os corpos aos “pastos de feras” e lavando com sangue nomes de várias nações indígenas. Mas como a matéria histórica não é objeto principal de estudo, as informações até aqui elencadas são suficientes para prover esta leitura nos aspectos incitados pelo poema.
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Ao estilo épico, o poema tem dezessete estrofes de medida vária, com semelhante variedade na disposição dos versos na página, peculiar à poesia dobalina. O título “El Matador” remete, numa ironia fina, ao objetivo do ensandecido Tenente Coronel, de encontrar o suposto El Dourado. No documento histórico mencionado, também consta que João do Rêgo era conhecido, já àquela época, como “El Matador”, talvez, também pela mesma associação ao mencionado delírio de grandeza dito em espanhol. O poema é iniciado com parte histórica em prosa, apresentando a narrativa da sua expedição em marcha. É visível que o poeta intencionava mesmo dialogar sobre estes fragmentos de documentos que trazem de volta a público, questões que expõem a face cruenta e absolutamente desumana da história, recuperando trechos documentais e versejando duramente sobre eles. Assim, no corpo do poema, trechos em prosa são intercalados, assemelhando-se a um documentário ou matéria jornalística, todos anunciando as “façanhas” do referido militar.
Em termos da concepção da morte, este poema apresenta uma espécie de “morte coletiva”: a morte das nações indígenas que o poema apresenta em fragmentos quase fotográficos. Quando a Morte é coletiva e o matador é cruel e não merece “louros” pelas suas conquistas, “Ela” se insurge como “Morte inglória”, que ocorre quando agoniza aquele que deveria ser o herói e foi o derrotado – um herói invertido. No caso, os índios lutaram heroicamente para se defender das tropas armadas e foram dizimados em nome de uma fúria conquistadora. A Morte, no poema, se apresentou plasticamente imagética, em “banhos de sangue”, pois a partir da primeira estrofe são, ao todo, oito vezes que a palavra “sangue” pinta de vermelho a peça poética (nos versos 1, 3, 6, 10, 12, 46, 58, 62). As façanhas são acrescentadas: /a crueldade desnecessária/, /a violência contra os desarmados/. O cenário de guerra é também criado por palavras igualmente imagéticas e sonoras: nas duas primeiras estrofes, a palavra fogo faz ressoar a voz de comando, ao final de cada um desses versos: (versos 1, 3, 6, 7) : - [...] Fogo! – [...] Fogo! – [...] Fogo! – [...] Fogo! Dos versos 1 ao 5 – começam as reiterações das ações dessa tropa do exército que agia “a ferro e fogo”: /de sangue e de fogo/, /no sangue e no fogo/, /a sangue e fogo/. A voz de comando, “fogo” recria o cenário de guerra armada contra os índios e a menção ao sangue, colore de vermelho essa cena de massacre. O nome do tenente coronel se constrói na narrativa poética pela crueldade e violência ao liquidar as nações indígenas, desfazendo histórias, culturas e vidas inocentes.
Na segunda estrofe, versos 6 a 9 – repete-se o cenário de sangue a “ferro e fogo”, acrescentados de que /um homem liquida/, /os seus semelhantes/. Em meio a sangue e fogo, os versos expressivos da violência do coronel contra os povos indígenas vão se
contabilizando: /se desfaz a história de muitas vidas/, /um homem liquida/. Os verbos demonstram o tom elegíaco e o ritmo das ações.
Na terceira estrofe, irregular, com versos soltos e em desalinho, no que se assemelha a gesto calculado, sugere-se que os muitos espaços em branco denunciam ou se associam, plasticamente, ao desaparecimento dos índios, desta forma, comparando-os aos relatos compositivos dos versos, antes organizados nas “apertadas” estrofes anteriores e que agora ficam esparsos, dando ideia de “pouquidão”, esvaziamento, resultado do enfrentamento da violência. A Morte em tempos coloniais também está armada e personificada pela ação desse militar, que se apresenta num misto de obsessão e insanidade – uma Morte figurada como agente de “matanças coletivas”. Nos trechos em prosa, narram-se os espetáculos de crueldade desse tenente que manda expor pedaços dos corpos de índios em lugares públicos, nos mastros das aldeias - morte pública, chacinas coletivas.
Na quarta estrofe, versos de 14 a 25 – reafirma-se a glória triste, conquistada pela matança e a morte inglória daquelas nações indígenas. Nos adjetivos que contemplam as ações do militar, somam-se: /toureador da morte/, /vencedor de verões/, /matador de índios.
Dos versos 26 a 31, consta a exaltação do nome completo do “matador de índios” e certamente percebe-se um tom de ironia construído pelo eu lírico que pretende denunciar o fato que manchou a história: aquele que era /o chefe da tropa/ era também /senhor dos castigos e desgostos/ e principalmente /matador de índios/. Esta última expressão é reiterada por três vezes ao longo do poema, incluindo-se a última estrofe, conclusiva do conjunto poético.
Do verso 32 em diante, segue-se nesse tom elegíaco, porém mesclado a um ritmo “de ação”, e aos poucos, sobressaem-se os detalhes daquelas guerras, marcadas pela constante repetição da palavra “sangue”, sempre agregada às imagens da extinção dos índios. Na construção literária do sujeito poético “tenente coronel”, surgem mais informações: /firme na guerra/, /rápido na guerra/. E na imagem dos índios mortos, vê-se que se encontra invertida a posição do herói e, nesse contexto, além da morte heroica coletiva que se sobressai, existe a personificação de um agente da Morte, a partir da figura do militar obcecado, que matou alucinadamente e há o sangue que se espalhou com inúmeros corpos a servir de pasto às feras. Finalmente, os atributos do personagem visionário são completados: /matador de índios/, /a fúria do seu nome/, /sua memória em sangue /. Ao todo, no poema, o verso com a expressão /matador de índios/ é repetido três vezes, ao que ainda se soma o título que o ironiza – “El Matador”.
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A presença desta Morte é cruel e sangrenta, mas ela aqui também não se faz em
personas ao estilo caracterizado nos séculos do medievo. Ela age pelas mãos de um homem
enlouquecido pelo desejo de poder e fortuna. Contudo, é uma Morte que se poderia admitir como personificada pela imagem de “outros que assumem a sua missão demandada de outro mundo”. “O outro que mata” é, senão, aquele que toma para si a missão natural da Morte, ainda que a data seja aleatória e não planejada por ela. É como se exigissem d’Ela que é a verdadeira “Morte do outro mundo”, um horário extra e à sua revelia. Reunindo-se as imagens do conjunto poético, a morte apresenta-se como “banhos de sangue”, “chacinas”, “Morte coletiva”, “Morte personificada pelo outro que mata e se “adona” das funções da Morte”. Nesse poema, é possível vislumbrar duas faces para a Morte, aquela que ataca a golpes “de ferro” e a sua antítese, que é a morte heroica que emerge dos heróis vencidos. Este perfil da Morte somente dialoga, muito sutilmente, com a figuração do poema Berliner Nacht, do livro A província, pela presença da Morte convocada à revelia e construída no contexto das causas coletivas.
Na continuidade das investigações, a exemplo do que expressa a poesia de muitos poetas na contemporaneidade, a Morte além de ganhar proximidade, muitas vezes incorpora- se ao seres ainda em vida física, como nos poemas que se seguirão.