Composto em 1946, dez anos após o fim do Estado Novo, mas ainda refletindo os ideais nacionalistas de então, o samba Pra que discutir com madame - de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida (CD 1, faixa 23) - aborda o mesmo tema, o conflito de classes, de culturas, sob um outro ponto de vista: se no samba anterior, Risoleta pretende assumir certa postura de classe dominante, aqui, madame105, fazendo parte desta classe, não se identifica com os valores das classes populares, contrariando, assim, o ideal de /povo/.
A forma de tratamento – traço lingüístico e cultural importante – com que o sujeito enunciador caracteriza essa senhora, uma brasileira afrancesada, madame, é, por si só, uma clara distinção entre classes sociais: Vale dizer que Madame e doutor são formas de tratamento com que as pessoas mais humildes, de classes menos favorecidas, tratam aqueles que se encontram um pouco acima na pirâmide social, embora esses termos tenham igualmente uma conotação irônica dada por alguém que, ao fingir acatar esta autoridade, ao mesmo tempo a desqualifica.
Assim sendo, se por um lado, o termo madame denota autoridade e posição social, por outro, assume também um certo tom pejorativo, de “deboche”, onde a suposta autoridade é colocada em questão. O pronome de tratamento madame, normalmente de 2a pessoa, é aqui transposto para a 3a (=ela), recebendo um tratamento diferenciado. Ela assume conotação de um actante que se quer diferenciar; ao mesmo tempo o enunciador deixou-a anônima, daí resulta a ironia. O ponto de vista do enunciador é, de fato, o de alguém que se encontra fora do universo burguês, pertencente às classes populares106.Por isso madame – que não tem nome ou sobrenome - é ridicularizada:
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe Vive dizendo que samba é vexame Pra que discutir com Madame
Pra que discutir com madame? Em tom coloquial, de conversa, o enunciador procura demonstrar que com madame não se discute e, já no título, declara ser inútil qualquer tentativa de persuasão. No nível discursivo, o sujeito-enuciador se dispõe a nos relatar o que pensa madame, impregnada por valores exteriores ao mundo do samba, a respeito da cultura popular; madame diz, entre outras coisas, que a raça não melhora/ que a vida piora / que o samba tem pecado / o samba devia acabar.
Assim, o discurso do sujeito enunciador define sua identidade em oposição ao discurso do outro pela seguinte oposição: a fala do sujeito enunciador x a fala (a opinião) de madame. O primeiro se coloca como alguém pró-samba, partidário dos valores nacionais; o segundo, é visto como alguém exterior a esse sistema de valores que, ao desprezar essas imagens identitárias, é ironicamente sancionado.
105Convém notar, como bem salientou Beth Brait (1996) ao analisar o título de Madame Pommery,
objeto de um estudo aprofundado de sua parte, que o termo madame também possuía uma acepção duvidosa, podendo estar ligado a atividades de prostituição.
106 Neste sentido, lembramos o que disse Carlos Sandroni a esse respeito: “O bacharel – no Brasil,
um símbolo da cultura letrada, branca, européia. O bamba – seu equivalente na cultura mestiça carioca” (Sandroni, 2000, 172).
Pode-se dizer que a partir daí instala-se um conflito, com valores e figuras que podem equacionados pela categoria semântica fundamental /povo/ x /elite/ ou ainda / nacional/ x /elite/, que se definem, por sua vez, pelos pares de opostos assim relacionados:
/povo/ X /elite/ /nacional/ X /estrangeiro/
Samba X Concerto
Desfile X Ópera
raça brasileira (misturada) X raça européia
Esta oposição, também caracterizada pela ideologia da mistura (já referida anteriormente) x a ideologia da raça branca (européia), perpassa toda a canção, podendo ser identificada pelas figuras já mencionadas: de um lado, o samba, o bloco de morro, a cachaça, a mistura, representando o povo e a cultura popular; e por outro, os elementos da cultura européia, a ópera e o concerto, considerados “gêneros musicais superiores”, simbolizando a burguesia, que, por sua vez, ligam se às mesmas categorias, como visualisamos abaixo:
/nacional/ X /estrangeiro/ /povo/ X /elite/
cultura popular X cultura européia Representada pelos termos
samba, cachaça e mistura (de raça e de cor)
x
Representada pelos termos ópera, concerto e (supostamente) raça branca.
Desse modo, a personagem, uma senhora burguesa (e afrancesada), que quer se diferencia adotando valores europeus, deprecia o sistema de valores nacionais, responsabilizando o samba e a ideologia da mistura (ritmo nacional sincretizado, fruto da mistura de raças e de cor, em consonância com o mito da identidade idealizada por Gilberto Freyre) pelos problemas do país (a raça não
melhora/ a vida piora), atribuindo-lhe valores negativos, a saber: o samba é herege (tem pecado); é coitado, bêbado (tem cachaça) e mestiço.
O fato de o sujeito enunciador empregar o discurso indireto já traz em si uma manipulação: ele afirma que ela diz, mas não sabemos se esse discurso é verossímil. A partir do refrão, o enunciador introduz a ironia e, contando com a cumplicidade do ouvinte (enunciatário e destinatário), inicia o programa e o projeto do demérito: este eu – primeiramente escondido, esfumaçado, narrando em 3a pessoa – aparece-nos com contornos mais nítidos, valendo-se agora do imperativo:
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe Vive dizendo que samba é vexame Pra que discutir com madame
Na segunda estrofe, percebemos mais claramente que, para o sujeito enunciador, madame não é confiável, nem possui as faculdades mentais em perfeito estado, não estando, portanto, em condições psicológicas para opinar, já que tem um parafuso a menos. A partir de então, dá-se início a um discurso invertido, onde o sujeito enunciador, pela afirmação do contrário, desdiz o que diz a personagem. Para satisfazer as esquisitices de madame (que tem um parafuso a menos e só fala veneno), o narrador se propõe a colocar seu bloco de morro a cantar ópera e a realizar de maneira oposta o seu programa narrativo: o mundo se encontra do avesso.
Assim, temos dois programas narrativos que se opõem: por um lado, o programa de Madame, anti-sujeito que pretende acabar com o samba, com a cultura nacional representada pela ideologia da mestiçagem, ficando com a ópera e o concerto; por outro, o do sujeito enunciador que, em verdade, busca acabar com Madame, permanecendo com o samba e a cultura nacional. Ambos os actantes se encontram em disjunção e nenhum deles parece querer abdicar de seus valores axiológicos. Do ponto de vista do enunciador, os elementos que caracterizam o
povo recebem um tratamento eufórico, ao passo que a ópera e o concerto, definindo o gosto da elite, recebem um tratamento disfórico. Além disso, madame, por não estar em consonância com os seus valores (o enunciador sambista), encontra-se doente - como Risoleta, personagem do samba Menina Fricote (1940) - sendo rebaixada à categoria de louca (sanção negativa), não valendo a pena discutir com alguém que não se encontra em perfeito estado mental.
No refrão, o sujeito, ao dialogar com o ouvinte (enunciatário e destinatário), convoca a nação a destruir o samba, embora deseje o efeito contrário. Ao depreciar a autoridade de madame (enunciatário e anti-sujeito) o sambista tenta preservar os ícones que representam o seu povo, e, acima de tudo, a sua classe social, representada pelos elementos já mencionados. Nota-se um jogo de forças nesta alteridade:
/eu/ X /outro/
nós X ela (eles)
Identidade X Alteridade
Estabelece-se uma polaridade entre samba (ícone nacional) e ópera (ícone estrangeiro), entre música popular e música erudita, entre um nós e um eles. Devemos lembrar que o discurso da mestiçagem (Ortiz, 1994: 40), em consonância com a ideologia nacional-popular ainda vigorava em 1956, embora o Estado Novo já tivesse findado. Esta canção encontra eco e intertextualidades principalmente com Eu gosto do samba (1940) e Menina Fricote (1940), já estudadas nas páginas anteriores.
No tocante à melodia, há predominância de figurativização, reproduzindo-se a entoação da fala, tal como uma conversa; à primeira vista, a ausência de saltos intervalares significa ausência de tensão passional: as estrofes sofrem algumas “agudizações”, mas caminham em gradação melódica. Observando-se mais atentamente a evolução da seqüência rítmico-melódica, percebemos a ocorrência de suas partes: a primeira formada pelas duas primeiras, de natureza similar,
porém apresentando variações. A terceira estrofe - após o refrão – possui algumas notas mais agudas, conforme dissemos, o que denota momentos de maior emoção; de fato, à medida que a melodia caminha da 3a para a 4a estrofe, o narrador enunciador se mostra mais indignado com o que ocorre, por isso a melodia se torna mais aguda e tensa.
De fato, notam-se alguns estados emocionais significativos durante o percurso: os momentos tensos (passionais, agudos) ocorrem, por exemplo, quando o enunciador reproduz, em discurso indireto livre, um suposto julgamento de madame sobre o samba, um dos raros momentos em que a personagem aparentemente expressa o que sente:
Que o samba coitadodevia acabar
(subida melódica)
(coitado = discurso indireto livre)
Desta forma, o locutor tenta nos convencer de que não se trata de seu ponto de vista, foi a personagem quem assinalou. Sua opinião enunciador aparece mais claramente a partir do refrão, quando externa de maneira contrária e irônica o que deve ser feito (= a destruição do samba), pretendendo operar no ouvinte uma reação de efeito contrário. Sabemos que não se pode ou não se consegue entrar na avenida para desfilar ao som de ópera ou de concerto. Esse ponto de vista é efetivamente compreendido pelo destinatário (o ouvinte) na medida em que na próxima estrofe este “eu” deprecia e sanciona a senhora burguesa que detesta o samba, assumindo valores alheios. Ao qualificá-la como alguém sem parafuso, destituída do pleno exercício das faculdades mentais, o enunciador destrói todo o discurso anteriormente citado. Trata-se de alguém que não é digno de confiança. A função desse enunciador é mais uma vez ideológica, pois avalia a dama a partir de sua visão de mundo (nacionalista, de cunho popular e populista). O embate se dá no plano da enunciação, já que o enunciador (que detém a palavra) é partidário da
ideologia nacionalista exacerbada durante o Varguismo, enquanto que a personagem madame representa a ideologia da raça branca.
Chegamos à conclusão de que o enunciador-sambista se encontra totalmente identificado com a ideologia Varguista de cunho nacional popular. Se naquele momento desejava-se desqualificar Risoleta por adotar valores exteriores a sua classe social e também ao seu país, aqui a personagem opera em sentido contrário, pois já possui esses valores estrangeiros. A função do narrador é ideológica, pois comenta a ação, avalia-a do ponto de vista de uma dada visão de mundo (a popular).