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A exatidão da quantificação do RNA mensageiro depende da linearidade e eficiência da amplificação da PCR, a qual foi validada e determinada pelo método do CT comparativo ou ΔΔCq (WONG e MEDRANO, 2005; Applied Biosystems User Bulletin N° 2). Foi constituída uma série de seis diluições (10x) a partir do produto de PCR diluído 500 vezes, referente a cada gene, de uma mistura inicial contendo quantidades iguais de cDNA das três amostras de padronização, gerando assim seis pontos de uma curva padrão, para cada um dos conjuntos de primers escolhidos inicialmente para a RT-PCR em tempo real.

A linearidade e a eficiência da PCR em tempo real foram deduzidas a partir da inclinação da curva-padrão gerada pelo software 7300 System SDS (Applied Biosystems, Foster City, CA, EUA) para cada um dos genes analisados. A análise de todas as curvas-padrão demonstrou uma alta linearidade (r2 = 0,99). A eficiência da PCR (Ex) foi calculada a partir da equação Ex = 10 -1-1/inclinação -1. Uma inclinação de -3,32 implica numa eficiência de reação de 100%. Todos os genes apresentaram valores de inclinação próximos de -3,32 e as estimativas de eficiência ficaram entre 99,5 % e 100,5%.

Foi realizada a validação do método ∆∆Cq para todos os genes, e todos foram validados. Analisamos a possibilidade de validação do método do CT comparativo, de acordo com o User Bulletin #2 (Applied Biosystems, Foster City, CA, EUA. O método do ∆∆Cq é um método simples e fácil para quantificação do RNA mensageiro, o qual é baseado na eficiência de amplificação entre os genes alvo e o fator de normalização (VANDESOMPELE et al., 2002).

Tabela 2: Sequência dos oligonucleotídeos iniciadores utilizados no PCR em tempo real para amplificação dos genes ERα, ERβ, PR e GAPDH. Botucatu, 2011. Nome do oligonucleotídeo Sequência Tamanho ERα S 5'AACGCCTCTGTCTCGTCTGT3' A 5'GTACTCAATGCTCCCCTGGA3' 110pb ERβ S 5'TCCCAGCAGTGCCAATAACTCAGA3' A 5'TGCATACAGAAGTGACGACTGGCA3' 120pb PR S 5'CAAACATGTCAGTGGGCAGATGC3' A 5'CTGCCACATGGTGAGGCATAATGA3' 110pb GAPDH S 5'GGAGAAAGCTGCCAAATATG3’ A 5'ACCAGGAAATGAGCTTGACA3' 200pb

S = “sense”; A = “antisense”; pb = pares de bases

5. Análise estatística

Os resultados foram analisados por meio de estatística descritiva.

6. Resultados

A tabela 3 mostra os resultados da citologia vaginal esfoliativa, assim como os valores das dosagens séricas de progesterona e a fase do ciclo estral das cadelas.

Tabela 3. Classificação das células do epitélio vaginal em células parabasais (PB), intermediárias (interm), superficiais nucleadas (SN) e superficais anucleadas (SA), presença ou ausência de neutrófilos (N), progesterona sérica (unidade: ng/mL) e fase do ciclo estral em exame de citologia vaginal realizado em 31 cadelas. Dosagem hormonal de progesterona através de radioimunoensaio (P4 sérico em ng/mL). Botucatu, 2011.

Animal

pb % interm % SN % SA % N (*) P4 sérico (ng/mL) Fase ciclo

estral (**) 1 7 82,5 6,5 4 A 0,03 A 2 1 62 20 17 A 0,7 A 3 3 80 10 7 A 0,41 A 4 0,5 80 13 6,5 P 8,86 D 5 0 56,5 32 11,5 A 0,6 A 6 0 92 3 5 P 0,59 A 7 0,5 84 11,5 4 P 5,46 E 8 2 80,5 3,5 14 P 29,14 D 9 2 96 1 1 A 26,62 D 10 0 24,5 70,5 5 A 0,76 A 11 1 60 26 13 P 0,25 A 12 0 75 17 8 A 0,02 A 13 0 76 12 12 A 0,57 A 14 1,5 85 12 1,5 A 22,15 D 15 8 62 20 10 P 3,8 E 16 30,5 60,5 4 5 A 0,07 A 17 0 55 24,5 20,5 P 0,33 A 18 0 71 17 12 P 0,4 A 19 1 77 22 0 A 0,45 A 20 5 43 36 16 A 1,2 A 21 2 83 7 8 P 5,9 E 22 0 70 17 13 A 4,83 E 23 18,5 62 12 7,5 A 0,67 A 24 6 60 12 22 P 22,62 D 25 0 78 20 2 A 4,57 E 26 1 66 27 6 P <0,01 A 27 0 29,5 47 23,5 A 0,36 A 28 8 77,5 10,5 4 P 0,94 A 29 0 94 5 1 P 1,2 A 30 0 97 2 1 A 20,94 D 31 5 85,5 6 3,5 P 1,13 A

Os diagnósticos histopatológicos seguem a tabela 4.

Tabela 4: Diagnóstico histopatológico das biópsias mamárias de 31 fêmeas atendidas no setor de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da FMVZ – Unesp. Botucatu, 2011.

Animal Histopatologia

1 Carcinoma simples sólido

2 Carcinoma complexo

3 Carcinoma complexo

4 Carcinoma complexo

5 Carcinoma complexo

6 Carcinoma "in situ"

7 Carcinoma em tumor misto

8 Carcinoma em tumor misto

9 Carcinoma simples sólido

10 Carcinoma em tumor misto

11 Carcinoma complexo

12 Carcinoma tubulopapilífero

13 Carcinoma simples

14 Carcinoma simples

15 Carcinoma em tumor misto

16 Carcinoma em tumor misto

17 Carcinoma tubulopapilífero

18 Carcinoma em tumor misto

19 Carcinoma simples

20 Carcinoma complexo

21 Carcinoma complexo

22 Carcinoma complexo

23 Carcinoma simples sólido

24 Carcinoma simples sólido

25 Tumor misto benigno

26 Displasia mamaria 27 normal 28 normal 29 normal 30 normal 31 normal

Fonte: Misdorp W, Else R, Hellman E et al: Histologic classification of mammary tumors of the dog and cat. In World Health Organization international histological classification of

tumors of domestic animals, series 2, vol 7, no 2, Washington, DC, 1999, Armed Forces Institute of Pathology.

A distribuição dos tumores mamários malignos foi de 92,3%. Ou seja, apenas dois animais do total de 26 apresentavam tumores benignos (Gráfico 1).

Gráfico 1: Representação da distribuição dos tumores malignos e benignos das cadelas estudadas (n=26). Botucatu, 2011.

A frequência do estadiamento (TNM) das cadelas estudadas segue abaixo na tabela 5.

Tabela 5: Frequência do estadiamento das neoplasias mamárias das cadelas atendidas (n=28) no setor de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da FMVZ – Unesp. Botucatu, 2011.

Estádio Nº de animais Porcentagem (%)

I 11 39,29 II 6 21,43 III 4 14,28 IV 5 17,86 V 2 7,14

Os fatores hormonais que possivelmente estão envolvidos no aparecimento das neoplasias mamárias e que foram avaliados no presente

estudo foram o número de crias, a pseudogestação e o uso de hormônios esteróides. A tabela 6 representa o número de crias obtidas pelas cadelas com tumores de mama (n=26).

Tabela 6: Número de crias apresentado pelas cadelas (n=26) com tumores de mama atendidas no setor de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da FMVZ – Unesp. Botucatu, 2011.

Nº de crias Nº de animais (n=26) Porcentagem (%)

0 11 42,31

1 7 26,92

2 ou 3 7 26,92

4 1 3,85

Onze das 26 cadelas (42,31%) eram nulíparas, seguido de sete cadelas (26,92%) com histórico de uma cria e sete (26,92%) com duas a três crias. Por fim, apenas uma cadela havia apresentado quatro crias (correspondendo a 3,85%).

A maioria das cadelas do presente estudo (73,08%) não apresentou histórico de pseudogestação, como está representado na tabela abaixo (Tabela 7).

Tabela 7: Porcentagem das cadelas (n=26) com pseudogestação atendidas no setor de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da FMVZ – Unesp. Botucatu, 2011.

Pseudogestação Nº de animais (n=26) Porcentagem (%)

Não 19 73,08

Sim 7 26,92

Em relação ao uso de hormônios, apenas uma cadela (3,85%) havia recebido hormônio abortivo (a base de estrógeno), duas delas (7,69%) receberam contraceptivos (a base de progesterona) e a maioria (88,46%) nunca receberam nenhum tipo de hormônio. A tabela 8 ilustra o histórico do uso de hormônios esteróides.

Tabela 8: Uso de hormônios esteróides nas cadelas (n=26) atendidas no setor de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da FMVZ – Unesp. Botucatu, 2011.

Uso de hormônios Nº de animais (n=26) Porcentagem (%)

Estrógeno 1 3,85

Progesterona 2 7,69

Não 23 88,46

A dieta utilizada pela maioria dos animais (61,54%) do presente estudo incluía alimentação caseira, representada principalmente pelo consumo de arroz, carne bovina e suína, já nos primeiros anos de vida do animal (Tabela 9).

Tabela 9: Dieta utilizada pelos animais do estudo, segundo o questionário respondido pelos proprietários de 26 cadelas atendidas no setor de Reprodução Animal do Hospital Veterinário da FMVZ – Unesp. Botucatu, 2011.

Alimentação Nº de animais (n=26) Porcentagem (%)

Caseira 1 3,85

Ração 10 38,46

Caseira + Ração 15 57,69

As dosagens de progesterona tecidual estão apresentadas na tabela abaixo (tabela 10), separadas por grupos.

Tabela 10: Valores mínimo, mediana e máximo da progesterona tecidual em ng/mL dos grupos benignos, malignos e controle (n=31). Botucatu, 2011.

P4 tecidual

(ng/mL) Mínimo Mediana Máximo

benignos 0,04 0,09 0,15

malignos <0,01 0,06 0,30

controle <0,01 0,02 0,10

Ao converter os valores em micrograma (µg) por grama (g) de tecido, obtiveram-se os seguintes valores (tabela 11).

Tabela 11: Valores mínimo, mediana e máximo da progesterona tecidual em µg/g de tecido dos grupos benignos, malignos e controle (n=31). Botucatu, 2011.

P4 tecidual

(µg/g) Mínimo Mediana Máximo

benignos 0,02 0,05 0,09

malignos <0,006 0,03 0,18 controle <0,006 0,01 0,06

As dosagens de estrógeno estão representadas na tabela abaixo (tabela 12), separadas por grupos.

Tabela 12: Valores mínimo, mediana e máximo do estrógeno tecidual em pg/mL dos grupos benignos, malignos e controle (n=31). Botucatu, 2011.

E2 tecidual

(pg/mL) Mínimo Mediana Máximo

benignos 0,04 0,13 0,23

malignos <0,01 0,25 8,43

controle <0,01 0,21 3,18

A conversão dos valores do estrógeno tecidual em µg/g de tecido resulta em valores muito baixos e, portanto, difíceis de serem analisados e interpretados.

A expressão gênica dos receptores de estrógeno alfa (ERα), estrógeno beta (ERβ) e de progesterona (PR), por meio da técnica de q- PCR, estão representadas nas tabelas 13, 14 e 15 respectivamente.

Tabela 13: Valores mínimo, mediana e máximo da quantificação relativa (QR) dos receptores de estrógeno alfa (ERα) dos grupos benignos, malignos e controle (n=31). Botucatu, 2011.

ERα (QR)

Mínimo Mediana Máximo

benignos 0,70 181,10 361,40

malignos 0,17 7,18 1.147,00

controle 1,64 107,60 189,20

Tabela 14: Valores mínimo, mediana e máximo da quantificação relativa (QR) dos receptores de estrógeno beta (ERβ) dos grupos benignos, malignos e controle (n=31). Botucatu, 2011.

ERβ (QR)

Mínimo Mediana Máximo

benignos 0,09 22,57 45,04

malignos 0,06 1,00 39.920,00

controle 0,89 509,90 2.000,00

Tabela 15: Valores mínimo, mediana e máximo da quantificação relativa (QR) dos receptores de progesterona (PR) dos grupos benignos, malignos e controle (n=31). Botucatu, 2011.

PR

(QR) Mínimo Mediana Máximo

benignos 20,23 844,20 1.668,00 malignos 0,40 96,50 1.612.000,00

controle 13,40 10.930,00 26.500,00

Comparando-se as medianas das quantificações relativas (QRs) dos receptores de progesterona, estrógeno alfa e beta das neoplasias malignas de origem epitelial ou mista (epitelial e mesenquimal), foram observados os seguintes valores (Tabela 16):

Tabela 16: Valores das medianas das quantificações relativas (QRs) dos receptores de progesterona (PR), estrógeno alfa (ERα) e beta (ERβ) das neoplasias malignas de origem epitelial (n=10) ou mista (epitelial e mesenquimal) (n=14). Botucatu, 2011. Epitelial (n=10) Mista (n=14) PR 85,81 145,31 ERα 6,41 25,48 ERβ 0,40 4,88 7. Discussão

A distribuição dos tumores mamários malignos e benignos revelou uma maior incidência das neoplasias malignas nas cadelas da cidade de Botucatu e região. Das cadelas estudadas, 92,3% apresentavam neoplasia maligna.

Os estudos desenvolvidos com o objetivo de conhecer a proporção de tumores mamários benignos e malignos têm conduzido a resultados diferentes, embora algumas fontes descrevam que aproximadamente 50% dos tumores em cães são malignos. Entretanto, na literatura pode-se encontrar uma disparidade de dados no que se refere à prevalência dos tumores malignos, com valores superiores a 70% (CASSALI, 2000; BURINI, 2002).

Em um estudo realizado por Oliveira et al. (2003), no qual foram coletados e analisados os dados referentes a 85 cadelas apresentando neoplasias mamárias, 71,8% (61) foram neoplasias malignas e, 28,2% (24), benignas. Isso reforça o conceito de que em alguns países, os dados revelam uma proporção diferente do que ocorre em nosso país e, especificamente, na região de Botucatu, onde as neoplasias malignas ocorrem com maior frequência nas cadelas. Em um estudo realizado em

Portugal por Costa (2010) também foi verificada uma maior taxa de incidência de tumores malignos. Essa disparidade de dados pode ser em decorrência do diagnóstico mais tardio da doença em relação a outras localidades e a alguns países estrangeiros.

Em estudo realizado por Toríbio (2008), o índice de neoplasia mamária maligna foi elevado, com predominância do carcinoma evoluindo em tumor misto benigno, sugerindo, a necessidade da realização do diagnóstico precoce.

O estilo de vida da sociedade moderna contribui para aumentar a exposição da população a alguns fatores ambientais, nutricionais, químicos e hormonais potencialmente carcinogênicos. É claro que a interferência do homem nos hábitos alimentares dos animais e no seu ambiente também o coloca sob o mesmo risco (MOULTON, 1990).

A exposição a praguicidas em uma determinada região na Costa Rica foi relacionada com o aumento da incidência de câncer de mama nas mulheres (ULLOA, 2009).

São necessários mais estudos sobre a influência dos xenoestrógenos ou estrógenos ambientais (como o uso de pesticidas, inseticidas, acaricidas, por exemplo) já que estes são considerados carcinogênicos para as glândulas mamárias.

De todas as espécies de mamíferos estudadas, a cadela possui a incidência mais elevada para neoplasias de mamas (DONNAY et al., 1989). Como o ciclo estral da espécie canina é caracterizado por uma fase progesterônica longa, que dura de 60 a 100 dias após o início do estro, a exposição prolongada da cadela a esse hormônio originário do corpo lúteo durante a fase luteal estimula a proliferação do epitélio mamário (MOL et al., 1999).

Sua frequência aumenta após os seis anos de idade e o pico de incidência ocorre por volta dos dez a onze anos (JOHNSTON, 1998). Entretanto, foi constatado que a média de idade para a ocorrência de neoplasia mamária em cadelas pode variar de 7,8 a 8,8 anos (MOE, 2001).

A média de idade dos animais acometidos neste estudo foi de 8 anos e 3 meses, seguindo a tendência que é descrita em literatura.

Foi observada uma maior frequência dos tumores múltiplos localizados entre as mamas abdominais caudais e as inguinais (100% das cadelas deste estudo apresentavam acometimento dessas glândulas). Esses dados corroboram o trabalho desenvolvido por Toríbio (2008).

A maior incidência de tumores mamários na cadela ocorre nas mamas inguinais e abdominais, possivelmente por essas apresentarem um parênquima mamário mais desenvolvido e, consequentemente, mais exposto á ação hormonal (PELETEIRO, 1994; RUTTEMAN et al., 2001; QUEIROGA e LOPES, 2002; BERGMAN, 2004).

As raças mais acometidas foram a Poodle, seguida dos animais sem raça definida (SRD) e as raças Cocker (Spaniel e Americana). A princípio não existe predileção racial, mas alguns trabalhos apontam as raças Poodles, English Spaniel, Brittany Spaniel, English Setter, Pointer, Fox Terrier, Boston Terrier e Cocker Spaniel (MEUTEN, 2002).

Neste estudo, 60,72% das cadelas apresentaram estadiamento grau I e II, o que pode indicar uma maior preocupação por parte dos proprietários que observaram mais precocemente o surgimento das neoplasias em seus animais de estimação e procuraram ajuda do médico veterinário para tratamento da doença; diferentemente do que ocorreu no trabalho realizado por Toríbio (2008), no qual o estadio clínico III foi o mais observado. Segundo o mesmo autor, a condição socioeconômica dos proprietários foi significativa no estadiamento clínico das neoplasias, demonstrada pela correlação positiva entre o baixo nível de alfabetização e a baixa renda familiar das Zonas de Informação (ZIs) dos proprietários com aumento da frequência de tumores maiores que cinco centímetros e com ulceração.

Neste estudo, dois animais que foram classificados como grau V no estadiamento clínico, pertenciam a proprietários com menor condição socioeconômica comparados aos demais proprietários.

Os tipos histológicos de maior frequência observados no estudo foram o carcinoma complexo/tumor misto maligno (14) e o carcinoma simples (6). Segundo o trabalho de Filgueira (2003), o adenocarcinoma correspondeu ao tipo histológico mais comum. Com relação à histogênese, ocorreu uma predominância de neoplasias mamárias canina de origem epitelial, seja para as benignas ou malignas.

Segundo Argyle (1998), dos tumores malignos, os carcinomas são os mais comumente encontrados, correspondendo a 60% das neoplasias mamárias das cadelas.

Apesar do efeito protetor da prenhez nas cadelas não ser evidente e comprovadamente eficaz como nas mulheres, 42,31% das cadelas deste estudo eram nulíparas e 26,92% apresentaram apenas uma cria. Esses dados confirmam a informação contida no trabalho desenvolvido por Morris e colaboradores (1998), no qual eles descrevem que cadelas nulíparas ou com pequeno número de partos têm maior predisposição de câncer de mama quando comparadas com animais que tiveram várias crias.

O modelo de experimento animal demonstrou que a glândula indiferenciada de fêmeas jovens nulíparas foi mais suscetível a transformação por carcinógenos químicos (RUSSO e RUSSO, 1998).

Em estudo realizado por Toríbio (2008), os fatores hormonais mais frequentemente associados às neoplasias mamárias foram a pseudogestação, seguida da utilização de progestágenos exógenos, fatores considerados predisponentes.

Aproximadamente 27% das cadelas estudadas (26,92%) apresentavam histórico de pseudogestação. Vale ressaltar que este parâmetro foi avaliado sob forma de questionário, o que pode acarretar em respostas subjetivas por parte dos proprietários. Ou seja, alguns proprietários podem não ter detectado pseudogestação nos seus animais.

Para avaliar a relação da pseudogestação com o surgimento das neoplasias mamárias nas cadelas, seria necessário um estudo mais amplo. Portanto, apesar da maioria das cadelas com tumores de mama não apresentarem pseudogestação, segundo seus proprietários, esse estudo não descarta a relação deste fator hormonal no envolvimento do câncer de mama canino.

Já foi demonstrado que compostos a base de progesterona e estrógeno, quando administrados de forma prolongada ou doses muito elevadas, podem levar ao desenvolvimento de nódulos mamários nas cadelas (MIALOT et al., 1981; MORRISSON, 1998). Em relação ao uso desses hormônios, apenas uma cadela (3,85%) havia recebido hormônio a base de estrógeno, duas delas (7,69%) receberam contraceptivos a base de

progesterona e a maioria (88,46%) nunca receberam nenhum tipo de hormônio. Isso pode indicar uma maior conscientização por parte dos proprietários no uso inapropriado dos hormônios esteróides para prevenção da prenhez indesejada de seus animais.

A dieta utilizada pela maioria dos animais (61,54%) do presente estudo incluía alimentação caseira (57,69% das cadelas eram alimentadas com comida caseira-ração e 3,85% somente com comida caseira), representada principalmente pelo consumo de arroz, carne bovina e suína, já nos primeiros anos de vida do animal .

A alimentação caseira, principalmente no que se refere à alta ingestão de carnes de origem bovina e suína e pobre em carne de frango, apresenta correlação positiva com o desenvolvimento de neoplasias em fêmeas caninas (ZUCCARI et al., 2001b; FERRI, 2003). Segundo Burini (2007), o risco de desenvolvimento de neoplasias mamárias pode estar ligado a fatores nutricionais os quais interagem já nos primeiros meses de vida. Foi constatado que a obesidade no primeiro ano de vida, assim como um ano antes do diagnóstico pode predispor as fêmeas às neoplasias.

A ingestão de uma dieta rica em gordura, principalmente as poliinsaturadas, em modelos animais, possui um efeito promotor na tumorogênese (WILLETT, 2000). Demonstrou-se que 55% e 31% das cadelas portadoras de neoplasias mamárias eram alimentadas com comida caseira-ração e somente comida caseira, respectivamente (HATAKA et al., 2002).

Os valores das dosagens hormonais teciduais foram menores que aqueles apresentados em trabalhos anteriores. Segundo Peña e colaboradores (2003), os valores de progesterona obtidos dos homogenados teciduais foram, em média, de 1,48µg/g (tecido mamário normal), 1,44 µg/g para lesões benignas e 5,4 µg/g para tumores malignos. No presente trabalho, os valores de progesterona teciduais (controle, lesões benignas e malignas, respectivamente) foram de 0,022 µg/g, 0,054 µg/g e 0,050 µg/g.

O padrão de dosagem hormonal foi semelhante ao trabalho anterior (neoplasias malignas apresentaram uma concentração maior de progesterona tecidual em relação ao tecido mamário normal). A diferença é que no grupo das neoplasias benignas, os valores de dosagens obtidos

foram semelhantes ao grupo das neoplasias malignas, enquanto que no trabalho de Peña e colaboradores (2003), o grupo das neoplasias benignas apresentou dosagens semelhantes ao grupo controle (glândula mamária normal).

Essa diferença nos resultados pode ser devido a alguns fatores como falta de padronização da extração tecidual, incluindo erro em alguma(s) etapa(s) da técnica, número reduzido de cadelas do grupo das lesões benignas (n=2) ou diferença da técnica de dosagem hormonal.

Neste trabalho, foi utilizado o método de radioimunoensaio (RIE) e no trabalho de Peña e colaboradores (2003), a técnica empregada foi a de ensaio imunoenzimático (EIA). A primeira utiliza isótopos radioativos como marcador e a segunda, enzima, apesar das duas técnicas terem como princípio básico a detecção do complexo antígeno/anticorpo. Talvez a diferença na metodologia utilizada nos dois experimentos explique a diferença obtida nos resultados.

Portanto, através deste trabalho, foi permitido comprovar que os tumores mamários são capazes de sintetizar progesterona, funcionando como um órgão endócrino. Além disso, verificou-se que as neoplasias de um modo geral sintetizam uma quantidade maior de progesterona em relação à glândula mamária normal.

Em relação ao estrógeno, como não foi possível a conversão para a unidade de µg/g de tecido, a comparação dos valores obtidos não pôde ser realizada. SARTIN et al. (1992) não obtiveram sucesso na dosagem de estrógeno plasmático em cadelas não castradas, portadoras de tumor de mama, no momento da cirurgia, porque o nível hormonal era inferior ao limite mínimo passível de ser detectado no ensaio.

Foi permitido observar que a glândula mamária normal e a neoplásica também é capaz de sintetizar hormônio estrogênico, como é relatado por vários autores (BLANKENSTEIN et al., 1999; PEÑA et al., 2003; ILLERA et al., 2006). Assim como no câncer de mama humano, a glândula mamária neoplásica canina pode atuar como um órgão endócrino e pode sintetizar e secretar prolactina e hormônios esteróides de uma maneira autócrina/parácrina (BLANKENSTEIN et al., 1999; QUEIROGA et al., 2005).

Análises dos receptores de estrógeno e progesterona tornaram-se aceitas e são ferramentas usadas para estabelecer o prognóstico e também para avaliar se o tratamento hormonal pode ser mais benéfico que a terapia citotóxica (SARTIN et al., 1992).

Receptores de progesterona e estrógeno estão presentes tanto no tecido neoplásico quanto no tecido mamário normal (MOULTON, 1990;

RUTTENMAN, 1990; DONNAY et al., 1993; DONNAY et al., 1995a). Noventa e cinco por cento do tecido mamário canino normal contém receptores de estrógeno e/ou progesterona (DONNAY et al., 1995b). Mais de 50% dos tumores mamários caninos e 65-70% dos tumores de mama humanos expressam receptores de estrógeno e progesterona (THURÓCZY et al., 2007).

De forma geral, nos tumores malignos, a expressão dos genes que codificam os receptores desses hormônios pode estar diminuída, em particular nas neoplasias de maior grau de malignidade ou nas fases mais avançadas da doença (PELETEIRO, 1994). Aproximadamente 80% dos tumores e 95% dos tecidos mamários normais apresentam concentrações detectáveis de ER, PR, ou ambos, e que cerca de 72% dos tumores mamários em cadelas apresentam ambos os tipos de receptores, e menos de 20% apresentam somente um tipo de receptor (DONNAY et al., 1995).

Segundo Nieto et al. (2000), tumores mamários malignos apresentam uma expressão de receptores de estrógeno alfa (ERα) menor que os tumores benignos. Segundo Silveira (2009), a imunomarcação de receptores hormonais diminui com a malignidade.

A avaliação dos receptores de estrógeno e progesterona na Medicina Veterinária é comumente realizada através da técnica de imunohistoquímica. Neste trabalho, utilizou-se a técnica de q-PCR e empregou-se a análise de quantificação relativa.

Os resultados obtidos através do q-PCR demonstraram que os três grupos de animais (lesões benignas, malignas e controle) expressaram receptores de estrógeno alfa, beta e progesterona.

Pode-se observar que a expressão dos receptores neste estudo segue a tendência da expressão descrita em literatura. Ou seja, a glândula mamária normal expressa uma quantidade maior de receptores, seguido das

lesões benignas e, por fim, de forma decrescente, os tumores malignos. Além disso, é importante destacar que todos os tumores malignos expressaram os três tipos de receptores, em maior ou em menor grau.

A expressão dos ERα e ERβ, tanto nos grupos de neoplasias de