Assim, o objeto de estudo é o Grupo de Capoeira Angola do Ceará (antigo Grupo Capoeira Angola Pelourinho – GCAP - Núcleo Ceará)26, como já apresentado de forma breve na introdução deste trabalho. A escolha em estudá-lo detém-se no fato de tratar-se do único grupo de capoeira angola reconhecido no Ceará (ou pelo menos em Fortaleza27), que busca através da sua vivência transmitir uma capoeira tradicional, ou mais próxima de como foi ensinada por Mestre Pastinha28 e repassada para seus discípulos. O grupo é coordenado pelo Mestre Armandinho, sendo este atualmente o principal personagem da difusão da capoeira angola no Ceará, fundando o grupo em Fortaleza no ano de 2001.
Mestre Armandinho nasceu no Rio de Janeiro, mas precisamente em Nova Friburgo, em 04 de julho de 1960. Na sua infância seus pais se mudaram para São Paulo, onde moraram em várias cidades do interior paulista até grande parte da sua adolescência. A residência em várias cidades paulistas se deve ao fato do seu pai ser na época um perseguido político da ditadura militar que havia se instaurado em todo o país. Em São Paulo, tem uma formação em karatê, ao qual deve suas noções em artes marciais, chegando até a dar aulas dessa luta oriental. Quando volta ao Rio de Janeiro em meados dos anos de 1970, não se adaptou ao estilo de karatê que era ensinado por lá, visto que o seu aprendizado era fundamentado em uma matriz, segundo Armando, mais original do karatê, conhecida como “Shotokan”, o que o fez mais tarde parar de treinar, e posteriormente abandonando totalmente, quando passa a ser adepto da capoeira angola. Antes disso, Armando passa a ser freqüentador das manifestações “afro-brasileiras”, tais como a Umbanda, o Candomblé29 e as Escolas de Samba cariocas. Conhece a capoeira angola em 1976, através do Mestre Marco Aurélio30, que na época ainda
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A sede do grupo localiza-se em Salvador, com a coordenação geral do Mestre Moraes, figura importante, senão central da capoeira angola a partir dos anos 1980. Ele é discípulo de Mestre João Grande, o qual faz parte da linhagem que tem Mestre Pastinha como referência principal, ou seja, Mestre Moraes também descende desta linhagem, e, por conseguinte Armando igualmente.
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Em viagens feitas pelo interior do Ceará, não encontrei nenhum outro grupo que tivesse as mesmas características do grupo estudado: a predominância de um enraizamento com outras escolas de capoeira angola.
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Maior referência de todos os tempos da capoeira angola baiana.
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Armandinho é adepto do Candomblé desde então, sendo “filho de santo” de um “Ilê”, ou Casa de Candomblé aqui no Ceará, a qual é coordenada por mãe Valéria de Lodun Ede.
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Marco Aurélio foi formado mestre pelo Mestre Moraes, mas algum tempo depois rompe laços com esse mestre.
41 não era mestre, e depois com Mestre Moraes, tornando-se discípulo deste último a partir de 1977, período em que Mestre Moraes residia na capital carioca.
Aqui abro um parêntese para ratificar um quadro reproduzido nas teses de Araújo (2004) e Simões (2006), no qual foi codificado por Sylvia Robinson e publicado em 2002 pela The
International Capoeira Angola Foudation. O quadro apresenta a “árvore genealógica” da
capoeira angola, principalmente a baiana e a carioca, representada a partir de contemporâneos de Mestre Pastinha, no qual o próprio é apresentado como uma das principais ramificações, onde acima de seu nome está apenas o de Mestre Benedito, com quem afirma ter aprendido a capoeira. Abaixo de Mestre Pastinha encontram-se os nomes dos maiores disseminadores da sua capoeira: Mestre João Grande e Mestre João Pequeno. Abaixo do nome de Mestre João Grande, situa-se a ramificação, na qual o trabalho de Rosângela Araújo (Op. cit.), ou Mestra Janja, do Grupo Nzinga, se baseia e onde também está inclusa a linhagem da qual o grupo estudado por mim descende: a linhagem de Mestre Moraes, sendo ele, por sua vez, integrante da linhagem de Mestre Pastinha, através de seu mestre, João Grande. O referido quadro, através de suas ramificações, estabelece quem é mestre de quem, ou seja, de qual “raiz” os discípulos descendem diretamente. E, embora afirmando a devida importância para o seu aprendizado em capoeira angola, Mestre Armandinho não descende do Mestre Marco Aurélio, como é colocado no quadro, mas sim, de Mestre Moraes, como ao longo do trabalho é enfatizado. Mestre Armandinho tem na verdade uma dupla iniciação com Mestre Marco Aurélio e depois com Mestre Moraes, se firmando posteriormente somente com Mestre Moraes, tendo com isso isso uma ligação mais forte, a qual pode ser definida de descendência. Quando Mestre Moraes retorna à Bahia em 1982, o então aprendiz Armandinho o acompanha, mas por poucos meses, retornando ao Rio de Janeiro logo depois. Mais tarde, novamente retorna à Bahia e ao Rio de Janeiro em seguida. Sua chegada ao Ceará somente acontece em 1994, quando ele resolve buscar melhores condições de vida em Fortaleza, tendo como apoio sua companheira da época, que é de origem cearense, com família ainda radicada no Ceará. Ao chegar em Fortaleza, estava muito “afiado” com a capoeira, e teve contato com o Mestre Jair, do Grupo Marabaiano, o qual o incentiva a fundar um grupo no bairro Carlito Pamplona, onde firmava residência. No entanto, a experiência não durou muito tempo, por causa da violência que regia os grupos de capoeira na época, fazendo com quê Mestre Armandinho afastasse completamente da capoeira. Dessa forma, durante alguns anos ficou afastado da capoeira, pois precisando trabalhar para manter o devido sustento da família, não tinha, segundo ele, o tempo necessário para a dedicação que a capoeira angola exige aos seus
42 praticantes. Somente em 1999, quando passando em frente ao CSU do Conjunto Ceará, viu uma enorme faixa divulgando uma oficina de capoeira angola com Mestre Moraes que aconteceria naquele espaço. Surpreso com tal oficina tratou de também comparecer ao local para confirmar a presença do Mestre Moraes e retomar o contato com seu antigo mestre. Na ocasião, Mestre Armandinho não mantinha vínculo com o seu grupo de origem (GCAP, criado em 1980) nem com qualquer outro grupo do Ceará; seu afastamento era geral, contudo a vontade em retornar à capoeira era grande. Dessa forma, com uma longa conversa com Mestre Moraes, como normalmente acontece na capoeira angola, é que Mestre Armandinho decide retomar as aulas e a possibilidade de fundar um núcleo do GCAP em Fortaleza31, devidamente orientado por seu mestre.
Assim acontece. Mesmo não mantendo “laços” com outros grupos, Mestre Armandinho já era conhecido no cenário da capoeira cearense como um exímio jogador e conhecedor da capoeira angola, além de ser descendente da linhagem de uma capoeira angola que tem como representante principal o Mestre Pastinha, ou seja, um descendente da “Escola Pastiniana”. Dessa forma, foi formada a primeira turma para treinar capoeira angola em Fortaleza, mais ainda não como GCAP, pois uma condição imposta pelo Mestre Moraes para que o grupo se tornasse um núcleo do GCAP, seria a consolidação do grupo, ou seja, um grupo sólido, com alunos fixos, onde pudessem ser transmitidos os saberes de uma forma continuada.
O espaço utilizado por Mestre Armandinho para esse momento de experimentação da capoeira angola localizava-se no Campus do Pici da UFC: era um pátio coberto que estava sendo utilizado para estacionar carros, mas, na verdade, sem o uso adequado. Então, por intermédio de um funcionário dessa Universidade e também mestre de capoeira, foi que Armando conseguiu transformar o antigo estacionamento em um local de aprendizado para seus primeiros discípulos no Ceará. Uma coincidência sobre o espaço no Pici, é que o chão feito de cerâmica intercalada nas cores preta e branca, fazia (de alguma forma) referência ao local onde funcionava o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho em Salvador. Talvez isso tenha gerado motivação para que o grupo se tornasse “consolidado”, conforme os critérios do Mestre Moraes. Em pequenos detalhes a “memória biográfica” pode ser ativada, de acordo com Bosi (2003), os objetos fazem parte da memória com símbolos da própria vida, no caso o piso que traz recordações de tempos outros e formam a identidade.
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Atualmente, com o desligamento do núcleo Ceará, existem núcleos do GCAP em São Paulo, Rio Grande do Norte e Japão, além da sede em Salvador.
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Como visitante, cheguei a conhecer o espaço que funcionava no Pici. O ano era 2002, um pouco depois de ter participado de uma atividade com Mestre Armandinho na UFC. Mas, ainda não ingressaria na capoeira angola; treinaria ainda mais dois anos no Centro Universitário de Capoeira (CUCA), onde predominava a capoeira denominada de “contemporânea”.
Figura 0232 - Mestre Armandinho jogando com o professor João Batista (CUCA). FACED – UFC (2002).
Assim, estabilizando-se um determinado tempo no espaço do Campus do Pici, chega o momento do grupo se tornar um núcleo do GCAP, recebendo a visita do Mestre Moraes como oficialização desse “contrato”. Do Pici, o grupo passa a realizar os seus encontros as terças, quintas e sábados, no Diretório Central dos Estudantes, o DCE, também da UFC, sendo esse espaço cedido pela gestão de estudantes que apoiava a capoeira. O grupo permaneceu no DCE de 2002 a 2005, quando novamente muda-se para um espaço, desta vez cedido por um grupo de capoeira33, que treinava no local às segundas, quartas e sextas. O recinto também fazia parte da UFC, agora no Campus do Benfica, mas havia sido cedido à Associação de Capoeira, Cultura e Arte (ACCARTE) há muitos anos. É nesse espaço que o meu envolvimento com o grupo principiaria no ano de 2006, possibilitando meu o contato anterior com o grupo, para posteriormente desenhar a problemática.
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Algumas ilustrações fazem parte do arquivo do grupo de capoeira angola em evidência.
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Figura 03 - Treino do GCAP/CE no Diretório Central dos Estudantes – UFC (2005).
Em 2007, com a extinção do local, causada por uma reforma realizada pela UFC, o grupo desloca-se novamente para dessa vez treinar em uma organização não governamental, a qual é coordenada por um antigo aluno do grupo, que gentilmente concedeu um salão para os encontros do GCAP; sendo esse o atual endereço do grupo, onde além dos integrantes adultos, passam a integrar o grupo crianças que fazem parte da comunidade do “Campinho do América”, localizada próxima à ONG34. Em 2009, Mestre Armandinho se desvincula da sede do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho na Bahia, causado pelo distanciamento e perca de contato com Mestre Moraes, ocasionando que os demais integrantes do grupo também acolhessem a sua decisão e igualmente se desvinculam. Assim, o Grupo de Capoeira Angola do Ceará (denominação por mim criada para dirigir-me ao grupo, que até então não possuía um nome) dá continuidade às suas atividades sem o vínculo hierárquico de outro grupo, contudo, mantendo as matrizes de origem, tal como as regras e cores utilizadas no uniforme.
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A partir dafase de inserção das crianças não foi mais possível acompanhar como integrante do grupo, portanto, essa fase não será tratada nesse trabalho.
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Figura 04 – Mestre Armandinho com o GCAP/CE no espaço do Campus do Benfica (2007).