A prática de canto coral representa uma manifestação musical bastante significativa, muito utilizada como ferramenta educativa, difundida e praticada nos mais diversos espaços de diferentes culturas. Conforme Barreto (1973),
Define-se como canto coral o canto simultaneamente entoado por várias vozes, em uníssono (canto homofônico), ou em partes diversas (canto polifônico). A palavra coral deriva de coro, termo que, segundo alguns autores, designava o local, onde se dançava e cantava. Outros historiadores, porém, atribuem a origem da palavra coro (do grego khoros), ao canto em uníssono dançado e ritmado por conjuntos de crianças e adultos, quer de um, quer de outro sexo. (BARRETO, 1973, p. 13).
Não se pode afirmar com exatidão quando esta prática musical teve início. No entanto, alguns autores apontam a presença do canto coral em várias civilizações desde a Antiguidade. Nesta direção, Cartolano (1968) afirma que:
Ainda que de formas diversas, o canto em conjunto sempre se fez presente em todos os povos, desde os mais antigos e primitivos aos mais modernos. Desde os povos antigos como os Egípcios, Assírios, Hebreus, Indús, Chineses, Persas, até aos Ciganos e principalmente os Gregos – que cultivavam a música como parte obrigatória da educação do povo – o canto em conjunto [...], sempre conjugado com a dança e a poesia, estava intimamente ligado às cerimônias religiosas e cívicas, e, com real destaque, nos Jogos Olímpicos, que eram celebrados na Grécia antiga, de 4 em 4 anos, em honra a Júpiter. (CARTOLANO, 1968, p. 15).
Sobre a origem e uso da palavra coral, Barreto (1973) afirma que “A palavra coral
determina um gênero de composição provinda dos cântigos adotados por Martinho Lutero na Reforma protestante.” Esses cânticos eram escritos sobre temas gregorianos ou melodias
populares, entoados em uníssono e harmonizados posteriormente para arranjos a quatro vozes. Além de Martinho Lutero, muitos compositores dedicaram-se a esse gênero, como por exemplo, Johann Sebastian Bach, no século XVIII.
A evolução da prática de canto coral confunde-se com a própria evolução da história da música. Acredita-se que o canto coletivo tenha começado em uníssono para, posteriomente serem acrescentadas outras vozes e também acompanhamento instrumental. Conforme Barreto (1973), esta prática surgiu com caráter religioso entre os povos primitivos, compreendendo a época da homofonia, ou seja, o canto em conjunto a uma só voz, passando pelo longo período da Idade Média, a serviço da igreja católica, tendo como grandes representantes Santo Ambrósio, no século IV, e São Gregório Magno, no século VI. Surge daí uma grande vertente da música vocal no período medieval, o cantochão ou canto gregoriano.
No século IX começaram a aparecer as primeiras experiências de harmonia a duas vozes, era a polifonia, onde a uma voz gregoriana acrescentava-se um contracanto em notas paralelas, que se afastavam do uníssono em intervalos de quarta e quinta, voltando sempre para o uníssono. Muitos séculos de experiências escreveram uma história rica e diversificada. Neste sentido, Barreto (1973) afirma que:
A música de coro foi aos poucos se definindo com o progresso dos conhecimentos musicais, traduzida no desenrolar da polifonia na descoberta da harmonia, na evolução da teoria e notação musicais, na estruturação das formas de composição, na utilização dos diversos timbres vocais e emprego de instrumentos sonoros mais aperfeiçoados. (BARRETO, 1973, p. 18).
Aos poucos também foi definida a classificação dos tipos de vozes conforme o timbre vocal. Dessa forma, para vozes adultas, a classificação para as masculinas são baixo, barítono e tenor, representando respectivamente as vozes graves, médias e agudas. Já para vozes femininas, a divisão é realizada da seguinte forma, contralto, meio soprano e soprano, seguindo a mesma configuração das masculinas. Vale lembrar que essas categorias foram baseadas em vozes europeias e que existem divisões também para vozes infantis. Este tipo de ordenação requer conhecimentos técnicos, exigindo dos dirigentes de grupos muita atenção para evitar classificações equivocadas.
Conforme Barreto (1973), no final da Idade Média, a temática religiosa foi perdendo espaço para a música popular e temas corriqueiros, como amizade, animais e até guerras,
invandiam as missas, que passaram a denominar-se missas recheadas. No Renascimento, os temas populares mostraram-se presentes tanto na música religiosa quanto na profana.
A história da música vocal é tão extensa quanto a própria história da humanidade, que presenciou a criação de inúmeras organizações vocais praticadas e difundidas em várias culturas, quer fossem adultas, infantis, com caráter religioso ou profano, cívico, educacional, folclórico, com finalidades infinitas. Por isto, a colocação de Barreto (1973, p. 34) continua atualizada quando menciona que “É muito grande a diversidade de obras corais escritas até o presente para os mais diferentes conjuntos vocais e não estaremos exagerando ao dizer que é raro o compositor que não tenha escrito algo para coro”.
No Brasil, a prática vocal, juntamente com outras modalidades musicais, chegou por meio da catequização dos missionários jesuítas. Barreto (1973, p. 52) descreve este processo como “Um misto de canto gregoriano e música profana trazida pelos colonizadores uniu-se à contribuição rítmica africana e indígena, formando o balbuciar do canto coletivo empregado nas cerimônias litúrgicas, autos e mistérios”. Esta autora acrecenta ainda que o coro teve uma presença significativa nas capelas, teatros e escolas.
A grande maioria dos corais no Brasil, como em outras partes do mundo, é composta por amadores. Esses movimentos estão geralmente ligados a uma instituição, que pode ser de natureza comunitária ou independente. Nos limites deste trabalho passaremos a tratar agora de uma questão bastante relevante para a história da prática coral amadora no Brasil, que são as concentrações orfeônicas na década de 1930 e suas implicações no processo educacional e político.