Em 1972, a revista Veja publicou uma matéria intitulada “A cidade dos Jovens”. A reportagem abordava o Festival de Inverno de Ouro Preto e dividia os participantes em dois grupos: os obedientes e os rebeldes, ou os do “festival de arte” e
os do “festival paralelo”, respectivamente. Os primeiros – que não eram, necessariamente, tão obedientes assim – era composto pelos cursistas regularmente matriculados no evento. Conforme a revista, este grupo era constituído por professores, estudantes em férias, jovens interioranos criando coragem para seguir a profissão de artista e “simples mocinhas enriquecendo o cabedal de prendas domésticas”. O segundo grupo, o dos “rebeldes”, agregava as pessoas que iam para Ouro Preto “curtir” a cidade. Para o periódico, além de não pagarem a inscrição, eram “gente despreocupada e descompromissada”2.
A reportagem acima, em seus pontos básicos, não se diferencia muito de diversas matérias publicadas na imprensa nacional sobre o Festival de Inverno: a divisão entre oficial e paralelo, a dedicação dos cursistas e o descompromisso dos “paralelos”, além de fotos de aulas ao ar livre e de hippies. A “cidade dos jovens” descrita era uma cidade tanto da cultura quanto da “perdição”3. A repercussão do Festival de Inverno na imprensa, ressaltando tanto os cursos e a programação cultural do evento quanto à animada movimentação paralela, foi muito importante para a divulgação do Festival e para atrair um grande volume de pessoas, não necessariamente turistas, para a cidade.
As estatísticas publicadas pela imprensa (normalmente repassadas pela prefeitura do município) costumavam mostrar números não abaixo de 100 mil visitantes em Ouro Preto, durante o Festival de Inverno4. Em 1971, teria chegado a 350 mil5. Estes números podem estar superestimados, o que não é improvável. Porém, esses valores são as estimativas de um público flutuante ao longo do mês de julho, ou seja, não estavam todos ao mesmo tempo na cidade. Muitos dos visitantes passavam somente o dia em Ouro Preto, indo embora, ao fim da tarde, de ônibus, carro ou carona. Outros passavam o fim de semana, ou mesmo todo o mês. A cidade possuía, em 1970, uma população de 48 mil pessoas. Na região sede do município, sem contar os distritos, residiam 25 mil habitantes6. Se utilizarmos como referência a estatística mais baixa (cem mil), haveria,
2Cidade dos Jovens. Veja, n.203, 26 jul. 1972, p.60. 3Cidade dos Jovens. Veja, n.203, 26 jul. 1972, p.60.
4Festival de Inverno termina com entrega de certificados. O Diário, Belo Horizonte, 26 jul. 1968; BU-
UFMG, Col. Esp., FI, cx. 1967/Recortes.
5PM, Dops e mais quatro delegacias vão vigiar Inverno em Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte,
01 jul. 1972; BU-UFMG, Col. Esp., FI, cx. 1972/Recortes.
6Segundo dados do Plano de conservação, valorização e desenvolvimento de Ouro Preto e Mariana.
Apud: LOPES, Myriam Bahia; LIMA, Kleverson Teodoro; VIEIRA, Luiz Alberto Sales. Morro da
Queimada: século XX. Dísponível em: <morrodaqueimada.fiocruz.br/pdf/Morro da Queimada seculo XX.pdf>. Acesso em: 10 out. 2012.
ao longo do mês de julho, um público visitante no mínimo quatro vezes maior que a população do núcleo urbano de Ouro Preto. Através desses números podemos perceber que o grande impacto populacional provocado pelo Festival na cidade não era causado pela presença dos cursistas, professores e artistas que participavam oficialmente, mas pelos turistas e demais visitantes que vinham atraídos pelo clima do Festival.
Paralelo ao surgimento do Festival de Inverno, havia políticas públicas de incentivo ao turismo sendo implementadas pelos governos estadual (Hidrominas) e federal (Embratur). E o próprio Festival de Inverno estava envolvido nessa política. Como afirma Arley Andriolo, já havia nas décadas anteriores um processo de construção social, em nível nacional, de Ouro Preto enquanto “cidade histórica turística”, que teria se consolidado na década de 19707. Desta forma, a cidade já possuía um público turístico próprio, mas que seria ampliado pelo Festival8, enquanto atração, e pelo próprio processo de implementação e consolidação de uma indústria turística no país, auxiliado por políticas públicas9.
O ano de consolidação da imagem de Ouro Preto como “cidade histórica turística”, 1973, coincide com o momento do chamado “milagre brasileiro” (início da década de 1970) e também com o momento de maior repercussão e tamanho do Festival de Inverno na cidade10. As imagens de Ouro Preto e do Festival estavam ligadas, de alguma forma, com a representação de otimismo promovida pelo governo militar. Havia, conforme Carlos Fico, na classe média e nas elites urbanas a presença de um sentimento otimista, tanto em função da propaganda realizada pelo regime militar quanto pelo desenvolvimento econômico e modernização do país11. Devido à ascensão econômica presente nesses setores durante o período do “milagre”, houve por uma parcela destes grupos o investimento de parte de seus capitais na “aquisição” de cultura.
7O recorte histórico do autor estende-se de 1897 até 1973. ANDRIOLO, Arley. Ouro Preto, 1897-1973: a
construção social de uma cidade histórica turística. Dissertação (Mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas), Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.
8Em 1977, quando a sede principal do Festival de Inverno foi Belo Horizonte, o jornal Diário da Tarde
publicou uma matéria intitulada “Um grande vazio na cidade em paz. O festival está morto” que mostrava uma grande queda do turismo em Ouro Preto devido ao fato de a sede principal do Festival naquele ano ser Belo Horizonte e não na cidade. NETTO, Eustáquio. Um grande vazio na cidade em paz. O festival está morto, Diário da Tarde, Belo Horizonte, 18 jul. 1977; BU-UFMG, Col. Esp., FI, cx. 1977/Recortes.
9O termo “indústria turística” é constantemente utilizada na documentação da Embratur, das décadas de
1960-70, citada por Louise Alfonso. Cf.: ALFONSO, Louise Prado. EMBRATUR : formadora de imagens da nação brasileira. Dissertação (Mestrado em Antropologia), Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.
10Em 1974, com a posse do novo reitor, Eduardo Cisalpino, há uma redução drástica no número de vagas
oferecidas (ver quadro II, na seção 2.2 deste trabalho).
11FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: propaganda, ditadura e imaginário social no Brasil. Rio de
Ouro Preto, com todo o seu peso simbólico e histórico, tornava-se destino do turismo cultural.
Havia, então, paralelo às atividades oficiais do Festival de Inverno, um grande público em Ouro Preto, que por si só já causava um forte impacto na cidade. A presença de um número tão grande de visitantes provocava uma verdadeira mudança da paisagem da cidade, principalmente nos fins de semana. A imprensa costumava ressaltar uma imagem jovem (embora não fosse o único público do Festival) da multidão com suas roupas coloridas, cabelos e barbas compridos, reunidos nas praças e adros ou circulando pelas ruas de Ouro Preto: “Vestimentas exóticas – das maxis-saias às pantalonas – vistas no meio das multidões que ocupam as ruas dão à ex Vila Rica um aspecto cosmopolita”12.
A comparação com cidades cosmopolitas não era incomum: “era chiquíssimo ir à Ouro Preto em julho: a cidade apresentava um aspecto de Londres, Amsterdam, que parecia colocar quem ia lá dentro dos acontecimentos do mundo”13. Aqui podemos perceber a aproximação com outras cidades que possuíam uma intensa cena contracultural. Essa comparação era possível em função das imagens, veiculadas na mídia, desses outros lugares distantes, onde ocorriam intensas transformações culturais. Elas davam uma sensação de proximidade. Desta forma, a própria imagem de Ouro Preto enquanto uma cidade cosmopolita atraía mais pessoas. Os hippies tornavam-se uma atração a parte, algo exótico que poderia ser visto em Ouro Preto. Alguns turistas os viam maravilhados:
Uns, quando encontram uma moça que, às 3 da tarde passeia pela praça Tiradentes, com seus cabelos cacheados e compridos, blusa colorida e olhar distante, tocando uma flauta e pisando leve, falam espantados:
“– olha lá, gente, olha uma hippie”.
E a família esquece por um minuto de ir tomar a coca-cola ou comprar chicletes, e olham todos admirados. O pai e a mãe dão graças aos céus de terem todos os seus filhos ali em volta, enquanto os filhos olham com surpresa, e talvez com inveja, a curtição da “hippie” desconhecida14.
Parte das pessoas que iam para Ouro Preto durante os Festivais de Inverno,
12Ouro Preto receberá 200 mil pessoas. A Tarde, Juiz de Fora; BU-UFMG, Col. Esp., FI, cx.
1970/Recortes.
13MARINA, Ana. Festival não badalativo. Diário de Minas, Belo Horizonte, 29 jul.1974; BU-UFMG,
Col. Esp., FI, cx. 1972/Recortes.
14MEDEIROS, Mariângela. Olha os hippies andando na Vila Rica de outros rebeldes. Estado de Minas,
tanto participantes oficiais do evento (cursistas, artistas, professores...), quanto os viajantes e turistas, apropriavam-se de diferentes formas do imaginário da contracultura e das mudanças comportamentais que estavam em curso. Segundo Sílvio Figueiredo e Doris Ruschmann, na contemporaneidade houve a construção de uma diferenciação conceitual entre o turista e o viajante. De uma forma mais geral, para o viajante, o viajar seria “um ato de transformação e de educação”, “uma prática densa, uma experiência profunda”15. Em relação ao turista, é construída uma imagem de “mau viajante, que obedece a lógica do mercado da sociedade de consumo e rege-se por valores externos às atrações que visita”. O turista seria “um viajante apressado e superficial” que preferiria “os monumentos aos seres humanos”16.
Figura 33. Jovens “curtindo” o festival paralelo no adro da igreja de São Francisco de Assis. In: Um inverno cheio de calor. Jornal do Brasil, 16 jul. 1971
Em relação à Ouro Preto durante o Festival de Inverno, é possível encontrarmos figuras arquetípicas que representam essas duas imagens. Os turistas em Ouro Preto, segundo o jornalista Artur Reis, “sobem e descem as ladeiras durante o dia, fazendo pose para as fotografias em frente às igrejas e, durante a noite estão esgotados para assistirem a um concerto ou a um bailado”17. Já o viajante presente em Ouro Preto durante o Festival de Inverno seria aquele que adota o “estilo de viajar”18 da juventude da época, a viagem de carona, de forma precária (“todo lugar por onde andamos é uma
15FIGUEIREDO, Sílvio Lima; RUSCHMANN, Doris Van de Meene. Estudo genealógico das viagens,
viajantes e turistas. Novos Cadernos NAEA, v.7, n.1, p.155-188, jun. 2004. p.179.
16FIGUEIREDO, Sílvio Lima; RUSCHMANN, Doris Van de Meene. Estudo genealógico das viagens, viajantes e turistas, p.182.
17REIS, Arthur. Festival de Inverno. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 31 jul.1972; BU-UFMG Col.
Esp., FI, cx. 1972/Recortes.
18ANDRIOLO, Arley. Metamorfoses do olhar na viagem de Goethe à Itália. ArtCultura, Uberlândia,
forma de mudar”, dizia um dos “paralelos” do Festival19). Entretanto, entre esses dois estereótipos, havia uma gama heterogênea que se apropriava de diferentes formas tanto do imaginário da contracultura e do desbunde quanto dos princípios do turismo de massa, como o trabalhador que viajava nos momentos de férias e de folga20. Desta forma, havia em Ouro Preto pessoas que trabalhavam durante a semana e que iam à cidade nos dias de folga “curtir” o Festival e sua movimentação paralela, que era explorada pela mídia como uma de suas atrações, como na imagem acima (figura 33). Em relação ao Festival de Inverno, a imprensa costumava veicular, mesmo que de forma preconceituosa às vezes, imagens de liberdade, juventude, arte, cultura, boemia e desbunde.
A movimentação paralela em Ouro Preto era bastante agitada em função do grande número de visitantes. Privilegiamos em nossa abordagem do festival paralelo as práticas que provocavam tensionamentos na cidade durante o período de realização do Festival de Inverno. No caso, a vida noturna, a liberação sexual, o consumo de drogas e a apropriação tática do território da cidade. Como nem tudo era festa, houve também a reação dos setores conservadores da cidade e repressão policial.