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A análise da isotopia que permite a objectivação dos modos de trabalho pedagógico78 postos em prática pelos formadores permite-nos constatar que o modo de trabalho pedagógico predominante centra-se na recusa do “modo escolar de educar” focado este na transmissão de conteúdos e conhecimentos escolares e no privilegiar de um “modo

não escolar de educar” em que ganham centralidade as metodologias de reconhecimento de competências e o recurso permanente às aprendizagens de cariz mais

“prático”. A aprendizagem pela prática é uma estratégia pedagógica utilizada por muitos dos formadores entrevistados para contornar a percepção construída por estes de uma certa aversão às aprendizagens “teóricas” que segundo dizem com o tipo de público com que trabalham é ponto assente que não resulta do ponto de vista pedagógico. O modelo do modo não escolar de educar caracteriza-se pela não existência de “formadores transmissivos”, pelo facto de ser levado à prática por formadores que têm muita experiência em educação de adultos quer ao nível dos cursos EFA quer ao nível dos Centros Novas Oportunidades. Caracteriza-se também pela desescolarização

78 Inspirámo-nos aqui na expressão utilizada por Lesne (1984:42) que define os “modos de trabalho pedagógico” como construções abstractas que não existem empiricamente em parte alguma mas que se constituem como instrumentos heurísticos de análise de grande fecundidade na compreensão das práticas formativas de educação de adultos. Da sua proposta tipológica o modo de trabalho pedagógico de tipo transmissivo, de orientação normativa, aproxima-se mais do que designámos no nosso estudo por modo escolar de educar, enquanto o modo de trabalho pedagógico de tipo incitativo, de orientação pessoal e o modo de trabalho pedagógico de tipo apropriativo, centrado na inserção social do indivíduo apresentam propriedades específicas que os aproximam mais do que designamos por modo não escolar de educar.

155 dos modos escolares de educar: “Aqui não se ensina como na escola”. Os formadores que põem em prática este modelo caracterizam-se ainda pelo facto de há vários anos funcionarem nesta “engrenagem do reconhecimento das competências” de que os adultos são portadores, reconhecendo-se a centralidade do adulto no processo de desocultação das suas competências. Quanto ao trabalho pedagógico procura-se evitar a centralidade dos saberes teóricos e academicistas para se centrar na aprendizagem pela

“prática”. Procura-se que a aprendizagem dos formandos tenha um sentido em função da vida dos mesmos e ao mesmo tempo que a esse sentido se junte a condição da utilidade social das aprendizagens. O formador mais do que um mero transmissor de conhecimentos é alguém que orienta o outro com quem e sobre o qual trabalha e é ao mesmo tempo um suporte que leva o próprio adulto a encontrar o seu caminho no âmbito da “aprendizagem ao longo da vida”.

O testemunho da Sónia é muito claro para compreendermos a forma como os formadores põem em prática um “modo não escolar de educar” rejeitando a perspectiva tradicional do “ensino”. Como nos refere esta entrevistada chave, mediadora de um dos cursos EFA em análise, os colegas de formação com quem trabalha não põem em prática um modo escolarizado de educar adultos e pelo contrário estão socializados a partir da forte experiência anterior na educação de adultos na concretização prática de um modo de trabalho pedagógico não escolar. Isso acontece com todos os formadores que trabalham nas áreas de competência-chave e aqueles que fazem o seu trabalho nas áreas tecnológicas e que não têm uma experiência passada dos novos modelos de formação de adultos são objecto de uma intervenção por parte da mediadora do curso no sentido de os “introduzir no esquema”. O modo não escolar de educar implica assim que o formador seja um suporte para o beneficiário da formação a quem se procura conduzir num determinado sentido. O formador não é assim um mero transmissor de conhecimento que tem como principal função encher um recipiente passivo mas tem a grande função de orientar o caminho dos adultos no esforço do reconhecimento e da desocultação das suas competências, já adquiridas, nos diversos contextos socializadores que permitiram a produção dessas mesmas competências. Aos formadores da formação tecnológica é preciso sensibilizá-los para a introdução do fomento de um trabalho pedagógico em que a aprendizagem se faz a partir da

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“Entrevistador – Tem alguns casos em que os colegas de formação façam uma modalidade de formação mais transmissiva em vez de ser uma abordagem mais pelas competências centrada em torno dos temas de vida, tenham uma tendência para fazer de outras formas?

Entrevistada – De outras formas quem? Como na escola estar ali a ministrar…. Entrevistador – Por exemplo…

Entrevistada – A ensinar (pausa) não acho que não, deixe-me aqui olhar para os formadores, acho que não, é assim, todos os formadores das áreas de competências-chave, são formadores com muita experiência na educação de adultos, em cursos EFA e em Centros Novas Oportunidades, portanto, já há muitos anos que não funcionam assim, já estão nessa engrenagem das competências e do conhecimento que as pessoas têm quando cá chegam, portanto que pode não ser um conhecimento ao nível formal das matérias dadas na escola ou matérias constantes nos referenciais mas são pessoas que já sabem muito, não é. E basta conduzir a pessoa naquele sentido, portanto, sabe matemática, há pessoas que pensam que não sabem, mas sabem, porque já pintou a casa, já comprou mosaicos, portanto, já teve de pensar numa área, sabe o que são percentagens, vai às compras, sabe quais são os descontos, o que é que aquilo significa, portanto, só tem que se conduzir a pessoa naquele sentido, dizer, isso que você conhece, chama-se isto na linguagem matemática, portanto, nas áreas de competência- chave, não temos problema nenhum, que são cinco formadores já com muita experiência na educação de adultos e nos referenciais de competência. Estão perfeitamente à vontade. Os formadores da área tecnológica, alguns tinham experiência na educação de alunos e em cursos EFA, alguns tinham, mas outros não, são professores da escola, ou enfermeiros ou enfermeiras que nunca tinham trabalhado com cursos EFA, que estão habituados a dar formação, mas que não eram no âmbito dos cursos EFA e esses sim foi necessário introduzi-los aqui no esquema, no esquema de avaliação de competências e dos temas de vida, foi tudo pela prática, mesmo os enfermeiros, portanto, legislação laboral, é um exemplo, estão a ter agora, era o tema ou era o módulo que mais me preocupava que normalmente é muito expositivo e a legislação, quer dizer, a legislação para estas pessoas, cinquenta horas de legislação do trabalho, isto vai ser um desastre e então antes do formador vir, claro, tive uma reunião com ele e ele era um formador já reformado, não é, aposentado lá das suas actividades como advogado e que está muito habituado a dar formação para adultos mas que não em cursos EFA, portanto, é para empresários, para outros públicos, advogados, outro tipo de público que está mesmo interessado na legislação pura e dura. Aqui não podia vir com essa abordagem expositiva, seria um desastre, então tive que reunir com ele e disse logo isto aqui vai ter que ser muito baseado na prática, portanto, dá uma determinada componente do código de trabalho, ok, então vamos fazer simulações, aconteceu isto, isto e isto, o que é que vocês fariam, a que artigos é que vocês recorriam para… qual é que vocês acham que seria a solução? E então tem estado a correr bem, porque ele tem feito isto, portanto, dá lá a parte do conteúdo do trabalho, da ética e da deontologia, etc. Explica aquilo tudo, eles depois fazem trabalhos em cartolina, em grupos ou individuais, em que para cada situação em grupo discutem qual seria a solução mais adequada, por exemplo, uma pessoa foi despedida numa determinada situação, um empregador tem razão, o trabalhador tem razão, vale a pena ir para o tribunal do trabalho, não vale, o trabalhador não tem razão nenhuma e o caso fica por aqui encerrado, portanto, o que é que acham? E têm estado muito a discutir, portanto, mais na prática. É evidente que todos os módulos têm alguma componente expositiva, não é. Para introduzir o conteúdo do módulo, tem que haver, mas depois tenta-se sempre que haja prática. Não é possível também sempre, por exemplo, aqui nas áreas de confecção, produção alimentar, vá, tivemos cinco módulos de produção alimentar, não podem estar todos os dias a cozinhar, não é. O curso também não tem disponibilidade financeira para estar a adquirir materiais para dezasseis pessoas cozinharem porque depois não é só para um grupo ou dois ou três, não é. Não se vai cozinhar só para um, não se vai cozinhar só um bolo, pronto, quando se faz bolos, tem que se fazer vários, como fizeram no módulo de pastelaria, tem que se fazer uma série deles, porque eles têm que praticar, não é, não ficam dois ou três a fazer um bolo e os outros ficam a ver, todos têm que praticar, portanto, não é fácil, o curso também não tem verba suficiente para estarem todos os dias a praticar e isso seria o ideal, não é. Quando se adquirem ingredientes não podem ser em quantidades ínfimas, não é, tem que ser para toda a gente trabalhar e isso torna as coisas um bocado complicadas porque aí têm que passar mais tempo em sala, o que para eles também não é fácil.” (EIL1/pág. 23-25).

O discurso da Daniela também é interessante pela distinção que a mesma estabelece entre os “professores da escola” e o “formador profissional EFA”. Os primeiros

157 recorrem à “metodologia da escola” que segundo a mesma não resulta no mundo da educação e formação de adultos. Na sua opinião a formação EFA deveria ser

“profissionalizada” de modo a que os formadores adquirissem as competências necessárias ao modo de educar adultos uma vez que considera que “nem toda a gente

tem perfil para ministrar um curso EFA”.

(…) as pessoas para ministrarem o curso EFA têm que ter alguma prática de lidar com adultos, profissionalizar-se na educação de adultos, por exemplo, já tenho passado por cursos em que encontrei formadores, não estou aqui a falar mal dos formadores, mas são pessoas que passaram a vida na escola, depois reformaram-se e decidiram ganhar mais alguma coisa e ir dar um EFA e vêm com a metodologia da escola que a meu ver não resulta porque é como eu já disse, são adultos, adultos com poucos hábitos de leitura, com poucos hábitos de escrever, com poucos hábitos de tudo, neste aspecto, a nível escolar e portanto, quando apanham uma formação que aquilo é escrever e escrever, não resulta porque eles ao fim de algum tempo, estão completamente esgotados porque a vida deles não tem sido nem ler, nem escrever, tem sido a fazer coisas, é mais prático e então a profissionalização ou um formador EFA deveria ser uma profissão, sim, para, no sentido de adquirir estas competências de formação e educação de adultos, eu acho que nem toda a gente tem perfil, eu não estou aqui a dizer que sou boa, ah! Eu acho é que nem toda a gente tem perfil para ministrar um EFA e muito menos quando se entra para esta vertente do mandar escrever porque a meu ver não resulta, as pessoas, os adultos, têm que ter coisas para fazer e têm que perceber que aquilo que eles sabem da vida deles serve-lhes para ali e o professor, muitas vezes as pessoas que foram professores da escola, não vêem, não são piores, até acho que são pessoas muito competentes, se calhar não trazem esta ideia, portanto, acho que ser profissional de formação, ser um formador profissional EFA traria as suas vantagens, penso eu. (EIL3/pág. 5-6).

O testemunho do Américo, formador com vasta experiência na educação e formação de adultos, com uma trajectória profissional de forte socialização em formas formativas de

“carácter não escolar” e “não tradicional” é muito interessante. Distingue de forma clara dois tipos de formador. Por um lado o “formador/professor” e por outro lado o

“formador/formador”, onde o próprio se posiciona. Diz-nos que no princípio, quando surgiu este modelo de formação EFA, a maioria dos formadores eram formadores/professores que “traziam metas, técnicas, a atitude, a postura da escola

para a formação” mas que apesar de ainda existir com alguma frequência a presença do formador/professor a tendência tem sido no sentido de uma mudança que considera positiva, na direcção da presença cada vez mais significativa do formador/formador. Menciona também um efeito de “selecção natural” que a organização onde trabalha faz deixando de fora os formadores/professores o que tem feito com que cada vez menos apareçam formadores que fazem da formação “escola” e acrescenta que mesmo os formadores que estão parcialmente nas escolas “já conseguiram evoluir para formas

mais interessantes de encarar a andragogia”. Do seu discurso é interessante constatar ainda que não só o fenómeno da desescolarização da formação de adultos é uma

158 tendência crescente como também parece haver indícios da própria escola deixar-se contaminar pelas ferramentas e pelo léxico da educação de adultos levando a cabo uma certa desescolarização do modo escolar de educar. Como diz o nosso entrevistado, também “os professores estão cada vez mais formadores e menos professores”.

“Entrevistador - No seguimento do que me está a dizer perguntava-lhe como é que é a vida de

um formador que faz a sua actividade nos cursos EFA, o que é que lhe ocorreria?

Entrevistado - Há dois tipos, há dois tipos, há o formador/professor e há o formador/formador. Enquanto coordenador de formação, por exemplo, nota-se muito essa dupla atitude, no princípio a esmagadora maioria dos formadores eram formadores/professores, portanto, traziam metas, técnicas, a atitude, a postura da escola para a formação e só alguns, muito poucochinhos, eram formadores/pedagogos, eram formadores desenvolvedores das capacidades individuais das pessoas, isso tem vindo a mudar, há uma mudança cada vez maior dos professores para formadores, agora já vemos cada vez mais e é mais fácil cada vez mais trabalhar e encontrar professores que são formadores, que são mais flexíveis, portanto, que têm uma atitude completamente diferente, já não dão aulas, não dão programas, encontram é a solução para o desenvolvimento das capacidades do formando consoante o objectivo da formação e isso tem vindo a assistir-se cada vez mais, eu sempre fui claramente do outro grupo….enquanto formador.

Entrevistador - No caso do curso EFA que teve aqui a decorrer notou ainda essa distinção que está a fazer entre formador/professor, formador/formador, ainda em alguns colegas, poderia estar presente?

Entrevistado - Já não muito, porque nós aqui temos tido o cuidado de trabalhar cada vez mais

com formadores/formadores, isto é, que mesmo estando também parcialmente nas escolas já conseguiram evoluir nos seu métodos e nas suas técnicas e na sua abordagem para formas mais interessantes de encarar a andragogia. Portanto, por selecção natural ficámos a trabalhar cada vez mais com estes mas frequentemente ainda se encontram alguns, mas a própria escola está em mudança, a própria escola está em mudança muito rápida.” (EIL5/pág. 2-3)

“EntrevistadorNa sequência do que me está a dizer sente que há colegas que estão mais

inteirados do modelo EFA que outros?

Entrevistado - Sim, sim, claramente, claramente, menos agora do que há uns anos, portanto, agora como esta abordagem da educação de adultos, também está a ser apropriada pelas escolas, muitas escolas também se estão a apropriar desta visão, menos, porque antigamente era claramente quem vinha das escolas não percebia nada do que é que a gente estava para aqui a falar, o que é que é isto, competências, o que é que é isto, portfólio, não faziam a mínima ideia, cada vez mais os professores estão a incorporar muito do léxico e das ferramentas da formação profissional, portanto eles, os professores estão cada vez mais formadores e menos professores, o que quanto a mim acho que é positivo, professor é claramente para o ensino obrigatório e mesmo assim podia ser melhorado e os formadores é para a educação de adultos, é uma abordagem completamente diferente.” (EIL15/pág. 17).

Por fim, um último critério analítico permite-nos caracterizar os modos de relação à ocupação de formador. A relação à temporalidade, no sentido da durabilidade da intervenção dos formadores no projecto EFA permite distinguir os formadores de

“curta duração” dos formadores de “longa duração”. Aos formadores de “curta

159 formação EFA e aos formadores de “longa duração” está associada uma forte intensidade dos laços sociais.

5.8. Temporalidade e intensidade dos laços sociais no espaço da formação básica de

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