A isotopia que diz respeito aos modos de pertencer dos técnicos e formadores que trabalham na Iniciativa Novas Oportunidades objectiva um sistema de oposições em torno de uma relação às entidades a quem se está mais ou menos ligado em que alguns dos entrevistados dizem “ser da casa” enquanto a grande maioria é referida e auto- referencia-se como “sendo de fora”. O “ser da casa” está intimamente associado à ideia de formador “interno” e aos formadores que são de “dentro” e que fazem parte da equipa de formadores da entidade. O “ser de fora” está associado aos formadores que não são de “dentro”, que são recrutados “externamente” e que têm uma mera vinculação como trabalhadores “independentes”. A análise desta isotopia permite-nos constatar que alguns formadores que dizem “ser da casa” têm uma ligação já de muitos
139 anos com a entidade a que estão vinculados contratualmente e a pergunta sobre o modo de relação à entidade de formação a quem estão vinculados pode até não lhes fazer sentido derivado a um certo sentido de fusão umbilical com a “casa” onde trabalham:
“acho que essa pergunta será mais ajustável a outras situações que não a minha”. Todos os formadores “internos” que podem participar no curso EFA no âmbito da Iniciativa Novas Oportunidades participam e só quando não há formadores com as competências que são necessárias para determinadas acções de formação “dentro” é que se recorre aos formadores “externos”. A entidade é sentida como uma “segunda
casa” ou mesmo uma “primeira casa” numa relação de pertença que pode ser descrita como uma ligação “umbilical”. A esta relação de pertença à entidade sob a forma de
“fusão” opõe-se uma ligação sob uma forma mais distanciada dada pelo estatuto de trabalhador “independente”. Neste modo de ligação, o ser “trabalhador independente” pode estar associado a uma não identificação com a cultura da empresa para quem se presta serviços “sou trabalhador independente e nem sempre me identifico com a
cultura da empresa” ou mesmo o sentimento de uma vinculação impossível “no regime
de contrato que nós temos é um bocado impossível, nós sentirmo-nos vinculados a algumas dessas instituições”.
A Sónia é membro da Associação de Desenvolvimento Local onde é também mediadora e formadora no curso EFA. É uma testemunha privilegiada sobre esta questão. Quando questionada sobre a sua relação com a entidade responde a rir que é “da casa” há muitos anos e refere que a pergunta talvez nem faça sentido face à sua ligação profunda à organização onde trabalha. Diz-nos que todos os formadores “internos” podem participar nos cursos levados a cabo pela Associação e é quando não têm formadores
“dentro” que recorrem aos formadores de “fora”. Diz-nos que todos os formadores
“internos” pertencem ao quadro da Associação, os “externos” são recrutados “no
exterior a recibo verde porque fazem só aquele módulo de formação, e portanto, o único vinculo que têm connosco é virem fazer aquele módulo de formação”.
Vejamos os excertos da entrevista com a Sónia a quando do seu testemunho:
Entrevistador – Em relação à sua relação com a entidade formadora, neste caso a Associação onde trabalha, que tipo de relação é que mantém com a entidade?
Entrevistada – Eu sou da casa não é! (Risos) Essa pergunta aqui! Sou da casa, estou cá há muitos anos, faço parte da direcção e portanto acho que aí, não, não, só posso dizer que a
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relação é boa, não é! Acho que será mais ajustável a outras situações que não a minha, não é. (IL1/pág. 37)
Entrevistador – Sim, e em termos dos formadores que trabalham no curso EFA?
Entrevistada – Formadores, todos os formadores internos que podem participar no curso participam, portanto, nós temos, quando não temos formadores cá dentro é que recorremos aos externos, portanto, nós temos uns quantos elementos da Associação que estão a participar no curso EFA, enquanto formadores, o formador de Linguagem e Comunicação que se aposentou agora em Fevereiro, era formador interno mas aposentou-se e continuou ligado ao curso, portanto, para não mudarmos de formador ele ofereceu-se voluntariamente para continuar a trabalhar no curso, ainda está a dar aulas, temos o formador de Informática que é interno, o formador de Inglês que é interno, a formadora de Cidadania que é interna, só não temos da Matemática porque nós temos um CNO, temos o Centro Novas Oportunidades, então acabamos por ter as pessoas cá dentro também, não é? Portanto, o formador de Inglês é também formador no Centro Novas Oportunidades, de Língua Estrangeira, de Inglês e Francês, este formador que eu referi de Linguagem e Comunicação que se aposentou era formador no CNO também de Linguagem e Comunicação e de Espanhol, Língua Estrangeira, a formadora de Cidadania é formadora no Centro Novas Oportunidades, portanto, temos uma equipa cá dentro, então sempre que há pessoas internamente, não vamos buscar lá fora, só vamos buscar para aquelas áreas em que não temos cá dentro ninguém formado.
Entrevistador – E neste momento no vosso curso EFA, quantos formadores externos têm? Entrevistada – Tenho que ir contar (Sorriso), vou contar os formadores da área tecnológica que são, foram, ora formadores externos (pausa), onze, onze formadores externos.
Entrevistador – Hum, hum, portanto e quer dizer que os internos terão um vinculo à organização, não é?
Entrevistada – Todos os internos, são, pertencem ao quadro da Associação. Entrevistador – Da Associação e os externos, são recrutados…?
Entrevistada – São recrutados no exterior a recibo verde porque fazem só aquele módulo de formação, portanto, o único, o único vinculo que têm connosco é virem fazer aquele módulo de formação. (IL1/pág. 6-7)
Entrevistador – Portanto, se lhe aparecesse outra oportunidade de trabalho, não pensaria em sair da entidade para onde está a trabalhar?
Entrevistada – Seria uma coisa que me custaria imenso, porque esta Associação é um bocado, isto fora o curso EFA, não tem nada a ver com o curso EFA, não é. Esta Associação é a minha segunda casa e muitas vezes a minha primeira casa, portanto, muitas vezes acabo por dar prioridade à Associação em vez da família que também não está correcto, estou a tentar mudar isso. Seria uma coisa que me custaria bastante, ter que sair daqui (…) (IL1/pág. 39)
O caso do Mário, colega da Sónia na mesma Associação é ilustrativo desta forma de relação à entidade por parte dos técnicos sob a forma de “fusão”. É sócio fundador da Associação onde trabalha. Diz que a sua relação com esta é “muito umbilical” uma vez que continua a fazer da mesma um bocadinho a sua “casa”. Considera que a “casa” a que sempre esteve ligado foi a sua “grande escola de formação” e isso é uma dívida que acha que não poderá pagar.
Entrevistador: E a relação com a entidade, neste caso com a Associação onde trabalha, que relação é que mantém com a entidade?
Entrevistado: (Risos) Está a ver, como lhe disse, eu sou e contínuo a ser sócio da Associação, eu sou sócio-fundador já trabalhava naquilo que deu origem à Associação, antes de ela existir. Portanto, a minha relação é muito umbilical, digamos assim, eu continuo a fazer disto um bocado a minha casa, continuo a ser sócio, continuo a colaborar, estou a fazer outros trabalhos
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para a Associação também, portanto, o que não significa que esteja de acordo com tudo o que cá se passa mas quer dizer, nós não temos todos que dizer amém a tudo, mas isto para mim, isto para mim, já o disse a várias pessoas e posso dizer-lhe a si também, o trabalho que desempenho aqui, esta casa, foi a minha grande escola de formação. Muito mais do que a formação académica e outras coisas, foi aqui, realmente, se eu hoje conheço algumas coisas, devo a esta casa, por isso é qualquer coisa que eu acho que não poderei pagar… (IL4/pág. 27).
Este modo individuado de ser formador passa portanto por uma relação às entidades em que prevalece o sentimento de se fazer parte “da casa”. Não é assim para a maior parte dos formadores e nomeadamente para os formadores “externos”.
Maria Eduarda apresenta-nos um modo individuado de ser em que apesar de trabalhar há perto de dois anos numa entidade privada de formação sente que não faz parte da empresa. Diz-nos que não tem nenhum vínculo laboral com a empresa e que é uma
“trabalhadora independente” que presta um serviço e passa “recibos verdes”. O seu testemunho evidencia uma distância no sentimento de pertença à entidade para quem faz a mediação e a formação de um curso EFA que se manifesta na crítica e na ausência de reconhecimento76 por parte da entidade a quem está “ligada”. Sente que a relação não é equilibrada ao nível do deve e haver da relação de trabalho e sem “reciprocidade” é difícil as relações durarem. O modo de relação à organização afasta-se aqui do sentimento de pertença sob o modo da “fusão” e o sentimento de pertença aparece sob uma forma distanciada e frágil. Aqui não prevalece o sentimento de ser da “casa” e está presente o sentimento de não se fazer parte da “casa”.
O descontentamento face ao modo como funciona a sua relação à entidade de formação é bem ilustrado pelo seu discurso:
“Entrevistador - Vês-te como trabalhadora da Entidade?
Entrevistada - Mais ou menos, por um lado é a única empresa que estou a trabalhar há uns dois anos. Portanto, não tenho qualquer tipo de vínculo com outras entidades, apesar de esporadicamente ter dado formação noutros sítios, mas em módulos muito curtos, de curta duração, por outro lado, não faço parte da empresa, portanto, não tenho um vínculo laboral com a empresa, sou uma trabalhadora independente e também nem sempre me identifico com a cultura da empresa.
76 Martucelli (2006:90) põe em evidência a partir da análise empírica levada a cabo em “Forgé par l’épreuve” o papel importantíssimo do olhar dos outros nas relações sociais de trabalho e a importância da busca do reconhecimento e do respeito. Honneth (2011) é um dos autores de referência na análise desta questão da “luta pelo reconhecimento” debruçando-se num ensaio de carácter teórico e filosófico, a partir das análises de Hegel, sobre o modo como as relações sociais marcadas pelo conflito estão profundamente ligadas ao olhar que cada um exerce sobre cada outro no jogo identitário e relacional do reconhecimento de si. Sem a relação ao outro não há reconhecimento. Isto é muito claro na declaração da nossa entrevistada que parte do sentimento de desrespeito para a exigência de uma reciprocidade mais igualitária.
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Entrevistador - Quando dizes que nem sempre te identificas com a cultura da empresa que aspectos é que estás a salientar…
Entrevistada - A empresa é demasiado exigente com aquilo que quer e dá muito pouco em troca e as relações para durarem, para serem duráveis, têm que ser recíprocas e eu não vejo que sejam e depois há quase uma rivalidade entre a equipa da entidade Algarve e da entidade do centro do país.. A equipa de técnicos que trabalha mesmo para a empresa e dá a ideia muitas vezes que estamos a trabalhar uns contra os outros e depois levantam-nos algumas dificuldades no nosso trabalho, exigem-nos coisas que não são necessárias e exigem-nos para ontem e se não são entregues recebemos emails por vezes desagradáveis a dizer que não fazemos quando há outras coisas que deveriam ser preocupantes ou que pelo menos deveriam merecer mais atenção e que não são devidamente trabalhadas nomeadamente essas questões da avaliação em que se acaba por fazer uns questionários e umas grelhas de avaliação que não estão relacionadas com a nossa realidade e que temos que aplicar.” (EE1/pág. 21-22).
De “fora” é também como se define a formadora Cátia na relação com a entidade de formação para quem trabalhou sobre a forma de “acto único”:
“Entrevistador – E vê-se como trabalhadora da Associação? Entrevistada – Não, nada.
Entrevistador – Porque razão é que…
Entrevistada – Porque não trabalho para lá, trabalhei como acto único, não sou trabalhadora, não tenho contrato, nem que fosse a recibos verdes para lá, não, só fiz aquele trabalho para lá, não sei se alguma vez me irão chamar se não, (pausa) posso colaborar, mas não sei, como trabalhadora não me considero, obviamente.” (IL7/pág. 18)
Um outro critério analítico que nos permite perceber os modos individuados de ser em relação à ocupação de formador tem que ver com os modos diferenciados de envolvimento no modelo formativo EFA. Dois grandes modelos foram recortados do material empírico analisado. O modelo de envolvimento sob a forma do “Mercenário” e o modelo de envolvimento sob a forma do “Missionário”.