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Ao pronunciar seu discurso na abertura do Primeiro Congresso de Instrucção Primaria,

584 Relatório (OGE 11) – Margarida Praxedes Torres – MG 16 e 17-05-1927, p. 10. 585 Relatório (OGE 11) – Margarida Praxedes Torres – MG 16 e 17-05-1927, p. 10.

Francisco Campos fez referência, em vários momentos, ao contexto de experiências.586 Um dos sentidos dessa expressão, ao que parece, aponta para a necessidade de se fazer da escola um espaço que deve carregar para dentro de si, a “realidade” que está fora. Em outras palavras, significa que, se quisermos que a infância – no futuro, como adulto – colabore no sentido do engrandecimento da Patria, será preciso levar a vida para dentro da escola. Entretanto, não será qualquer forma de vida, mas sim aquela que está no horizonte e com relação à qual o Estado se encarregará de construir. Desse modo, a escola deve fazer presente, respeitar e reproduzir o contexto de experiências da vida da criança – um feixe de actividade – vivida fora da escola.587 Francisco Campos aponta na sua argumentação:

Si a escola, ao receber esses feixes de actividade, os immobiliza, condemnando-os á passividade deante do professor e a receptividade deante das noções, abre-se entre a escola e a vida um conflicto radical e uma ruptura de vinculos e ligações entre duas cousas que devem estar intimamente associadas, pois que a escola se destina á vida e só tem significação no contexto das suas experiencias. Não se prepara para a vida senão respeitando na escola os processos, os moveis e os instrumentos que a propria vida fabrica como meios de continuar o seu crescimento.588

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Ora, é certo que as noções que a creança apprendeu até a edade escolar foram adquiridas pela sua propria experiencia, no commercio com as cousas e com os homens, fazendo, manipulando e construindo. Essas noções são instrumentos por ella mesma fabricados á medida da acção e de accordo com o contexto de sua experiencia. Como muito bem assignala Dewey, o ensino deve conferir ao seu objecto a mesma especie de realidade que a nossa experiencia confere ao seu.589

A compreensão, a respeito de que contexto de experiência se trata, nos faz pensar no ambiente vivido por crianças pertencentes a famílias de maior poder aquisitivo, como referência a ser implantada na escola. Entretanto, Branca de Carvalho lembra que outro contexto, também exemplar, pode ser trazido para dentro da escola. Diz ela: – Si consideramos que a escola

primaria é, em grande parte frequentada, exactamente pelas classes menos favorecidas, em cujo seio, entretanto, existem, muitas vezes, verdadeiras organizações artisticas, que permaneceriam talvez ignoradas, por falta do estimulo e do amparo que a escola primaria lhes dá ...590

Outra justificativa para a representação da escola necessária, no sentido da presentificação, é a prevenção de doenças. Nesse sentido, não se trata mais aqui de curar as doenças ou de

586 Acho importante destacar que essa expressão só foi usada por ele.

587 Penso que essa representação pode também nos remeter à idéia de escola como um “laboratório do futuro”. 588 Discurso – Francisco Campos – MG 10-5-1927, p. 8.

589 Discurso – Francisco Campos – MG 10-5-1927, p. 8.

corrigir/ensinar hábitos, mas de evitar que eles ocorram. Quanto a isso, chamam atenção as referências à educação sanitária:

É sabido que algumas doenças contagiosas, taes como sarampo, varicella, coqueluche e diphteria, têm uma incidencia maior durante o periodo escolar. Estatisticas feitas na Alemanha, Inglaterra e nos Estados Unidos, demonstram esta relação.

Entretanto, nas escolas mais facilmente pode ser feito um bom trabalho de prevenção contra muitas das doenças contagiosas, seja pela applicação de medidas como a vaccinação anti-variolica systematica, pela immunização anti-diphteria, esta hoje facilitada pela prova de Schick, seja pela educação sanitaria dos escolares.591

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A educação sanitaria dos alumnos, o conhecimento, por parte da professora, de noções essenciaes sobre doenças contagiosas e a vigilancia cuidadosa da enfermeira muito podem concorrer para a prophylaxia das doenças contagiosas.592

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Não teremos muitas outras coisas interessantes e complicadas e é pena. Mas teremos o essencial: o exame medico da creança com investigação das causas morbidas, teremos a remoção da causa, quando possivel, a correcção do mal, teremos sempre a propaganda dos meios adequados á conservação da saude, a educação sanitaria, não só do escolar, como da professora, chamada á collaborar com o medico no zelo pela saude e pelo desenvolvimento normal da creança; teremos o zelador da educação physica tão necessária.593

Por fim, a representação de uma escola necessária à atualização dos conteúdos ensinados, no sentido de aproximá-los da vida da criança. Nessa perspectiva, tal representação aponta para duas direções: por um lado, destaca os métodos a serem utilizados; por outro, concentra-se no conjunto de conhecimentos a serem ministrados. É o que podemos verificar nos exemplos a seguir:

As noções uteis são as que resultam do contexto de uma experiencia ou as que entram neste contexto como instrumento para desenvolvel-o. É indispensavel, pois, que o ensino primario entre nós incorpore aos seus processos e methodos os processos e methodos da vida, reproduzindo, sempre que puder, as opportunidades que a vida offerece á aquisição de noções e de conhecimentos.594

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Discutindo a these [OGE 13], tem a dizer que a escola primaria em geral não prepara o menino para a vida. Precisamos deixar o terreno das illusões. A escola deve dar ao alumno amplo conhecimento do meio ambiente, do logar em que vive, ministrando- lhe os instrumentos com que ha de se guiar na vida [Irineu Guimarães, unico professor particular presente].595

591 Relatório (HEP 1) – Ernani Agricola – MG 11-05-1927, p. 4. 592 Relatório (HEP 1) – Ernani Agricola – MG 11-05-1927, p. 4. 593 Relatório (HEP 1) – Alexandre Drummond – MG 11-05-1927, p. 4. 594 Discurso – Francisco Campos – MG 10-5-1927, p. 8.