Eliciting Donor Preferences
A.4 Comparing informed and uninformed donations
3. Data and methodology 1 Data
A mídia desempenha um papel importante na construção dos significados em nossa sociedade e, conseqüentemente, da realidade. Estudos das teorias da comunicação salientam a forma como a mídia exerce poder na construção da realidade.
Com a publicação do livro Opinião Pública, em 1922, o jornalista americano Walter Lippmann discutiu a postura da imprensa nas interpretações dos acontecimentos, sendo estas significações influenciadoras da compreensão da realidade pelo público. Para o autor, a imprensa produz imagens ilusórias nas mentes que são assumidas como reais, modelando o comportamento das pessoas (JOHN; EBERLE, 2010).
Para Marcondes Filho (2002), a história do jornalismo reflete a própria história contemporânea. Enquanto a modernidade econômica apresentou o empreendedor burguês e a modernidade política trouxe a vitória das democracias republicanas e seus múltiplos políticos disputando vagas nos parlamentos, a modernidade dos direitos sociais e humanos viu nascer a figura do jornalista.
Os acidentes aéreos costumam ter grande cobertura na Mídia. Geram imagens de forte apelo visual – em geral, há mortes –desestabilizam o setor aéreo. São, por essência, fatos jornalísticos, recheados de valor-notícia, que trazem à tona a importância da interlocução de interesses de três instâncias: da Mídia, do Público e, também, das Fontes, neste caso, as companhias aéreas e outros agentes envolvidos no setor da aviação.
Segundo Wolf (1995), valores-notícia são componentes da Notícia e constituem resposta para a pergunta: quais acontecimentos são considerados, suficientemente, interessantes, significativos e relevantes, para serem transformados em notícia?
É fundamental que analisemos o papel da Mídia neste processo. Na busca constante por fatos noticiosos, estes encontram, em um grande acidente aéreo, um fato jornalístico que rompe o cotidiano, cuja imagem visual punge32 o olhar de telespectadores, leitores ou internautas. Trata-se de um tema de interesse social, que atormenta quem viaja com freqüência de avião, amedronta pessoas que nunca viajaram, preocupa governos e companhias aéreas, inclusive concorrentes, pois traz crise generalizada ao setor.
Um acidente aéreo, em geral, torna-se pauta obrigatória por várias semanas, pois é preciso investigar as causas do acidente, prestar o “funeral público” às vítimas (tornou-se regra a publicação de fotos dos passageiros, acompanhadas de breves histórias de vida), monitorar o atendimento às famílias das vítimas.
Os acidentes aéreos são crises de grande proporção. Forni (2003, p. 367) destaca o quanto as crises são exploradas pela Mídia e a rapidez com que chegam ao Público.
A mídia alimenta-se da crise. Há uma tendência, sobretudo nos meios audiovisuais, para que a informação dê lugar à mídia espetáculo. A crise – qualquer que seja sua dimensão – cai como uma luva nesta pauta. Se tiver imagens, melhor ainda.
32
O verbo pungir é usado propositalmente em referência ao conceito de Punctum (Barthes) que será desenvolvido como categoria ao longo deste estudo. (Nota da autora)
Os requintes de espetacularização na cobertura jornalística de acidentes aéreos não são incomuns. Parafraseando Guy Debord (2003), podemos dizer que a realidade vivida, nestes casos, é, materialmente, invadida pela contemplação do espetáculo. Exemplo disso é que a Mídia convencionou chamar este tipo de acidente de “desastre aéreo”, possivelmente, aumentando, ainda mais, o Sensacionalismo da notícia.
As equipes jornalísticas são deslocadas em situações de acidente, para ampla cobertura do mesmo. Telejornais, programas jornalísticos de entrevista e capas de jornais, revistas e portais são dedicados, integralmente, à repercussão do acidente. Na Mídia impressa, em grandes redações, como a do Jornal O Estado de São Paulo, já há profissionais especializados na cobertura de acidentes aéreos, organizados em subeditorias da área de Economia ou Geral.
Do ponto de vista do público, o tema, também, desperta grande interesse. O fascínio, que a aviação exerce, pode ser explicado, principalmente, pela experiência inusitada que a mesma provoca – humanos podendo voar como
pássaros – torna a notícia de um acidente rica de aventura33 e pode reconstruir no Imaginário34 social os Mitos35 em torno deste tipo de transporte. Mesmo com estatísticas, indicando que o avião, ainda, é um dos meios de transporte mais seguros, o medo de voar é, hoje, um tema recorrente de pesquisa na área da Psicologia e, segundo especialistas, pode não estar ligado somente ao ato de voar, mas a fatores como o confinamento, a altura, a instabilidade e o risco de acidentes.
33
Novamente o termo é usado de forma proposital em alusão às categorias Studium/Punctum que serão analisadas posteriormente, a partir de Barthes. (Nota da autora)
34
Imaginário, para Barthes, é a inconsciência do inconsciente. Para ele existem imaginários na linguagem.
35
O Mito pode ser compreendido como um processo semiológico praticado em torno de uma determinada classe, no caso, da burguesia. Para Barthes, o Mito é o fenômeno semiológico que oblitera seus vínculos sociais, políticos e históricos para que seus valores sejam apresentados como algo factual (SILVA, 2005).
O público não somente pode interagir com a Mídia em sua cobertura sobre os acidentes aéreos como também, cada vez mais, elabora seus próprios conteúdos, por meio da blogosfera e das redes sociais36, emitindo pareceres sobre o gerenciamento das crises por parte das companhias, contemplando questões sobre o acidente, etc.
Neste contexto, completando a tríade Mídia – Públicos – Fontes, as companhias aéreas que se envolvem em acidentes, potencializam seu papel como fontes jornalísticas e devem estar preparadas, para lidar com a avalanche de demandas da imprensa, fornecendo informações, com presteza e transparência. Para as empresas que possuem Plano de Contingência37, a relação com a Mídia pode tornar-se um ponto da maior importância no gerenciamento de uma crise, sendo o Media Training uma das etapas deste plano. Este constitui um “programa de treinamento, voltado, principalmente, para diretores e porta-vozes de empresas e instituições diversas, com o objetivo de prepará-los para o relacionamento adequado com a imprensa” (RABAÇA; BARBOSA, 2002, p. 478).
Antes de falar com a Mídia, sobretudo, em momentos de crise, é necessário treinamento. Karen Friedman38 lembra que “[...] facing the media
without preparation is like letting your accountant perform a medical procedure on a family member.” A autora reitera a importância do Media Trainning:
Media training helps you prepare messages and deliver those messages clearly and concisely. […] a good media trainer will help you understand what reporters want so you can connect with an audience of one or one thousand
36
A evolução da internet permitiu aos usuários um crescimento no que se refere a sua participação, com conteúdos sendo criados e postados pelos próprios usuários. Este novo momento da Internet, que tem se desenvolvido especialmente nesta primeira década do século XXI, esta sendo chamado por alguns autores de Mídia do Cidadão e também é conhecido como Internet 2.0. (Nota da autora)
37
Conjunto de ações a serem tomadas em uma crise, planejadas previamente, em tempos de normalidade. (Nota da autora).
38
Fonte: Karen Frieman Enterprises, Inc. Artigo: Making the most of a bad situation: how to
consistently communicate with clarity and class. Disponível em:
<http://www.karenfriedman.com/articles/Making_Most_Bad_Situation.pdf>. Acesso em: 30 set. 2009, 11h38min.
Como explica Mamou (1992, p. 80), o media trainning se propõe "[...] a passar a empresa e suas atividades sob um pente fino para detectar zonas de conflito ou de embaraços potenciais". Para Lopes (2000), o media trainning tem por objetivo otimizar o contato das fontes da empresa com a mídia. Contempla sabatinas, laboratórios diversos e palestras conceituais que municiam as fontes com dicas e conhecimentos básicos sobre o relacionamento com a mídia.
Destaca Forni (2002, p. 383): “A organização que não se preparou, não treinou, nem praticou para crises em potencial não será capaz de reagir com eficiência no ambiente de comunicações em tempo real que terá de enfrentar”. Além do preparo às crises, cabe à Assessoria de Imprensa39 assumir postura preventiva nestas situações.
O assessor experiente sabe avaliar, quando uma pauta negative tem octanagem suficiente para detonar uma crise: ou porque já conhece o assunto e sabe que é explosivo, ou porque, ao tomar conhecimento, soube avaliar suas repercussões (FORNI, 2002, p. 369).
A Mídia pode moldar positiva ou negativamente a Reputação de uma companhia, dependendo da performance do porta-voz da Organização. “[...]
interviews do shape public perception about [...] your company [...]. How you communicate is directly related to your company’s image and your own success”
(FRIEDMAN, 2007, p. 24).
Devemos enfatizar que o papel de uma Fonte nos dias atuais ampliou-se e, em uma situação de crise, as fontes são “testadas” em sua capacidade de dar respostas ágeis e convincentes. Segundo Chaparro (2001, p. 43-44), a fonte tem, hoje, significado que vai além do tradicionalmente atribuído pelo Jornalismo (de sujeito que tem uma informação e a transmite para o jornalista):
39
A atividade de Assessoria de Imprensa, tema de nossa pesquisa de Mestrado, pode ser descrita
como a “gestão dos fluxos de informação e relacionamento entre fontes de informação e jornalistas, mesclando um caráter difusor com um recorte mais estratégico” (LOPES, 2000, p.404).
Os acontecimentos, produzidos pelas fontes, são formas discursivas, formas de agir, de interferir na realidade. [...] As fontes são competentes quando agregam aos acontecimentos, às suas ações, todos os atributos que convêm ao discurso jornalístico. [...] A capacidade de produzir os conteúdos rompeu com os limites dos jornais. O jornalista cumpre um papel essencial nesse processo, mas não o controla. E ainda bem que isso acontece, pois é a sociedade quem deve fazê-lo. Há uma relação cada vez mais profissionalizada entre jornalistas e fontes justamente porque essas fronteiras estão rompidas.
É fundamental compreendermos o papel da Mídia nas crises de Reputação. Cooperar e manter os meios informados das últimas notícias evita mal-entendidos entre a Organização e a Opinião Pública. “By cooperating and
feeding the media information you want reported, you actually maximize your opportunity to have your story told accurately” (FRIEDMAN, 2009, p. 38).
As empresas, que aprimoram o relacionamento com a Mídia e aperfeiçoam sua performance como fonte, podem administrar melhor as Crises com a Opinião Pública, conforme analisaremos no decorrer deste estudo.
Globalizaram-se os processos, as emoções e, sobretudo, os fluxos e circuitos da informação. E, nesse mundo novo, as instituições, incluído-se as empresas, agem pelo que dizem, em especial pelos acontecimentos significantes que produzem, com os quais interferem na realidade, ao usarem a eficácia difusora do jornalismo. [...] E porque noticiar se tornou a mais eficaz forma de agir no mundo e com ele interagir, as relações com a imprensa passaram a constituir preocupação prioritária na estratégia das instituições (CHAPARRO, 2002, p. 33).
Em síntese, há dois aspectos que podem ser analisados em relação aos acidentes aéreos e sua cobertura midiática. O primeiro diz respeito aos acidentes aéreos como fatos jornalísticos da maior relevância, pelo impacto que causam ao romper o cotidiano (principalmente se houver grande número de vítimas). O segundo aspecto relaciona-se com as fontes, que neste tipo de acidente, precisam administrar suas falas públicas com transparência e presteza, sob o risco de comprometerem sua reputação.