Para a memória discursiva, consideramos as noções de Courtine (2009), Pêcheux (1999) e Charaudeau (2004). O conceito de memória discursiva foi cunhado por Jean-Jacques Courtine, em 1981, inspirado nos trabalhos de Michel Foucault. Em sua formulação, “A noção de me- mória discursiva diz respeito à existência histórica do enunciado no inte- rior de práticas discursivas regradas por aparelhos ideológicos” (COUR- TINE, 2009, 105-106, grifo do autor). É a memória discursiva que faz reproduzir, em certa conjuntura ideológica, a posição a ser tomada, a palavra a ser dita ou escrita, considerando nossas lembranças e como elas vêm em nossa memória.
Courtine (2009) diz que a memória discursiva objetiva o que Fou- cault (1971 apud COURTINE, 2009) pensa a respeito dos textos reli- giosos, jurídicos, literários, científicos, isto é, discursos que dão origem a determinado número de novos atos, de palavras que os retomam, os transformam ou falam deles, enfim, discursos que, para além de sua for- mulação, são ditos, mantêm-se ditos e estão ainda a dizer. Segundo
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Courtine (2009), toda produção discursiva realizada nas condições de- terminadas de uma conjuntura faz circular formulações anteriores, for- mulações já enunciadas.
Para o autor, a relação entre memória e discurso apresenta-se em dois caminhos, segundo ele, obrigatórios, distintos, porém indissoci- áveis: a Repetição e a Comemoração. A memória discursiva, segundo Courtine (2009), tomará a forma da Repetição, pois é necessário consi- derar todas as formas de discursos relatados, através dos quais se mate- rializam as Remissões, sobretudo a Citação e a Relação ao texto primeiro, e as “formulações-origem” do domínio de memória. O Visconde de Ouro Preto, por exemplo, utiliza Citações e Remissões, mediante as quais as formulações-origem (da Comunidade Discursiva Monarquista) derivam de um trajeto, ao longo do qual elas se transformam, desaparecendo para reaparecer mais adiante, ou então desaparecem pouco a pouco.
A Comemoração, apresentada nos rituais verbais, gera um recorte no tempo, agregando o tempo da enunciação ao domínio da memória em uma anulação imaginária do processo histórico, em sua duração e suas contradições. Courtine (2009) ressalta que essa relação imaginária com o tempo encontra seu recorte no calendário, e o aniversário é a única escansão conhecida nesse efeito de memória particular instaurado pela repetição de um momento primeiro. Para Courtine (2009, p. 240, grifo do autor), “a memória discursiva constrói (...) a ficção de uma his- tória imóvel, funciona como cristalização do tempo histórico, no qual se forma a discursividade”. Portanto, Courtine (2009) relaciona a memória discursiva à História.
Outro estudioso que também abordou esse conceito foi Michel Pê- cheux (1999). Ele refere-se à memória discursiva como uma estrutura- ção de materialidade discursiva complexa, estendida em uma dialética da repetição, assim como Courtine (2009), e da regularização. Para Pê- cheux (1999):
a memória discursiva seria aquilo que, face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem estabelecer os “implí-
citos” (quer dizer, mais tecnicamente os pré-construídos,
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de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível. (PÊCHEUX, 1999, p. 52, grifo nosso).
Nessa perspectiva, Pêcheux (1999) considera que os implícitos re- sidiriam na memória discursiva, isto é, para que o sujeito tenha pleno entendimento de determinado enunciado, é preciso que, anteriormente, o implícito tenha existido em algum lugar como discurso, funcionando como uma construção anterior, a qual é resgatada pela memória discur- siva. Essa sequência discursiva constitui-se de um ou mais discursos vindos de outros lugares. A memória discursiva para Pêcheux (1999), portanto, não compreende o sentido psicológico da Memória Individual, mas uma memória no nível discursivo. As noções de “pré-construído” e de “discursos transversos” reportam ao que seriam os “implícitos”. Para interpretar, importam também os implícitos, pois contribuem para gerar efeitos de sentido. A memória discursiva também é o lugar discursivo ideológico do qual o sujeito enuncia, desencadeando a interpretação.
Entretanto, Pierre Achard (1999), citado por Pêcheux, introduz o ter- mo “regularização”, no qual residiriam os implícitos, sob a forma de re- missões, de retomadas e de efeitos de paráfrase. Segundo Pêcheux (1999):
... uma memória não poderia ser concebida como uma es- fera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço
móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de
retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de
desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos. (PÊCHEUX, 1999, p. 56, grifo nosso).
Ao dissertar sobre a Memória, no artigo Visadas discursivas, gêne-
ros situacionais e construção textual, Charaudeau (2004) observa que a normalização dos comportamentos, do sentido e das formas é constru- ída conjuntamente e que o sujeito registra-os em sua memória. Em sua Teoria Semiolinguística, objetivando chegar aos sentidos implícitos dos atos de linguagem, considera a memória como saberes partilhados, pela linguagem em suas dimensões cognitiva, social, psicossocial e semióti-
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ca. Para isso, o autor precede do ato de linguagem percebido como “um conjunto de atos significadores que falam o mundo através das condi- ções e da própria instância de sua transmissão” (CHARAUDEAU, 2008a, p. 20, grifo do autor), mundo este que se faz por meio da estratégia humana da significação. Em decorrência disso, o autor parte da hipótese de que há no sujeito três memórias que atestam cada uma das maneiras das quais se constituem as comunidades: discursivas, comunicacionais e semiológicas.
A memória discursiva, no conceito apresentado por Charaudeau (2004), é composta de três níveis: a memória dos discursos, a memória das situações de comunicação e a memória das formas de signos. Com respeito à memória discursiva, adotaremos a abordagem de Charaude- au (2004) que sugere uma memória dentro de um espaço textual por meio das retomadas marcadas pelas anáforas, conectivos, tempos ver- bais e pressuposições por valores de crença e de conhecimento. Para essa teoria, consideraremos as retomadas que o Visconde realiza em seu Manifesto, sobretudo porque o texto foi reeditado no livro Advento da
Dictadura Militar no Brazil, em 1891, sendo incorporado de artigos de jornais, o que demarca uma memória discursiva em seu Manifesto pela sua relação com outros discursos. Utilizaremos, ao mesmo tempo, outros aportes teóricos no interior da AD, como as formulações de Pê- cheux (1997, 1999) e Orlandi (1993, 2001), assim como no interior dos estudos sobre memória com Paul Connerton (1999) e Maurice Halbwa- chs (2006).