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In document MASTER’S THESIS (sider 35-40)

“O Lodo e as Estrelas” (1958), publicado com o apoio da Companhia de Jesus, é o principal memorialístico da identidade barragista. Sobre o efeito que o livro terá tido junto da direção da empresa, das instâncias governamentais e na vida do capelão à época circulam ainda hoje opiniões que não convergem.

Começa por uma dedicatória a todos os trabalhadores que morreram de silicose, quer tenham vindo de minas ou tenham adoecido nos trabalhos das barragens. O relato, sob a forma de pequenas crónicas, é bastante cru, descrevendo a miséria vivida pelos trabalhadores mais pobres. A descrição da barragem, dos jeeps e das máquinas aparece

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sempre em contraponto às fragas, ao frio e à neve da paisagem, ou às giestas e carrascos que sobrevivem à adversidade do clima.

Também aqui, à semelhança do livro anterior, os acontecimentos se ligam aos nomes das pessoas, sobretudo no que diz respeito aos trabalhadores que viajaram sós para a obra, ou aos que se deslocaram com as suas famílias.

As barracas que foram aparecendo em Picote tinham “ninhadas” (quatro ou mais filhos, vivendo em condições precárias) e nas casernas circulavam bandos, grupos de trabalhadores. É a eles que declara pertencer.

Relata que, por volta de 1955, a Conceição pagava 60 escudos de renda por um lugar que dias antes tinha sido ocupado por um porco. Ela deitava uma manta nas lajes, onde depois dormiam os filhos, cobertos com um xaile.

Figura 49 Abrigo de família, relatório de 1956, cedido pelo engenheiro Pereira dos Santos.

O Pedro e a mulher viviam numa barraca, na encosta. De tudo se via à porta: cascas de batatas, restos de lenha, cacos e excrementos dos filhos. Eram duas tarimbas: numa dormiam os pais com os filhos de colo, e noutra, mais quatro filhos. Havia famílias abrigadas nas fragas, sem outro telhado onde pernoitar. Também neste livro se dão os nomes a este exército anónimo. António, doente de silicose, não tinha dinheiro para ir morrer a casa. Ricardo, de Moncorvo, não tinha trabalho há 15 dias e vivia num pombal,

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os filhos estavam a morrer de fome, na terra. Os homens choravam quando lhe contavam estas histórias, escreve, retorciam os bonés, tinham vergonha de pedir.

A Olímpia vinha do Alentejo e a sua casa estava sempre limpa, os filhos também. Gostaria de ter uma casa com sobrado, comentava, enquanto varria a casa com uma vassoura de giesta. O marido já tinha trabalhado em cinco barragens. Quem vinha das minas ganhava 18 escudos por dia. Estas crónicas acusam a hipocrisia de um cristianismo que permite estas condições de vida: o capelão da HIDOURO interroga o seu Cristo, num diálogo interior e direto. Mesmo quando os trabalhadores tinham direito a seguro e assistência, mesmo que o tribunal do trabalho lhes desse razão, o processo demorava tanto tempo que o trabalhador não sobrevivia.

Figura 50 Abrigo de família, relatório de 1956, cedido pelo engenheiro Pereira dos Santos. As missas eram primeiramente celebradas num barracão. Na mesa do altar, um operário tinha colocado “uma linda colcha azul”.

Onde havia oito pessoas a comer, seis filhos, pai e mãe, o salário era de 20 escudos. Nunca chegava, morria-se de fome e de frio.

Sobre as barracas voavam abutres. Diante da do Araújo, onde tinha ido levar fruta, escarros. E o precipício medonho, com dentes de granito, das arribas do Douro (FERRAZ, 1985:63). Ser plantão numa caserna significava ganhar 30 escudos para sustentar a

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família. Com esse salário, não se podia comprar medicamentos. Quando os trabalhadores adoeciam pensavam em matar-se, enlouqueciam, choravam. Outras vezes consolavam a mulher e os filhos. Pediam esmola. Todo este horror lhe criava revolta, escrita nas questões que colocava no final da história. Na obra, nada mais do que os pulmões mirrados e doentes dos marteleiros. Se uma mãe se prostituía para dar de comer aos filhos, pediam-lhe que tirasse de lá as miúdas, que pequeninas também andavam por detrás das fragas, com os rapazes pequenos.

Nas tabernas, onde os operários iam “beber um copo” ao meio dia, ressequidos do calor e do pico (FERRAZ,1985:81) o balcão era sujo, as canecas manchadas, as garrafas sebentas. Emborrachavam-se à noite. Mas para o narrador não havia diferença entre as borracheiras da tasca e do salão: as tascas existiam para matar a solidão. O mal era portanto a miséria, a falta das famílias e da terra de origem.

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Figura 52 Abrigo de família, relatório de 1956, cedido pelo engenheiro Pereira dos Santos.

Nas tascas também se jogava e se perdiam dias inteiros de salário. Muitas crianças andavam descalças no lodo, rotas e cheias de sarro. Dias de “farturinha” (FERRAZ,1985:83) eram os dias em que a FNAT deitava fora fardos de bacalhau a cheirar a petróleo. A assistência das suas missas cheirava a urina e a silicose, cheiro que reconhecia quando falava com os operários doentes. Morriam “anjinhos”, crianças pequenas que não sobreviviam à doença e à fome. No meio de tanta desgraça, o Zé Manel, que nunca tinha visto um prato, andava alegre. Comia num caçoulo, sentado no chão. Sujo, roto, não sabia rezar, falava mal, fazia coisas feias, dormia com uma irmã. Todos os dias apanhava duas sovas, da mãe e uma do pai. Quando podia roubava para comprar rebuçados, que trocava por botões que depois jogava. E era bom, um fenómeno. Quem via comer pão e uma isca de bacalhau e se sentava a uma mesa com toalha branca e vinho, sopa, bife e café, não podia comer o bife, escreveu. A narrativa nunca refere o que o narrador fazia para atender às dificuldades das famílias. Descreve as pessoas e situações e faz perguntas incómodas ao seu Cristo, que muitas vezes parece estar distraído. Percebe- se na leitura das crónicas a sombra da censura oficial, que não admitiria referências mais explícitas. Mesmo assim, a publicação do livro não foi bem vista. O padre Telmo sabia que o livro era incómodo, que tinha havido conversas sobre si e que o engenheiro Brás de Oliveira tinha respondido diretamente a Salazar que nada se faria ao padre da HIDOURO (Salazar tinha perguntado: ‒ O que fazemos com o vosso padre?). Contou- me isto quando conversámos, porque lhe perguntei o que aconteceu quando publicou o livro. Referiu estes episódios sorrindo, como se esse fosse um assunto de pouca

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importância. Verifiquei mais tarde, conversando com a maior parte dos entrevistados, que o episódio teve várias interpretações. Em alguns casos, pensava-se que ele tinha sido preso por causa do livro. Noutros, que tinha sido enviado para a barragem de Cambambe, em Angola, para não ser preso. O mistério que envolve ainda hoje o livro e as respetivas circunstâncias faz dele um ponto de ancoragem da memória coletiva.

A segunda edição, que acrescenta as crónicas do seu tempo de Cambambe, já no contexto da Fundação da Casa do Gaiato, de Malange, reproduz as mesmas assimetrias sociais, a miséria e a injustiça que havia reportado em Picote. Da mesma forma, interpela o seu Cristo sobre o porquê de o cristianismo ser melhor compreendido por certos materialistas do que pelos católicos.

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Figura 54 Abrigo de família, relatório de 1956, cedido pelo engenheiro Pereira dos Santos.

Em agosto de 2013, os barragistas organizaram-lhe uma homenagem em Bruçó, sua terra natal. Fui avisada por Henrique Pinto. Desloquei-me a esta aldeia, próxima de Mogadouro. Em agosto, muitos emigrantes voltam a Portugal para participar nas festas das aldeias em que nasceram.

De Mogadouro a Bruçó percorre-se a EN221 em cerca de meia hora, na direção do rio Douro. É a paisagem característica do planalto mirandês. As encostas escarpadas são pontuadas por olivais, em socalcos. E vinha. Continuo a inteirar-me sobre a localidade pela página web. 42 O centeio era semeado no Outono, colhido entre maio e junho e seguia-se um período de pousio de um ano, até ao Outono seguinte. O pão, feito a partir da farinha de centeio era cozido em forno comunitário. O grão era moído num engenho de água, também de gestão coletiva. Bruçó fazia parte do caminho de Santiago, razão pela qual a igreja tem talha dourada. Era nesta igreja que o bispo de Bragança ia celebrar a missa em homenagem ao padre Telmo. O lagar de azeite, também de uso comunitário, foi desativado nos anos 1980, como consta da página web que consultei na ocasião. A vida comunitária de Bruçó foi-se perdendo no tempo, restando ainda alguns usos esporádicos, como o do forno, para cozer o pão no Natal. Realiza-se ainda a festa do Velho, no Natal, ocasião em que se acende uma grande fogueira no centro da aldeia. O velho e o mordomo

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fazem um peditório que depois é leiloado no adro da igreja, à semelhança do que se faz também noutras aldeias desta região. O forno, o moinho e o lagar fazem parte do património da aldeia, e encontram-se em três rotas de memória propostas para o turismo: a do pão, a do azeite e a da castanha, que percorrem as redondezas da aldeia em cerca de 11 km. A sua desativação e patrimonialização foram ocorrendo a partir dos anos 60.43 No centro da aldeia exibe-se, junto ao fontanário, um carro de bois, comprovativo desse processo de patrimonialização.

Figura 55 Centro de Bruçó no dia da homenagem. Fotografia da autora.

A homenagem ao padre Telmo estava marcada para as 17 horas, com uma missa rezada pelo bispo de Bragança. Às três horas da tarde já se encontravam muitos automóveis estacionados na aldeia.

No café, ao lado da junta de freguesia que anunciava o evento, uma família de emigrantes perguntou do que se tratava, pois não conhecia o homenageado. Os seus filhos e netos, ocupados, cada um com seu portátil, permaneceram muito tempo sentados na esplanada. A junta de freguesia colocou altifalantes em pontos estratégicos da aldeia, para que todos

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pudessem participar na missa. No largo central, perto desse café, tinha estacionado a carrinha da Casa do Gaiato de Paços de Sousa, junto do fontanário. Já não se usam carros de bois em Bruçó, mas antes carros de alta cilindrada e jeeps. Pela pronúncia, muitas pessoas pareciam vir de França.

Começou a missa com a igreja atulhada de gente. Primeiro projetou-se um documentário sobre a vida do homenageado, realizado por estudantes da Universidade Católica. Seguiu- se uma sessão de autógrafos de dois livros seus e de um outro com testemunhos de amigos e conhecidos. No exterior preparava-se o convívio.

Nas ilustrações seguintes podemos ver os organizadores da homenagem, e rapazes da Casa do Gaiato de Paços de Sousa, cantando e tocando músicas com versos alusivos ao evento. Os rapazes da Casa do Gaiato tinham preparado uma canção, mas a maior parte das pessoas queria abraçá-lo, conversar com ele, pedir um autógrafo do seu livro. Por esse motivo chegou atrasado ao convívio.

A homenagem terminou já de noite. O padre Telmo regressou com os rapazes da Casa do Gaiato a Paços de Sousa. Regressaria a Malange em Outubro.

Figura 56 Edifício da Junta de Frequesia.

Figura 57 Rapazes da casa do Gaiato ensaiam músicas para o padre Telmo. Fotografia da autora.

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Conhecido entre os barragistas por “Santo dos pobres”, todos queriam recordar-lhe como e quando os ajudou, o que entretanto sucedera aos filhos e aos netos. O bispo de

Bragança exaltou a sua missão

humanitária. A todos ouviu atentamente, de todos se lembrava. Porém, a homenagem era-lhe estranha. Não se ocupou muito das retóricas: os terrenos que percorreu (a barragem de Picote e

depois a de Cambambe), não se compadeciam com palavras, exigiam ações concretas. As pessoas que se reuniram nesta

homenagem sentiam que a sua vida, ligada às barragens, foi reconhecida por ele. Através das crónicas, deu voz a essa multidão que se juntou em Picote, Na Caniçada, na Bouçã, para fazer obra. A homenagem foi por isso muito pontuada por histórias que cada um quis contar: - Sabe quem eu sou? Foi daquela vez…. Todos têm alguma coisa a contar: uma

manta emprestada, leite para os filhos. A festa é ocasião de lembrança e de culto.

Figura 58 padre Telmo assistindo à música que lhe foi dedicada. Fotografia da autora, 2013.

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