Esta divisão foi inaugurada no dia 19 de novembro de 1940, com três conferências proferidas pelo Padre Pierre Charles na Faculdade de Direito de São Paulo. Os objetivos dessa divisão podem ser encontrados em diversas correspondências particulares do Padre Sabóia, como as seguintes:
[...] “A divisão de Moral Social ocupa-se no momento com uma intensa campanha entre os industriais paulistas para que cada um tome para sua fábrica um assistente social. A medida é de alcance porque os conflitos do trabalho que se amiúdam e que às vezes são propositalmente provocados, subindo às Juntas de Conciliação e Julgamento, têm recebido na maior parte das vezes soluções indesejáveis. O suborno vai de mãos dadas com a petulância. Aceitando tiradas ocas sobre miséria de classes operárias, vai-se espalhando entre os operários a persuasão de que sempre têm direitos contra os patrões e se vai solapando o princípio da autoridade. Quando não, o dinheiro do patrão há de intervir, para ter ganho de causa. Ora, não foi este o caminho seguido pela Espanha? Se há remédio, parece este consistir em que o assistente social, penetrando na fábrica, eduque o operário, apazigúe os ânimos, seja intermediário nos conflitos e os encaminhe a um Círculo Operário onde ele pode achar o equilíbrio entre as suas exigências e as possibilidades sociais. A mesma Divisão Moral trabalha de combinação com a Orientação Moral dos Espetáculos para a moralização dos mesmos. Está em
estudo um plano que pode levar a vermos aqui algo parecido à Liga de Decência dos Estados Unidos.” 117
[...] “São Paulo é um grande centro de indústria e comércio; as dezenas de milhares de operários hesitam entre o caminho do bem e do mal. Se não ganharem para o bem, poderão ser agentes de perturbações sociais irreparáveis, e perderão o presente e o futuro. Também os grandes industriais devem ser instruídos na moral católica, porque também eles estão em perigo de perder esta vida e a eterna. Esta é a maior necessidade social de São Paulo, e não podemos ficar inertes, esperando que os maus arruínem a sociedade. A todos pregamos claramente que o remédio único a todos os males de que sofremos é a doutrina de Jesus Cristo, ensinada pela Santa Igreja, e todos os que nos ajudam nesta obra sabem que nós pretendemos salvar as almas salvando a sociedade.” [...] 118
Sobre as atividades da divisão de moral social, eis o relato do Padre Sabóia:
[...] “Haveria muito que dizer [sobre a Divisão de Moral Social] – A nossa sociedade está sendo eivada de ideologias de toda espécie. Não adianta estar todo o tempo atacando e polemizando. Nada melhor do que construir. E como o homem não pratica antes de ser persuadido, é preciso, pois, falar à inteligência. Daí as nossas publicações e entre elas a nossa revista Serviço Social. Alguns acham que é um pouco massuda. Com efeito, dirige-se mais às pessoas de certa cultura. Tornar-se-á, no entanto, mais leve, menos grossa, os números serão mais freqüentes e teremos
117 Notícias da Província do Brasil Central. 3a Série, ano XV, número 5, abril de 1941, p. 308. 118 Idem. 3a Série, ano XVIII, número 1, junho de 1944, p. 24.
artigos menos longos. E sempre há outras publicações. Estamos com cinco tradutores em trabalho e esperamos brevemente cobrir a cidade de folhetinhos, cujo original norte americano, da autoria do P. Daniel Lord, é vendido lá aos milhões. Com a editora AGIR, do Rio, assinamos um contrato de publicação de livros. Este ano poremos nas livrarias três livros, pelo menos, dos quais um será uma tradução da obra do Cardeal Newmann sobre Universidades. Estas publicações serão feitas em nome do Instituto Superior de Cultura Religiosa. Este volta a funcionar no Colégio São Luís, embora dependa da Ação Social. No São Luís contamos com a colaboração dos Padres de lá.” [...] . 119
[...] “Como [a FEI] é Faculdade Católica, todas as manhãs, antes das aulas, os alunos passam por uma ‘ducha espiritual’. São 10 minutos durante os quais lemos um trecho do Evangelho e explicamos, dando também a oportunidade de formular perguntas e objeções no sentido de esclarecer e auxiliar. Esta atividade catequética da Ação Social se exerce também em outras Escolas e Instituições amigas. Na Escola Pré-vocacional da Água Branca, sobre a qual já falamos e no Ginásio Conselheiro Lafaiete, uma vez por semana. Ao mesmo gênero pertencem os sermões pregados todos os domingos em diversas igrejas. Mas esses trabalhos já pertencem à Divisão de Moral Social.” [...] 120
Sob o ponto de vista da Igreja Católica, em sua doutrina social cristã, a causa das questões sociais reside não somente nas estruturas sociais, mas também no indivíduo, e dessa forma os problemas sociais somente podem ser resolvidos com soluções que considerem simultaneamente os dois aspectos.
119 Notícias da Província do Brasil Central. 4a série, ano XIX, número 1, junho de 1945, p. 36. 120 Idem. 4a série, ano XX, número 2, setembro de 1946, p. 66.
[...] “Os vícios, os pecados do indivíduo, seu egoísmo, suas ambições desordenadas, sua injustiça, corrompem as estruturas, e estas, corrompidas, contribuem para deformar ainda mais os indivíduos. Por isso a Igreja pensa que é ineficaz qualquer solução que pretenda ou tão somente reformar os indivíduos, ou tão somente reformar as estruturas.” [...] 121
O capitalismo, de um modo geral, se caracteriza por ser conservador e não aceitar grandes reformas sociais, admitindo, quando muito, revisões superficiais das estruturas sociais. O socialismo, por outro lado, visa a reformar profundamente as estruturas sociais criadas pelo capitalismo. Dessa forma, enquanto o capitalismo procura soluções mais focadas no indivíduo, o socialismo visa mudar as estruturas sociais, por acreditar que elas é que corrompem o indivíduo.
O dogma central do cristianismo é o Cristo, o Filho de Deus Encarnado, e o critério fundamental da doutrina social cristã é o Homem, que o Cristo assumiu na sua encarnação. Esse critério fundamental tem sentido na medida em que esta doutrina social cristã venha a considerar as outras doutrinas, ideologias, sistemas, instituições e suas ações concretas em função da pessoa humana, sendo consideradas boas enquanto concorrerem para a libertação e promoção do homem.
A concepção da pessoa humana, segundo a doutrina social cristã da Igreja Católica é que o homem é um ‘ser indivíduo’, isto é, distinto de qualquer outro e constituindo uma unidade substancial. A pessoa humana não é parte de um todo uma vez que, como indivíduo, é uma unidade da espécie humana. Por outro lado, é composta de alma e corpo e não é nem só alma e nem só corpo, mas uma unidade substancial constituída por esses dois elementos. 122 Por ter esta concepção da pessoa humana é que a Igreja Católica se opõe a todas as filosofias totalitárias, que reduzem a pessoa a uma parte de um todo, a todas as formas de materialismo que desconhecem no homem as exigências do espírito e a todas as ideologias que não levem em conta as condições e exigências
121 Pe. F. B. de Ávila, S. J., Solidarismo, p. 137. 122 Ibidem, pp. 141-142.
concretas do homem como espírito encarnado na matéria, e assim confinado ao espaço e ao tempo, inserido dentro de um processo histórico. 123
A visão que o Padre Sabóia tinha sobre as questões sociais acompanhava essa doutrina social da Igreja Católica. Na sua busca de recursos para as obras sociais, costumava freqüentar as casas de famílias abastadas e as empresas de homens de negócios de grande projeção social. Quem o conhecesse apenas superficialmente poderia julgar que ele fosse um aliado das pessoas da elite da sociedade, à procura de destaque e popularidade. Na verdade, quando procurava as pessoas da elite para conseguir recursos também exercia o sacerdócio, transmitindo-lhes a mensagem evangélica. Junto aos trabalhadores também atuava como sacerdote, para formá-los cristãos autênticos, proporcionando-lhes os meios de se realizarem como homens e serem úteis à sociedade. Dessa maneira ele procurava harmonizar as relações entre patrões e empregados, dentro dos princípios católicos enunciados nas Encíclicas Papais. 124