3 MATERIALE OG METODER
4.1 Data fra fiskerne
Analisar o desajustamento das crianças, termo inclusive já superado nos dias de hoje, não é prender-se ao passado e perder-se entre concepções por ora já ultrapassadas. O passado não nos puxa para trás, mas nos empurra para frente, conforme ensina Arendt (2001). Sob esse enfoque, a análise histórica contribui para um questionamento da situação presente e para reordenamentos futuros, já que é o futuro, nas palavras de Arendt (2001), que “nos impele de volta para o passado” (p.31).
A importância de estudar o passado como um meio para se obter “uma compreensão mais profunda da natureza da vida social no presente”, já era mencionada por Evans-Pritchard na década de 1950, conforme indica Shwarcz (2005, p. 121). A autora mostra que a Antropologia passou muito tempo afastada dos estudos diacrônicos das culturas, dada a visão evolucionista presente no início do século XX, que considerava os povos ditos “primitivos” como povos “sem história”, uma vez que a história era compreendida a partir de registros escritos de uma determinada população. A noção de tempo, entendida sob a ótica da realidade europeia, civilizada e industrializada, acabava por caracterizar as culturas ditas “primitivas”, como a-históricas e estacionárias. Estudos etnográficos mostraram, entretanto, que a noção de tempo varia conforme a cultura e que não há, portanto, apenas uma história, mas muitas histórias. Entre os diversos antropólogos que contribuíram para o debate entre História e Antropologia, destaca-se Sahlins, por priorizar o “modo como as culturas carregam suas próprias historicidades”. Sahlins mostra que, “para além da globalização”, o sistema mundial é sempre relido por categorias locais. O objetivo desse autor é trazer a noção de estrutura para a história, no intuito de mostrar a relação existente entre evento e estrutura ou permanência e mudança, pois, para ele, toda mudança é uma reorganização de estruturas do passado à luz das situações impostas pelo presente. Para Sahlins (2003), o problema que se configura entre as noções de estrutura e mudança está na tendência do pensamento ocidental em tratá-las como antitéticas: “contrários lógicos e ontológicos” (p.180). Nas palavras do autor:
A partir desse ponto, resta apenas um pequeno passo lógico até confundir história com mudança, como se a persistência da estrutura através do tempo não fosse histórica. Porém, mais uma vez, a história havaiana não é a única em demonstrar que a cultura funciona como uma síntese de estabilidade e mudança, de passado e presente, de diacronia e sincronia (p.180).
Pensar o desajustamento sob essa perspectiva permite olhar tal realidade em sua totalidade, sem desmerecer as transformações ou ignorar as permanências, ao contrário, contribuir para compreendê-las.
No que se refere à história da Psicologia, Massimi (2002, p.3) afirma a importância de se resgatar os aspectos de sua constituição, pois foi “o esquecimento das próprias raízes
culturais e da própria história [que] dificultou à psicologia brasileira o reconhecimento de
seus traços originais e a elaboração, a partir desses, de um projeto cultural e científico autônomo”. Atualmente, observa-se um aumento de pesquisas na área da História da Psicologia, fato que possibilita a essa ciência um questionamento de seus métodos, suas técnicas e paradigmas (MASSIMI E GUEDES, 2004).
Para tanto, é preciso estar atento para as condições sociais e históricas de produção do conhecimento da Psicologia, conforme afirma Antunes (2005):
A Psicologia é um produto histórico que se manifesta como conjunto (diversificado) de conteúdos que correspondem a representações do fenômeno psicológico, alicerçados em diferentes concepções de homem, de mundo e de conhecimento, que são, por sua vez, fundamentos para os métodos por meio dos quais tais conteúdos são elaborados e produzidos. A compreensão histórica da psicologia constitui-se, portanto, na compreensão da trama das relações na qual ela se insere e se desenvolve. Necessita-se, pois, buscar o entendimento de suas diferentes manifestações, procurando identificar e estabelecer os nexos entre as múltiplas determinações das quais ela é produto e produtora (pp.105-106).
É necessário, contudo, que se estabeleçam os critérios epistemológicos que norteiam essa leitura da história, pois ela não é única. Entende-se aqui a história segundo a perspectiva da “nova história” (BURKE, 1992), que se contrapõe à história “tradicional” rankeana, do século XIX, pautada em uma concepção positivista de ciência. A história, na perspectiva tradicional, é pensada a partir da relação de objetividade que se estabelece entre o pesquisador e seus dados de pesquisa, desconsiderando-se a existência de relações entre sujeito e objeto. Nesse sentido, o dado, no caso a fonte histórica, é visto como algo passivo, e o pesquisador, em sua neutralidade científica, é tido como capaz de captar o fenômeno estudado como a realidade, arriscando-se, como afirma Antunes (2005, p. 111), “a cair numa inversão idealista, na medida em que acaba por identificar a realidade em si
Sabe-se, porém, que sujeito e objeto são construções sociais, culturais e históricas e o pesquisador nunca está livre dessas determinações. A leitura que se faz do dado de pesquisa dependerá, portanto, da realidade histórica e social à qual sujeito e objeto pertencem. Como diz Burke (1992), “[...] nossas mentes não refletem diretamente a
realidade. Só percebemos o mundo através de uma estrutura de convenções, esquemas, estereótipos, um entrelaçamento que varia de uma cultura para outra” (p.15). Diante desse relativismo cultural, a objetividade é alcançada pelo consenso, que se estabelece pelas diversas vozes presentes no discurso científico. Morin (1996, pp. 16-17), com base em Popper, mostra que esse consenso depende do estabelecimento das “regras do jogo”, que permite aceitar ou refutar um determinado tipo de verificação ou observação; da existência de uma relação entre comunidade (gemeinshaft) e sociedade (geselshaft), em que se apresentam aspectos de rivalidade e conflito; da existência de relações de oposição entre teorias, além da ocorrência de oposições e conflitos pessoais. Além disso, é necessário uma independência ou liberdade da comunidade científica em relação aos interesses políticos ou teleológicos ditados pelo exterior. A objetividade é entendida na relação que estabelece com a intersubjetividade, sem, no entanto, resumir-se a ela. “Nesse
dinamismo em anel”, afirma Morin (1996, p. 17), “a objetividade ultrapassa e transcende
a intersubjetividade de que depende, sem nunca poder escapar-lhe”.
Na historiografia positivista, o documento era concebido segundo sua passividade, cabendo ao historiador avaliar sua veracidade. Hoje, leva-se em consideração o papel do historiador como fruto de sua realidade histórica social e cultural e do modelo que ele adota para a análise de sua “matéria-prima”. Massimi (2002), ao trabalhar com a noção de “operação histórica” de Michel de Certeau (1982), mostra que a historiografia passou de uma busca pela verdade a um olhar de desconfiança, pois a interpretação depende do sistema de referência do autor. A História, sob esse ponto de vista, é o produto do lugar social, das práticas científicas e da escrita. É a relação transformadora que se estabelece entre o dado e o criado, em que a “matéria-prima” (documento histórico) é transformada em um “produto standard”, sendo transportada de uma região da cultura para outra. Dessa forma, o historiador, ao separar, reunir e transformar certos objetos, distribuindo-os de outra maneira, produz, e não apenas aceita, o documento, criando com isso, uma nova distribuição cultural, por meio da operação histórica (CERTEAU, 1982, p. 81). A função da história não é, portanto, apenas dar voz ao silêncio (dados ou fatos), mas transformar
uma coisa em outra mediante o uso de modelos retirados de outras ciências, estabelecendo, ao mesmo tempo, uma relação com a razão contemporânea, pelo diálogo com as outras ciências, e a organização interna de seus procedimentos (a relação do real por meio do fato histórico).
É no sentido proposto por Certeau (1982) que se pretendeu tratar os dados desta pesquisa, considerando a relação que se estabelece entre pesquisador e dados da pesquisa, sem tratá-los como falsos ou verdadeiros, mas como parte de uma realidade histórica, social e cultural dinâmica.
1.2 A RPNP
As publicações da RPNP têm início em 1955 e término em 1973, totalizando 40 números, sendo alguns deles trimestrais, outros semestrais e outros, ainda, anuais. A Revista é organizada em 4 seções principais: “artigos originais” (AO); conferências-notas- discussões (CND); análise bibliográfica, dividida em “análise de livros” (AL), “análise de revistas” (AR) e “análise de teses” (AT); e “Crônicas do IPPUCSP”, seção que se dedica a “narrar” os acontecimentos da época: visitas, conferências, seminários, congressos, cursos, livros e periódicos recebidos. A partir de 1958, a RPNP começa a publicar o Boletim da Divisão Nacional do Brasil da “The International Society for Clynical and Experimental
Hypnosis”. A RPNP é dirigida pelo Dr. Enzo Azzi, que também é, na época, diretor do IPPUCSP. A comissão de redação contava, basicamente, com Enzo Azzi, Aniela Ginsberg, Nelson de Campos Pires e Antonio Carlos de Moraes Passos.
Os principais assuntos abordados na RPNP são: comportamento e personalidade, trabalho, aprendizagem, testes psicológicos, patologias, hipnose e temas teóricos da Psicologia. Nota-se, evidentemente, que a leitura feita sobre os temas em questão é baseada na Psicologia, são textos escritos por médicos, especialmente psiquiatras, pedagogos e psicólogos, embora, nesse caso, deve-se ressaltar que a profissão de psicólogo só fora regulamentada a partir de 1962, o que significa que os “psicólogos” eram bacharéis em Medicina, Pedagogia ou Filosofia, principalmente.
Foi possível observar que, dentre os assuntos acima destacados, há uma parcela considerável de artigos que se refere a diversos tipos de desvios, que se apresentam sob a perspectiva dos “estudos psicológicos” e que se remetem, por exemplo, a concepções de
e família, delinquência juvenil e infantil e outros. Embora o universo da RPNP seja vasto, esta pesquisa centrou-se nos artigos que se dedicam aos “desvios” e, mais especificamente, das relações que se estabelecem entre as crianças “desviantes” e o ambiente, com base na ideia de ajustamento.
Para chegar ao problema dos “ajustamentos”, percorreu-se um longo caminho de levantamento e sistematização dos dados da RPNP, que será descrito a seguir.