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O processo de análise compreensiva interpretativa dos dados, cujo objetivo é a delimitação dos passos para compreender o fenômeno, foi feita por meio da análise de narrativas. Apesar da pesquisa narrativa ser oriunda da literatura, história, antropologia, sociolinguística e educação, diferentes campos de estudo têm adotado suas próprias abordagens (CRESWELL, 2013). Em Czarniawska (2004), por exemplo, a análise de narrativa surge como uma abordagem específica para estudar organizações. Como tal, ela assume, pelo menos, quatro formas:

- pesquisa organizacional que são escritas na forma de narração de uma história; - pesquisa organizacional que coletam histórias das organizações;

- pesquisa organizacional que consideram a vida organizacional como elaboração de histórias e a teoria organizacional como leitura da história;

- reflexão disciplinar que assume a forma de crítica literária (CZARNIAWSKA, 1998). Nesse sentido, percebe-se que a análise dos dados por meio da perspectiva das narrativas resulta na compreensão da vida organizacional como sendo permeada por narrativas e construída por elas. Esse entendimento faz com que a coleta e análise de dados devam estar em consonância com esse pensamento e, por esse motivo, os dados foram coletados como histórias das organizações.

As histórias estão no centro da análise narrativa (PATTON, 2003). Elas representam constructos que ajudam a explicar as relações entre eventos em um processo ou uma narrativa (PENTLAND, 1999). A maneira como essas histórias são interpretadas e, mais especificamente, os textos que relatam essas histórias, representa o coração da análise de narrativa (PATTON, 2003).

Portanto, a narrativa é compreendida como um texto falado ou escrito dado um evento/ação ou série de eventos/ações, cronologicamente conectados (CZARNIAWSKA, 2004). Assim, tomar as narrativas dos praticantes para análise é compreender lugar, tempo, espaço e contexto de forma coerente com as escolhas metodológicas e epistemológicas deste trabalho.

As referidas histórias são coletadas durante encontros entre pesquisadores e gerentes que estão contando suas histórias por meio do relato de sua trajetória profissional ou experiência durante uma mudança estratégica, podendo resultar na constituição de um conjunto de dados complexo, profundo e robusto que permite os pesquisadores examinarem como o strategizing

é feito ao longo do tempo (ROULEAU, 2011). Esses dados devem ser ordenados cronologicamente (CRESWELL, 2013).

Assim, na presente pesquisa, focou-se nas narrativas fornecidas pelos entrevistados, os quais relataram suas experiências acerca de como ocorre o processo de desenvolvimento de produto na empresa onde trabalham. Para realizar esse ordenamento das experiências sugerido por Creswell (2013), utilizou-se uma estrutura fornecida por Pentland (1999), de acordo com a qual existem cinco propriedades fundamentais as quais correspondem à estrutura da narrativa. São elas:

(1) sequência temporal: significa dizer que a narrativa tem um começo, um meio e um fim que lhe confere uma sequência temporal específica e a localiza em um tempo e espaço;

(2) atores focais ou ator focal: implica que narrativas são sempre sobre algo ou alguém, podendo ser identificados protagonistas (e antagonistas) na sequência da história;

(3) voz narrativa identificável, denota que deverá existir uma voz identificável que realiza a narrativa. Essa voz reflete seu ponto de vista específico;

(4) padrões de referência para avaliação: significa que as narrativas carregam significado e valor cultural, porque codificam, implícita ou explicitamente, padrões de acordo com os quais as ações dos personagens podem ser julgadas, ou seja, toda a narrativa carrega

uma “moral”, ou expressões do que pode ser julgado como certo ou errado;

(5) outros indicadores de conteúdo e contexto: as narrativas extrapolam um conjunto de eventos, já que contêm uma variedade de artifícios textuais utilizados para indicar tempo, lugar, atributos dos atores, atributos do contexto etc., os quais fornecem informações essenciais para interpretar os eventos (PENTLAND, 1999).

Pentland (1999) elabora um quadro (Quadro 10) que relaciona estas propriedades da narrativa com possíveis indicadores para a teoria organizacional, fato que auxilia a realização de pesquisas que utilizam a análise de narrativas como abordagem para estudar organizações. Este quadro foi utilizado como referência para a descrição estrutural das narrativas individuais coletadas a partir das entrevistas e estão apresentadas no Apêndice A.

Quadro 10 - Relação das propriedades da narrativa com a teoria organizacional

Propriedades da Narrativa Indicador para

Sequência Padrões de eventos

Ator(es) focal(is) Papel, redes sociais e demográficas

Voz Ponto de vista, relações sociais e poder

Contexto moral Valores culturais e pressupostos Outros indicadores Outros aspectos do contexto

Diante das explicações sobre análise narrativa, foi realizada a análise dos dados, considerando as propriedades apresentadas no Quadro 10 para categorizar e interpretar os dados. Essa forma de análise foi utilizada principalmente para analisar as entrevistas realizadas em campo, conduzidas de maneira a constituírem uma conversa durante a qual os atores pudessem criar as suas narrativas a partir do tema (desenvolvimento de produto), dos objetivos e da questão de pesquisa da presente pesquisa.

Dessa forma, a análise dos dados coletados foi conduzida com base nas explicações teóricas acerca da análise de narrativa. Primeiramente, procedeu-se com a realização das transcrições das entrevistas. Optou-se por realizar a transcrição literal da primeira rodada de entrevistas, perfazendo um total de 200 páginas de transcrição. Todas foram feitas pela pesquisadora para assegurar entendimento profundo das narrativas. Destaca-se também que elas foram realizadas logo após a realização da entrevista a fim de garantir que detalhes apenas percebidos durante o contato com o entrevistado não fossem esquecidos. Nos casos em que foram necessários realizar uma segunda rodada de entrevistas, não foi realizada uma transcrição literal, mas uma descrição resumida de cada uma delas, pois considerou-se desnecessário transcrevê-las literalmente, já que a ideia principal já havia sido compreendida e já estava na forma de texto, sendo preciso apenas esclarecer ou ratificar algumas questões.

De posse das transcrições das entrevistas, foram elaborados quadros para análise das entrevistas, de acordo com as propriedades das narrativas apresentadas por Pentland (1999) e com os objetivos de pesquisa, o que é apresentado no Apêndice A. Para a construção dos quadros, inicialmente, a pesquisadora releu as transcrições de cada entrevista e elaborou a sequência em que a narrativa aconteceu, destacando os padrões de eventos. Essa etapa permitiu à pesquisadora se apropriar mais profundamente das entrevistas, possibilitando identificar as demais propriedades da narrativa, a saber: o ator focal, a voz, o contexto moral e demais indicadores que correspondem a outros aspectos do contexto que são relevantes, mas não são abordados pelas propriedades anteriores. Em seguida, tomando como base a sequência narrativa e, quando necessário, recorrendo à transcrição das entrevistas, foram descritas as informações referentes a cada um dos objetivos específicos da presente pesquisa.

Os documentos coletados foram utilizados na descrição e análise dos dados fundamentalmente como parte da triangulação dos dados. Eles possibilitaram uma melhor compreensão das entrevistas, assim como fizeram emergir alguns questionamentos identificados nas narrativas, permitindo estabelecer contrapontos. Nesse mesmo sentido, foram

utilizadas as observações, porém elas contribuíram também para delinear o quadro simbólico que envolve as organizações pesquisadas.

Destaca-se ainda a análise realizada a partir do diário de campo elaborado pela entrevistadora durante a realização das entrevistas. Nesse caso, a análise ocorria concomitante à realização das anotações feitas no diário, já que a pesquisadora tinha oportunidade de discutir com o entrevistado aspectos específicos provenientes tanto da entrevista quanto da observação. Assim, ao final da entrevista, a pesquisadora já havia realizado uma série de considerações analíticas, as quais colaboraram para a elaboração da descrição e análise dos dados da presente pesquisa.

Com base nessas informações e à luz da literatura em questão, os dados foram analisados de maneira individualizada, descrevendo, primeiro, como ocorre o processo de desenvolvimento de produto em cada uma das empresas, seguido da compreensão dos processos de aprendizagem subjacentes ao processo de desenvolvimento de produto, depois verificando o papel das práticas, práxis e praticantes no processo de desenvolvimento de produto e, por fim, checando a atuação dos mecanismos isomórficos presentes no campo organizacional no processo de desenvolvimento de produto. Em seguida, partiu-se para a análise cruzada que seguiu as mesmas seções utilizadas na análise individual, porém enfatizando as diferenças e semelhanças entre os casos.

Descritos os processos de coleta e análise dos dados, é necessário explicitar os esforços para alcançar a confiabilidade e a validade da pesquisa, conforme apresenta a próxima seção.